Em
relação à maneira pela qual o Exército se organiza,
devemos pensar na designação deste local a partir da natureza
das atividades institucionais que exerce - é um curso, e portanto
está ligado com a educação de seus membros, ou se
formos mais longe numa concepção gramsciana, com a formação
de uma
visãodemundo consoante com a realidade militar. E,
vale lembrar, no caso, estamos falando em designação porque
se trata de uma corporação disciplinada, onde, portanto,
há pouco espaço para que, de um lado, em qualquer unidade
específica, como a ECEME, possam desenvolver-se ao acaso atividades
sistemáticas, aleatória e espontaneamente, e, de outro lado,
possa haver outras unidades que executem a mesma função,
como pode ocorrer em outros contextos encontrados em qualquer pesquisa
de campo. Nossa hipótese de que a ECEME também cumpre este
papel de ligação com as elites para o Exército está
no fato de que sua função educativa se coaduna com influxos
externos à instituição, ou seja, aproveita "a visão
da sociedade" - termos que foram empregados por um general que mediava
a fala de um professor que participava de um debate que lá presenciei
- como ocasião para executar uma constante reavaliação
da doutrina do Exército.
Estes
influxos exógenos, relidos sob a ótica militar, produzem,
como resultado final, avaliações da realidade que são
aproveitadas no conjunto doutrinário
, sendo aplicadas nas disciplinas ministradas no curso
, que, no fim das contas, são o instrumento mais legítimo
de transmissão da "visão oficial do Exército". Some-se
a tudo isso o fato de que lá se forma, conforme muitos oficiais
dizem, uma elite - portanto, um conceito que também faz parte da
concepção nativa -, e ver-se-á então que as
atividades da ECEME comprovam a existência de um contato intra-elites,
tal qual era realizado pelo Instituto Liberal. Estas são, vamos
assim dizer, algumas das razões "oficiais" ou institucionais que
levam à ECEME este tipo de atividade. Deste ponto de vista, a Escola
é própria para "articular", pois oferece uma "brecha" para
reavaliação e construção de "visões
de mundo".
Porém,
a confirmação desta história está em uma outra,
que a acompanha lado a lado, construída em padrões informais
de conduta que puderam ser percebidos a partir do exercício da observação
participante. Nas entrelinhas dos discursos formais que pude ver em várias
idas à ECEME, ficou claro que os eventuais paisanos que estavam
presentes, em palestras, aulas ou reuniões, eram designados como
"autoridades...", "ilustres..." ou "importantes..."
seja lá o que fossem, professores, empresários ou políticos.
Vale ressaltar que paisanos eram minoria absoluta: um, dois ou três,
contando comigo, no meio de uma centena de militares. Curiosamente, em
relação a minha pessoa, ouvi sempre que era "um jovem
aluno..." que estava lá "estreitando os laços"
entre o Exército e a "Universidade", caminho necessário para
se chegar a um "projeto para o Brasil".
Começando
por esta idéia de "Universidade", ouvi-a várias vezes
ser repetida em contextos diversos, desde aquele aplicado acima até
idéias como "temos oficiais na Universidade", ou "a Universidade
e o Exército...", ou, ainda, "divulgar o pensamento militar
na Universidade", mostrando sobretudo uma noção idealizada
de que a Universidade é uma instituição senão
única, ao menos uníssona. Ainda que se soubesse que há
muitas universidades pelo Brasil, não havia a concepção
de que elas têm uma natureza competitiva. Isto fica mais claro ainda
quando se falava na "necessidade da presença do pensamento militar
na Universidade", como etapa para se chegar a "um projeto nacional". Havia,
como é mostrado repetidamente em discursos da doutrina militar dirigidos
à tropa e aos paisanos
(cf . Ferreira, 1988: 35; Castro,
1990: 128; EME, 1972: 1064), uma noção
de que a "sociedade", e por decorrência a universidade, constituia-se
em um "amontoado de arquipélagos fragmentados", e que ao Exército,
"a verdadeira ossatura da nacionalidade", caberia a missão de "aglutiná-los".
Mas, o que para nós se constituiu no fator mais importante destas
idéias em relação à universidade, é
a crença de que seus membros, incluindo-se a mim, estivessem falando
do ponto de vista "da Universidade" e não talvez do seu próprio
ponto de vista. Este fato revela uma leitura militar extremamente sociocentrada
do meio acadêmico, provavelmente espelhada numa realidade disciplinar
que dita as regras da relação indivíduo-grupo [instituição].
Só assim se poderia crer, em primeiro lugar, que "um jovem aluno",
qualquer que fosse, de alguma maneira, representasse esta outra instituição,
e, em segundo, que esta outra instituição também fosse
capaz de conjuntamente formular um projeto para o Brasil. E por que a Universidade?
Seguindo
a trajetória de pesquisa, esta visão espelhada justificaria
o fato do Exército, através de seu comando, após a
indicação feita pelo já citado general, ter mantido
firme o propósito de me permitir levar a pesquisa adiante; talvez
por acreditar ser a Universidade, pela sua característica hierárquica
e em certa medida disciplinar, seu espelho mais próximo no universo
paisano, sendo, portanto, uma instituição que reuniria condições
formais para se construir um caminho ou "projeto" comum.
Estava
assim este "jovem aluno da Universidade" diante de um duplo papel imposto
por estas categorias definidoras: o de aprendiz e o de contato sistemático
na Universidade. A junção destes papéis me parece
clara: alguém que vai passar para a Universidade uma "verdadeira
visão de mundo", um papel político que realiza em micro-escala
o grande projeto de articulação nacional que era realizado
entre o Exército e o Instituto Liberal e provavelmente muitas outras
instituições afora. Talvez a prova mais substancial deste
padrão relacional que foi construído com a própria
pesquisa tenha se dado em duas ocasiões em que fui publicamente
nomeado.
Uma
primeira, fora do ambiente militar, num encontro ocorrido nas dependências
do NAIPPE
na USP. Neste encontro, alguns oficiais vieram representando o CPEAEx /
ECEME
, e basicamente tratou-se de falar sobre as possibilidades de um "estreitamentodelaços".
Ali, fui citado por um destes oficiais como um "velho amigo nosso".
Cabe esclarecer que "amigo" não é força de
expressão entre oficiais. Pelo contrário, a expressão
"amigo do Exército" designa um possível aliado, e
vice-versa para um inimigo. Ora, basta lembrar que esta é
uma forma de linguagem derivada das análises realizadas em grande
escala para definir outros exércitos ou nações, aqui
adaptada para situações particulares. A outra ocasião
se deu no ambiente do próprio CPEAEx, durante uma palestra, na qual
minha presença - apesar de evidente, pois era o único paisano
da platéia - foi anunciada pelo mediador, como a de "um conhecido
nosso, que inclusive já foi orientado por um colega num micro-projeto".
Estava aqui claramente, então, diante do papel do aprendiz. Creio
que estas duas ocasiões, dado seu caráter "publicizado",
para "dentro" e para "fora" do Exército, revelam senão um
paradigma, ao menos uma certa configuração pela qual o caminho
da pesquisa foi traçado pela própria instituição
militar.
Para
além do conteúdo específico das expressões,
o que se revela através deste padrão - não somente
terminológico, mas de uma conduta aplicada a certos tipos de situações
em que se vê claramente um "cortejamento" entre dois grupos distantes
que, sobretudo, é realizado em nome de princípios maiores
como um "projeto para o Brasil" - é a idéia de que
há uma certa "estrutura" sobre a qual se alicerça uma configuração
política capaz de dar conta desde a micro-escala das relações
pessoais até relações interinstitucionais. A
falta de discernimento entre uma escala institucional e uma relação
pessoal nos sugere a hipótese de que a política funciona
como uma espécie de "cabeçalho" comum que faz a passagem
entre múltiplos níveis de relações no Exército.
Isto se evidenciou mais ainda quando houve uma conjugação
entre o papel de aprendiz e a função de contato
com outra instituição. Esta ambigüidade de papéis
talvez tenha adquirido esta forma precisa pelo fato de que meu projeto
inicial de pesquisa estava tocando numa questão política
então crucial - a questão amazônica, na época
da Eco'92. Porém, o curioso ou peculiar, é que a proposta
metodológica deste projeto, ir ao Calha Norte e tentar "observar
como um nativo", foi lida como "fazer um trabalho político", para
então realizar a construção de uma visão de
mundo que ia dos altos escalões da ECEME à Universidade,
passando pela intermediação de uma pesquisa que a legitimasse
no meio acadêmico.
Isto,
na nossa hipótese, foi causado pelo que podemos chamar de um "olhar
espelhado", onde se via a Universidade como instituição homóloga
no mundo paisano, compatível portanto com aquele "cabeçalho"
comum. Ora, somente com este tipo de aproximação - aqui pensada
através da reelaboração do olhar nativo -, onde se
enxerga uma estrutura semelhante, é que foi possível estabelecer
este ideal de organicidade entre duas instituições de funções
diferenciadas e, assim, também equalizar num mesmo patamar relações
pessoais e institucionais: assim é que pude me tornar uma espécie
de "representante" da Universidade.
Finalmente,
a contra-prova necessária para confirmar esta hipótese ocorreu
a partir de meados de 1993, com a concomitância de dois fatores que
mudaram o padrão relacional até então existente.
O primeiro
fator foi a presença de Celso Castro, antropólogo do Museu
Nacional (RJ) que estudou a Academia Militar das Agulhas Negras
, numa palestra no CPEAEx, onde ele relatou uma série de elementos
da "experiência nativa" dos militares captados a partir de uma perspectiva
antropológica. A par dos detalhes deste encontro
, o que nos interessa reter aqui é que, a partir dele, os militares
com os quais estava em contato tiveram uma outra visão do que é
uma pesquisa antropológica: muito mais voltada, vamos dizer assim,
para "usos e costumes", do que para "aspectos políticos". Somando-se
a isto, um segundo fator - uma aproximação sistemática
do CPEAEx com o NAIPPE/USP - levou a uma certa perda de interesse na viabilização
do meu projeto inicial de ir ao Calha Norte, que, até então
- asseguravam-me -, estava sendo encaminhado. E não somente do projeto
inicial; a pesquisa em si não mais encontrou um respaldo da parte
do Exército, e os contatos passaram a ser feitos praticamente de
forma unilateral
, partindo sempre do pesquisador. Vale reforçar, então, que,
em primeiro lugar, uma pesquisa antropológica fugia do padrão
"político" de se falar "contra" ou "a favor" do Exército;
e, em segundo, que, aos olhos dos nativos, o pesquisador também
fugia a este padrão, por não estar relacionado ao NAIPPE,
que, afinal de contas, também faz parte da Universidade (e, sobretudo,
da mesma universidade). Inclusive, várias vezes fui indagado por
oficiais por que não trabalhava junto a este Núcleo e, do
ponto de vista militar, isto de repente poderia soar como uma espécie
de "insubordinação".
Esta
possível evidência de "insubordinação" espelha-se
no claro sinal que não havia uma chancela institucional para oficiais
"patrocinarem" a pesquisa, embora pessoalmente sempre contasse com grande
receptividade por parte deles. De outro modo, com oficiais da reserva podia-se
ver, além da receptividade, uma real disposição em
colaborar com a pesquisa: não somente em deixar registros e depoimentos,
como também em dispôr de sua influência para fazer tentativas
de viabilizar o projeto inicial.
Esta
"negativa" - que, aliás, foi um processo longo, perdurando até
1994 -, ao contrário do que pudesse parecer, posteriormente levou
a conclusões inusitadas, pois percebeu-se que ela era uma contrapartida
realmente "antropológica" da conduta militar, dando uma "radiografia"
de como a instituição filtra suas relações
com o mundo externo, a partir da maneira como ela classifica suas relações
em seu mundo interno.

Isto
porque, de um lado, foi possível perceber, associando o "silêncio"
de uns com o "discurso" de outros - respectivamente os da "ativa" e os
da "reserva" -, que as determinações institucionais recaíam
[a] apenas sobre os que estão na cadeia de comando-obediência,
e [b] sobre os indivíduos pertencentes a esta cadeia; e, de outro
lado, percebeu-se também, pela natureza política das atribuições
que se imputavam a uma relação que, além de institucional,
era, em grande parte, pessoal, que, além da carga da instituição
que o indivíduo traz consigo, também a instituição
carrega consigo a carga da idéia de indivíduo como elemento
capaz de representar a instituição.
Foi
possível ver, então, que o indivíduo militar, em certa
medida, responde pela instituição militar, pois ele se vê,
e também assim a coletividade vê a cada um, como um elo único
de uma cadeia hierárquica pela qual todos respondem, cada
qual em sua posição. Pois a hierarquia, além de classificar
indivíduos em patentes, funções burocráticas,
locais de serviço, também os divide, um a um, numa cadeia
de comando-obediência, na qual cada um tem seu lugar, e portanto
os elos institucionais respondem a este princípio coletivo de individualização
de status e responsabilidade num papel social próprio a cada
um, mas que só existe enquanto parte complementar de um todo. Nesta
medida é que o militar, e, podemos dizer, o Exército, vê
qualquer indivíduo como parte correspondente a uma instituição,
compatibilizando o pesquisador com a Universidade e a atividade de pesquisa
com o estreitamento de laços. Neste caso, pelo tipo de organização
social a que ele está ancorado, o militar acabou filtrando as relações
interpessoais como relações interinstitucionais, e, portanto,
dando um sentido político à sua conduta, dado que o padrão
relacional entre instituições indubitavelmente se dá
no âmbito da "grande política", num sentido gramsciano.
Todo
este caminho levou a um duplo aprendizado: o primeiro é que o silêncio
também pode ser revelador, desde que antes já se tenha percorrido
algum tipo de caminho; o segundo é que, em casos como este, os "velhos"
instrumentos de pesquisa, como a observação participante,
ainda têm muito a oferecer. É isto que queremos brevemente
levantar agora.
Conclusões
"Novos
temas, velhas reflexões". Parece que o título que Montes
(1983) deu ao capítulo conclusivo de sua tese é apropriado
para o atual contexto. Não falo somente pelo fato de ser uma tese
de Ciência Política e Antropologia ao mesmo tempo, mas, principalmente,
pelo que tem a dizer a respeito dos dois universos. Voltemos ao nosso caso.
Como
foi dito inicialmente, coube à Ciência Política a quase
totalidade das interpretações a respeito do que são,
como são e qual o papel dos militares no Brasil. Ora, não
é à toa que coube à Ciência Política
esta visão "privilegiada", pois o Exército sempre apresentou
o que pode ser entendido como um comportamento de ator "político",
aqui novamente entendido no sentido gramsciano da "grande política",
como grupo que, volta e meia em nossa história, se destaca de seu
papel de parte da "coisa pública" para manifestar um comportamento
próprio, com interesses e visão de mundo próprias.
No entanto, admite-se que os militares, justamente como grupo, são
"estranhos" ao mundo civil, fato geralmente ressaltado em prefácios
ou introduções de publicações da área.
A Ciência Política, com seu olhar voltado ao horizonte dos
processos institucionais, tende a captar aguçadamente o que podemos
chamar de uma "face pública" da corporação, ou, como
poderíamos dizer melhor, a face que aparece nos grandes processos
sociais. Assim, por exemplo, podemos ver uma absoluta concentração
de trabalhos relativos aos períodos chamados de "intervenção
militar" na vida pública
.
A par
do mérito indiscutível destes trabalhos, o que nos perguntamos
é se estes períodos são suficientes [a] para se entender
a natureza da corporação
strictosensu, e [b] para
se entender o comportamento da corporação como um todo, mesmo
nestes períodos. O que queremos dizer, em outras palavras, é
que os regimes militares não são suficientes para se entender
os militares, o que não significa, até, que eles não
são bons para se entender o país em que estamos.
Vale
a pena ressaltar que não tomamos a etnografia como um método
universal e indispensável em qualquer caso. Não pode ser
aplicada em qualquer situação, mas, de todo modo, é
bom tê-la em mente quando se trata de militares, pois ao menos ela
é capaz de informar quem são os militares que falam, e que
nem todos militares são iguais
. Senão, poderíamos nos contentar em publicar "informações
reveladoras de bastidores" à medida que algum general da reserva
viesse, finalmente, revelá-las, e assim tomar tal como o discurso
militar.
E por
falar em general da reserva, eis uma das lições que podemos
tirar desta etnografia: a de que o dito general está "liberado"
para falar, pois não se insere mais naquela cadeia hierárquica.
Por isto mesmo é que devemos olhar com ressalvas falas oriundas
do Clube Militar, e estar cientes que elas não refletem o olhar
da instituição. Como pessoa, o general não mais está
inserido num circuito de responsabilidade que, ao mesmo tempo, o coloque
como parte da corporação e a corporação "em
operação" como parte dele. Deste modo, ele não está
mais na política do Exército, mas sim na política
de uma nova corporação em que ele agora se encaixa - a dos
oficiais da reserva -, que usa o Exército ou o "ser militar" como
estratégia discursiva
.
Esta
é uma das muitas conclusões a que podemos chegar, investigando
a natureza dos militares a partir da observação participante.
Em relação à Ciência Política, cremos,
este é o tipo de olhar que pode auxiliar na precisão do recorte
quando se fala de militares. Não é eficaz, sabemos, para
se saber a relação que o Estado ou as outras instituições
políticas têm com a "grande política" a ponto de suscitar
fenômenos como o da "intervenção"; mas, de outro modo,
é eficaz para se saber o porquê de alguns procedimentos da
caserna mesmo durante a intervenção, como, por exemplo, por
que se passava os futuros presidentes da República para a reserva,
ou ainda, quão verossímeis em relação à
conduta da corporação são alguns depoimentos de militares.
Nesse sentido, podemos afirmar que a acusação de Wanderley
Reis não procede, pois, no mínimo, uma etnografia, além
de depoimentos, pode captar uma conduta relacionada stricto senso à
estrutura social de um grupo, estrutura esta que somente um procedimento
antropológico pode captar.
Mesmo
em casos como o nosso, note-se, somente o procedimento etnográfico
pôde oferecer saídas que, do contrário, poderiam parecer
não existir; pois, perguntamos, o que aconteceria a um cientista
político se, de repente, o acesso a seus dados fosse negado por
quem os detém com exclusividade? Cremos que o resultado seria a
impossibilidade de chegar a quaisquer conclusões. Este olhar que
oferece o confronto entre discurso e conduta, representação
e ação - o osso, carne e espírito malinowskianos -,
neste caso, nos permitiu pensar, inclusive, no significado do silêncio.
Finalmente,
em relação à Antropologia, podemos reforçar
a idéia de Peirano de que os objetos não estão esgotados.
Novos atores aparecem em cena, demandando pela velha "Aventura Antropológica",
afinal, são eles a fonte de nosso conhecimento. "Outros povos, outros
costumes" (Sahlins, 1990), "novos temas, velhas
reflexões"(Montes, 1983).
NOTAS
Artigo originalmente publicado na RBCS nº. 34, vol 12, junho de 1997.
A
Favor da Etnografia, Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1995.
Alusão a coletânea de igual nome, organizada por Ruth Cardoso
e publicada pela Paz e Terra, em 1988.
No Brasil. Este movimento foi anterior e iniciou-se nos Estados Unidos,
com seus embriões ainda em fins da década de 70. Foi em 1984,
com a publicação de "O Anti-Anti Relativismo"(ed. bras.:
1988), de Geertz, que o movimento se concretizou
ou se espelhou como tal. Boas leituras a respeito estão na própria
Peirano
(1995), e em Caldeira (1988; 1989).
Meia-Volta,
Volver: um estudo antropológico sobre a hierarquia militar.
Dissertação em Antropologia Social pela USP, São Paulo,
1995.
A única exceção a esta regra de que temos conhecimento
é Castro, Celso. 1990, O Espírito
Militar: Um Estudo de Antropologia Social na Academia Militar das Agulhas
Negras, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor.
Há um projeto do Exército que vem sendo desenvolvido desde
1995 para tentar se chegar ao ano 2000 com um índice de 80% de militares
de carreira.
O corpo de reserva é formado por [a] "militares da reserva remunerada",
ou seja, militares de carreira aposentados, e [b] os "demais cidadãos
em condições de convocação ou de mobilização
para a ativa" (Estatuto dos Militares, Art. 4°§ 1°). Note-se
que os chamados conscritos, recrutas do serviço obrigatório,
quando passam para a reserva não entram para a categoria da reserva
remunerada, sendo colocados na condição de [b]: "demais cidadãos...".
"Melhor situado" não representa necessariamente estar acima na cadeia
de comando, mas sim estar com uma possibilidade estrutural de em algum
momento se situar no topo dela, enquanto "pior situado" representa estar
numa posição em que provavelmente o indivíduo não
chegará ao topo da cadeia de comando (especificamente ao generalato),
ainda que ele possa se situar, num dado momento, "acima" do primeiro. Os
detalhes deste arranjo estão descritos em Leirner,
1995.
Maria Lúcia Montes. Aproveito a citação para agradecer
novamente sua atuação como protagonista desta história.
Localizada na Praia Vermelha, na cidade do Rio de Janeiro.
Cf. nota 8.
Vale lembrar que já foi dito que "os oficiais concluintes do curso
de estado-maior funcionam concomitantemente como reformuladores de doutrina
e 'caixas de ressonância' na propagação da mentalidade
militar, pois na qualidade de chefes qualificados exercem considerável
influência em instituições hierarquizadas."(Soares,
1994: 15)
São elas: Serviços de Estado-Maior; Segurança Interna;
Administração Militar; História Militar; Direito;
Apoio Administrativo; Idiomas; Operações de Brigada; Mobilização;
Estratégia; Política; Sociologia; Economia; Ciência
e Tecnologia; Operações de Divisão de Exército;
Exército de Campanha (Soares, 1994: 15).
Esses discursos encontram-se em diversos lugares, como publicações,
ordens-do-dia da tropa, palestras de militares, e, também, afixados
em cartazes de várias unidades militares pelo país, entre
elas a ECEME, juntamente com com outras frases de impacto e palavras de
ordem. Para ver detalhes destas frases, classificadas nas escolas
militares como pensamento mnemônico, ver Leirner,
1995:52-54.
Núcleo de Análise Interdisciplinar de Políticas e
Estratégias, do Departamento de Ciência Política da
USP, coordenado por Bráz José de Araújo.
Curso de Política, Estratégia e Alta Administração
do Exército, um curso da ECEME, mas não mais de comando,
e sim um curso preparatório para exercer o generalato. Instituído
em 1986, o CPEAEx é integrado por aproximadamente 30 coronéis
que, em micro-escala, porém com muito mais intensidade, realizam
atividades semelhantes às do Curso de Comando da ECEME, tais como
palestras, debates, atividades disciplinares e contatos regulares com autoridades
civis. Ele constitui-se assim numa "elite" da "elite" do Exército.
Castro,
1990.
Que estão devidamente narrados no capítulo I de Leirner,
1995.
Embora, sempre que fossem feitos, obtivessem a maior consideração
por parte dos interlocutores.
Como bons exemplos, ver Oliveira, 1994; Mathias,
1995; Coelho, 1990.
Vale a pena dizer que não apenas os etnógrafos podem ter
esta percepção. Podemos citar Costa,
1985, como um exemplo de trabalho que levou em conta este tipo de idéia,
embora ela seja colocada em um segundo plano de análise, servindo
apenas de apoio para a discussão de eventos históricos.
Corporação que também é utilizada pelo Exército
em um sentido político, mas, cujos membros, agora, falam de um outro
lugar que não aquele da sua cadeia de comando, o que implica em
falar de dois atores mutuamente reconhecidos como distintos.
BIBLIOGRAFIA
CALDEIRA,
Tereza P. (1988), "A Presença do Autor e a Pós-Modernidade
em Antropologia". Novos Estudos Cebrap, No. 21, São Paulo, Cebrap.
CALDEIRA,
Tereza P. (1989), "Antropologia e Poder: uma resenha de etnografias americanas
recentes". BIB, No. 27, ANPOCS, Rio de Janeiro, Vértice.
CARDOSO,
Ruth C.L. (Org.). (1988) , A Aventura Antropológica,
São Paulo, Paz e Terra.
CASTRO,
Celso. (1990), O Espírito Militar: Um Estudo de Antropologia
Social na Academia Militar das Agulhas Negras, Rio de Janeiro, Jorge Zahar
Editor.
COELHO,
Edmundo Campos. (1990), "A Instituição Militar no Brasil:
Um Ensaio Bibliográfico", BIB: O Que Se Deve Ler em Ciências
Sociais no Brasil No. 3, Edição englobando de No. 15 a No.
19, pp. 335-359, Rio de Janeiro, ANPOCS.
COSTA,
Vanda Ribeiro., (1985), "Com Rancor e Com Afeto: rebeliões militares
na década de 30", Ciências Sociais Hoje, Rio de Janeiro, ANPOCS.
DREIFUSS,
René A. (1987), 1964: a conquista do Estado. Ação,
política, poder e golpe de classe, Petrópolis, Vozes.
DURHAM,
Eunice R. (1988), "A Pesquisa Antropológica com Populações
Urbanas: Problemas e Perspectivas", in CARDOSO, Ruth C.L. (org.),
1988, A Aventura Antropológica, São Paulo, Paz e Terra.
EME,
Estado-Maior do Exército., (1972), História do Exército
Brasileiro, Brasília, Ministério do Exército.
EVANS-PRITCHARD,
E.E., (1978), Os Nuer, São Paulo, Perspectiva.
FERREIRA,
Oliveiros S., (1988), Forças Armadas Para Quê?, São
Paulo, GRD.
GEERTZ,
Clifford. (1988), "O Anti-Anti Relativismo". Revista Brasileira de
Ciências Sociais. Vol. 3, No. 8: 5-19.
LEIRNER,
Piero C. (1995), Meia-Volta,
Volver: um estudo antropológico sobre a hierarquia militar,
Dissertação de Mestrado, São Paulo, Departamento de
Antropologia/ USP, mimeo.
MATHIAS,
Suzeley K. (1995), Distensão no Brasil: o projeto militar (1973-1979),
Campinas, Papirus.
MONTERO,
Paula. (1991), "Reflexões sobre uma Antropologia das Sociedades
Complexas". Revista de Antropologia, Volume 34, São Paulo, FFLCH-USP.
MONTES,
Maria Lucia A. (1983), Lazer e Ideologia: A Representação
do Social e do Político na Cultura Popular, São Paulo, USP
(mimeo).
OLIVEIRA,
Eliézer Rizzo de. (1994), De Geisel a Collor: forças armadas,
transição e democracia, Campinas, Papirus.
PEIRANO,
Mariza. (1995), A Favor da Etnografia, Rio de Janeiro, Relume-Dumará.
SAHLINS,
Marshall. (1990), Ilhas de História, Rio de Janeiro, Jorge Zahar
Editor.
SOARES,
Samuel A. (1994), Militares e Pensamento Político: análise
de monografias da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (1985-1993),
Dissertação de Mestrado, Departamento de Ciência Política,
São Paulo, USP, mimeo.
STOCKING
Jr., George W. (1983), Observers Observed, Madison, The University
of Wisconsin Press.