A pesquisa de campo com militares: algumas questões metodológicas
Piero de Camargo Leirner

 
 
 
 
Em relação à maneira pela qual o Exército se organiza, devemos pensar na designação deste local a partir da natureza das atividades institucionais que exerce - é um curso, e portanto está ligado com a educação de seus membros, ou se formos mais longe numa concepção gramsciana, com a formação de uma visãodemundo consoante com a realidade militar. E, vale lembrar, no caso, estamos falando em designação porque se trata de uma corporação disciplinada, onde, portanto, há pouco espaço para que, de um lado, em qualquer unidade específica, como a ECEME, possam desenvolver-se ao acaso atividades sistemáticas, aleatória e espontaneamente, e, de outro lado, possa haver outras unidades que executem a mesma função, como pode ocorrer em outros contextos encontrados em qualquer pesquisa de campo. Nossa hipótese de que a ECEME também cumpre este papel de ligação com as elites para o Exército está no fato de que sua função educativa se coaduna com influxos externos à instituição, ou seja, aproveita "a visão da sociedade" - termos que foram empregados por um general que mediava a fala de um professor que participava de um debate que lá presenciei - como ocasião para executar uma constante reavaliação da doutrina do Exército. 
 

Estes influxos exógenos, relidos sob a ótica militar, produzem, como resultado final, avaliações da realidade que são aproveitadas no conjunto doutrinário , sendo aplicadas nas disciplinas ministradas no curso , que, no fim das contas, são o instrumento mais legítimo de transmissão da "visão oficial do Exército". Some-se a tudo isso o fato de que lá se forma, conforme muitos oficiais dizem, uma elite - portanto, um conceito que também faz parte da concepção nativa -, e ver-se-á então que as atividades da ECEME comprovam a existência de um contato intra-elites, tal qual era realizado pelo Instituto Liberal. Estas são, vamos assim dizer, algumas das razões "oficiais" ou institucionais que levam à ECEME este tipo de atividade. Deste ponto de vista, a Escola é própria para "articular", pois oferece uma "brecha" para reavaliação e construção de "visões de mundo".
 

Porém, a confirmação desta história está em uma outra, que a acompanha lado a lado, construída em padrões informais de conduta que puderam ser percebidos a partir do exercício da observação participante. Nas entrelinhas dos discursos formais que pude ver em várias idas à ECEME, ficou claro que os eventuais paisanos que estavam presentes, em palestras, aulas ou reuniões, eram designados como "autoridades...", "ilustres..." ou "importantes..." seja lá o que fossem, professores, empresários ou políticos. Vale ressaltar que paisanos eram minoria absoluta: um, dois ou três, contando comigo, no meio de uma centena de militares. Curiosamente, em relação a minha pessoa, ouvi sempre que era "um jovem aluno..." que estava lá "estreitando os laços" entre o Exército e a "Universidade", caminho necessário para se chegar a um "projeto para o Brasil".
 

Começando por esta idéia de "Universidade", ouvi-a várias vezes ser repetida em contextos diversos, desde aquele aplicado acima até idéias como "temos oficiais na Universidade", ou "a Universidade e o Exército...", ou, ainda, "divulgar o pensamento militar na Universidade", mostrando sobretudo uma noção idealizada de que a Universidade é uma instituição senão única, ao menos uníssona. Ainda que se soubesse que há muitas universidades pelo Brasil, não havia a concepção de que elas têm uma natureza competitiva. Isto fica mais claro ainda quando se falava na "necessidade da presença do pensamento militar na Universidade", como etapa para se chegar a "um projeto nacional". Havia, como é mostrado repetidamente em discursos da doutrina militar dirigidos à tropa e aos paisanos  (cf . Ferreira, 1988: 35; Castro, 1990: 128; EME, 1972: 1064), uma noção de que a "sociedade", e por decorrência a universidade, constituia-se em um "amontoado de arquipélagos fragmentados", e que ao Exército, "a verdadeira ossatura da nacionalidade", caberia a missão de "aglutiná-los". Mas, o que para nós se constituiu no fator mais importante destas idéias em relação à universidade, é a crença de que seus membros, incluindo-se a mim, estivessem falando do ponto de vista "da Universidade" e não talvez do seu próprio ponto de vista. Este fato revela uma leitura militar extremamente sociocentrada do meio acadêmico, provavelmente espelhada numa realidade disciplinar que dita as regras da relação indivíduo-grupo [instituição]. Só assim se poderia crer, em primeiro lugar, que "um jovem aluno", qualquer que fosse, de alguma maneira, representasse esta outra instituição, e, em segundo, que esta outra instituição também fosse capaz de conjuntamente formular um projeto para o Brasil. E por que a Universidade? 
 

Seguindo a trajetória de pesquisa, esta visão espelhada justificaria o fato do Exército, através de seu comando, após a indicação feita pelo já citado general, ter mantido firme o propósito de me permitir levar a pesquisa adiante; talvez por acreditar ser a Universidade, pela sua característica hierárquica e em certa medida disciplinar, seu espelho mais próximo no universo paisano, sendo, portanto, uma instituição que reuniria condições formais para se construir um caminho ou "projeto" comum. 
 

Estava assim este "jovem aluno da Universidade" diante de um duplo papel imposto por estas categorias definidoras: o de aprendiz e o de contato sistemático na Universidade. A junção destes papéis me parece clara: alguém que vai passar para a Universidade uma "verdadeira visão de mundo", um papel político que realiza em micro-escala o grande projeto de articulação nacional que era realizado entre o Exército e o Instituto Liberal e provavelmente muitas outras instituições afora. Talvez a prova mais substancial deste padrão relacional que foi construído com a própria pesquisa tenha se dado em duas ocasiões em que fui publicamente nomeado. 
 

Uma primeira, fora do ambiente militar, num encontro ocorrido nas dependências do NAIPPE  na USP. Neste encontro, alguns oficiais vieram representando o CPEAEx / ECEME , e basicamente tratou-se de falar sobre as possibilidades de um "estreitamentodelaços". Ali, fui citado por um destes oficiais como um "velho amigo nosso". Cabe esclarecer que "amigo" não é força de expressão entre oficiais. Pelo contrário, a expressão "amigo do Exército" designa um possível aliado, e vice-versa para um inimigo. Ora, basta lembrar que esta é uma forma de linguagem derivada das análises realizadas em grande escala para definir outros exércitos ou nações, aqui adaptada para situações particulares. A outra ocasião se deu no ambiente do próprio CPEAEx, durante uma palestra, na qual minha presença - apesar de evidente, pois era o único paisano da platéia - foi anunciada pelo mediador, como a de "um conhecido nosso, que inclusive já foi orientado  por um colega num micro-projeto". Estava aqui claramente, então, diante do papel do aprendiz. Creio que estas duas ocasiões, dado seu caráter "publicizado", para "dentro" e para "fora" do Exército, revelam senão um paradigma, ao menos uma certa configuração pela qual o caminho da pesquisa foi traçado pela própria instituição militar. 
 

Para além do conteúdo específico das expressões, o que se revela através deste padrão - não somente terminológico, mas de uma conduta aplicada a certos tipos de situações em que se vê claramente um "cortejamento" entre dois grupos distantes que, sobretudo, é realizado em nome de princípios maiores como um "projeto para o Brasil" - é a idéia de que há uma certa "estrutura" sobre a qual se alicerça uma configuração política capaz de dar conta desde a micro-escala das relações pessoais até relações interinstitucionais.  A falta de discernimento entre uma escala institucional e uma relação pessoal nos sugere a hipótese de que a política funciona como uma espécie de "cabeçalho" comum que faz a passagem entre múltiplos níveis de relações no Exército. Isto se evidenciou mais ainda quando houve uma conjugação entre o papel de aprendiz e a função de contato com outra instituição. Esta ambigüidade de papéis talvez tenha adquirido esta forma precisa pelo fato de que meu projeto inicial de pesquisa estava tocando numa questão política então crucial - a questão amazônica, na época da Eco'92. Porém, o curioso ou peculiar, é que a proposta metodológica deste projeto, ir ao Calha Norte e tentar "observar como um nativo", foi lida como "fazer um trabalho político", para então realizar a construção de uma visão de mundo que ia dos altos escalões da ECEME à Universidade, passando pela intermediação de uma pesquisa que a legitimasse no meio acadêmico.
 

Isto, na nossa hipótese, foi causado pelo que podemos chamar de um "olhar espelhado", onde se via a Universidade como instituição homóloga no mundo paisano, compatível portanto com aquele "cabeçalho" comum. Ora, somente com este tipo de aproximação - aqui pensada através da reelaboração do olhar nativo -, onde se enxerga uma estrutura semelhante, é que foi possível estabelecer este ideal de organicidade entre duas instituições de funções diferenciadas e, assim, também equalizar num mesmo patamar relações pessoais e institucionais: assim é que pude me tornar uma espécie de "representante" da Universidade.
 

Finalmente, a contra-prova necessária para confirmar esta hipótese ocorreu a partir de meados de 1993, com a concomitância de dois fatores que mudaram o padrão relacional até então existente.
 

O primeiro fator foi a presença de Celso Castro, antropólogo do Museu Nacional (RJ) que estudou a Academia Militar das Agulhas Negras , numa palestra no CPEAEx, onde ele relatou uma série de elementos da "experiência nativa" dos militares captados a partir de uma perspectiva antropológica. A par dos detalhes deste encontro , o que nos interessa reter aqui é que, a partir dele, os militares com os quais estava em contato tiveram uma outra visão do que é uma pesquisa antropológica: muito mais voltada, vamos dizer assim, para "usos e costumes", do que para "aspectos políticos". Somando-se a isto, um segundo fator - uma aproximação sistemática do CPEAEx com o NAIPPE/USP - levou a uma certa perda de interesse na viabilização do meu projeto inicial de ir ao Calha Norte, que, até então - asseguravam-me -, estava sendo encaminhado. E não somente do projeto inicial; a pesquisa em si não mais encontrou um respaldo da parte do Exército, e os contatos passaram a ser feitos praticamente de forma unilateral , partindo sempre do pesquisador. Vale reforçar, então, que, em primeiro lugar, uma pesquisa antropológica fugia do padrão "político" de se falar "contra" ou "a favor" do Exército; e, em segundo, que, aos olhos dos nativos, o pesquisador também fugia a este padrão, por não estar relacionado ao NAIPPE, que, afinal de contas, também faz parte da Universidade (e, sobretudo, da mesma universidade). Inclusive, várias vezes fui indagado por oficiais por que não trabalhava junto a este Núcleo e, do ponto de vista militar, isto de repente poderia soar como uma espécie de "insubordinação".
 

Esta possível evidência de "insubordinação" espelha-se no claro sinal que não havia uma chancela institucional para oficiais "patrocinarem" a pesquisa, embora pessoalmente sempre contasse com grande receptividade por parte deles. De outro modo, com oficiais da reserva podia-se ver, além da receptividade, uma real disposição em colaborar com a pesquisa: não somente em deixar registros e depoimentos, como também em dispôr de sua influência para fazer tentativas de viabilizar o projeto inicial.
 

Esta "negativa" - que, aliás, foi um processo longo, perdurando até 1994 -, ao contrário do que pudesse parecer, posteriormente levou a conclusões inusitadas, pois percebeu-se que ela era uma contrapartida realmente "antropológica" da conduta militar, dando uma "radiografia" de como a instituição filtra suas relações com o mundo externo, a partir da maneira como ela classifica suas relações em seu mundo interno.
 
 

ACADEMIA MILITAR DE AGULHAS NEGRAS  Fonte da imagem: http://www.resenet.com.br/ahimtb/escolas.htm#emilpv








Isto porque, de um lado, foi possível perceber, associando o "silêncio" de uns com o "discurso" de outros - respectivamente os da "ativa" e os da "reserva" -, que as determinações institucionais recaíam [a] apenas sobre os que estão na cadeia de comando-obediência, e [b] sobre os indivíduos pertencentes a esta cadeia; e, de outro lado, percebeu-se também, pela natureza política das atribuições que se imputavam a uma relação que, além de institucional, era, em grande parte, pessoal, que, além da carga da instituição que o indivíduo traz consigo, também a instituição carrega consigo a carga da idéia de indivíduo como elemento capaz de representar a instituição.
 

Foi possível ver, então, que o indivíduo militar, em certa medida, responde pela instituição militar, pois ele se vê, e também assim a coletividade vê a cada um, como um elo único de uma cadeia hierárquica pela qual todos respondem, cada qual em sua posição. Pois a hierarquia, além de classificar indivíduos em patentes, funções burocráticas, locais de serviço, também os divide, um a um, numa cadeia de comando-obediência, na qual cada um tem seu lugar, e portanto os elos institucionais respondem a este princípio coletivo de individualização de status e responsabilidade num papel social próprio a cada um, mas que só existe enquanto parte complementar de um todo. Nesta medida é que o militar, e, podemos dizer, o Exército, vê qualquer indivíduo como parte correspondente a uma instituição, compatibilizando o pesquisador com a Universidade e a atividade de pesquisa com o estreitamento de laços. Neste caso, pelo tipo de organização social a que ele está ancorado, o militar acabou filtrando as relações interpessoais como relações interinstitucionais, e, portanto, dando um sentido político à sua conduta, dado que o padrão relacional entre instituições indubitavelmente se dá no âmbito da "grande política", num sentido gramsciano.
 

Todo este caminho levou a um duplo aprendizado: o primeiro é que o silêncio também pode ser revelador, desde que antes já se tenha percorrido algum tipo de caminho; o segundo é que, em casos como este, os "velhos" instrumentos de pesquisa, como a observação participante, ainda têm muito a oferecer. É isto que queremos brevemente levantar agora.
 
 

Conclusões

"Novos temas, velhas reflexões". Parece que o título que Montes (1983) deu ao capítulo conclusivo de sua tese é apropriado para o atual contexto. Não falo somente pelo fato de ser uma tese de Ciência Política e Antropologia ao mesmo tempo, mas, principalmente, pelo que tem a dizer a respeito dos dois universos. Voltemos ao nosso caso.
 

Como foi dito inicialmente, coube à Ciência Política a quase totalidade das interpretações a respeito do que são, como são e qual o papel dos militares no Brasil. Ora, não é à toa que coube à Ciência Política esta visão "privilegiada", pois o Exército sempre apresentou o que pode ser entendido como um comportamento de ator "político", aqui novamente entendido no sentido gramsciano da "grande política", como grupo que, volta e meia em nossa história, se destaca de seu papel de parte da "coisa pública" para manifestar um comportamento próprio, com interesses e visão de mundo próprias. No entanto, admite-se que os militares, justamente como grupo, são "estranhos" ao mundo civil, fato geralmente ressaltado em prefácios ou introduções de publicações da área. A Ciência Política, com seu olhar voltado ao horizonte dos processos institucionais, tende a captar aguçadamente o que podemos chamar de uma "face pública" da corporação, ou, como poderíamos dizer melhor, a face que aparece nos grandes processos sociais. Assim, por exemplo, podemos ver uma absoluta concentração de trabalhos relativos aos períodos chamados de "intervenção militar" na vida pública .
 

A par do mérito indiscutível destes trabalhos, o que nos perguntamos é se estes períodos são suficientes [a] para se entender a natureza da corporação strictosensu, e [b] para se entender o comportamento da corporação como um todo, mesmo nestes períodos. O que queremos dizer, em outras palavras, é que os regimes militares não são suficientes para se entender os militares, o que não significa, até, que eles não são bons para se entender o país em que estamos.
 

Vale a pena ressaltar que não tomamos a etnografia como um método universal e indispensável em qualquer caso. Não pode ser aplicada em qualquer situação, mas, de todo modo, é bom tê-la em mente quando se trata de militares, pois ao menos ela é capaz de informar quem são os militares que falam, e que nem todos militares são iguais . Senão, poderíamos nos contentar em publicar "informações reveladoras de bastidores" à medida que algum general da reserva viesse, finalmente, revelá-las, e assim tomar tal como o discurso militar.
 

E por falar em general da reserva, eis uma das lições que podemos tirar desta etnografia: a de que o dito general está "liberado" para falar, pois não se insere mais naquela cadeia hierárquica. Por isto mesmo é que devemos olhar com ressalvas falas oriundas do Clube Militar, e estar cientes que elas não refletem o olhar da instituição. Como pessoa, o general não mais está inserido num circuito de responsabilidade que, ao mesmo tempo, o coloque como parte da corporação e a corporação "em operação" como parte dele. Deste modo, ele não está mais na política do Exército, mas sim na política de uma nova corporação em que ele agora se encaixa - a dos oficiais da reserva -, que usa o Exército ou o "ser militar" como estratégia discursiva .
 

Esta é uma das muitas conclusões a que podemos chegar, investigando a natureza dos militares a partir da observação participante. Em relação à Ciência Política, cremos, este é o tipo de olhar que pode auxiliar na precisão do recorte quando se fala de militares. Não é eficaz, sabemos, para se saber a relação que o Estado ou as outras instituições políticas têm com a "grande política" a ponto de suscitar fenômenos como o da "intervenção"; mas, de outro modo, é eficaz para se saber o porquê de alguns procedimentos da caserna mesmo durante a intervenção, como, por exemplo, por que se passava os futuros presidentes da República para a reserva, ou ainda, quão verossímeis em relação à conduta da corporação são alguns depoimentos de militares. Nesse sentido, podemos afirmar que a acusação de Wanderley Reis não procede, pois, no mínimo, uma etnografia, além de depoimentos, pode captar uma conduta relacionada stricto senso à estrutura social de um grupo, estrutura esta que somente um procedimento antropológico pode captar.
 

Mesmo em casos como o nosso, note-se, somente o procedimento etnográfico pôde oferecer saídas que, do contrário, poderiam parecer não existir; pois, perguntamos, o que aconteceria a um cientista político se, de repente, o acesso a seus dados fosse negado por quem os detém com exclusividade? Cremos que o resultado seria a impossibilidade de chegar a quaisquer conclusões. Este olhar que oferece o confronto entre discurso e conduta, representação e ação - o osso, carne e espírito malinowskianos -, neste caso, nos permitiu pensar, inclusive, no significado do silêncio.
 

Finalmente, em relação à Antropologia, podemos reforçar a idéia de Peirano de que os objetos não estão esgotados. Novos atores aparecem em cena, demandando pela velha "Aventura Antropológica", afinal, são eles a fonte de nosso conhecimento. "Outros povos, outros costumes" (Sahlins, 1990), "novos temas, velhas reflexões"(Montes, 1983). 
 
 

NOTAS

Artigo originalmente publicado na RBCS nº. 34, vol 12, junho de 1997.
A Favor da Etnografia, Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1995.
Alusão a coletânea de igual nome, organizada por Ruth Cardoso e publicada pela Paz e Terra, em 1988.
No Brasil. Este movimento foi anterior e iniciou-se nos Estados Unidos, com seus embriões ainda em fins da década de 70. Foi em 1984, com a publicação de "O Anti-Anti Relativismo"(ed. bras.: 1988), de Geertz, que o movimento se concretizou ou se espelhou como tal. Boas leituras a respeito estão na própria Peirano (1995), e em Caldeira (1988; 1989).
Meia-Volta, Volver: um estudo antropológico sobre a hierarquia militar. Dissertação em Antropologia Social pela USP, São Paulo, 1995.
A única exceção a esta regra de que temos conhecimento é Castro, Celso.  1990, O Espírito Militar: Um Estudo de Antropologia Social na Academia Militar das Agulhas Negras, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor.
Há um projeto do Exército que vem sendo desenvolvido desde 1995 para tentar se chegar ao ano 2000 com um índice de 80% de militares de carreira.
O corpo de reserva é formado por [a] "militares da reserva remunerada", ou seja, militares de carreira aposentados, e [b] os "demais cidadãos em condições de convocação ou de mobilização para a ativa" (Estatuto dos Militares, Art. 4°§ 1°). Note-se que os chamados conscritos, recrutas do serviço obrigatório, quando passam para a reserva não entram para a categoria da reserva remunerada, sendo colocados na condição de [b]: "demais cidadãos...".
"Melhor situado" não representa necessariamente estar acima na cadeia de comando, mas sim estar com uma possibilidade estrutural de em algum momento se situar no topo dela, enquanto "pior situado" representa estar numa posição em que provavelmente o indivíduo não chegará ao topo da cadeia de comando (especificamente ao generalato), ainda que ele possa se situar, num dado momento, "acima" do primeiro. Os detalhes deste arranjo estão descritos em Leirner, 1995.
Maria Lúcia Montes. Aproveito a citação para agradecer novamente sua atuação como protagonista desta história.
Localizada na Praia Vermelha, na cidade do Rio de Janeiro.
Cf. nota 8.
Vale lembrar que já foi dito que "os oficiais concluintes do curso de estado-maior funcionam concomitantemente como reformuladores de doutrina e 'caixas de ressonância' na propagação da mentalidade militar, pois na qualidade de chefes qualificados exercem considerável influência em instituições hierarquizadas."(Soares, 1994: 15)
São elas: Serviços de Estado-Maior; Segurança Interna; Administração Militar; História Militar; Direito; Apoio Administrativo; Idiomas; Operações de Brigada; Mobilização; Estratégia; Política; Sociologia; Economia; Ciência e Tecnologia; Operações de Divisão de Exército; Exército de Campanha (Soares, 1994: 15).
Esses discursos encontram-se em diversos lugares, como publicações, ordens-do-dia da tropa, palestras de militares, e, também, afixados em cartazes de várias unidades militares pelo país, entre elas a ECEME, juntamente com com outras frases de impacto e palavras de ordem.  Para ver detalhes destas frases, classificadas nas escolas militares como pensamento mnemônico, ver Leirner, 1995:52-54.
Núcleo de Análise Interdisciplinar de Políticas e Estratégias, do Departamento de Ciência Política da USP, coordenado por Bráz José de Araújo.
Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, um curso da ECEME, mas não mais de comando, e sim um curso preparatório para exercer o generalato. Instituído em 1986, o CPEAEx é integrado por aproximadamente 30 coronéis que, em micro-escala, porém com muito mais intensidade, realizam atividades semelhantes às do Curso de Comando da ECEME, tais como palestras, debates, atividades disciplinares e contatos regulares com autoridades civis. Ele constitui-se assim numa "elite" da "elite" do Exército. 
Castro, 1990.
Que estão devidamente narrados no capítulo I de Leirner, 1995.
Embora, sempre que fossem feitos, obtivessem a maior consideração por parte dos interlocutores.
Como bons exemplos, ver Oliveira, 1994; Mathias, 1995; Coelho, 1990.
Vale a pena dizer que não apenas os etnógrafos podem ter esta percepção. Podemos citar Costa, 1985, como um exemplo de trabalho que levou em conta este tipo de idéia, embora ela seja colocada em um segundo plano de análise, servindo apenas de apoio para a discussão de eventos históricos.
Corporação que também é utilizada pelo Exército em um sentido político, mas, cujos membros, agora, falam de um outro lugar que não aquele da sua cadeia de comando, o que implica em falar de dois atores mutuamente reconhecidos como distintos.
 
 

BIBLIOGRAFIA

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