Em
um recente livro
, Mariza Peirano reúne ensaios escritos entre 1991 e 1994, porém
atualizados para uma mesma discussão, cujo objetivo maior seria
a defesa da etnografia como instrumento de investigação antropológica.
A partir de uma polêmica com o cientista político Fábio
Wanderley Reis, ela aproveita para fazer um balanço geral sobre
o peso da pesquisa de campo e da leitura etnográfica na disciplina
antropológica, incluindo-se aí tendências tanto locais
quanto globais. Aproveitando as diferenças epistemológicas
entre as duas disciplinas, Peirano também realiza um balanço
da Antropologia enfatizando seus procedimentos de pesquisa e exposição
de resultados. É no "rastro" deixado por este debate que pretendemos
nos inserir, aproveitando uma investigação que colocou lado
a lado a pesquisa etnográfica e um objeto tradicionalmente abordado
por cientistas políticos: os militares.
Desde
os anos 80 foram raras as publicações nacionais que versaram
sobre procedimentos de pesquisa de campo e escrita etnográfica em
moldes tradicionais, no sentido exclusivo da exploração de
técnicas de abordagem e sua relação com a descrição
etnográfica. O estilo "A Aventura Antropológica"
, que tem numa equação nós/outros o ponto de partida
da investigação etnográfica que gera os discursos
dos procedimentos de pesquisa e conhecimento, parece ter chegado a um certo
esgotamento em fins desta década
, quando, a partir daí, ouviu-se muito sobre a "crise" dos paradigmas
na Antropologia. Os "velhos" termos em que se colocavam a "observação
participante", "participação observante", ou métodos
de investigação afins, foram remodelados e, de certa maneira,
perderam seu papel de protagonistas, pois a eles foram sobrepostas outras
questões de primeira ordem que se situam no campo da "legitimidade"
ou "autoridade" do pesquisador, do processo de escrita e da pesquisa etnográfica,
em "observers observed" - para utilizar a expressão de Stocking
Jr. (1983). Neste contexto, Peirano aproveita sua polêmica para retomar
aquele tipo de tradição antropológica.
Constitui
para nós um fato de especial interesse a polêmica com um cientista
político. Não é nossa intenção nem resenhar
o livro nem discutir os rumos da Antropologia, bastando por ora situar
em que termos ocorreu o debate. Surgido na reunião da ANPOCS de
1988, com a apresentação de um trabalho de Reis, foi colocado
primeiramente que havia uma "certa inspiração 'antropológica'
nos trabalhos pouco sofisticados das ciências sociais brasileiras"
(Peirano, 1995: 13), que, segundo ele,
teriam que suportar 'longos depoimentos em estado bruto de mulheres da
periferia urbana'. Esta alusão às "mulheres da periferia"
reporta essencialmente a uma prática da Antropologia que, ao construir
o discurso da alteridade, só perceberia como legítimas as
pesquisas que contivessem uma certa "mão invisível" da sabedoria
popular - o "outro" em nossa sociedade -, daí a provocação
no sentido da extensão destes "depoimentos". O exemplo não
é de todo infundado, pois, como já apontou antes dele uma
respeitável antropóloga, "a antropologia sempre demonstrou
especial interesse pelas minorias despossuídas e dominadas de todos
os tipos (índios, negros, camponeses, favelados, desviantes e 'pobres'
em geral) em detrimento do estudo dos grupos ou classes politicamente dominantes
e atuantes. Quanto aos temas, sempre revelou uma afinidade particular por
aqueles que eram claramente periféricos à grande arena das
lutas políticas: dedicou-se muito mais ao estudo da família,
da religião, do folclore, da medicina popular, das festas do que
à análise do Estado, dos partidos políticos, dos movimentos
sindicais, das relações de classe, do desenvolvimento econômico."(Durham,
1988:18).
De
certa maneira, este recorte desprivilegiou a Antropologia no tocante às
grandes instituições e aos grupos sociais ditos hegemônicos.
Esta constatação não é minha, nem é
nova; reforçando isto, já foi dito também que, quando
estes grupos aparecem em trabalhos etnográficos, aparecem de uma
maneira peculiar:
"Usualmente,
os poderosos e os ricos são considerados como referência em
relação à qual a resistência se estrutura e,
de qualquer modo, costumam ser o lado fraco da análise, aquilo que
deve existir, mas que não se estuda em detalhes. Os ricos e poderosos
constituem, assim, um 'outro' genérico que é necessário
para explicar a resistência, mas ao qual geralmente não é
permitida a representação."(Caldeira,
1989:37).
Certamente,
para o cientista político, que vê todo processo social necessariamente
ligado a uma cadeia de relações que passa pelo Estado, o
enfoque baseado na alteridade só pode ressaltar os tais "longos
depoimentos...", em detrimento de uma teoria que "explique" o objeto. E
é justamente na relação entre teoria e pesquisa que
nasce da alteridade que Peirano se arma para rebater tal crítica,
quando ela retoma autores "clássicos" como Malinowski, para enfatizar
a característica dialética do conhecimento antropológico,
como resultado de um confronto com o conhecimento "nativo". Seria este,
basicamente, o momento em que esta disciplina se diferencia radicalmente
da Ciência Política, com uma tendência mais generalizante
e voltada para a análise conjuntural.
Contudo,
é notório que, em grande parte das teses e monografias em
Antropologia que vemos, há a tal da "mulher da periferia...", que
permanece como "cânone" da disciplina, garantido pelas "áreas
de interesse" colocadas nos programas de seleção de Pós-Graduação
em Antropologia de todo o País. De fato, se pensarmos, junto com
Peirano, que a chamada "auto-crítica" da disciplina num dado momento
assumiu um papel que se destacou mais do que as próprias pesquisas,
chega-se à conclusão que ou Reis tem razão ou a Antropologia
tem mais "dilemas" - para utilizar a expressão de Paula
Montero (1991) - do que saídas.
É
na tentativa de colaborar neste diálogo entre as disciplinas irmãs
que, neste artigo, pretendo contar uma parte de uma trajetória de
pesquisa com um objeto incomum para os antropólogos - o Exército
brasileiro. Pretendo, contando brevemente esta história, mostrar
como com os velhos instrumentos do estilo "A Aventura Antropológica",
foi possível ter uma nova visão sobre este objeto que é
de longa data de domínio da Ciência Política, o que
favoreceu uma visão hegemônica e, em certa medida, compartilhada
pela literatura acadêmica que lida com este assunto.
Assim,
temos como idéia principal levantar algumas questões que
surgiram a partir da experiência de pesquisa de campo realizada no
Exército brasileiro, entre 1992 e 1994. Na dissertação
de mestrado que resultou desta pesquisa
, procurei mostrar como uma trajetória de pesquisa levou à
idéia da hierarquia como "fato social total" da vida militar - um
elemento que põe em dinâmica múltiplos aspectos da
vida do grupo. Agora, pretendo discutir brevemente como o exercício
etnográfico com o Exército pôde trazer elementos diversos
daqueles que a Ciência Política toma como legítimos
quando analisa militares, elementos estes que dizem respeito às
categorias nativas empregadas no uso cotidiano de militares e sua relação
com a organização social deste grupo.
Não
é surpresa o fato da quase totalidade dos trabalhos acadêmicos
que têm o Exército como objeto de análise se concentrarem
na área da Ciência Política
, disciplina que, a rigor, não tem a pesquisa de campo como procedimento
usual - ao menos o tipo de pesquisa a que estamos acostumados em Antropologia,
com observação participante. Daí nossa intenção
de evidenciar alguns pontos dessa experiência, especialmente em relação
ao que poderíamos chamar de "conteúdo político" do
exercício etnográfico.
O Exército
é uma instituição nacional e permanente, um poder
público, que possui em seus efetivos aproximadamente 180.000 indivíduos
sob uma rígida cadeia disciplinar, além de um corpo de reservistas.
Porém, entre estes indivíduos há uma parcela em cuja
auto-imagem há a visão de que apenas eles são militares
"de fato": os militares de carreira, que representam hoje aproximadamente
metade do efetivo acima
,
excluindo desta parcela tanto aqueles que se encontram na condição
transitória do recrutamento imposto pelo serviço militar
obrigatório quanto os que pertencem ao corpo da reserva
. Portanto, nesta construção, o militar "legítimo"
- que inclusive usufrui desta condição - é aquele
consagrado por uma carreira que tem como trajetória única
o pertencimento a uma cadeia de comando-obediência pela qual cada
indivíduo tem o direito de realizar uma escalada hierárquica.
Vale ressaltar que este direito é dado somente aos que estão
nesta carreira, não incluindo, portanto, os soldados recrutados
anualmente pelo serviço militar obrigatório.
Neste
quadro, estes militares acabam realizando a construção de
uma espécie de grade classificatória em que a categoria militar
aparece de forma restritiva e hierarquizada, dependendo da situação
em que ela é exigida: entre os próprios oficiais de carreira,
há aqueles que se definem por estar numa arma (infantaria, cavalaria,
intendência, etc.) mais militar em oposição a uma menos
militar ou mais técnica (Castro,
1990:102); ainda entre oficiais, entre aqueles que se situam melhor na
escala hierárquica e aqueles piores situados
, tendo os primeiros mais vocação militar que os últimos;
entre oficiais e praças, os primeiros se consideram mais militares
que os últimos, especialmente os últimos da cadeia de comando,
os recrutas (Costa, 1985); entre as três
forças, um oficial do Exército se considera mais militar
que um da Aeronáutica, por exemplo; entre os chamados militares
da ativa e os reservistas; e, finalmente, entre os que se consideram
como
militares, se reconhecendo como um grupo distinto do resto da sociedade,
e os paisanos - como bem apontou Castro (1990). Encontramos, deste modo,
uma situação análoga a que Evans-Pritchard descreveu
como a formação de segmentos políticos entre os Nuer:
"Uma
característica de qualquer grupo político é, consequentemente,
sua invariável tendência para divisões e oposição
de seus segmentos, e outra característica é a sua tendência
para a fusão com outros grupos de sua própria ordem em oposição
a segmentos políticos maiores do que o próprio grupo. Os
valores políticos, portanto, estão sempre em conflito, falando-se
em termos de estrutura. Um valor vincula uma pessoa a seu grupo e um outro
a um segmento do grupo em oposição a outros segmentos do
mesmo, e o valor que controla suas ações é uma função
da situação social em que a pessoa se encontra. Pois uma
pessoa vê a si mesma como membro de um grupo apenas em oposição
a outros grupos, e vê um membro de outro grupo como membro de uma
unidade social, por mais que esta esteja fragmentada em segmentos opostos."
(Evans-Pritchard, 1978:149).
Durante
a pesquisa, como veremos, ocorreram situações que demonstraram
simultaneamente esta clivagem interna e uma generalização
do mundo exterior (análogas ao modelo Nuer). Além disto,
foi possível observar características peculiares à
organização militar que remetiam à idéia de
que a cadeia de comando se constitui em um bloco único, pelas características
intrínsecas da disciplina militar, mas que, ao mesmo tempo,
dentro dela, ocorre uma segmentação em múltiplos planos
que confere significados diversos frente à situações
determinadas. Foi esta ambiguidade que nos permitiu ao mesmo tempo reconstituir
um único "ponto de vista militar" e distinguir diferentes níveis
de discursos e práticas dentro da corporação, mostrando
que a maneira de classificar as coisas passa pelo princípio organizacional
destes que se consideram os militares. A partir disto, pretendemos mostrar
como a trajetória etnográfica caminhou neste universo classificatório,
e, assim, começar a desenhar o diálogo proposto em relação
à Ciência Política.

A
Pesquisa de Campo
O trabalho
de campo começou em março de 1992, com um primeiro contato
com um militar - um general da reserva - que então trabalhava no
Instituto
Liberal, um complexo de escritórios sediado em São Paulo,
cujas atividades somente viria a entender um pouco depois. Este começo,
porém, é a chave para se entender toda a trajetória
de pesquisa.
Minha
familiaridade com militares era praticamente nula na época; não
tinha conhecidos ou parentes que facilitassem uma entrada na instituição.
Havia, sim, um projeto de pesquisa pelo qual me propunha a "observar como
um militar" a questão amazônica, a partir principalmente de
uma ida a campo ao Projeto Calha Norte. Não é
preciso tecer grandes considerações sobre o interesse que
grande parte dos antropólogos têm em questões que envolvem
o Calha Norte, de um lado; de outro, havia a suposição, por
nossa parte, de que um trabalho desse despertaria, apesar de uma série
de desconfianças, o interesse do Exército que, afinal, há
algum tempo já se manifestava publicamente a respeito da questão
amazônica e aqui teria a oportunidade de fazê-lo mais um pouco,
e para um público "rival". Assim, caminhávamos no sentido
de realizar um intercâmbio entre duas instituições
públicas, a respeito de uma questão controversa, porém
também pública em seu enunciado, como questão nacional
que era.
Estes
eram os argumentos para que, a partir de um único contato através
de minha orientadora
, abordasse o Exército. E este contato era justamente o general
acima referido que, através do Instituto Liberal, já havia
feito alguns convites para ela proferir aulas e palestras para militares
no Rio de Janeiro. Neste sentido, o fato deste general me receber também
significava uma retribuição a estas aulas. E foi com aquele
projeto e com este "contra-dom" que fui ao Instituto.
É
possível dizer que o que mais se aproxima da imagem deste local
é a de um escritório de lobbies, porém ele
escapava ainda a esta definição. Até onde pude perceber,
sua função básica era a articulação
de setores "representativos" de nossa sociedade, na tentativa de estabelecer
o que, em linguagem gramsciana, poderíamos chamar de uma "classe
dirigente", ou o que posteriormente alguns cientistas políticos,
ao se referirem à articulação que resultou no movimento
de 64, chamaram de "elite orgânica"(Dreifuss,
1987). Porém, longe de querer chegar a resultados como "64", o Instituto
teria como principal meta formular um "projeto para o Brasil", nas palavras
de um outro ex-membro seu, que viria a conhecer posteriormente. Inclusive,
neste sentido, "intelectuais universitários" acabavam por merecer
um peso importante.
Foi
nesta configuração que fui levado, alguns dias depois da
visita ao referido general, à ECEME - Escola de Comando e Estado
Maior do Exército
-, sem saber o que me esperava lá. A ECEME, como escola de preparação
para o comando, constitui-se no principal passo para o oficial que pretenda
um dia chegar ao generalato avançar na hierarquia. Para ingressar-se
em seu curso é necessário passar por uma rigorosa triagem,
que inclui, além de testes escritos, psicológicos e físicos,
já ter cumprido algumas etapas na escala hierárquica, devendo
estar o candidato no posto de major. Um oficial, para se tornar general,
necessariamente tem que passar pela ECEME. Portanto, ela acaba servindo
como um filtro institucional que, na seleção de alguns membros
- o que implica na exclusão de outros -, acaba determinando a formação
de uma "cúpula" de oficiais que têm a possibilidade de chegar
ao generalato
. Pertencem, portanto, a esta Escola, uma parte do Exército - senão
a sua própria "elite dirigente", pelo menos aquela elite que potencialmente
será "dirigente" do Exército em alguns anos. Então,
podemos nos perguntar [a] por que um pesquisador civil foi designado a
comparecer neste local e [b] como em suas atividades pode incluir-se esta
visita.
Cremos
que a primeira resposta passa necessariamente pelo Instituto Liberal e
suas atividades. Parece aí haver uma certa compatibilidade da noção
de "elite" que tanto o Instituto quanto o Exército articulam em
suas representações da sociedade e de si próprios.
Vale dizer que não somente este pesquisador, mas alguns professores
universitários - que talvez nesta concepção também
façam parte de uma "elite" - foram à ECEME via Instituto
Liberal. Diria que para este último, portanto, a ECEME estava sendo
considerada como uma parte da elite - a parte do Exército - capaz
de estabelecer uma ligação com outras elites sociais. Mesmo
assim, esta resposta é insuficiente, se não pensarmos em
sua contrapartida, que contempla a resposta de [b], que é, para
o Exército, uma instituição burocratizada e departamentalizada
em que idealmente os setores funcionariam organicamente, o que a ECEME
representa em relação a este tipo de atividade.