II-
Etnografia Religiosa Afro-Brasileira
O estilo
apurado da construção narrativa de Roger Bastide,talvez o
mais publicado e lido dos autores afro-brasileiros, pode ser constatado
em diversos escritos de sua vasta obra, mas em nenhum tão esmerado
como em "Imagens do Nordeste Místico" (1945),
um registro singelo e encantado de uma curta viagem pela Bahia e Recife,
durante a qual o autor descobriu um mundo novo aos seus olhos, constituído
por velhas igrejas barrocas, místicos candomblés e lúdicos
carnavais de rua. "Imagens", como o próprio Bastide definiu na Introdução,
não é "um livro de ciência pura, nem tampouco (...)
uma espécie de canto lírico". Na verdade lembra mesmo um
diário de viagem escrito no estilo próprio de surpresa e
encantamento, sentimentos pelos quais passam os turistas diante de lugares
e pessoas que transformam sua compreensão da vida. O título
do primeiro capítulo -"Bahia, a mística das pedras e da madeira
esculpida" -, revela em si o efeito de arrebatamento experimentado pelo
Autor diante do mundo observado. Mas sendo este principalmente um treinado
observador científico, o relato assume frequentemente a forma de
um estudo sistemático. Daí porque, diante da dificuldade
de classificação do texto, Geraldo de Freitas, na apresentação
do livro, lembra que "o leitor leigo desamparado dos conhecimentos da matéria,
terá de confiar na capacidade do autor do livro em ter se servido
de elementos seguros e informações certas".
Quando,
em 1958, Bastide publica "O Candomblé da Bahia", seu mais conhecido
estudo sobre o mundo dos candomblés, foi possível perceber
na obra uma continuidade do estilo desenvolvido em "Imagens", embora agora
a voz do cientista se fizesse ouvir mais alta, atenuando, assim, as ressalvas
lembradas por Geraldo de Freitas. "O Candomblé da Bahia", destinava-se,
ademais, a leitores nada leigos da Universidade de Paris, onde seu Autor
pretendia obter com a obra o grau de "Doctorat d'Etat". Como o próprio
Bastide afirma:
"Foi
em 1944 que pela primeira vez tomamos contato com os candomblés,
e na reportagem então reproduzida, dizíamos: "A filosofia
do candomblé não é uma filosofia bárbara,e
sim um pensamento sutil que ainda não foi decifrado" (Imagens do
Nordeste Místico, pág.134.). Foi ao estudo deste "pensamento
sutil" que nos dedicamos neste trabalho" (BASTIDE,1978:10).
Disposto
a decifrar este pensamento sutil, o qual, segundo o Autor, em nada ficava
a dever para a mentalidade lógica "dos ocidentais", e buscando ainda
interpretá-lo sem os conhecidos preconceitos ou etnocentrismos que
dominaram os estudos do negro e de sua religiosidade, Bastide descreverá
o candomblé enfatizando positivamente aqueles aspectos que julgava
demonstrar a preservação de uma tradição africana
pura encontrável principalmente nos terreiros nagôs da Bahia.
A valorização positiva destes terreiros- considerados verdadeiros
"pedaços da "Africa no Brasil"- levaria também Bastide a
iniciar-se no candomblé, adotando para si as concepções
desse pensamento religioso.
As
interpretações de Bastide, assim como as de muitos outros
de sua geração, representam, nesse sentido, uma exata inversão
daquelas interpretaçoes características dos primeiros estudos
sobre a religiosidade afro-brasileira, iniciados por Raimundo Nina Rodrigues,
em fins do século passado.
Para
Nina Rodrigues o estudo e a descrição das práticas
religiosas animistas fetichistas, tais como observadas por ele principalmente
nos terreiros nagôs da Bahia, serviam para demonstrar a incapacidade
mental dos negros africanos para as elevadas abstrações do
monoteismo. Para Bastide, ao contrário, o pensamento africano foi
visto como um pensamento culto, e tanto as descrições de
Nina Rodrigues (devidamente despojadas de preconceitos raciais) como aquelas
realizadas a partir de suas próprias observações,
deveriam demonstrá-lo. Assim, em "O Candomblé da Bahia" os
mesmos terreiros descritos em Nina Rodrigues como sinal de inferioridade
religiosa foram vistos agora como sobrevivência puras de concepções
ricas e complexas da filosofia do homem negro e do seu universo mítico.
Sem
dúvida que as diferentes interpretações propostas
por N. Rodrigues e R. Bastide sobre os mesmos dados etnográficos,
estão relacionadas com o quadro de referência teórica
do qual essas interpretações fazem parte e no interior do
qual tornam-se compreensíveis. A etnografia pioneira da bibliografia
afro-brasileira ("O animismo fetichista dos negros bahianos", Nina Rodrigues,
1990) surge em referência explícita ao evolucionismo europeu.
A geração dos anos 40 e 50 (de Bastide) buscaria influência
em graus variados do culturalismo americano e da antropologia simbólica
francesa - principalmente aquela interessada nas instituições
e mitologias das sociedades tradicionais africanas. Contudo, o que permite
entender a mudança de perspectiva interpretativa, conservando a
mesma base de demonstração etnográfica, é o
pressuposto subjacente às várias escolas de que a descrição
e a interpretação são dois momentos absolutamente
distintos e não reflexivos da pesquisa etnográfica, isto
é, que as descrições aparecem no texto de forma não
contaminadas pelas interpretações para as quais elas foram
efetivamente construídas. É o que, por exemplo, escreve Bastide
referendo-se tanto ao trabalho de Nina Rodrigues como a de seu seguidor
Arthur Ramos.
"Apesar
de todas essas falhas (preconceitos raciais), as obras de Nina Rodrigues,
ainda agora, não deixam de ser talvez as melhores publicadas sobre
o assunto, primeiro porque seus informantes pertenciam ao candomblé
mais tradicional,mais puramente africano de sua época, o candomblé
do Gantois; depois suas descrições do culto, das hierarquias
sacerdotais, das representações, coletivas do grupo negro,
são fiéis e sempre válidas. São sem dúvida
livros incompletos mas naquilo que descrevem, livros seguros" (ibidem:8).
"Arthur
Ramos desprendeu-se de todo e qualquer preconceito, quer de raça,quer
de religião. Ensinou os africanistas brasileiros o valor da objetividade
científica. Também trouxe sem dúvida uma interpretação,
efetuada através de teorias psicanalíticas; mas teve o grande
cuidado de separar radicalmente a descrição dos fatos da
interpretação que deles dá em seguida, à parte".
(ibidem:9).
Para
decifrar a "epistemologia africana", Bastide procurou recriar no texto
a atmosfera do mundo religioso nagô. Para o Autor o candomblé
representava um sistema harmonioso de participações, um conjunto
de elementos de origens diversas mas que formavam uma realidade autônoma
e coerente. Seu texto tentará portanto, apresentar este modelo integrado
do candomblé nagô, não hesitando para isso em utilizar-se
de dados provenientes das mais variadas regiões como Porto Alegre,
Maranhão, Recife, Cuba, Haiti e principalmente da "África
onde, aliás, se poderia buscar o "elo que faltava" para a explicação.
Suas descrições de festas públicas, sacrifícios,
oferendas e demais cerimônias aparecem, dessa forma, sem referência
circunstanciada ao lugar onde são praticadas e por quais grupos.
Para Bastide essa crítica às fontes não parecia, contudo,
uma necessidade de seu trabalho etnográfico. A explicitação
dos períodos e dos lugares onde foram realizadas as observações
de campo é feita em nota de rodapé de página, mostrando
nessa posição marginal do texto a pouca importância
que a revelação destes dados poderia ter, segundo o Autor,
em relação ao conteúdo dos enunciados do texto principal.
Do mesmo modo o texto não procura identificar e localizar os informantes
aos quais devem ser atribuídas as representações das
práticas rituais detalhadamente descritas. Quando a referência
torna-se necessária, essa aparece sempre como nota incidental. Isto
porque a narrativa parece não querer ser vista dentro dos limites
impostos pelas condições concretas de realização
da pesquisa ou fluxo dos comentários deste ou daquele informante;
pois se o social é a imagem da organização religiosa
baseada na visão mística do mundo (a tese principal da obra),
cabe à narrativa organizar esta imagem num modelo ficcional ordenador.
O caso do poste central é um exemplo inequívoco desta perspectiva.
Bastide assinala nos terreiros da Bahia (quais?) a presença de um
poste central que testemunharia a importância de um determinado simbolismo
da criação. Mas ao que parece esta conclusão não
é tirada da narrativa de seus informantes, mesmo porque, segundo
o Autor, estes poderiam já ter esquecido o significado (ibidem:84).
Contudo, estando o simbolismo seguramente registrado nos textos de J. Romain
para o Haiti, de Frobenius para a Nigéria e de F. Ortiz para Cuba,
o autor julga estar garantida a pertinência de sua aplicação
também para o candomblé da Bahia, ou ao menos para o "modelo
textual" deste candomblé.
Esta
atitude singular de autoridade do etnógrafo capaz de resgatar o
simbolismo subjacente (ou inexistente) ao discurso do Outro, faz com que
Bastide frequentemente use, no interior do seu discurso científico,
expressões um tanto ambíguas, as quais visando conferir veracidade
aos fatos descritos, resvalam para situações não aferíveis
pela demonstração empírica. Essa delicada questão
dos recursos literários utilizados pelo Autor deve ser exemplificada
por algumas citações. Os trechos abaixo foram retirados de
"O Candomblé da Bahia", no qual Bastide escreve sobre alguns assuntos
como: - o tabu da menstruação no candomblé:
"A
iaô não poderá... ser possuída (pelo orixá)
enquanto estiver neste estado e, se alguma mulher menstruada penetra no
santuário no decorrer da festa, imediatamente os tambores desafinam".
(ibidem:153,
grifo meu).
- o tabu
do relacionamento sexual entre membros do mesmo terreiro:
"Com
efeito, o babalorixá temeria muito atrair a cólera divina
com a violação de um ehó (incesto religioso) e a punição
de seu ato seria de fato automática". (ibidem:40,
grifo meu).
- o destino
do orixá após a morte do iniciado:
"Tudo
depende sem dúvida do estado de espírito do orixá,tomado
de dois sentimentos contraditórios: de um lado, o medo da morte
que o faz fugir para o mais longe possível, de outro lado, o desejo
de possuir novo cavalo que continue seu culto; não se pode saber
de antemão qual das tendências acabará por arrastá-lo".
(ibidem:59, grifo meu).
- os espíritos
dos mortos:
"Na
sala tudo foi preparado... o babasalã, isto é, aquele que
chama e manipula os egum, tem na mão um bastão, o incha,
e o coloca entre o lugar da assistência e o lugar dos egum, para
que estes não possam abandonar o local que lhes é privado.
Então o Espírito aparece... e a aparição canta.
Creiam-me. Não se trata de um homem fantasiado. Escutei-lhe
a voz." (ibidem: 142,
grifo meu).
As afirmações
compreendidas nestes trechos - que os tambores desafinam, as aparições
cantam etc. - são sem dúvida formulações de
religiosos que orientam suas ações segundo a crença
na veracidade desses enunciados. E não pretendemos aqui duvidar
da importância dessas afirmações para quem as emite.
Ao contrário, o que deve ser apontado é o modo como no texto
etnográfico essas explicações êmicas (do universo
do pesquisado) não são distinguidas daquelas de que se serve
o Autor para propor uma sistematização objetiva (uma interpretação
científica) no âmbito da qual as representações
coletivas e os fatos sociais devem ser situados.
Os
diferentes níveis do discurso borram-se em suas fronteiras não
demarcadas. O que deve, afinal, concluir o leitor ao defrontar-se com acontecimentos
religiosos descritos com a ênfase dada por expressões do tipo
"imediatamente", "de fato", "creiam-me" e outras presentes no texto, ditas
pela voz supostamente "isenta" e "imparcial" do Autor etnográfico
sobre o qual pesa o dever de elaborar uma descrição real,
fiel e externa dos fatos por ele observados?
De
certo modo, as consequências da omissão das condições
de produção das descrições e da impossibilidade
de se separar na narrativa as categorias nativas das científicas
têm sido percebidas por vários críticos da obra de
Bastide, que reagem desconfiados diante do modelo altamente integrado e
abstrato de candomblé apresentado. Contudo, essas críticas
não têm procurado mostrar como este modelo ganhou consistência
através das estratégias específicas de descrição
textual e interpretação dos dados etnográficos e serviram
para consolidar certas tendências de tratamento do material afro-brasileiro
que já se apresentavam, de modo incipiente, desde as obras de N.
Rodrigues até a de seus seguidores como Arthur Ramos e depois Edison
Carneiro. Todos eles, tomando os terreiros de tradição nagô
como base de demonstração empírica, acabaram explicando
o grupo em função das categorias presentes no discurso do
próprio grupo, ao invés de explicar estas em função
das categorias da reflexão científica. Em todo caso, podemos
dizer que já se insinuam no horizonte desta crítica referências
à necessidade de uma análise de discurso para desconstruir
o texto etnográfico em termos das posições ocupadas
pelo narrador e personagens e das condições nas quais são
produzidos os enunciados presentes na obra etnográfica. Mesmo porque
não devemos supor que Bastide fosse ingênuo com ralação
às condições sob as quais os conhecimentos religiosos
são transmitidos no candomblé. Ele próprio sabia que
a vida religiosa é dominada por um intenso intercâmbio baseado
na reciprocidade e que a "cada conhecimento novo obriga forçosamente
a novos encargos ou o que é melhor, a novos deveres que podem ser
financeiros" (ibidem: 56). Porém no texto de "O Candomblé
da Bahia" não vemos nem os sujeitos dessa troca, nem a situação
que a preside e constrange. Assim, na construção textual
bastidiana os artifícios para enfatizar o seu acesso a metafísica
africana, além dos limites da experiência de fé de
pessoas concretas ou mesmo percebendo essa metafísica onde as transformações
poderiam ter transformado seu significado (como no caso do poste central),
foram postos a serviço daquilo que Strathern apropriadamente designou
de "ficção persuasiva" etnográfica. E mesmo a própria
experiência iniciática de Bastide, cuja descrição
poderia fornecer aos leitores uma maior compreensão dos pontos de
vista assumidos pelo autor, não mereceu mais que uma nota de rodapé
de página (ibidem:156), muito embora saibamos que é pela
importância e significados atribuídos pelo cientista aos fatos
rapidamente mencionados nesta nota que o sentido de muitas palavras do
texto se explica.
A enorme
influência exercida pelo estilo etnográfico bastidiano sobre
os autores dos temas afro-brasileiros nos anos 60, pode ser verificado
num texto exemplar, no qual esse estilo foi tão amplamente seguido
e ampliado, chegando mesmo a constituir-se num princípio metodológico
defendido na introdução de "Os Nagôs e a Morte" de
Juana Elbein dos Santos.
"Os
Nagôs" trata das representações sobre a morte tal como
formuladas no culto aos Egum (espírito dos mortos) praticado por
poucos e restritos grupos da comunidade religiosa afro-baiana, nos quais
o marido da Autora, e também um dos seus principais informantes,
ocupa lugar de destaque. A continuidade que a obra de J. Elbein estabelece
com a de Bastide pode ser constatada em vários aspectos: o modo
como a Autora estabelece a autoridade na interpretação do
grupo estudado, subsume a voz dos informantes, articula dados locais dos
"três principais terreiros nagôs da Bahia" com aspectos da
realidade religiosa africana, faz a exegese de textos sagrados iorubanos
provenientes da Africa para explicar o significado de práticas dos
grupos religiosos brasileiros e finalmente não contextualiza as
condições de coleta das informações.
Assim,
da mesma forma que em Bastide, o conhecimento religioso surge no texto
de Elbein como um sistema altamente organizado e dinâmico, ou para
usar os termos da Autora, como um "complexo cultural nagô".
Um
aspecto novo e importante que mereceu destaque em "Os Nagô", foi
a exposição no texto de um princípio metodológico
- o da iniciação religiosa do cientista -, como um atributo
da pesquisa de campo na área das religiões afro-brasileiras,
o que de um certo modo visava potencializar a autoridade etnográfica
do pesquisador.
Na
verdade, o pressuposto de uma certa participação também
"religiosa" do pesquisador na vida do grupo estudado já se apresentava
de forma latente desde a obra de Nina Rodrigues até a de seus seguidores,
muitos dos quais ocupando cargos religiosos nos terreiros, como Arthur
Ramos, Edison Carneiro etc. Em Bastide essa participação
resultou de sua identificação pessoal, do desejo de "nascer
de novo (através da iniciação) no âmago de uma
civilização diferente da sua" (PEREIRA
De QUEIROZ, 1983:20). De qualquer forma a participação
do pesquisador enquanto religioso sempre foi tida como um ponto de controvérsia
e vista muitas vezes como contingência inevitável do envolvimento
do cientista com seus informantes, mas é somente a partir do texto
de "Os Nagôs" que essa participação tornar-se-á
fonte para a legitimação das etnografias construídas
a partir da visão diferenciada ("desde dentro") que somente (ou
principalmente) os etnógrafos iniciados detêm, e que portanto
podem falar de maneira autorizada e com autoridade.
"Devido
a que a religião Nagô constitui uma experiência iniciática,
no decorrer da qual os conhecimentos são apreendidos por meio de
uma experiência vivida no nível bipessoal e grupal, mediante
um desenvolvimento paulatino pela transmissão e absorção
de uma força e um conhecimento simbólico e complexo a todos
os níveis da pessoa, e que representa a incorporação
vivida de todos os elementos coletivos e individuais do sistema, parece
que a perspectiva que convencionamos chamar "desde dentro" se impõe
quase inevitavelmente". (ELBEIN
dos SANTOS, 1977: 17).
Curioso
que a mesma perspectiva deve ser ainda estendida para os outros textos
usados como fonte bibliográfica de referências:
"As
referências bibliográficas reduzem-se ainda mais, porque preferimos
escolher os trabalhos escritos por pessoas que pertencem à cultura
em questão, ou que foram "iniciados", ou que, ao menos, tiveram
uma convivência prolongada em contato com esta cultura". (ibidem:23).
Mas para
garantir a veracidade e o valor científico das asserções
advindas desta perspectiva "desde dentro", seria preciso ainda que um outro
movimento "desde fora" fosse executado, agora conscientemente:
Estar
iniciado, aprender os elementos e os valores de uma cultura "desde dentro".
mediante uma inter-relação dinâmica no seio do grupo,
e ao mesmo tempo poder abstrair dessa realidade empírica os mecanismos
do conjunto e seus significados dinâmicos, suas relações
simbólicas, numa abstração consciente "desde fora",
eis uma aspiração ambiciosa e pouco provável. Em todo
caso o presente estudo pretende ver e elaborar "desde dentro para fora".
(ibidem:18).
E é
a essa aspiração - de escrever desde dentro para fora - que
são dedicadas as 240 páginas de "Os Nagôs e a Morte".
Porém, infelizmente, ao longo delas raros são os momentos
que o leitor pode perceber, de fato, a "inter-relação no
seio do grupo" se dando entre pessoas concretas e sob condições
específicas que determinam o processo de aprendizado dos valores
religiosos da cultura experimentada.
De
qualquer modo ao final da leitura de "Os Nagô", a riqueza do material
compilado juntamente com a esmerada interpretação etnológica
proposta, não deixa de causar ao leitor a impressão de que
se está diante de um texto sobretudo sagrado, como aquelas escrituras
recuperadas de alguma arca a muito desaparecida através dos tempos.
Nesta
linha de textos etnográficos, escritos por observadores participantes
"iniciados", encontram-se também os textos de Pierre Verger, que
como Bastide, francês de origem, descobre o candomblé por
volta dos anos 40, quando então inicia suas pesquisas nos mais afamados
terreiros nagôs da Bahia, vindo, posteriormente, a participar da
vida religiosa de um deles, o Axé Opô Afonjá.
Suas
constantes viagens à Africa Ocidental, com estadia principalmente
entre o povo iorubá da Nigéria e do Benin, fizeram com que
seus trabalhos, publicados a partir dos anos 50, evidenciassem a continuidade
existente entre o culto africano dos orixás e a prática religiosa
dos terreiros nagôs baianos. Seu texto mais conhecido, publicado
em português com inúmeras ilustrações fotográficas
-"Orixás"- propõe exatamente "comentar e mostrar certos aspectos
do culto aos Orixás, deuses dos iorubás, em seus lugares
de origem, na África (Nigéria, Ex-Daomé e Togo) e
no Novo Mundo (Brasil e Antilhas), para onde foram levados, em séculos
passados,pelos escravos". (VERGER,1981:11).
No
caso de Verger à condição de iniciado do etnógrafo
aparece já no próprio nome com que este assina seu texto:"Pierre
Fatumbi Verger". O que nos é explicado no prefácio do livro:
"Pierre
Fatumbi Verger, a quem se deve este minucioso trabalho, viveu durante dezessete
anos em sucessivas viagens, desde 1948, pelas bandas ocidentais da Africa,
em terras iorubás. Tornou-se babalaô em Keto, por volta de
1950, e foi por essa época que recebeu de seu mestre Oluwo o nome
de Fatumbi: "Aquele que nasceu de novo (pela graça de) Ifá".
(ibidem:5).
Não
devemos subentender, contudo, que o Autor defenda o processo iniciático
como condição do trabalho etnográfico. Ao contrário,
Verger não compartilha dos pressupostos de uma "antropologia iniciática"
como aquela defendida entre outros, por Juana Elbein. Aliás o Autor
não atribui aos seus escritos uma finalidade teórica de interlocução
com quaisquer tendências do pensamento acadêmico (inclusive
antropológico).
Assim,
não estando entre os objetivos do texto vergeriano "teorizar" (ao
menos antropologicamente) os elementos que constituem seu quadro descritivo
etnográfico, é possível lê-lo como registro
"objetivo" e textual da realidade religiosa da África e do Brasil.
O que não significa dizer, contudo, que implicitamente suas descrições
não estejam orientadas segundo constrangimentos que inexoravelmente
atuam na produção do conhecimento em campo e na passagem
deste conhecimento para a forma escrita. Além do que, o processo
de observação é sempre seletivo segundo as perguntas
(não necessariamente teóricas) que o pesquisador faz ã
realidade ao observá-la.
As
afirmações contidas no prefácio de "Orixás",
citado acima - o período de 17 anos de inúmeras viagens à
África nas quais o Autor "viveu" entre os iorubás e que culminaram
com sua iniciação - servem assim para anunciar e legitimar
a experiência de campo do pesquisador, na qual certamente se baseiam
as descrições etnográficas, mas que desaparece, enquanto
experiência circunstanciada, ao abandonarmos a página do prefácio
e iniciarmos a leitura do texto. Não veremos, por exemplo, o Autor
articulando sua própria experiência iniciática com
os dados do seu "minucioso trabalho" etnográfico, e não ouviremos
também as inúmeras vozes dos informantes, que ao longo desses
17 anos atuaram no diálogo entre o pesquisador e religiosos, e que
sustentam a descrição proposta no texto. E sem as referências
a estes determinantes que envolvem o discurso etnográfico, o texto
acaba por constituir-se num feixe de imagens (fotográficas e textuais)
e entendido como uma realidade objetivamente alcançada e representada
pelo autor. Nesse sentido os textos etnográficos, construídos
segundo as estratégias que procuramos exemplificar a partir dos
textos de R. Bastide, J. Elbein e P. Verger, passam a ser vistos como retratos
absolutos da realidade religiosa descrita.
Para
concluir, veremos a seguir alguns desdobramentos destas questões
relativas ao texto e sua repercussão entre os informantes que também
são leitores das etnografias.
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