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José Carlos Gomes da Silva
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A
vida cotidiana dos jovens das camadas populares nas metrópoles brasileiras
apenas recentemente tornou-se objeto de investigação entre
os cientistas sociais. Os estudos pioneiros sobre a periferia realizados
nas décadas de 1970-1980 (Sader, 1988, Telles,
1988) registraram uma multiplicidade de atores sociais, mas em nenhum momento
referiram-se aos jovens enquanto um grupo social específico. O contexto
era o da luta pela cidadania política articulada a reivindicações
concretas: saneamento básico, legalização de terrenos
clandestinos e transportes coletivos. Movimentos por saúde na Zona
Leste, contra a carestia na Zona Sul, associação de moradores
de bairro em diferentes espaços, inauguravam uma nova forma de atuação
à margem dos partidos oficiais instituídos pelo regime ditatorial.
Nos
anos 90 o cenário mudou radicalmente. Situações traumáticas
relacionadas com a violência urbana, como rebeliões na FEBEM,
ações do narcotráfico e de grupos de extermínio,
revelaram que os jovens haviam se tornado personagens centrais de um problema
de proporções alarmantes. Simultaneamente, porém,
uma segunda dimensão do fenômeno passou a ser registrada.
Produções artísticas como o grafite, pichações,
rodas de break e shows musicais, que progressivamente passaram a integrar
a paisagem urbana, revelaram outras modalidades de intervenção
no cenário urbano.
Os
dramas dos jovens vitimados pela violência permaneceram circunscritos
ao noticiário da grande imprensa. Coube às Ciências
Sociais o estudo das produções simbólicas, concentrando-se
na esfera do lazer. Os estudos de Caiafa (1985)
e Hermano Vianna (1988) foram nesse sentido, pioneiros,
mas um conjunto de contribuições igualmente importantes asseguraram
a continuidade do tema (Costa, 1993; Kemp,
1993; Abramo 1994;
Diógenes,
1998). Aspectos relacionados com as diferentes modalidades de constituição
das identidades juvenis passaram a integrar a pauta das etnografias. Os
bailes funk, os shows de rock, o universo da cultura hip hop, as tatuagens
e o corte de cabelos dos punks, entre outras expressões sonoras
e visuais foram analisadas de forma detalhada.
As
recentes pesquisas quantitativas produzidas nos últimos anos por
instituições como a Fundação SEADE e o IBGE
revelaram que a violência embora não contemplada pela pesquisa
acadêmica permaneceu como um aspecto fundamental da condição
juvenil. Os números confirmam que a juventude tem sido o segmento
social mais atingido pelas mortes violentas. Essa questão agora
admitida como um problema social de extrema gravidade, foi anteriormente
apreendida no plano do sensível pelos jovens filiados ao movimento
hip hop .
Ainda no início dos anos 90, mesmo não dispondo de dados
objetivos, os rappers produziram as primeiras narrativas sobre as situações
dramáticas que presenciavam nos bairros periféricos. Antecipando-se
aos dados oficiais, descreveram um quadro preocupante de perdas de vidas
humanas entre a juventude pobre que classificaram como holocausto urbano.
Sabemos agora que essa expressão não era um mero exagero
de retórica, mas expressão de um sentimento íntimo
sobre a cruel realidade que se configurava.
Juventude
e cidade
As
informações sistematizadas pelo IBGE indicam que passamos
nas últimas décadas por uma revolução urbana
de proporções consideráveis, e que a reordenação
do perfil socioeconômico das metrópoles brasileiras, tem contribuído
para a emergência da juventude como uma categoria social expressiva.
A tabela abaixo demonstra que atualmente quase 80% dos jovens se encontram
nos centros urbanos.

A
presença massiva dos jovens nas cidades não é um fenômeno
apenas de natureza demográfica. A violência revelada pelos
indicadores sobre “mortalidade por causas externas”, item que inclui os
acidentes de trânsito, homicídios e suicídios, atingiu
proporções de tal ordem que alterou inclusive o perfil histórico
de óbitos no segmento juvenil.
Estudos
históricos realizados em São Paulo e Rio de Janeiro mostram
que as epidemias e doenças infecciosas que eram as principais causas
de morte entre jovens há cinco ou seis décadas, foram sendo
progressivamente substituídas pelas denominadas “causas externas”
de mortalidade, principalmente os acidentes de trânsitos e homicídios
(Waiselfisz, 2004, p. 26).
Nesse
aspecto os números sobre a experiência juvenil impressionam.
Quando dividimos a população total em grupos de idade, o
quadro comparativo torna ainda mais evidente a situação específica
que atinge a juventude. Considerando-se como o grupo dos jovens a tradicional
faixa etária entre 15 e 24 anos; não-jovens o intervalo entre
0 a 14 anos e adultos aqueles que se encontram entre 25 e mais anos, constatamos
que no Brasil 72% das mortes verificadas no grupo dos jovens são
decorrentes de “causas externas”. (Mapa da violência
IV, p.26).
Os
números sobre mortalidade entre jovens referentes à região
sudeste permitem avaliar o estado da questão na área de maior
concentração populacional do país. Excetuando-se Minas
Gerais, todos os demais estados apresentam percentuais superiores aos 72%
da média nacional (cf. tabela 2). Mas embora os acidentes de trânsito
e suicídios integrem o universo pesquisado, são os homicídios
os principais responsáveis pelas elevadas taxas de mortalidade juvenil.
São Paulo apresenta, por exemplo, nesse quesito um percentual aproximadamente
quatro vezes superior aos acidentes de transportes e no Rio de Janeiro
essa mesma relação se revela cinco vezes maior.

A
partir do Índice de Vulnerabilidade Juvenil (IVJ) ,
categoria elaborada pelo projeto “Fábrica de Cultura”, desenvolvido
pela Fundação SEADE/SP, procuramos avaliar o fenômeno
da violência juvenil de forma mais específica na metrópole
paulistana. Observamos que os bairros mais pobres das periferias da Zona
Sul e Leste concentram os percentuais mais expressivos de homicídios
de jovens, confirmando que o quadro de carências sociais os tornam
mais expostos à cooptação pelo crime organizado, sujeitos
à violência policial e alvos dos grupos de extermínio.
Cumpre
destacar que entre os 20 bairros paulistanos que registram elevados IVJ,
08 se encontram na região Sul, a saber: Marsilac, Jardim Ângela,
Grajaú, Parelheiros, Pedreira, Capão Redondo, Cidade Ademar
e Jardim São Luís. Esse universo corresponde praticamente
à metade do total dos distritos de maior vulnerabilidade da capital
paulista. Selecionamos da tabela geral da Fundação SEADE
apenas os índices mais expressivos no sentido de proporcionar uma
visão comparativa com outras localidades. Os bairros da Zona Sul
aparecem destacados em negrito.
Quando observamos a violência
juvenil a partir do critério étnico-racial verificamos que
o fenômeno também tem cor. Os dados do M
apa
da Violência confirmam que ser jovem e negro potencializa as chances
de se tornar vítima da violência em qualquer metrópole
brasileira. Não dispomos no momento de indicadores sobre homicídios
de jovens negros na cidade de São Paulo, porém, as informações
embora se refiram ao quadro nacional e sub-regiões, revelam que,
Se no conjunto da população
a vitimização de negros já é severa, entre
os jovens de 15 a 24 anos o problema agrava-se ainda mais. A taxa de homicídios
dos jovens negros (68,4 em 100.000) é 74% superior à taxa
de jovens brancos (39,3 em 100.000) (Waiselfisz,,
2004, p. 68).
A
tabela 4 apresenta dados sobre homicídios entre jovens nos estados
da região sudeste correlacionados com a variável étnico-racial.
Quando observamos as taxas de homicídio entre negros e brancos nos
referidos universos verificamos que os negros encontram-se em situação
destacada. Os percentuais que ostentam são aproximadamente o dobro
do segmento branco nos estados de Minas Gerais e São Paulo e o triplo
nos estados do Espírito Santo e Rio de Janeiro.

Conclui-se
que os jovens têm sido vítimas preferenciais da violência
e que os negros representam o segmento mais vulnerável. Mas esta
não é uma questão meramente circunstancial. Trata-se
de um fenômeno que confirma tendências do racismo vigente na
sociedade brasileira combinado com mudanças estruturais que se verificam
nas grandes metrópoles.
No
caso específico da cidade de São Paulo as transformações
urbanas quando articuladas à reestruturação socioeconômica
possibilitam compreender alguns aspectos mais específicos do atual
quadro de violência enfrentado pela juventude. Novas concepções
sobre a vida urbana e a redefinição do perfil histórico
de cidade industrial reconfiguraram o modelo anterior de segregação
urbana e criaram novas tensões no espaço público.
A
antiga forma de organização do urbano foi gestada sob a hegemonia
da indústria. A forte atração exercida sobre os migrantes
de diferentes estados, que atingiu o auge nas décadas de 70 e 80,
resultou em uma planta urbana espacialmente recortada entre o centro e
a periferia. Essa estrutura reproduzia em termos espaciais a separação
entre ricos e pobres. Mas até então, alguma possibilidade
de mistura entre as classes sociais podia ser identificada no centro urbano,
garantida pela presença de atividades relacionadas com o mercado
financeiro, consumo e lazer. Porém, nas últimas décadas
São Paulo deixou ser uma cidade industrial. A grande onda migratória
dos anos 70 refluiu. A cidade tornou-se policêntrica e uma nova ordem
econômica passou a gravitar em torno das grandes corporações
financeiras e do setor de consumo (Frúgoli,
2000).
A
reestruturação econômica foi responsável por
alterações na organização dos espaços
de moradia, trabalho, lazer e consumo. Uma nova forma de segregação
socio-espacial emergiu, apresentando como característica principal
a contiguidade entre os espaços outrora separados geograficamente
(Caldeira, 2000). Por meio da fortificação
do espaço urbano, com erguimentos de muros, cercamento de ruas,
instalação de guaritas, monitoramento eletrônico e
segurança privada, a aproximação espacial entre as
áreas nobres, as chamadas “zonas de guerra” (Sassen,
1996) e a periferia tornou-se possível. Paisagens urbanas como a
que se estruturou em torno da Avenida Berrini foram edificadas em consonância
com os novos parâmetros defensivos da arquitetura pós-moderna,
cujos projetos se orientam para a satisfação das demandas
dos setores privados (Harvey, 1989, p. 78). Seguindo
essa tendência, grandes shoppings centers e condomínios fechados
foram construídos próximos a favelas e bairros periféricos.
Nos
espaços próximos ou distantes dos bairros nobres organizaram-se
as chamadas “zonas de guerra”. Nesses locais a ação de grupos
criminosos passou também a responder por uma ordenação
especial da vida pública. Cadeados, lanças e muros expressam
do ponto de vista dos pobres o novo cenário da cultura do medo (Caldeira,
2000). A “lei do silêncio” e “o toque de recolher” tornaram-se os
principais símbolos da deterioração do espaço
público. Os micropoderes locais em sua teia de ramificações
difusas, conforme as formulações de Michel
Foucault (1979), instauraram uma nova relação de dominação
e vigilância alheia ao Estado. Traficantes, “justiceiros” e policiais
corruptos têm sustentado um quadro de insegurança que atinge
de maneira indistinta o cidadão comum.
A
nova segregação urbana apoiada em estratégias defensivas,
armamento da população, sistemas de vigilância e controle
dos indivíduos se coloca do ponto de vista das elites como uma resposta
à violência, mas é certo que essa atitude na edificação
do urbano tem contribuído para o aumento progressivo do quadro de
agressões que se traduz no elevado número de homicídios.
A ação violenta aparece nos espaços nobres dissimulada
pelo emprego das novas tecnologias e patrulhamento ostensivo do exército
de seguranças privados, enquanto do outro lado da cidade murada,
isto é, nas “zonas de guerra”, denominada pelos rappers de
“campo minado”, os micropoderes locais amiúde empregam mecanismos
menos sutis, como chacinas, execuções sumárias, listas
de condenados à morte. Embora o controle dos cidadãos se
desenvolva nos distintos espaços sociais empregando meios específicos,
os resultados são análogos. Confirmam que as noções
clássicas articuladas em torno da garantia da vida e da liberdade,
que desde o renascimento urbano orientaram a edificação das
cidades, encontram-se ameaçadas: o desrespeito aos direitos humanos
e a inviabilização da cidadania, enquanto conjunto de direitos
iguais assegurados a todos, estão sendo na prática contestados.
A
interpretação dos rappers
As
músicas produzidas pelo grupo de rap Racionais MC’s
são exemplares da compreensão que os jovens adquiriram sobre
os processos globais que passaram a estruturar a vida na metrópole
paulistana. As composições narram situações
reais comuns ao cotidiano das periferias em que a violência aparece
como tema central. Os autores recorrem freqüentemente a imagens e
sons que integram cenas da vida diária e as musicalizam: sirenes,
tiros, vozes, recortados por meio do sampler ,
reforçam o realismo de situações recorrentes na periferia,
como o trágico destino de um ex-presidiário narrado em Homem
na estrada; as chacinas em bares, minuciosamente descritas em Mano na porta
do bar; a violência policial abordada em Pânico na Zona Sul .
O
sucesso obtido pelos Racionais MC’s junto às camadas populares se
relaciona com a capacidade de produzirem um discurso esteticamente diferenciado
em que se posicionam como intérpretes dos problemas experimentados
pelos moradores dos bairros pobres. Mano Brown, o principal integrante
do grupo, tornou-se conhecido pelas composições em que denuncia
o estado de abandono da periferia, mas é inegável que desempenha
também o papel de liderança política representativa
de um novo tempo. A experiência de vida na localidade é o
que confere legitimidade política ao discurso musical. Os rappers
assumem, assim, a condição de porta-vozes de um universo
silenciado pelos meios de comunicação e ignorado pelo poder
público.
O
tipo de documentação que produzem é, portanto, de
natureza pessoal, biográfica e intransferível. Resulta do
processo de criação de narrativas diretas sobre a vida urbana
até então não autorizadas aos segmentos populares.
Rompem assim com uma tradição da música popular brasileira
de reconhecer apenas nos autores consagrados pela indústria fonográfica
a legitimidade para abordar os problemas sociais e políticos.
O
rap paulistano se estruturou em um circuito alternativo, sustentado por
pequenos selos originários da black music que se firmou no cenário
paulistano a partir dos anos 70. Não reivindica por opção
política a legitimidade conferida pela grande indústria fonográfica.
As letras incorporam expressões locais peculiares ao universo social
em que geralmente são ouvidas. Nesse caso, a mensagem é sempre
singular, autoral. O que importa não é a interpretação,
mas a natureza política do ato de compor, por isso os rappers não
cantam músicas de outros grupos, mesmo que tenham logrado sucesso
popular. A atitude cover é considerada incompatível com a
filosofia do hip hop, pois a razão maior para se integrar ao grupo
é exatamente o princípio de “levar uma mensagem positiva
para os manos”. Como no fazer musical a trajetória de vida é
essencial, aqueles que não possuem origem na localidade experimentam
dificuldades em se legitimar .
Um
exemplo revelador da posição assumida pelos rappers enquanto
cronistas do cotidiano é a música
Pânico na Zona
Sul (Racionais MC’s, 1990). Trata-se de uma narrativa realista sobre
as situações micropolíticas características
das “zonas de guerra”. Os problemas da violência urbana hoje registrados
pelos institutos de pesquisa, e que apontam os jovens como as principais
vítimas dos homicídios, são interpretados a partir
do testemunho pessoal. A aliança entre justiceiros e policiais corruptos
atuando enquanto forças paramilitares; o tema da delinqüência,
como justificativa ideológica para o extermínio dos jovens;
as armas de fogo como instrumentos da prática violenta, revelam
no discurso musical uma nova consciência sobre a nova realidade urbana,
resumida, a propósito, no título do LP: Holocausto Urbano
(1993).
Pânico na Zona
Sul
(Mano Brown, LP Holocausto Urbano,
1990)
(...)
Então, quando o dia escurece,
só quem é de lá sabe o que acontece.
Ao que me parece prevalece a ignorância,
e nós... Estamos sós.
Ninguém quer ouvir a nossa
voz.
Cheia de razões, os calibres
em punho, dificilmente um testemunho vai aparecer
E pode crer, a verdade se omite,
pois quem garante o meu dia seguinte?
Justiceiros são chamados,
por eles mesmos, matam, humilham e dão...Tiros a esmo.
E a polícia não demonstra,
sequer vontade, de resolver ou apurar a verdade.
Pois simplesmente é... conveniente.
Porque ajudariam se nos julgam delinqüentes?
As ocorrências prosseguem
sem problema nenhum.
Continua-se o pânico na Zona
Sul.
(...)
As
situações desumanas que constatam na periferia não
a tornam um local a ser repudiado. Ao contrário, a identificação
com os espaços marginalizados surge no rap como contra-face ao estado
de abandono. O sentimento de pertença é enfatizado em diferentes
momentos. O mapa da cidade destacando os bairros do Capão Redondo,
Jardim São Luís, Campo Limpo e as suas diferentes subdivisões,
foi inserido no encarte do primeiro CD (Racionais MC’s, 1996) com esse
propósito. Embora seja uma mera reprodução da planta
urbana, o registro teve grande impacto entre os jovens, pois projetou positivamente
a região. As músicas também homenageiam os bairros
pobres por meio de citações afetivas, conforme verificamos
na expressão de Mano Brown: “É lá que moram os
meus irmãos, meus amigos e a maioria por aqui se parece comigo”
(Fim de semana no parque, Racionais Mc’s, 1996).
Os
rappers expressam também o vínculo afetivo com o lugar por
meio de referências pessoais a amigos e vizinhos. Nas capas dos discos
as listas de agradecimentos e dedicatórias são extensas.
A inclusão de fotos de jovens atingidos pela violência cumpre
duplamente a função de indicativo de pertença e protesto
contra a impunidade. O registro de fotografias, como em Sobrevivendo no
Inferno, se coloca como um ato político, pois fixam a indignação
contra o esquecimento e o descaso em punir os homicidas.
Sabemos
que o rap é uma expressão musical característica de
um momento de internacionalização da música popular,
mas fica evidente também que adquiriu internamente características
próprias. Nos limites da periferia assumiu as feições
de um movimento em defesa da vida. Através de estratégias
distintas os músicos têm procurado evitar que as identidades
individuais daqueles que foram mortos sejam diluídas no conjunto
frio dos números arrolados pelas estatísticas. O próprio
rapper Mano Brown se auto-refere nos encartes dos CDs e shows por meio
da expressão: aqui quem fala é mais um sobrevivente,
porque é essa a sensação que se tem na periferia paulistana
após a ultrapassagem do período crítico entre 15 e
24 anos. O depoimento abaixo é esclarecedor:
As vezes
eu vejo o Racionais tipo no meio de um inferno, cercado de uma pá
de coisas - tráfico de um lado, polícia que quer ferrar a
gente de outro, a inveja do outro, os playboys que querem pegar você
e te esmagar. Então cê tá no meio, driblando o tempo
todo prá sobreviver. É treta, é maluco que é
viciado, é mano que mata o seu camarada e pode querer vir atrás
de você também e você tá no meio. Ao mesmo tempo,
cê não quer se vender pro sistema dos caras e tem que conviver
com o sistema dos caras aqui embaixo também. Então é
como um desabafo de como você faz prá sobreviver no meio disso
tudo (Mano Brown, Caros Amigos, 3 1998).
A
referência ao sagrado presente no CD Sobrevivendo no inferno
(1997), pode ser também interpretada como uma conseqüência
indireta da violência que passou a dominar a vida na cidade. O tema
é mencionado em diferentes momentos. A escolha da faixa de abertura,
Jorge da Capadócia, revela a adesão ao candomblé
por membros do grupo, mas é também indicativa do crescimento
das religiões afro-brasileiras na periferia paulistana como legado
da grande onde migratória dos anos 70 .
Porém, outras referências, como a cruz estampada na capa do
CD, citações do Salmo 23, versículo 3 (“refrigere
minha alma e guia-me pelo caminho da justiça”), a inclusão
de músicas com títulos alusivos à Bíblia: Gênesis,
Capítulo
4 versículo VI, articulam um conjunto de elementos peculiares
ao domínio do religioso, recurso esse cada vez mais presente no
cenário de incertezas que predomina nas “zonas de guerra”.
A
temática racial mereceu também atenção especial
dos rappers paulistanos ainda na fase inicial (1990-1994). O tema foi abordado
originalmente no contexto norte-americano pela new school
à qual se filiam o grupo Public Enemy, NWA, KRS One,
Eric B e Rakin. A proposta musical que apresentaram contribuiu decisivamente
para a consolidação do rap como música de protesto.
Ícones da luta pelos direitos civis dos negros como Martin Luther
King, Malcom X, Black Panters, o islão, passaram a ser citados com
freqüência nas composições e videoclipes.
A música Voz Ativa (Racionais MC’s) é ilustrativa
dessa tendência no Brasil. As referências à luta pelos
direitos dos negros e aos símbolos afro-americanos internacionalizados
confirmam que os jovens redescobriam internamente a temática racial
através do olhar externo.
Voz Ativa
(Mano Brown/Edy Rock, LP Escolha
seu Caminho, 1992).
(...)
Precisamos de um líder de
crédito popular
Como Malcom X em outros tempos foi
na América
Que seja negro até os ossos,
um dos nossos
E reconstrua o nosso orgulho que
foi feito em destroços
Nossos irmãos estão
desnorteados
Entre o prazer e o dinheiro desorientados
Brigando por quase nada, migalhas
coisas banais
Prestigiando a mentira, as falas,
desinformados demais.
Chega de festejar a desvantagem
e permitir que desgastem a nossa imagem.
Descendente negro atual, meu nome
é Brown.
Não sou complexado e tal,
apenas racional.
É a verdade mais pura, postura
definitiva.
A juventude negra agora tem voz
ativa
(...)
A
compreensão das relações raciais no contexto norte-americano
permitiu aos rappers brasileiros conceber o racismo como uma experiência
comum aos negros na diáspora. A despeito das particularidades culturais
e lingüísticas, compreenderam que não existiam diferenças
significativas entre ser negro no Brasil ou nos EUA. A questão racial
passou a fundamentar-se internamente na perspectiva bipolar característica
do contexto norte-americano. A democracia racial brasileira tornou-se objeto
de questionamentos, sendo qualificada como uma máscara responsável
por dissimular as desigualdades reais existentes entre negros e brancos:
O Brasil é o país
mais inteligente para discriminar os “negros” e os pobres, por isso ele
é falso, aqui no Brasil se usa uma estratégia que vem funcionando
há mais de 400 anos certo! Que é mentir prá você,
que é para mostrar para aos “negros” e para o mundo que o Brasil
não é um país racista, e que aqui é o paraíso
da integração, e não é isso, há uma
máscara que esconde tudo isso, e não temos como provar, você
só consegue ver isso no dia-a-dia, nas atitudes das pessoas, na
atitude da polícia. Quando você vai arrumar um emprego, nos
papéis que os negros fazem nas novelas, nas revistas, nas grandes
modelos que aparecem (Mano Brown, Revista Mix: 6 , 40, 1997).
O
LP Raio X do Brasil inicia exatamente com um discurso de Mano Brown
confirmando a partir de dados estatísticos que a violência
no Brasil tem cor, e que são os negros o alvo preferencial. Apresenta
também um apelo aos jovens para que busquem informações
sobre a realidade social por meio do rap. A música é simultaneamente
apresentada como alternativa de lazer e veículo de conscientização
sobre as implicações da nova ordem social, genericamente
denominada de “o sistema”.
Racionais, usando e abusando
da nossa liberdade de expressão, um dos poucos direitos que o jovem
negro ainda tem nesse país. Você está entrando no mundo
da informação, auto-conhecimento, denúncia e diversão.
Este é o raio x do Brasil, seja bem vindo ( Mano Brown, Raio X do
Brasil, 1993).
A
atitude política a ser adotada naqueles momentos inaugurais deveria
orientar-se pelo auto-conhecimento. Na prática isto significava
adquirir formação literária complementar ou paralela
à educação oficial, pois os saberes que demandavam
não eram veiculados pelas escolas públicas. Desejavam, sobretudo,
obter conhecimentos sobre a cultura negra em geral e sobre as implicações
do racismo. Livros como Negras Raízes (Alex Haley), Escrevo
o que Eu Quero (Steve Byko); biografias de lideranças negras
internacionais como Martin Luther King e Malcom X; textos que discutiam
a especificidade do racismo brasileiro, especialmente produzidos por Joel
Rufino e Clóvis Moura, passaram a integrar a bibliografia pessoal
daqueles que se filiavam ao movimento hip hop. Adotaram ainda nesse primeiro
momento valores relacionados com o black is beautiful e com o orgulho
negro na perspectiva celebrizada por James Brown na frase I’m black
and I’m proud. Enfatizaram assim os laços com o movimento black
power dos anos 70 e se colocaram como continuadores das tradições
mais expressivas da black music .
Do
ponto de vista antropológico os problemas enfrentados atualmente
pelos jovens pobres e negros nos bairros periféricos são
decorrentes da desindustrialização da metrópole e
da segregação urbana que dividiu a cidade em guetos nobres
fortificados e o mundo da periferia (Caldeira,
2000). A música dos rappers tem feito a crítica dessa nova
ordem. Por meio de categorias próprias, denunciam o holocausto urbano
e ironizam os controles implantados pelos sistemas eletrônicos nos
shoppings centers, bancos e condomínios fechados. A partir de expressões
como é nóis na fita mano, referem-se à incapacidade
das novas tecnologias em deter os excluídos. Com as narrativas sobre
o mundo da periferia os rappers pretendem romper com o silenciamento sobre
os problemas enfrentados nas “zonas de guerra”. Os jovens ao serem submetidos
ao desemprego e privados dos sistemas de apoio social, como saúde,
educação e segurança, cujos financiamentos foram drasticamente
reduzidos pelo poder público nos anos 90, tornaram-se prisioneiros
da crise social, expressa pelos indicadores crescentes de violência.
Atualmente
a classe média ao se ver também atingida começa reagir,
mas os problemas da violência que aparecem agora como uma novidade
há algum tempo são diretamente enfrentados pelos cidadãos
comuns na periferia. Sabe-se que nesse universo a crise social continua
sendo tratada como um caso de polícia. Diante do silêncio
indiferente da metrópole os rappers têm se colocado como os
principais porta-vozes da juventude. Algumas músicas são
claros manifestos em defesa da vida. O conteúdo dessa nova postura
pode ser localizado em frases simples e viscerais, como no exemplo: “periferia
segue sangrando e eu pergunto até quando?” (GOG, rapper de Brasília).
Professor
de Antropologia da Universidade Federal de Uberlândia
Notas
O hip hop é um movimento estético que articula três
expressões artísticas fundamentais: a arte gráfica
(o grafite), a dança (o break) e a música (o rap).
Originou-se no final dos anos 70 nos bairros negros novaiorquinos. Em São
Paulo as primeiras manifestações ocorreram em meados dos
anos 80 através da breakdance. Para uma análise mais detalhada
ver Silva (1998)
A escolha do termo ‘vulnerabilidade juvenil’ foi uma opção
àqueles utilizados de forma mais recorrente, como “adolescente em
situação de risco” ou “adolescente em situação
de exclusão social (...) a restrição ao uso do termo
“adolescente em situação de risco” decorreu do entendimento
de que este remete para a mensagem, preconceituosa, de que só os
pobres são vulneráveis (...). O termo ‘adolescentes em situação
de exclusão social’ é ainda mais enganoso, pois o que
ocorre não é propriamente uma exclusão, mas uma ‘inclusão
perversa’ ”(http\\www.seade.gov/ivj/principal.html,
p.1)
Principal grupo de rap nacional. Surgiu no final dos anos 80, sendo
integrado por Mano Brown, Ice Blue, Edy Rock e KLJ.
Instrumento eletrônico que permite recortar e colar sons em uma música.
Trata-se de um recurso fundamental para a construção das
bases sonoras do rap.
As músicas mencionadas estão presentes no CD Racionais MC’s,
Zâmbia, 1996. Reúne as produções anteriores
do grupo lançadas em LPs (Holocausto urbano, 1992 e Raio X do Brasil,
1993).
Tricia Rose (1994) discute este problema no contexto norte-americano a
partir de experiência do rapper Vanilla Ice, jovem branco de classe
média que encontra dificuldades em ser aceito como integrante do
movimento hip hop. Condição semelhante tem sido vivida no
plano nacional pelo rapper carioca Gabriel O Pensador.
Reginaldo Prandi (1991) apresenta um mapeamento quase exaustivo sobre o
candomblé na cidade de S. Paulo. Nota-se em sua descrição
a presença significativa dos terreiros nos bairros da Zona Sul.
Este movimento pode ser interpretado como reterritorialização
cultural da desterritorialização da população
afrodescendente nos anos 70 rumo aos centros mais dinâmicos da economia
nacional conforme os argumentos desenvolvidos por Hasenbalg (1978).
Um estudo interessante sobre a continuidade entre o movimento hip hop a
matriz cultural africana e o black power no contexto norte-americano foi
elaborado por Keyes (1996). Para uma análise do discurso interno
dos rappers paulistanos e a black music, ver a música Senhor Tempo
Bom (Thaide e DJ Hum).
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