A
partir de pesquisa que teve como objeto as redes de relações
sociais em que estão envolvidos migrantes residentes no bairro Cidade
Aracy, sito na cidade de São Carlos, interior de São Paulo
,
este artigo prioriza aspectos que envolvem a ocupação do
espaço urbano empreendida por esses migrantes. As relações
construídas com o lugar (bairro e cidade) variam segundo as redes
de relações, as quais instauram códigos capazes de
fazer com que as pessoas relacionem-se e vivenciem de modo adverso espaços
físicos comuns (Magnani, 2007).
O
conceito de rede social implica o contato que não é necessariamente
visual, físico, mas social, pois acontece entre pessoas que possuem
o mesmo sentimento de pertença a um campo de relações
específico
.
Mesmo que eu considere “o meio social imediato das famílias urbanas
não como o espaço local em que elas vivem, mas como as redes
de relações sociais efetivas que mantêm, independentemente
de estas se restringirem à área local ou ultrapassarem suas
fronteiras” (Bott, 1957: 97-9 apud Elias,
2000: 196), devo levar em conta que o bairro ou a área residencial
das famílias também é provido de uma estrutura (Elias,
2000: 197). Por isso, não é possível pensar os migrantes
fora da estrutura do bairro em que vivem.
O
que é importante para as famílias e indivíduos contidos
em redes e o que é importante para a estruturação
daquele local que ocupam são fatores que só podem ser pensados
ao mesmo tempo (Elias, 2000). Como o bairro insere-se
numa cidade, e faz parte de uma lógica que também é
a lógica da cidade, descrevo-o procurando entender duas questões
imbricadas: a forma como ele foi socialmente construído por seus
moradores e como se estabeleceu a sua relação com São
Carlos. Num segundo momento, e a partir disso, descrevo duas redes de relacionamento,
o modo como se diferenciam no bairro (segundo o que é importante
ali) e nas suas relações com a cidade.
O
bairro Cidade Aracy
Eu
nunca havia ido ao bairro até o início de minha pesquisa
de campo. Quando fui pela primeira vez, de ônibus, não sabia
se o reconheceria, se saberia “quando chegou”. Para minha surpresa, quando
a cidade parece acabar, avista-se, ao longe, e “lá embaixo” o bairro.
Ligado à cidade por uma espécie de serra, uma estrada “torturosa”,
nas palavras de um antigo morador, ele está fisicamente isolado
da cidade, ligado a ela pela
serrinha, como é conhecida por
todos. Já de longe fiquei surpresa pelo seu tamanho, muito maior
do que eu imaginava.
Segundo
informações da Secretaria da Habitação da Prefeitura
de São Carlos, o bairro conta com 25 mil pessoas se considerarmos
apenas o Cidade Aracy; se juntarmos a ele os bairros Presidente Collor
e Antenor Garcia, pode-se falar em 40 mil pessoas. Ocorre que esse espaço
afastado de que falo é constituído oficialmente por três
bairros: o Cidade Aracy, o Presidente Collor e o Antenor Garcia. Além
disso, o Cidade Aracy divide-se ainda em Aracy I e Aracy II, divisão
essa que não é oficial, mas todos conhecem, não apenas
os moradores, mas qualquer um que tenha contato com o bairro.
Minha
opção inicial foi abrir-me para todos os bairros, para que
com o tempo fosse feito um recorte significativo. Mesmo porque, quando
se trabalha com redes sociais, elas podem não estar associadas a
um espaço físico delimitado (Bott, 1976)
.
Os relacionamentos sociais importantes de uma pessoa do Aracy poderiam
acontecer com moradores do Presidente Collor, e assim não seria
interessante fazer qualquer recorte prévio. Teria que deixar-me
conduzir pelas próprias redes sociais que eu pudesse ali encontrar.
Para os propósitos deste artigo, importa ressaltar que está
sendo considerado o “Grande Cidade Aracy” – conforme ouvi algumas vezes.
Para
falar sobre o Aracy, não precisarei recorrer muito à literatura,
pois foi ao longo do contato direto que entendi seu surgimento, sua formação
e história. Obtive informações tanto por meio de conversas
com moradores que acompanharam sua constituição, como por
conversas com pessoas da prefeitura envolvidas em seu processo de formação.
Foi difícil encontrar detalhes sobre sua história na bibliografia.
Mesmo os trabalhos realizados no bairro, desde os mais acadêmicos
até os de extensão, trazem poucas informações.
Alguns
dados sempre aparecem: o bairro formou-se de maneira totalmente inadequada,
pois se trata de uma área de mananciais, que não possui condições
propícias para uma ocupação irrestrita, a qual tornou-se
ilegal em virtude de o bairro estar numa área de proteção
ambiental (Sanchez e Dal Bello, 2001). Mas, como
sua ocupação foi incentivada e produzida por um forte agente
especulador do mercado imobiliário, o bairro acabou sendo ocupado
mesmo que de maneira imprópria.
Constituiu-se
do modo com que geralmente se constituem bairros periféricos, com
uma série de irregularidades que hoje a Secretaria de Habitação,
da Cidadania e a Prefeitura em geral têm buscado resolver. O Núcleo
de Pesquisa e Documentação do Departamento de Ciências
Sociais da UFSCar (1994) apontou o bairro como um dos mais carentes quanto
à educação, saúde, segurança, renda
familiar e inserção no mercado de trabalho. Enfim, a história
registrada apontava para irregularidades, problemas e deficiências.
Segundo
o que me disseram os moradores, o espaço que o bairro ocupa hoje
era uma fazenda pertencente à família Pereira Lopes, que,
na década de 80, passou a vender lotes de uma parte dela, à
que corresponde ao Aracy I, primeiro espaço habitado por moradores
entre os quais muitos permanecem lá até hoje. Esses primeiros
moradores com quem conversei chegaram a esse “loteamento vendido” em 86,
quando já fazia uns 5 ou 6 anos que ele existia em estado totalmente
precário.
Até
que foi feito o primeiro “loteamento doado” pela imobiliária Faixa
Azul, de propriedade de Aírton Garcia
.
O bairro passou a receber muita gente em virtude de um esquema de doação
de lotes ocorrido no final de 80 e início de 90. A primeira doação
foi a do Presidente Collor e a segunda foi a do Antenor Garcia. A única
condição imposta a quem recebia o terreno era construir o
alicerce de pelo menos um cômodo no prazo de um mês, caso contrário,
a doação seria feita para outra pessoa interessada e em condições
de construir.
Nas
doações cada lote foi dividido em dois meio-lotes, doava-se
um e outro não, com o intuito de que a própria pessoa que
recebera meio-lote doado pudesse depois comprar a outra metade ao lado,
constituindo um lote inteiro. Isso muitas vezes não aconteceu e
o que se vê hoje são casas de meio lote, especialmente no
Antenor Garcia. Assim, o bairro começou com poucas casas nos loteamentos
vendidos e com muitas pessoas vindo para as doações, almejando
construir em seus terrenos para que estes não fossem perdidos.
O
bairro, mesmo sem estrutura nenhuma, começou a ser povoado e, devo
dizer que num período de dez anos, passou por profunda transformação,
para melhor, no que diz respeito à sua estrutura, ou seja, abastecimentos
de água, asfalto, esgoto, etc. Além disso, foram construídas
escolas, creches, posto de gasolina, banco, posto médico e uma série
de outros comércios. Muitos dos que ali moram hoje puderam assistir
a esse processo de transformação e falam dele com orgulho,
sentindo-se parte dele e incluindo-se entre os que um dia “acreditaram
no bairro”.
Há
uma série de histórias sobre sua constituição
e construção, as quais se repetem, especialmente entre moradores
mais antigos, como, por exemplo, a história do cemitério,
onde funcionava a escola, pois a construção a ela destinada
permanecia fechada, aguardando as eleições. Conforme me disseram,
houve uma invasão do prédio escolar, onde hoje funciona o
Caíque, para crianças do ensino fundamental. Há também
histórias que envolvem o abastecimento de água, a limpeza
dos terrenos, suprimento de energia, a distribuição de cartas,
e mesmo o esquema de doações, já que os próprios
moradores trabalhavam na imobiliária. Enfim, inúmeras participações
dos próprios moradores são relatadas por eles com orgulho.
O
fato é que o Aracy transformou-se nos últimos dez anos, como
dizem. Hoje os moradores enumeram as melhorias: “hoje tem tudo no Aracy”.
Presente a essa história de construção do bairro encontrei
não apenas orgulho, mas uma mistura de sentimentos. Se os moradores
mais antigos relatam sua participação nesse processo de construção
do bairro, há também um tipo de discurso que se estende aos
demais moradores que, apesar de se orgulharem pelo que o Aracy é
hoje, atribuem à fase inicial do bairro a responsabilidade pelo
estigma que ele carrega desde aquele tempo.
Relação
com a cidade: estigma
Certo
dia eu estava na “serrinha”, tirando fotos, quando desceu uma charrete
com um casal, e a mulher me disse: “esse buraco é encantado!”.
Para mim, essa frase foi muito significativa. Primeiro, por ela usar a
expressão buraco, sim, fisicamente é um buraco, mas
essa palavra não deixa de carregar outros sentidos, conforme será
adiante explicitado. Foi significativo também o fato de ela dizer
“encantado”, porque aquele espaço guardava, para mim, uma
série de relações que eu não compreendia. Uma
série de símbolos, significados que eu não sabia ler.
A
frase, dita em tom de brincadeira e risada diante do interesse estranho
pelo bairro, foi completada: “o que tem aí?”. Essa pergunta
eu só poderia responder com o que ela mesma já havia dito:
“esse buraco é encantado”, pois isso ele era para mim, um
lugar ainda mágico, no sentido de fascinar e mostrar-se indecifrado.
Um lugar em que tive também muita dificuldade para me aproximar,
especialmente pelos estigmas que ele carrega.
Um
dos pontos importantes que aproximam todos os moradores do Aracy é
a sua convivência num bairro altamente estigmatizado. Além
de eu ter percebido esse estigma logo no início da pesquisa, os
moradores, independente de sua procedência, ocupação,
posição e relação com o bairro, identificam
a mesma coisa: reconhecem o preconceito que sofrem por serem moradores
do Aracy. Seguem as palavras da paraibana, moradora do Presidente Collor:
Teresa
- As pessoas que não moram aqui eles acham que é muito perigoso
(...) Tem preconceito até para arrumar emprego. Se eu for me empregar
e perguntarem para mim se eu sou da Cidade Aracy, eles fazem questão
de não me empregar, eles desclassificam a Cidade Aracy, mas se você
for ver, em todos os bairros acontece o que não presta.
·
E quando vocês vão procurar emprego, vocês falam
que moram no Aracy?
Teresa
- Eu falo, só que eu fui barrada duas vezes por ser do Aracy. Eu
fui lá na Agência... O Balcão de Emprego (...), tinha
uma mulher que tava precisando, ela precisava e dizia que pagava 350 pra
cuidar de duas crianças, lavar, passar e cozinhar, então
aí foi pegar a minha ficha, aí ela diz que tem que ter 2
anos, aí mostrei os documentos e ela disse “essa aí tá
boa pra mim”, aí quando ela perguntou de onde eu era, aí
eu falei que eu morava no Aracy, aí ela disse, “opa, no Antenor?”,
eu disse “não, no Aracy I, é Presidente Collor”, aí
ela disse, “ah, então já não vai dar certo; pra mim
é melhor que se fosse mais de perto, Santa Felícia”. Entendeu?
·
Mas no fundo não faz diferença a pessoa ser de Santa Felícia
ou morar aqui, porque tem que pegar o ônibus do mesmo jeito...
Teresa
- Então, é, mas... O preconceito que eles têm, acham
assim, por exemplo, se alguém aqui matou, ou que roubou, se nós
somos do Aracy é como que a gente estar abrindo portas na casa deles
(...).
Todos
com os quais conversei mais detidamente falaram a esse respeito. Acredito
que isso se deva não somente ao fato de sentirem em sua vida o preconceito,
mas também ao fato de essa questão já ter sido falada
na imprensa, tratada por pesquisas, provavelmente já discutida nos
centros comunitários, falada em reuniões e encontros que
acontecem no bairro.
Jardim
(2003) – que desenvolvia, nos meses de minha pesquisa, um trabalho de inclusão
social Aracy - toma como premissa a pesquisa do NPD/DCSo da UFSCar (1994)
sobre exclusão social em São Carlos, ao afirmar que o fato
de os moradores desse bairro não se inserirem no mercado de trabalho
não estava associado a questões de baixa escolaridade, mas
relacionado ao estigma da pobreza.
Vale
lembrar o que disse Goffman: o estigma pode ser lançado sobre alguém
– ou grupo social – não tanto por seus atributos pessoais, mas por
uma designação social (Goffman, 1988).
O estigma se refere sim a atributos profundamente depreciativos, só
que, deve-se ter em mente que tais atributos só se definem na relação
(entre atributo e estereótipo) e segundo cada ambiente social
.
De todo modo, pertencer a um grupo que carrega o “estigma da pobreza” traz
conseqüências sociais significativas – para as quais importam
menos as características propriamente ditas, como é o caso
da baixa escolaridade.
Os
moradores do Aracy compreendem de alguma forma que estão lidando
com esse estigma ao se inserirem na cidade de São Carlos, mais especificamente,
ao tentarem se inserir no mercado de trabalho da cidade. Reconhecem que
deixaram de conseguir empregos que já estavam praticamente certos
quando declararam residir no Aracy. Mesmo o bairro tendo melhorado em diversos
quesitos – ruas asfaltadas, serviços públicos, igrejas, bancos
– os moradores ainda convivem com o estigma - e o reconhecem.
Eu
mesma tive medo de ir para lá desenvolver a pesquisa, pois sempre
fui na cidade de São Carlos uma estudante que, como todos os outros,
movimenta-se na parte central da cidade, nunca tendo passado a linha do
trem - é a partir dela que começam os bairros mais residenciais,
começa também a periferia, quase nunca vista. Ao mesmo tempo
em que ninguém a “vê”, todos parecem saber da “fama” que tem.
Quando
estive pela primeira vez no ponto de ônibus para ir para o Aracy,
pedi informação a um motorista que ali estava. Quando eu
disse que teria de ir para o Aracy, ele fez cara feia e perguntou se eu
ia dar aula lá, já que eu havia falado que gostaria de descer
em frente à escola Caíque. Expliquei que ia fazer uma pesquisa
no bairro, e sua reação se repetiu. Essa é a reação
geral das pessoas quando se diz que vai para o bairro, são “brincadeiras”
– mais de uma vez me perguntaram se eu estava levando colete à prova
de balas – e expressões faciais que mostram, no mínimo, que
se trata de um bairro estigmatizado em toda a cidade de São Carlos.
O
Aracy é representado como bairro pobre, muito pobre, violento e
perigoso. Conversei com professores da escola do bairro que me alertaram
do perigo, falaram das brigas que acontecem em frente à escola,
e da cautela que eles tomam. A maioria das pessoas que tem contato com
o bairro, e que não mora nele, tem medo, um medo menor do que aquele
que sentiram inicialmente, mas permanece o receio. Geralmente não
ficam circulando pelo bairro, muito menos a pé. Não se envolvem
com ele, chegam de carro ou ônibus, vão para a escola, centro
comunitário ou hospital e depois para casa.
Todas
as pessoas que tiveram de ir para o bairro por algum motivo, seja um estágio,
um trabalho, relataram-me que sentiram muito medo no início. A própria
diretora da escola me disse que num raio de cinco quarteirões da
escola ela já havia andado e achado tranqüilo, mas que não
podia me garantir sobre o restante. Logo no meu primeiro dia andando pelo
bairro, ficava evidente que eu estava sendo vítima também
do peso do estigma. Fiz a seguinte anotação em meu caderno
de campo:
“... andei alguns quarteirões
pelo bairro, tenho a sensação de que por aqui as coisas são
um pouco melhores, as casas, por exemplo. Tem escolas, mercados, atendimento
médico, tudo por aqui, no espaço pequeno que andei”.
Dirigia-me
ao bairro com a idéia que geralmente se tem dele, a de que eu encontraria
um bairro muito pobre, portanto, sujo, violento, perigoso. No entanto,
encontrei ruas tranqüilas, asfaltadas, prédios bem construídos
e acabados, escola e posto médico. Minha anotação
mostra o que foi se solidificando depois: o bairro, vítima do estigma,
tomava para mim, a partir de um contato maior, outras formas. Compreendi,
analisando minhas próprias representações, que eu
estava sentindo nada mais que o peso do estigma que o bairro carrega. Peso
esse sentido provavelmente com mais intensidade pelos próprios moradores.
São diversas as histórias que ouvi deles a esse respeito.
Como na fala da alagoana Elizete, que morou 18 anos em São Paulo
antes de mudar-se para São Carlos:
Elizete
- Que nem ela, a Camila, que é empregada dela, mora ali na Vila
Nery (...). Então, “ah Elizete, Deus me livre morar ali naquele
lugar, naquele Aracy! Ah, não sei como você tem coragem de
morar naquele Aracy, eu não tenho coragem de botar meus pés
ali”. Eu falei para ela, menina, escuta cá uma coisa, a Aracy, todo
mundo fala do Aracy, que o Aracy é falado...
·
Quem falou isso, desculpa, a que mora na Vila Nery?
Elizete - É.
· Que
não é a patroa.
Elizete - Não, é
a empregada. Aí eu falei para ela, “ó, eu morei em lugar
pior que Aracy, que foi Diadema (...), é misturado com traficante,
bandido, tudo quanto não prestava lá dentro de São
Paulo (...). Eu morei dezoito anos em Diadema, e eu nunca achei que era
tão perigoso igual acham o Aracy.”
·
Aqui o Aracy você acha perigoso?
Elizete
- Isso é o povo que fala filha (...), todo mundo fala que aqui o
Aracy não presta (...).
Filha
- Uma vez tava falando no jornal, que o povo do Aracy não arruma
serviço porque chegava no serviço falava assim, “onde você
mora?”, “eu moro no Aracy”, aí já dispensa.
Elizete
- Ninguém quer!
·
Pois é, eu comecei a perceber isso também,
que eu falei várias vezes que eu vinha trabalhar aqui, várias
pessoas torceram o nariz. Que eu falei, ué, eu não conheço,
que eu não conhecia, nunca tinha vindo, mas aí eu pensei,
“gente, o que tem de mais aqui?”.
Elizete
- Viu?! Viu?!
·
Achei super tranqüilo, tô andando nas
ruas sem medo, sossegada.
Elizete
- Tá vendo, e ela é de fora! Não tem um pingo de medo
de vim aqui, vê que aqui não tem bicho!
Várias
questões relevantes para a análise emergem dessa fala. Poder-se-ia
pensar que a estigmatização do bairro relatada pelos moradores
reflete a dominação especialmente econômica tal como
sugere Zaluar ao se referir à separação “embutida
nos rituais de dominação de classe que incluem um rigoroso
afastamento do local de moradia dos pobres” (Zaluar,
1985:12). Elizete relata uma conversa que aconteceu entre ela e uma outra
doméstica, moradora também de um bairro periférico
de São Carlos.
Isso
mostra que o afastamento e a estigmatização do Aracy não
refletem apenas a dominação de classe, mas incluem outras
formas de poder, não só o econômico. O bairro também
é estigmatizado por moradores de outros bairros periféricos,
inclusive menos estruturados que o Aracy - me refiro à estrutura
de um bairro como asfalto, iluminação, rede de esgoto, etc.
Os
moradores do Aracy relatam preconceito para com eles vindo não apenas
dos patrões, que não os querem empregar, mas vindo também
de seus colegas de trabalho moradores de outros bairros periféricos.
É o que também aparece no exemplo abaixo, que relata a reação
dos colegas ao passarem pelo Aracy no ônibus da empresa em que trabalham:
Antonio - Quando
eu entrei na Volks, comecei a trabalhar na Volks, tem muitas
pessoas que vêm de fora pra trabalhar aqui, inclusive de São
Paulo, mas chegaram aqui ficaram sabendo da fama, quer dizer, Cidade Aracy
é um lugar perigoso, não dá para morar. O ônibus
que vinha da Volks passava aqui, para deixar umas pessoas, que trabalhavam
lá, e para ir para outro bairro. Dentro do ônibus você
ouvia, “ó pessoal, fica quieto que a gente tá passando
dentro da Cidade Aracy”, uns até falavam, “ó, abaixa
aí que a gente tá passando na Cidade Aracy”.
Assim,
o Aracy é representado como bairro situado abaixo dos demais não
apenas pela elite sãocarlense mas por todos. Existe, incluída
nessa separação entre o bairro e o restante da cidade, a
idéia de que o Aracy foi construído realmente para ser uma
cidade separada de São Carlos.
Tal
pensamento é geralmente associado ao fato de o Aracy ser muito maior
que várias cidades vizinhas de São Carlos, podendo então
constituir-se numa delas. Ouvi isso diversas vezes de pessoas ligadas ao
bairro, como professores, bem como ouvi de moradores. Muitos dizem que
não por coincidência ele leva o nome de Cidade Aracy. Luís,
funcionário da prefeitura, disse o seguinte quando perguntei sobre
isso:
·
E por que tem esse nome Cidade Aracy, é
verdade que ele queria realmente fazer uma cidade?
Alberto
– Porque não é uma cidade, isso aqui?
Esta
noção de que ele constitui praticamente uma cidade contribui
para sua diferenciação, segregação, afastamento
e estigmatização
.
Se o bairro é representado como lugar muito pobre e violento em
toda São Carlos, e ao mesmo tempo existe a premissa de que ele deveria
ser uma cidade separada, toda essa pobreza e violência não
são desse modo assumidas como integrantes da cidade pelos que nela
residem – aqui me refiro aos que moram acima da “serrinha”.
Seria
ele próprio uma cidade, e se não é ainda, poderia
e deveria ser, assim ele é geralmente visto. Desse modo, o Aracy
é incluído na sua relação com São Carlos
como um bairro à parte, especialmente separado e afastado daquilo
que é São Carlos. A esse respeito, diz o seguinte esta outra
funcionária da prefeitura:
Iara
– (...) é um bairro completamente distante da região central,
aí criaram Cidade Aracy, fica parecendo que é...
·
Foi de propósito esse nome?
Iara
– Com tanto que as pessoas, por exemplo, falam não o Cidade
Aracy, porque se é bairro é o Cidade Aracy, e as pessoas
falam a Cidade Aracy, parecendo já que é uma cidade
separada. Com tanto que na entrada, no outro lado da cidade, agora não,
nós tiramos... Tinha escrito em letras de cimento Cidade Aracy,
parecia que era uma cidade.
Essa
fala aponta para algo realmente notável, a grande maioria das pessoas,
moradoras do bairro ou não, referem-se a ele como a Cidade
Aracy ou a Aracy, e quase nunca como o Aracy. Isso expressa
a forma como ele foi socialmente construído, forma que o colocou,
desde o princípio, separado de São Carlos, constituindo
uma cidade. A história de que o bairro, desde o princípio,
fora construído para ser uma cidade é contada por aqueles
que são considerados os mais antigos moradores do Aracy. Assim,
ele é socialmente construído a partir da idéia
de separação de São Carlos, tal como diz a moradora:
Isabel - O Aírton
já fez isso aqui como Cidade Aracy porque disse que isso aqui um
dia vai ser cidade Aracy, não vai ser bairro Aracy (...) É,
pra ele, na época ele dizia assim, que ele construiu esse bairro
e pôs o nome de Cidade Aracy por propósito de no dia de amanhã
isso aqui virar uma cidade independente, né, como se diz, emancipar
ela, aqui ter prefeito, ter tudo que tem...
Assim,
essa noção foi também apropriada e endossada pelos
próprios moradores que hoje empreendem, em seus discursos, uma nítida
separação entre o bairro e São Carlos, incluindo em
sua concepção elementos do estigma que o bairro carrega.
Eles contribuem para a separação não apenas ao dizerem
que o bairro fora construído para ser uma cidade separada, mas também
ao se referirem, de maneira corriqueira, ao Aracy e ao lá para
cima. Essa expressão é usada para se referir a tudo que
está depois da “serrinha”, e acaba colocando o Aracy no espaço
que ele ocupa em sua relação com São Carlos: não
apenas abaixo na questão espacial, mas também na questão
simbólica implicada aí, que o associa à pobreza, que
o coloca como pior que qualquer outro de São Carlos.
Assim,
o estigma também foi apropriado pelos moradores do bairro, que,
embora o reconheçam, acabam por endossá-lo à medida
que reforçam a separação, à medida que diferenciam
o Aracy do lá para cima; valorizando tudo o que lá
está, terminam por incluir na separação o preconceito
e estigma que reconhecem. Segundo Goffman (1988),
indivíduos estigmatizados tendem a ter a mesmas crenças que
os não estigmatizados, desta forma incorporam padrões da
sociedade maior que os fazem, em alguns momentos, concordar com o fato
de que eles ficam abaixo do que realmente deveriam ser.
Apesar
de praticamente todos dizerem que gostam de morar no bairro, reconhecem
que tudo lá para cima é melhor, e que foram morar
no Aracy porque os terrenos eram mais baratos, enfim, moram no bairro por
uma questão econômica, pois apenas no Aracy podiam comprar
ou receber um terreno e construir uma casa, é o que geralmente dizem:
Isabel - São
pessoas que compraram aqui porque não tinham condições
de comprar em outro lugar, que nem no meu caso. Eu comprei aqui porque
meu dinheiro não dava para comprar lá pra cima, sabe?
Como
se percebe, ela, em seu discurso, valoriza o terreno lá para cima
em detrimento do Aracy. Isso realmente não quer dizer que todos
os terrenos lá para cima sejam mais caros que os do Aracy como sua
fala aponta. Conforme eu disse, o Aracy é representado como inferior
inclusive a bairros tão pobres quanto ele, mas que se situam acima
da serrinha. Assim, os próprios moradores do Aracy, apesar de muitas
vezes gostarem de morar ali, nunca dizem que escolheram o bairro, mas foram
impelidos pela falta de dinheiro, ou atraídos pela possibilidade
de ter um terreno e construir uma casa. O desejo seria um terreno lá
para cima, não faltam exemplos como a fala da alagoana Elizete:
·Mas
ele queria morar pra cima? [referindo-me ao marido dela]
Elizete – Ah, ele tinha vontade
de morar mais pra cima porque aqui é um lugar muito parado,
tudo tem que ser lá pra cima.
· Lá pra cima
aonde?
Elizete
- Depois do Cruzeiro [primeiro bairro existente depois da “serrinha”].
·Ah,
sair da Cidade Aracy.
Elizete
- É, comprar em outro lugar melhor, mas como?
·Mas
aqui você não está achando bom?
Elizete
- Eu gosto daqui entendeu, mas aqui é muito assim, difícil.
Você quer ir no mercado, tudo longe, os daqui, não tem condições.
Geralmente
as pessoas do Aracy, embora tenham disponíveis no bairro comércios
e mercados, dizem preferir fazer suas compras “em São Carlos”, alegando
que lá tudo é mais barato, há mais variedade, opções,
enfim, geralmente é para onde vão gastar seu dinheiro com
alimento, roupas, sapatos e outros objetos. Todas as pessoas do bairro
com as quais conversei dizem que preferem o centro da cidade para muitas
coisas que poderiam fazer no bairro, coisas especialmente ligadas ao consumo.
E assim ganham sentido na lógica da cidade: como estigmatizados
moradores de um bairro que tende a se afastar cada vez mais de São
Carlos, embora, por outro lado, constituam-se mão de obra e mercado
consumidor para toda a cidade.
As
redes no bairro
Da
mesma forma que o bairro tomava novos contornos à medida que eu
empreendia uma aproximação dele – não era tão
sujo, pobre e violento quanto lhe pesava o estigma – os migrantes também
se diferenciavam do que eu esperava encontrar. Me surpreendeu o fato de
que muitos trabalhavam na grande indústria de São Carlos,
tinham cursos profissionalizantes, moravam em casas grandes e bem acabadas,
em ruas asfaltadas e com toda estrutura, algumas vezes eram donos de estabelecimentos
comerciais, ou seja, um quadro totalmente diferente do que esperava encontrar
quando pensei em estudar migrantes de um bairro periférico.
Ao
mesmo tempo, conhecia também aqueles que pareciam estar no outro
extremo, mais próximos da representação que geralmente
se tem de um migrante: morando em casas mais simples, mal-acabadas, nas
ruas mais pobres do bairro, ruas de terra, que muitas vezes antes de se
mudarem eram trabalhadores sazonais, portanto, que trabalhavam em Usinas,
no corte da cana, assim como também na laranja, cujas mulheres,
além do trabalho na roça, também eram faxineiras ou
empregadas domésticas. Eu estava diante de duas redes de relacionamentos
sociais distintas. Ambas serão aqui brevemente descritas quanto
ao conteúdo de seus vínculos, para que seja dada continuidade
à análise que relaciona essas famílias e indivíduos
contidos em redes à estrutura do local que ocupam.
Na
segunda rede descrita, percebi que havia uma forte rede de solidariedade
intra-familiar permeando todas as organizações e acontecimentos
da vida individual. As relações sociais geralmente estavam
restritas à família. No bairro, era notável que seus
relacionamentos concretos desenrolavam-se apenas com todos os que pudessem
ser considerados parentes. Somente entre parentes aconteciam as visitas
e estavam sempre na casa um do outro. Chamei essa rede de rede de malha
estreita, termo cunhado por Bott (1976). Os relacionamentos
gerados em seu interior, na maioria, eram densamente amarrados por vínculos
de parentesco. E os parentes tendiam a se conhecer entre si.
O
que os fazia estar próximos no espaço social, o que dava
a possibilidade de se aproximarem pelo casamento era o fato de apresentarem
trajetória social associada à tentativa de saída de
uma posição de miséria, especialmente descrita pelo
sentimento de iminência da fome, valorizavam o ter comida.
A trajetória dos migrantes ganha sentido não quando pensamos
nas cidades pelas quais passaram, mas na sua trajetória social
definida em termos do ter. Trata-se de uma única trajetória
social a ser percorrida, válida para todos os migrantes moradores
do Aracy. Diferencio, contudo, em função disso, aqueles que
apresentam trajetória reduzida e aqueles que, nessa mesma
trajetória, apresentam trajetória extensa.
Os
migrantes que integram a rede de malha estreita acima descrita apresentam
trajetória reduzida. Isso remete à posição
atrelada à tentativa de saída da miséria, posição
em que é importante o ter comida. Ocorre que o ter, definidor
da trajetória social dos migrantes do Aracy, era uma categoria um
tanto genérica que poderia abranger desde o ter comida, até
o ter muito mais que uma casa. Trata-se de um recorte importante
que fora apresentado pelos próprios moradores e que separava os
migrantes do bairro entre os que “tinham no máximo uma casa para
morar” e os que “tinham muito mais que uma casa”.
Isso
foi definido de maneira atrelada à estrutura do próprio bairro.
O que estimulou os migrantes a morarem lá foi a possibilidade de
adquirir um terreno e construir uma casa. De modo que ter a casa era
algo muito importante para todos os moradores, sempre descreviam sua trajetória
em função disso, das casas que tiveram que alugar, do que
puderam construir, sempre querendo mostrar a casa, o prédio que
têm construído. Para os que apresentam trajetória reduzida
o construir, categoria social importante ali, é sempre um
por vir, um desejo, um sonho. Uma visão muito presente no
bairro são as casas com seus tijolos à mostra, ilustrando
o que venho dizendo. Trata-se de uma construção permanente.
Se
havia esses migrantes com trajetória reduzida, valorizando
o ter comida, o ter a casa, sendo que o construir
era sempre um por vir, havia, por outro lado, aqueles migrantes
que pareciam ocupar um outro extremo dessa mesma trajetória: os
de trajetória extensa. Esses tinham muito mais que uma
casa para morar e, se um dia conviveram com a iminência da fome,
esse medo não é mais sentido. Como os demais migrantes, valorizavam
o ter, valorizavam aquilo que tinham, gostavam de enumerar seus
bens e imóveis, bem como sabiam enumerar os dos outros.
Se
os migrantes de trajetória reduzida tendiam a compor a rede
de malha estreita, migrantes que apresentam trajetória extensa
tendiam a compor a rede de malha frouxa. Na rede assim definida,
as relações sociais concretas não se restringiam a
parentes, e os conhecidos de um, muitas vezes, não eram conhecidos
de outro. Havia muitos limites para os relacionamentos gerados no interior
dessa rede, que muitas vezes não tinham suas tramas fortemente amarradas.
Isso não significa que nela não houvesse vínculos
fortemente amarrados pelo parentesco, que perduram e se fortalecem ao longo
do processo migratório. Ao descrever as redes pelos tipos de vínculos
gerados em seu interior, não quero dizer que eles sejam hegemônicos,
mas preponderantes
.
Os
desta rede moravam no “miolo” com casas melhores – não se tratava
de divisão mecânica entre os bairros do “Grande Aracy”. A
parte considerada melhor é aquela em que os terrenos, mesmo que
um dia doados, puderam ser comprados. A capacidade que seus atuais moradores
tiveram de comprar o terreno é valorizada no bairro. Especialmente
os que moram na parte considerada melhor, ao falarem sobre isso evocam
o passado do bairro, a época das doações, dizendo
que os que receberam terrenos doados são responsáveis pelo
estigma ruim que o bairro carrega.
Dizem
que com as doações vieram aqueles que gostam de receber as
coisas sem esforço, não gostam de trabalhar, e geralmente
os associam à violência. A parte do bairro que chamam de lá
para baixo
é vista como mais vazia de casas, explicam que é porque a
maioria recebeu meio-lote doado e não pôde sequer comprar
a outra metade. A parte valorizada do bairro seria a parte mais cheia,
sem muitos terrenos vazios, com mais casas e com casas que ocupam um lote
inteiro, o que indica que os moradores puderam comprar meio-lote ao lado
do que foi doado.
As
duas redes dividiam-se por esses dois espaços diferenciados do bairro.
Com relação à posição ocupada, eles
se diferenciam inclusive quanto ao modo de se relacionar com o bairro e
com toda a cidade. Analiso a seguir alguns de seus espaços de sociabilidade,
as escolas são enfatizadas.
Espaços
de socialização
Conforme
já analisei, todos os moradores do Aracy valorizam os bairros lá
para cima, por exemplo, ao dizerem que preferem fazer suas compras lá,
onde acham os terrenos também melhores, onde gostariam de morar,
é mais perto de tudo, etc. Ao mesmo tempo em que reconhecem que
o bairro é vítima do estigma, tendem a valorizar o lá
para cima, procurando se afastar do Aracy bem como se diferenciar
dos seus moradores – mesmo sendo um deles. Na busca por esse afastamento,
devo dizer que os migrantes de trajetória extensa possuem maior
êxito.
São
os que mais empreendem tal afastamento em sua vida cotidiana, freqüentando
mais o centro de São Carlos e estando mais presentes nos espaços
da cidade. Por exemplo, seus filhos estudam geralmente em escolas de lá,
há mais parentes, como irmãos, que moram em bairros lá
para cima. Já os migrantes de trajetória reduzida dizem
ir ao centro de São Carlos apenas para comprar – conheci apenas
uma garota que fazia um curso lá. Apesar de alguns deles terem morado
em outros bairros da cidade antes de terem se mudado para o Aracy – como
é o caso de Paulo, que morou em casa alugada pela empresa em que
trabalhava – foram os migrantes de trajetória extensa que em sua
grande maioria disseram-me ter morado em outros bairros antes de se mudarem
para o Aracy. É o que descreveu Antonio:
Antonio
- Fiquei na casa do meu cunhado, ele mora em Santa Felícia (...)
Aí fiquei lá na casa dele né, só que aí
ela veio [sua esposa] e ficou desempregada. O aluguel no Santa Felícia
tava mais caro, que o bairro é mais evoluído né? (...)
Aí a gente ficou morando aqui [Aracy]. Aí mudei para o Tijuco,
fiquei um ano lá no Tijuco.
Ou
então como colocou Ana
,
para não citar um exemplo apenas. Ela contou sobre outros bairros
nos quais morou, disse gostar do centro e que está ali por falta
de dinheiro:
Ana
– Minha mãe morava lá no Pacaembu, perto daquele cemitério,
não sei se você conhece (...) Então né, aí
ele arrumou trabalho e nós nos mudamos da casa da minha mãe
e fomos morar na Sete de Setembro, perto do asilo (...) Aí eu fui
morar com a minha cunhada aqui no Pacaembu, com um dos meus irmãos
que não tinha criança nem nada. Fiquei uns tempos lá,
depois eu aluguei casa e nós fomos morar lá na avenida Saloom,
perto da Igreja Santo Antonio. Aí fiquei um tempo lá, daí
aluguei uma casa para mim e meus filhos, lá na Conde do Pinhal,
lá no centro. Eu sou muito centrista demais! (risos)
(...)
·
E você morava no centro ainda?
Ana – É, aqui faz
pouco tempo que eu estou. Eu sempre morei lá no centro da cidade
(...) Minha mãe faz tempo que mora aqui, acho que faz uns oito,
dez anos. Ela morava perto da Madre Cabrini, né, no começo.
Ela morou aqui sozinha esses anos todos, coitada (...) Mas a minha intenção
era arrumar um emprego bom e ir...
· Lá
pro centro! (risos)
Ana
– Eu não sei, agora está mais difícil, por causa da
idade, a crise do país também, né. (...) Ultimamente
tá meio bravo de trabalho. Então menina, aí eu precisei
vir morar aqui né, pouca grana...
Tudo
isso mostra não apenas a valorização dos bairros do
centro, como também evidencia a aproximação que eles
empreendem com esses mesmos bairros: tendem a falar de sua passagem e ligação
com outros bairros “mais evoluídos” que o Aracy (como disse Antonio),
valorizando tais bairros em detrimento do Aracy, dizendo que ali estão
por uma questão financeira. Assim, aproximam-se mais do centro de
São Carlos, criando, em alguma medida, distanciamento do Aracy e
da massa de seus moradores.
Apesar
de os migrantes da outra rede também valorizarem outros bairros
de São Carlos, não demonstram terem tido ligação
com eles, da mesma forma que atualmente também não possuem,
ao menos não da mesma forma que os migrantes sobre os quais venho
falando. Estes com trajetória extensa não apenas moraram
ou tiveram passagem por outros bairros, como mantêm contato intenso
com eles. Íris, filha de Antonio, estuda no SESI, localizada em
outro bairro da cidade. Antonio disse que acha as escolas do bairro Aracy
muito bagunçadas, que poderia até ser um pouco de preconceito
por parte dele, mas que roubaram o tênis de sua filha logo no primeiro
dia de aula.
Íris
disse não ter vontade de estudar nas escolas do bairro pelos mesmos
motivos que seu pai aponta, são muito bagunçadas e ela chegou
a ser roubada. Contou que em uma das escolas do Aracy tem gente que inclusive
usa drogas ilícitas, como a maconha. Perguntei se ela tinha amigas
que estudavam no bairro (Caíque) e ela disse que sim, perguntei
se elas gostariam de estudar no SESI, e ela disse que sim. Os jovens desta
rede tendiam a estudar nas escolas situadas acima da serrinha, e gostavam
de estudar nelas.
No
bairro o Caíque funciona até o ensino fundamental e há
no Grande Cidade Aracy mais duas escolas de ensino médio. Patrícia,
filha da dona de uma casa de frios no bairro, estuda na Aracy Pereira Lopes,
uma escola que fica logo acima da serrinha, no bairro Cruzeiro do Sul.
No Aracy inclusive passa um ônibus para levar os estudantes para
essa escola, o que mostra que não apenas ela estuda lá. Num
momento mais espontâneo da conversa que tínhamos ela disse
que não gosta da escola do bairro e faz “cara feia”, mas num segundo
momento – como ninguém quer parecer preconceituoso – explica que
não gosta porque é ruim conviver com certas pessoas no bairro
e ainda depois encontrá-las no colégio. Ao mesmo tempo me
diz que tem bastante gente do Aracy que estuda lá, mesmo porque,
explica, nem todos conseguem vaga no bairro.
O
caso dela é diferente porque realmente deseja estudar ali, mas conta
que alguns só vão porque no Aracy não conseguem vaga.
Ela me disse que estuda lá para cima desde pequena e que
nunca nem pensou na possibilidade de estudar no Aracy, e não pensa
nisso. Também disse outro motivo que a faz gostar de estudar no
Cruzeiro do Sul: ela tem parentes que moram lá, fala de sua avó
e também de seu namorado. Assim, conta que é também
no Cruzeiro que ela passeia, mesmo porque “no Aracy não tem opção”.
Além de ir então para estudar, contou que aos finais de semana
passeia por lá com seu namorado, vão na sorveteria e ela
aproveita para ficar mais com a família, que se reúne na
casa de sua avó.
Essas
reuniões familiares acontecem todos os finais de semana, em todos
os feriados, datas comemorativas, tudo acontece na casa de sua avó.
Geralmente vão os filhos (de sua avó), netos, genros, e o
namorado dela. Assim, percebe-se que não se trata apenas de ela
estudar fora do Aracy, mas de toda a família que tem seus momentos
de lazer e encontro fora do bairro, talvez por isso digam que no Aracy
não saem de casa, só trabalham. Ou seja, não apenas
esses estudantes estabelecem mais contato com outros bairros de São
Carlos, mas também seus pais. É o que acontece também
no caso de Íris, que, da mesma forma, desde pequena, estuda fora
do Aracy.
Além
da escola, ela também faz cursos de jazz e coral fora do Aracy,
atividades oferecidas pela Igreja Presbiteriana. Sua mãe, Tatiana,
também freqüenta a Igreja Presbiteriana que não existe
no bairro, apenas fora dele. Sua filha apresentou no bairro sua dança
de jazz, o que faz pensar que existam outras crianças do Aracy que
ensaiem com ela, e que certamente estas não são as filhas
dos migrantes que apresentam trajetória reduzida, conforme se verá.
Por exemplo, Íris me disse que mais duas garotas de sua rua estudavam
no SESI, e que sabia de mais três da rua de cima, são os migrantes
de sua rede de relacionamentos, que moram nas ruas consideradas melhores,
têm mais contato com o resto da cidade e mais se afastam do Aracy
nos momentos de sua socialização.
O
irmão de Tatiana (esposa de Antônio e mão de Íris)
também não mora no Aracy e dizem que a única pessoa
que visitam é ele. Talvez por esse motivo eu não os via circulando
tanto no bairro – como via os migrantes da outra rede – por isso me diziam
que não saíam de casa para ir à casa de ninguém
que morasse ali, ou para ir a qualquer lugar ou evento do bairro. Quanto
mais freqüentam os espaços fora do bairro mais os migrantes
com trajetória extensa relacionam-se com pessoas que moram nesses
outros bairros, como é o caso da garota da casa de frios, Patrícia,
que namora um garoto morador do Cruzeiro do Sul.
Os
espaços que lhes abrem a possibilidade de uma série de relacionamentos
sociais de forma alguma se restringiam ao Aracy e aos seus moradores. Ao
contrário, tendem a possuir pontos de contato em toda a cidade.
Assim, todos da rede que inclui membros de trajetória extensa, a
quem perguntei onde estudavam seus filhos, todos me disseram que fora do
bairro, a não ser aqueles que tinham filhos ainda em idade de creche.
Alguns
me contavam que eles mesmos haviam estudado em escolas fora do Aracy, se
bem que num passado não muito remoto simplesmente não havia
ainda escolas no bairro. Mas, também deve-se considerar que algumas
vezes eles fizeram cursos profissionalizantes no centro, e alguns inclusive
fazem hoje faculdade, o que não poderia acontecer no bairro, e o
que só poderia acontecer entre estes de trajetória extensa,
que realmente se estendem e se relacionam mais com toda São Carlos.
Quanto
aos estudantes, a maioria vai por gosto para as escolas que estão
acima da serrinha. Já na rede cujos membros apresentam trajetória
reduzida, a maioria estuda nas escolas do bairro e, segundo me dizem, lá
pela sétima série param de estudar. Mas, curiosamente, deparei-me
com o filho de uma migrante de trajetória reduzida que estudava,
como Patrícia da casa frios, na Escola Aracy Pereira Lopes, no Cruzeiro.
Filho de uma paraibana que me disse coisas muito interessantes sobre o
fato de seu filho estudar lá. Seu filho é um daqueles que
foram para essa escola por não ter conseguido vaga no bairro:
Sebastiana
– Meu menino mais velho estuda na Aracy Pereira Lopes.
Teresa – Meu sobrinho também.
·Só os dois?
Teresa – Que eu saiba é
só eles dois.
· A
maioria estuda aqui mesmo no bairro?
Teresa – É.
·E
eles gostam [de estudar no Aracy Pereira Lopes]?
Sebastiana – Não,
o Fábio vai obrigado, primeiro que ele fala que é para passar
o dia inteiro na escola. E ele já acha que está faltando
um pedaço do tempo dele para ele brincar né?
·Ah
tá, mas não porque ele queria ir para outra escola.
Sebastiana – Não,
ele queria ir para a Orlando Peres. Não coloquei porque não
tem vaga. E lá, ele fala muito das crianças de lá,
do bairro lá, que não aceita muito as crianças daqui
da Aracy. Ele fala, ‘mãe, o meu jeito lá é esse, eu
não brinco com ninguém’, é quieto, eles xingam, de
vez em quando bate. Na Aracy Pereira Lopes. É, porque ali já
faz parte do Cruzeiro do Sul.
·E
ele fala que os meninos da escola...
Sebastiana – Não aceita
muito, “ah, você veio da Aracy e tal”, esses dias mesmo o meu menino
falou: “eu não sei o nome do bairro onde eu moro”.
·Entendi.
E seu filho, por isso, ele tem mais vontade de estudar nas escolas daqui?
Sebastiana – Ele tem vontade
de estudar lá na Orlando Peres.
·
E as escolas daqui do bairros são muito boas, não é?
Sebastiana
– Eu acho que são, a preferência melhor é o Caíque,
né, eu acho (riso).
Luzia – O Caíque é
bom, mas o Orlando é melhor.
·É
que Caíque é só para os pequenos né?
Teresa – E essas escolas
daqui, eu acho assim, que eles têm uma grande ajuda, para ser uma
escola num lugar, que este lugar ele é discriminado, que a Aracy
é discriminado, é Aracy I, II e Antenor Garcia. Eu acho que
são os três lugares mais discriminados que tem aqui nesta
população de São Carlos. Mas eu acho assim, que da
parte das escolas eles têm cuidado bem, da parte da prefeitura. Que
lá eles têm merenda, até uniforme eles ganharam.
Sebastiana
–... Ele não quer ir para a escola de jeito nenhum [inaudível]
vai chorando.
·Que
série ele está?
Sebastiana – Tá na
quinta série. Eu já falei para ele, você não
vai jogar bola, porque ele é fã de bola, e ele e mais
ninguém. E ele vai faltar para jogar bola no Caíque né.
·E
ele falta de lá para ficar nas escolas daqui! É que ele não
se deu bem lá...
Sebastiana
– [inaudível]... Que é tudo grandão, é tudo
grandão, entendeu? [inaudível] ele é sempre o último...
[inaudível]. E ele é muito quieto, muito quieto, alguém
vai fazer uma pergunta para ele, ele eu não sei, eu não vi...
A diretora, quem foi Fábio, que pegou sua mochila? Não sei...
Ele viu quando o menino pegou mas não tinha coragem de dizer. Aí
o menino foi lá devolver e disse, se você tivesse falado,
você tinha apanhado.
·E
isso aí você acha que é porque ele mora aqui no bairro?
Sebastiana – Eu tenho certeza
que é porque ele mora na Aracy. É porque eles vêem
pelo ônibus, que é pouca criança que vai. Entendeu?
Daí eles percebem.
·Nossa,
que coisa hein, não sabia disso não, não sabia mesmo,
que tinha isso. Pensei até que fosse o contrário, que os
alunos, garotos assim, gostassem de estudar lá para cima.
Sebastiana – Eu imaginei
que o meu fosse gostar.
·E
quando ele estudava aqui no bairro ele gostava?
Sebastiana – Ele gostava.
·E
é horrível, você ficar o dia inteiro num lugar em que
você não gosta.
Luzia – E porque já
está terminando o primeiro semestre, não é, se não
fizeram amizade, não vão fazer mais.
·E
não tem nenhum amigo dele do bairro que vai com ele lá para
a escola?
Sebastiana – Tem o primo
só, dele.
·E
o primo também não gosta?
Sebastiana
– Também não. Eu acho que não.
Pontos
importantes emergem dessa fala. Primeiro, fica claro que a maioria dos
jovens dessa rede pela qual circulei estudavam nas escolas do bairro, sendo
que nessa família somente dois estudavam lá para cima;
realidade bem diversa da encontrada na outra rede. Estudam na mesma escola
de Patrícia, mas diferente dela, não gostam de estudar lá.
Só estudam na Aracy Pereira Lopes porque não conseguiram
vaga no bairro, ou seja, não se tratou de preferência das
mães e nem dos jovens estudantes. Fábio conta a sua mãe
que não é aceito pelos outros colegas por ser morador do
Aracy, diz não ser bem tratado na escola, tanto que em seis meses
de aula não fez amigos e, segundo a tia dele, não fará.
A mãe dele se refere a isso dizendo que são as crianças
de lá, de lá do Cruzeiro do Sul, que não aceitam as
do Aracy ali. Que são capazes de reconhecê-las como do Aracy
por chegarem de ônibus escolar que as busca no bairro.
Nota-se,
com isso, que ele se relaciona com a escola e na escola de uma forma totalmente
diferente de Patrícia, que diz gostar de encontrar pessoas de fora
do bairro, que não moram no Aracy. Ela, Patrícia, não
vê a mesma separação que a mãe de Fábio
vê entre os moradores do Aracy e os do Cruzeiro. De forma diferente,
seu namorado mora no Cruzeiro, sua avó mora lá, sua família
vai para lá aos finais de semana. Ela não reclama de estudar
lá, pelo contrário, gosta. Ele, de forma diferente, diz encontrar
problemas de relacionamento e que isso se atribui ao fato de ser morador
do Aracy, e que por esse motivo preferia estudar no bairro.
Essa
constatação reforça o fato de que nem todos os moradores
do Aracy são iguais, e que os jovens, pertencentes a redes sociais
distintas, e que ocupam posições diferentes, ao freqüentarem
a mesma escola e o mesmo bairro (fora do Aracy) estabelecem com eles relações
completamente diferentes.
Pelos
membros de trajetória extensa, as escolas do bairro são descritas
como bagunçadas, onde se usam drogas, onde se roubam tênis,
Patrícia mesmo fez a “cara feia” quando perguntei das escolas dali.
Para os jovens com outra trajetória era diferente. As escolas são
consideradas boas, acreditam que bem cuidadas pelo governo, pela prefeitura.
Valorizam o fato de os alunos receberem material completo. Além
disso, os relacionamentos sociais deles não aconteciam na escola
fora do Aracy, mas no bairro, que é onde, por exemplo, participam
do time de futebol.
O
Cruzeiro do Sul, bem como a escola lá situada, não se abrem
como espaço fértil para o desenvolvimento de seus vínculos
pessoais. Tanto que o jovem falta da escola do Cruzeiro para ir jogar bola
na escola do bairro, com seus amigos. A escola, onde teoricamente ele deveria
também brincar com os amigos, é local de inimizade. A ausência
da diversão, que deveria ali haver, faz com que vivenciem a diminuição
brusca do “tempo para brincar”, que é na verdade a hora de se relacionarem
com amigos, fazerem amizade, estabelecerem vínculos mais ou menos
duradouros. O tempo para isso é reduzido menos pelo tempo maior
que passam na escola, e mais pela qualidade dos relacionamentos que podem
construir ali. A maioria dos jovens de sua rede de relacionamentos não
está ali.
Mais
uma diferença relacionada a essa questão foi notada. Na rede
social de malha estreita (trajetória reduzida), era comum as mães
ficarem tranqüilas com seus filhos na rua, já as mães
da outra rede procuravam, de modo diferente, tirar seus filhos das ruas
do bairro, o que acentuava a distância entre eles, os filhos de cada
uma delas. Muitas vezes, na rede cujos membros tinham trajetória
extensa, ouvi que procuram tirar seus filhos da rua, que é muito
melhor para eles ficarem em casa. Esse tipo de depoimento simplesmente
não acontece entre migrantes com trajetória reduzida, e pude
notar que, não apenas suas crianças ficavam brincando na
rua (sem serem chamados tantas vezes para dentro de casa tal como presenciei
entre os outros), como eles mesmos circulavam mais pelo bairro.
A
paraibana, mãe do garoto que estuda na escola lá para cima,
e que está insatisfeito com isso, conta que foi ao Conselho Tutelar
procurar vaga no bairro para seu filho estudar. Na escola do Cruzeiro do
Sul os jovens passam o dia todo, e ela questiona que hoje as mães
não precisam deixar por tanto tempo seus filhos na escola. Especialmente
porque moram num lugar tranqüilo em que as crianças podem ficar
na rua. Ocorre que esses migrantes estão tendo como parâmetro
favelas da capital paulista, onde moraram por muitos anos. Assim valorizam
o fato de seus filhos poderem jogar bola, soltar pipa na rua, isso as deixa
tranqüilas e satisfeitas. E também citam a tranqüilidade
que é ter a família por perto. Assim, para elas basta e está
muito bom ficar por ali, em família e com os meninos brincando na
rua, ficam sem medo:
Sebastiana
– Que eu criei meus filhos lá em São Paulo assim, você
não pode botar alguém para cuidar, porque não tem
condições, você tem que criar seus filhos daquele jeito,
não tem que ficar no meio da rua, entendeu, é de portinha
fechada, e eles, até hoje, estão do mesmo jeito. Hoje aqui
na Aracy eles se sentem num paraíso. Que o povo fala, Aracy é
aquilo e aquilo outro. Se eles morassem lá onde eu morava, eles
iam ver...
·O
que é bom para tosse.
Sebastiana
– [inaudível] jogar bola, soltar pipa, tinha essas coisas não.
Lá, a única família que eu tinha assim mais perto
era minha irmã, eles moravam um pouquinho mais longe, ia lá
uma vez por semana, por mês... Entendeu? Não tinha muito contato.
E aqui não, aqui tem a família inteira... Pode brincar na
rua, meus meninos vão para a escola sossegados, eu não tenho
medo. Aqui só se, Deus me livre, tiver que acontecer mesmo. Lá,
a gente tem medo de [inaudível] meio da rua, ou bala perdida, ou
criança ser catada, é esse tipo de coisa.
·É
outra história. E aí vem gente falar, ter preconceito com
o Aracy...
Sebastiana
– Aí muitas vezes quando eu vou para lá:-Você mora
no Aracy? -Moro, com muito prazer. Eu adoro a Aracy. -Aí,
por que você fala isso? Eu digo: -se você tivesse morado
no lugar que eu morei, você ia me dar razão.
Para
a construção desse discurso esclareço que a questão
de fundo não é exatamente o fato de elas terem morado em
favelas de São Paulo, mas a de continuar pensando em função
da própria trajetória social que define esses migrantes.
Pois a situação de miséria descrita por eles e que
envolve seu passado recente inclui não apenas a iminência
da fome, mas também da violência. Sobre isso estão
falando, e conviviam com a violência em favelas de São Paulo,
e não sentem com a mesma força o perigo em São Carlos,
ou no Aracy, bairro geralmente representado como muito violento em toda
São Carlos.
Os
migrantes com a trajetória reduzida geralmente circulam bastante
pelas ruas do Aracy, e acham isso bom. Na outra rede encontrei o oposto
quanto à relação que estabelecem com o próprio
bairro. Costumam chamar seus filhos para dentro de casa a todo momento,
dizem que não gostam que eles fiquem “por aí”, na rua, assim
como eles também não gostam de ficar, “nem na calçada”
gostam. Era uma forma de se diferenciar dos moradores do Aracy e aproximar-se
dos moradores de outros bairros “mais evoluídos”, em que todos ficam
mais reservados em suas casas, tal como expressou a fala de Valter, citada
abaixo:
·Mas
aqui no Aracy é diferente dos outros bairros de São Carlos?
Valter
– É diferente. Eu vou nos outros bairros aí e a mãe
acompanha o filho, a mãe não deixa o filho sair na rua, fica
todo mundo trancado, aqui fica muito na rua, fazendo muita coisa que não
presta.
·Você
acha que aqui as pessoas ficam muito na rua, e que isso é um problema?
Valter
– Isso. Aqui olha, o meu irmão, o filho dele, você precisa
ver o filho dele (...), o meu sobrinho é grande, sete, oito anos,
e você nunca vê ele na rua. Meu irmão ele... Não
pode ir na rua, é na escola, volta para casa, para a casa da avó
ou para a casa dele (...) Ele brinca com os amigos dele lá no quintal
do meu irmão, ele vem aqui com os amiguinhos dele e brinca aqui
no quintal, na rua não. Na rua é com o pai ou com a mãe.
Isso tem que ser o padrão.
·Aqui
no Aracy eu notei mesmo, que tem bastante gente na rua. Principalmente
de final de semana né?
Valter
– Nossa (...) E também porque não têm vídeo
game igual os outros né...
·Não
têm Internet...
Valter
– Não têm televisão, não têm Internet,
não têm um telefone para ligar para outro amigo, então
isso influi também.
Ou
como a sobrinha que Ana cria:
Ana
– Aqui já fica tudo junto, aí ela vem, a minha mãe
bota ela para dentro de casa, ela fica aqui, fica aqui dentro, que ela
tem as tralhas dela aí né...
·Mas
tem um monte de criançada aqui também, não tem?
Ana
– Ih, mas eu não gosto que ela brinque.
·Não?
Por quê?
Ana
– Porque fica muito moleque aqui na rua, e vem moleque de todo lado, você
nunca sebe quem é né? E hoje em dia a molecada já
mexe com muita porcaria, muita besteira, só fala gíria...
Quando tem uma menininha boazinha eu deixo brincar com ela, um molequinho
mesmo (...) Eu prefiro que eles fiquem aqui, quando eu estou, quando eu
não estou não vem ninguém. Aí um ou dois eu
deixo, mais eu não deixo, é um de cada vez. Que aí
brinca né, a gente pode controlar.
Eles
tendem a se diferenciar dos demais moradores, separando-se da rua, preferindo
que seus filhos fiquem dentro de casa, criticando que no bairro há
muitas crianças e que muitas ficam na rua. A rua se constrói
então segundo “variados pontos de vista, oferecidos pela multiplicidade
de seus usuários, suas tarefas, suas referências culturais,
seus horários de uso e formas de ocupação” (Magnani,
2007). Os filhos de uma e de outra rede separam-se, não brincam
juntos na rua, e quando na mesma escola, relacionam-se com ela de forma
completamente diversa, de modo que não constróem espaços
de socialização comuns, nem mesmo nas ruas do bairro.
Os
que apresentam trajetória extensa se afastam do Aracy o tanto quanto
podem, procurando se diferenciar de seus moradores e se afastar até
mesmo de seus espaços físicos, como a rua, as escolas, tende
a haver mais pessoas da família morando em outros bairros, onde
procuram realizar seus encontros familiares. Assim, os filhos desta rede
geralmente estudam em escolas fora do Aracy assim como fazem cursos “lá
para cima”, já os filhos dos que não têm mais do
que uma casa concentram-se mais no bairro, espaço mais fértil
para o desenvolvimento de seus relacionamentos.
Conclusão
Ao
me manter atrelada à estrutura do bairro, ao modo que foi construído
na sua relação com São Carlos, foi possível
entender o que estava em jogo ali, o que era importante inclusive para
a configuração das redes sociais que envolviam migrantes
residentes Aracy. Um recorte importante fora apresentado pelos próprios
moradores e separava os migrantes do bairro entre os que “tinham no máximo
uma casa para morar” e os que “tinham muito mais que uma casa”.
Isso
os separava no espaço social e também gerava espaços
sociais diferenciados no bairro, por onde essas redes se distribuíam.
Segundo a posição de cada um, estabeleciam com a cidade e
com o próprio bairro relações adversas. Com isso quero
dizer que “a cidade não se impõe de forma homogênea
e absoluta sobre seus moradores” (Magnani, 2007).
Mesmo que se trate de migrantes residindo num bairro periférico,
ainda assim, eles não constituem uma unidade.
Em
função de suas diferenciações, pude analisar
alguns de seus espaços de sociabilidade. O próprio bairro
assume formas variadas no discurso de seus moradores, especialmente a rua,
ora vista como lugar tranqüilo para crianças brincarem sozinhas,
ora vista como lugar ameaçador. E também os contatos estabelecidos
com a cidade de São Carlos não possuem a mesma intensidade
e não são sentidos da mesma forma pelos migrantes contidos
em redes sociais distintas.
Doutora
em Antropologia Cultural pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
O texto deste artigo baseou-se na tese de doutoramento Migrações
e Redes Sociais: trajetórias, pertencimentos e relações
sociais de migrantes no interior de São Paulo, sob orientação
de Beatriz Heredia, defendida no Programa de Pós-Graduação
em Sociologia e Antropologia da UFRJ, Rio de Janeiro, 2006.
No estudo da migração este conceito assume importância
à medida que é por meio das redes de relações
sociais (recomendação e parentes e amigos) que a migração
acontece e, uma vez efetuada a migração, elas não
se rompem. Migrantes não deixam de pertencer a um grupo social específico
e ao conjunto de suas relações sociais fundamentais (Thomas
e Znaniecki, 1974; Sayad, 1998; Queiroz 1973; Menezes 1996; Garcia, 1990;
Seyferth, 1990 entre outros).
Ao relacionar papéis conjugais com a configuração
das redes de relações ao redor da família, a autora
diz: “Um grande número de relacionamentos sociais importantes era
levado a cabo não com vizinhos, mas, sim, com amigos e parentes,
que viviam uma certa distância da família que estava sendo
entrevistada. (...) Nossa tese é a de que as famílias, como
totalidades sociais, não estavam contidas em grupos organizados
mas, somente, em redes” (Bott, 1976: 67). Ou seja, rede social não
implica proximidade física ou geográfica, mas implica contato
social.
Tanto ele como Pereira Lopes estavam no comando da vida político-econômica
da cidade.
A existência de “ambientes sociais” permite que uma mesma característica
seja boa e ruim; o que não nega o fato de que há atributos
que, em quase todos os ambientes sociais, levam ao descrédito (Goffman,
1988).
Observar que o bairro é socialmente construído como estigmatizado
segundo sua relação com São Carlos. Ele está
inserido numa lógica que é a da cidade, e percebi que, um
grande perigo para quem o pesquisa é tomá-lo da forma que
dizem que ele foi construído: para ser uma cidade. Para mim foi
importante pensar nisso, para que eu não o tratasse da forma que
ele parece estar para muita gente: separado e isolado.
A mesma relativização vale para a questão da trajetória:
é como imaginar uma linha em que há diversos pontos a serem
ocupados, e as pessoas nela ocupam pontos mais próximos e mais afastados,
estando, num dos extremos, a trajetória reduzida e, no outro, a
trajetória extensa. O que há não são dois blocos
rigidamente separados, mas um caminhar nessa trajetória e constante
luta e negociação de uma posição.
Pejorativamente, assim como o Aracy é referido como lá para
baixo com relação ao resto da cidade, que fica lá
pra cima, internamente o bairro também é dividido nos mesmo
termos.
Ela, apesar de estar passando por dificuldades financeiras, tem irmãos
morando em outros bairros e que possuem nesses bairros, comércio.
A família dela, além de ter a casa em que ela mora, tem também
mais uma casa bem grande no Aracy. Situam-se entre os migrantes de trajetória
extensa, embora eu deva lembrar que indivíduos situam-se em pontos
diferente da trajetória. Nem todos que eu digo que possuem trajetória
extensa ocupam o mesmo ponto.
Bibliografia
BOTT,
Elizabeth.
Família e Rede Social. Rio de Janeiro:
F. Alves, 1976.
ELIAS, Norbert.
Os
Estabelecidos e os Outsiders: Sociologia das relações de
poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 2000.
GARCIA JÚNIOR,
Afrânio Raul. O Sul: Caminho do Roçado - estratégias
de reprodução camponesa e transformação social.
São Paulo: Marco Zero, 1990.
GOFFMAN, Erving.
Estigma:
notas sobre a manipulação da identidade deteriorada.
Rio de Janeiro: Guanabara, 1988.
JARDIM, Maria.
Inclusão Social é Trabalho Coletivo: resgate da dignidade
e da auto-estima de moradores em um bairro popular da cidade de São
Carlos - SP. Projeto apresentado ao II Prêmio da Mostra PUC:
Rio de Janeiro, 2003.
MAGNANI, José
Guilherme. Rua,
símbolo e Suporte da Experiência Urbana. [on-line] in:
NAU
- Núcleo de Antropologia Urbana da USP. Capturado em 10/01/2007.
MANCUSO, Maria
Inês, OLIVEIRA, E. Condições de Vida e Pobreza
em São Carlos: uma abordagem multidisciplinar. Relatório
do Núcleo de Pesquisa e Documentação da Universidade
Federal de São Carlos, São Carlos: 1994.
QUEIROZ,
Maria Isaura P. de. Bairros Rurais Paulistas. São
Paulo: Duas Cidades, 1973.
SAYAD,
Abdelmalek.
A Imigração. São Paulo:
Ed. da Universidade de São Paulo, 1998.
SANCHEZ,
Patrícia Salvador; DAL BELLO, Érika Aletéia. Ocupação
periférica de baixa renda em áreas de mananciais. In: FELICIDADE,
N.; MARTINS, R. C.; LEME, A. A. (orgs.). Uso e gestão dos
recursos hídricos no Brasil. São Carlos: Ed. Rima,
2001.
SEYFERTH,
Giralda. Imigração e Cultura no Brasil. Brasília:
Editora Universidade de Brasília, 1990.
THOMAS,
W. I. & ZNANIECKI. The Peasant Family e Marriage. In: The Polish
Peasant in Europe and America. New York: Octagon Books, 1974.
ZALUAR,
Alba.
A Máquina e a Revolta: as organizações
populares e o significado da pobreza. São Paulo: Brasiliense,
1985.