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ENTRE A CASA & A RUA: A RELAÇÃO ENTRE PATRÕES E EMPREGADAS DOMÉSTICAS
Gabriela Renata R. dos Santos, Patrícia Lagun Mesquita e Rafaela de Andrade Deiab
 
 
 
 
3.2. Como e quando contratar & Como conseguir trabalho e trabalhar
 
A partir das falas das empregadas domésticas, pode-se perceber que "ir e voltar" é sempre preferível a "dormir no emprego", principalmente por causa da duração da jornada de trabalho. No segundo caso, a labuta estende-se até a última hora do dia, misturando-se a intimidade do empregado com a da família. O tempo para o descanso é reduzido e os limites entre o tempo do trabalho e o tempo do descanso se diluem. 
 

Na entrevista feita no STDMSP, Dejanira declara que uma das reivindicações do sindicato consiste na regulamentação da jornada de trabalho de acordo com a CLT, ou seja, 8 horas diárias ou 40 horas semanais.
 

Quando foi perguntado a Sinhá o que ela achava de dormir no emprego, ela respondeu: "Deve ser horrível! Porque você tira a liberdade dos patrão tudo. Você sempre tá cansado... Acho legal assim: terminar o serviço e ir embora." Quanto à jornada de trabalho, disse:"Eu costumo chegar aqui, nas outras, 8h30, 9h e a hora que eu termino vou embora. Tem dia que eu termino 3h30, 4 h.  No mais tardar, até as 5h eu fico".
 

Paula nos relatou: 
 

"No começo eu trabalhava no sábado e folgava domingo e segunda. Só com o tempo mudou. Agora folgo sábado depois do meio dia e domingo, volto na segunda de manhã. Nos finais de semana vou para minha casa, pois pago aluguel junto com meu irmão. Tenho minhas coisas. Eu nunca trabalhei sem ter que dormir, mas se eu achasse um emprego para ir e voltar todo dia para casa eu preferia. As horas de trabalho por dia eu nunca contei, não, porque fica difícil. Eu começo às 7H e vou até as 9H, 10H da noite. À noite fico mais com as crianças, quando eles (os patrões) saem." 


Já Dalva, quando respondeu sobre dormir no emprego, disse: "Não, não. Porque os que eu já trabalhei tudo era moça feita, rapaz, não tinha criança pequena pra tá batendo na minha porta. Não, de jeito nenhum. Não tinha ninguém pra me perturbar, não".
 

Dalva, apesar de não considerar ruim "dormir no emprego",  ressalta outros fatores, como a possibilidade de casar, de constituir família própria e a distância dos filhos. 
 

"Eu sentia falta dos meus filhos. Porque eu tava deitadinha ali, embrulhadinha bem bonitinha, comendo bem e eu lembrava dos filhos que tinha deixado no Norte. Não sabia se eles tavam passando fome, não sabia o que que é que tava passando na vida deles. E do meu dinheiro daqui, eu mandava pra eles. Eu ficava com o dinheirinho de sair, do cigarro. Mas sempre sustentei eles, mas a lembrança muito era dos meus filhos. Porque passa a ser mãe tem que ir até o final." 


A fala de Paula, neste aspecto, é semelhante à de Dalva: 
 

"... eu estava numa boa com eles, eu gostava deles e eles gostavam de mim, são ótimas pessoas, minha patroa era super nova, mais nova que eu na época, de repente me bateu uma saudade do meu filho que estava no interior, não agüentava de saudade, aí pedi a conta e fui embora. Ele está com 15 anos hoje, vontade eu tenho de trazer ele, mas como eu durmo no emprego não dá para trazer ele". 


Em relação ao casamento, Dalva disse: 
 

"Antes de conhecer o Geraldo, eu morava no emprego, lá na Paulista. Eu só vinha aqui pra onde eu moro, final de semana com a nela que nós tinha alugado uma casinha . Aí nós vinha na sexta à noite, aí quando era na segunda-feira eu pegava o ônibus. Eu ia lá pra Paulista. Aí, depois que eu conheci o Geraldo, eu não dormi mais no emprego. Eu ia e voltava todos os dias".


Diferentemente da preferência manifestada pelas empregadas domésticas, muitas vezes as patroas exigem que se durma no emprego. Esse descompasso entre a demanda por empregadas que durmam e a oferta de empregadas dispostas a ir e voltar, muitas vezes leva as patroas a buscarem uma agência de colocação, tal como disse o dono de uma delas: 
 

Alexandre - Geralmente, a grande demanda, principalmente no caso do mercado em geral, não só pelo fato de ser agência, eu acho que é pra dormir no emprego. 
R - E a oferta das empregadas, geralmente, é para dormir ou pra ir e voltar?
A - É o contrário. A maioria que procura a agência não quer para dormir, porque não pode. Ou porque tem filhos que não tem com quem deixar, ou tem marido, são casadas.... Então é o inverso: a grande procura de empregadas é pra arrumar empregos de ir e voltar. Já as patroas procuram mais a agência pedindo empregadas que dormem. Nós é que temos que destrinchar isso aí, nós temos que recrutar essas candidatas que podem dormir e aí... Eu acredito que procurem a agência justamente por ser mais difícil conseguir fora." 


No entanto, foi possível perceber que o perfil exigido do profissional varia de acordo com a fase da vida em que as patroas se encontram. O período de contratação da primeira empregada doméstica geralmente se dá por ocasião do casamento . As patroas passam a exigir da empregada que durma no emprego a partir do momento em que têm filhos, quando trabalham fora, ou porque a presença dela viabiliza idas ao cinema, jantares,  ou, ainda, pelo simples conforto de  ter uma ajuda a mais nas tarefas da casa, como no caso de Jane, que considera o serviço da empregada doméstica  um facilitador que torna a vida mais agradável. 
 

"Ajuda muito a vida da gente, simplifica, mas não sei se 'necessário' é a palavra certa. A gente pode fazer, tantos países não têm empregada e as pessoas fazem o serviço doméstico também, mas ajuda bastante. Torna a nossa vida mais agradável". 


Já Laíde considera indispensável, impossível, viver sem uma empregada doméstica: 
 

"Pra mim não dá pra viver sem. É uma pessoa muito importante. Bastante, viu? Naquele trabalho pesado em casa, pois se eu quero produzir alguma coisa, desenvolver algum trabalho fora de casa eu preciso ter alguém que me ajude". 


Amanda pensa de modo parecido: 
 

"Não dá para viver sem, hoje, ia implicar no meu desempenho profissional".


É possível pensar que a dinâmica econômica impulsiona mulheres de estratos médios a buscar emprego fora de casa, ao mesmo tempo em que as leva a contratar outras mulheres como domésticas.Portanto, uma característica cultural do Brasil  soma-se ao alto custo de escolas em período integral e à falta de equipamentos eletrônicos que facilitem o trabalho na casa, o que faz com que a procura pelo trabalho doméstico seja constante. Assim, o emprego doméstico usufrui relativa estabilidade no que se refere a crises econômicas, sobretudo nas funções relacionadas ao trato das crianças e à manutenção da casa.
 

Na hora da contratação dos serviços domésticos, a indicação é a forma preferencial, tanto para as patroas quanto para as domésticas. Apesar da agência  parecer ser  o meio mais seguro para ambas as partes, uma vez que  se certifica dos antecedentes tanto das domésticas quanto das patroas, esse tipo de serviço foi criticado pelos entrevistados. Jane disse: 
 

"Nunca gostei de agência. Não tenho boas referências de agência. Porque as pessoas me dizem que agência é meio viciado, você contrata a empregada, ela fica três, 4, 5 meses e, depois, ela vai embora, porque a agência vive da contratação, então ela precisa daquele primeiro salário. Não sei se é verdade, isso foi o que me passaram, mas nunca precisei de agência"


Amanda, que já utilizou os serviços de agência, disse que ficou muito desconfiada, pois "todas as candidatas pareciam maravilhosas, mas isso não existe, ninguém é maravilhoso". A moça entrevistada no Sindicato das Trabalhadoras Domésticas disse que não gostava de agência, pois eles faziam perguntas que, muitas vezes, ela não queria responder: perguntavam por que motivo saiu do último emprego, pediam atestado de antecedentes e várias referências. 
 

Na Agência Nova Gaúcha, há um questionário que é aplicado na primeira entrevista. "É uma ficha de informação pessoal de uma candidata. Então, quando ela vem aqui ela faz esse cadastro, uma ficha padronizada da agência." Não  foi possível coletar uma ficha, mas nela constavam  itens pouco usuais, tais como: com quem mora, aparência, cor, nível (além de nível de escolaridade), religião e se fumante ou não fumante.
 

No entanto, muitas domésticas e patroas procuram os serviços de agências, que funcionam como  intermediadoras entre as duas categorias. Dejanira, a presidente do sindicato das domésticas, conseguiu seu primeiro emprego, em São Paulo, por meio de uma agência: "O meu primeiro emprego eu fui numa agência na praça da República e arrumei um emprego pra trabalhar na Lapa". Mas, como já foi  dito, a indicação consiste na forma preferencial de contratação. As três patroas  entrevistadas afirmam ter contratado as domésticas por indicação e adotam como hábito esse tipo de estratégia. Laíde: 
 
 

"Primeiro a própria Zenaide, que saiu de licença maternidade. Aí ela me arrumou uma pessoa, mas não deu certo e uma amiga tinha irmã, aí veio a irmã (...). Às vezes, você tá conversando com uma amiga e comenta que tá precisando de alguém, aí ela indica..." 
Amanda: "A Silvia eu conheci porque ela tinha trabalhado quatro anos na minha cunhada. Ela está há doze anos na família. Oito anos na minha casa e mais quatro na minha cunhada. Ela não estava se dando bem com a minha cunhada,  foi para minha mão e voltou para minha cunhada. Quando eu engravidei, ela veio pouco antes do Alex nascer." "E com a Paula, pedi para um monte de gente me ajudar, ninguém me ajudou, fui em agência, não curti. Na época, meu filho ia numa escolinha de bairro e eu pedi para a servente me indicar e a Paula é prima dela." 


A doméstica  que dizia não gostar de ser intermediada por agência,  preferia que as amigas a indicassem para um serviço. Ela mesma  sempre arrumava emprego para  as suas conhecidas.
 

Outra entrevistada, Sinhá, disse que costuma abordar as pessoas e perguntar se precisam de empregada. Eis seu relato de  como conseguiu o primeiro emprego: 
 

"Uma senhora mudou pro bairro e ela tava lavando a calçada, tinha cachorro, criança. E eu ficava olhando ... aí eu perguntei se ela não queria ninguém pra ajudar ela. Ela olhou pra mim e disse: Eu quero. Aí ela falou com o marido dela e no outro dia ela me chamou e eu comecei."


Em muitos casos, a empregada doméstica que chega em São Paulo já vem com um emprego acertado em função de uma rede de indicações que envolve parentes ou amigos que já trabalhem por aqui, como no caso de Dalva: "Quando eu vim de lá da Bahia, eu já vim direto para o meu emprego. Pra mãe da Dona Alessandra. Aí eu fiquei com Dona Alessandra um ano e meio".
 
 
 

3.3. Da relação e convivência entre patroas e empregadas 


A indicação, por ser o modo privilegiado de contratação, levanta outra questão fundamental a ser observada: a referência. Nas falas das empregadas domésticas, percebe-se uma considerável preocupação em manter boas relações com as patroas, mesmo quando saem do emprego. Isto constitui, de modo geral, uma estratégia para conseguir boas recomendações e indicações na procura por um novo emprego. E nessa conquista de um bom relacionamento, valores como confiança, carinho, intimidade e amizade são centrais. 
 

Na fala de Sinhá, a questão da amizade como facilitadora de boas referências é explícita: "É o importante, é isso, ter a amizade, tudo, porque aí... você vê tem amizade, já o fulano liga e tal e falam "eu conheço", tal né. Então, gosto de manter a amizade." 
 

Já Dalva, ressalta a relação de confiança,  a honestidade e a importância de manter  a referência:
 

"que muitas patroas pega as empregadas ficam um ano, dois anos, ah manda embora. Sai como ladrona, porque eu já conheci umas duas amigas, saiu como ladrona. Deixa as coitada, só saiu com a roupa do corpo. Aí elas ficam botando má fama. "Ah, porque não pegue fulana, porque é ladrona." (...) Meu negócio é isso aí, é ter confiança em mim. É o que eu falo todo dia lá em casa, é de ter confiança. (...) Por exemplo você viaja, você me entrega tua casa, porque você tem confiança em mim. Porque se você não tivesse confiança jamais você fazia uma viagem longa. De 2, 3 meses. O que eu penso é isso aí." 


A trabalhadora entrevistada na recepção do sindicato das domésticas, também se queixava da falta de confiança que a patroa manifestava em relação a ela. Dizia que a patroa era judia, que trancava todos os armários quando saía de casa e que, por isso, aquele era uma lugar muito ruim para se trabalhar. Como pode ser visto, as domésticas não gostam ser alvo de suspeitas, sobretudo de roubo, que parece ser o caso mais comum. Dalva faz o relato mais contundente sobre esse ponto, afirmando e enfatizando sua conduta confiável: "Não sou de pegar nada de ninguém. Eu já passei uma fase que eu pedi esmola pra criar meus filhos. Hoje eu vou fazer 50 anos ano que vem. Mas eu pedi esmola pra eu criar meus filho, pra mim não roubar."
 

O trecho da entrevista com Dalva ressalta um ponto importante em relação às expectativas que as patroas mantêm sobre as empregadas: a confiança reaparece,  agora como exigência patronal, tendo um significado  parecido com honestidade. Assim, como as empregadas exigem das patroas que tenham confiança nelas, as patroas exigem  honestidade. É o que se percebe na fala de Amanda quando fala sobre o que é essencial em suas funcionárias. 
 

"Por isso eu falei que a coisa mais importante é a responsabilidade e confiança, não fico controlando o que faz o que não faz. (...) Então não precisa lavar bem, passar bem, mas tem que ser de extrema confiança. Até a Maria que lava, passa,  cozinha e cuida da parte de fora, além de ser uma pessoa de extrema confiança, ela é muito boa em tudo que ela faz. Já a Paula é uma pessoa séria assim, mas eu confio muito nela. Mas não vou dizer que confiei de cara, demorei muito para confiar, desconfiei, não sabia quem  era. Hoje em dia eu viajo, eu e meu marido viajamos sozinhos e deixamos as crianças, uma de cinco outro de sete, com elas. Sempre foi assim. Por isso confio tanto."


O fantasma do roubo assombra constantemente a relação patroa-empregada. E, algumas vezes, se confirma, como no caso relatado por Jane: 
 

"Eu tive uma empregada que estava roubando, tirava dinheiro, pequenas quantias de vez em quando. E quando eu descobri tentei conversar com ela, mas ela não gostou. Achou que tinha se sujado por muito pouco. Aí com a resposta que ela deu, eu achei que não havia chance de consertar e mandei ela embora." 


Uma patroa que desabafou no site "A patroa e sua empregada" também relata um caso de apropriação indevida: 
 

"Ocorreu que, um belo dia, num domingo à tarde, resolvi comprar sorvete para meus filhos num mercado perto de casa. Quando estacionei o carro, dou de cara com a minha empregada, USANDO UM BRINCO MEU! Certo, não era nem uma jóia, só uma bijuteria, mas mesmo assim me senti violada em minha privacidade, imaginando o que mais ela já não usou escondido, coisas de uso pessoal, etc. O que mais me doeu não foi nem isso - todo mundo erra às vezes e eu estava disposta a perdoar esse pequeno deslize...Porém, quando fui conversar com ela, após uma desculpa esfarrapada que não colou, ela simplesmente disse: 'Poxa, a senhora está reclamando por causa de um brinco! A senhora tem tantas coisas mais bonitas, por que está fazendo questão de um brinco? 'Imagine, após quase cinco anos de convivência, respeito, etc."


Aqui caberia novamente  a distinção entre casa e rua para uma melhor compreensão dos fatos ocorridos. Como já foi dito, a casa é o lugar da família, dos laços de sangue. Nesse sentido, a empregada partilha da convivência familiar no espaço da casa, tornando-se  "quase" da família. Contudo, no primeiro caso de desconfiança, quando some algo da residência, a primeira pessoa de quem se suspeita é aquela alheia à família. A empregada, que era "quase da família", torna-se "uma estranha", afinal de contas ela não tem sua origem na casa; ela vem da rua - o lugar do perigo e da inconstância - e talvez venha junto com ela  a ameaça ao lar. A mulher do site, depois do acontecido,  lamenta  ter que contratar uma doméstica, considerando este tipo de trabalho quase um mal necessário: "sempre tive empregadas domésticas em casa, pois trabalho fora e preciso de alguém para me ajudar; mas, francamente, se eu tivesse alguma opção, optaria por nunca colocar uma pessoa estranha em minha casa." 
 

Algo digno de nota nos relatos  de roubo coletados foi o fato de que, por mais que as patroas estivessem ofendidas e bravas,  sempre tentaram conversar e dar uma segunda chance, o que nos dois casos acima não apresentou resultados,  uma vez que as empregadas acharam que suas patroas não tiveram razão para ficar tão indignadas. O que transpareceu das situações foi que o acordo, a conversa e a cordialidade foram primeiramente buscados. Pode-se pensar naquela versão que diz ser o trabalho doméstico pautado por padrões tradicionalistas, paternalistas e clientelistas, em que  ainda não se recorre a um embate político direto, ao contrário, barganha-se, atenua-se o conflito. Contudo, a especificidade do emprego doméstico - a  relação formal empregatícia que se desenrola no espaço da casa - pode ser um foco mais rico de compreensão. DaMatta dá pistas disso quando diz que a casa é o espaço da complementaridade, do ajuste e jamais do conflito. Porque o conflito é mediado pela lei e a família define-se como entidade acima da lei, não sujeita a ela. "Não é por acaso que tal perspectiva, em que a casa e sua ética são o ponto exclusivo de uma visão da sociedade, tende a ser tomada como um discurso 'pré-político', ou politicamente 'alienado', ou meramente ingênuo. Mas ele é uma fala da mesma 'ordem' e do mesmo 'gênero'da construção populista - ambos fundados no espaço da sociedade brasileira que traduz o mundo como um assunto de preferências, laços de simpatia, lealdades pessoais, complementaridades, compensações e bondades ou maldades: o espaço da casa. (...) O cidadão é a entidade que está sujeita à lei, ao passo que a família e as teias de amizade (...) são rigorosamente fora da lei"
 

Nessa medida, mesmo as empregadas esperam algo mais do que uma relação formal com as patroas. Para Paula: 
 

"Uma boa patroa para mim não é dependente ao que ela me paga, uma boa patroa para mim é aquela que me valoriza (...) se eu precisar, ela estar ali para me ajudar. Quando ela precisar que eu a  ajude, sem cobrar nada dela"
Paula preferia sua patroa da Bahia, com quem tinha mais intimidade e por quem se sentia mais valorizada, sendo que os direitos trabalhistas tinham sido respeitados em ambos os casos. 
 
 
"Direitos são as mesmas coisas, eu nem sei como te explicar, pois o pouco tempo que eu estive lá, que eu posso falar mesmo foi a última. Então, não tem muita diferença com relação a direitos, mas a minha relação com ela eu tinha mais intimidade, as relações eram diferentes. Lá ela trabalhava também." 
Dalva e Sinhá também definem a boa patroa não em termos dos direitos ou salários, mas da convivência, do dia-a-dia, da relação de trabalho. A primeira diz: 
 
"Olha, eu vou falar a verdade, eu nunca encontrei patroa aqui em SP pra ser patroa ruim. Todas as que eu encontro são boas pra mim, não me maltrata, não me machuca. Sabem, como eu sei também, conversar com elas. Porque eu não sei ler, como eu já te falei, mas eu sei respeitar patroa, eu sei respeitar o patrão. (...) Então nisso, eu vivo em qualquer lugar, com qualquer patroa. Não sou de trazer raiva, não trago raiva de patroa, não tenho mágoa, não tenho nada. Se por acaso, se eu fizer alguma coisa errada e a Dona Jane vim me reclamar, não respondo, porque toda a vida eu fui assim. Mas, com a graça de Deus, eu nunca topei com patroa má aqui em São Paulo. Tudo são boas pra mim." Sinhá é enfática  ao dizer que patroa boa é aquela "que me trate bem."


Portanto, as empregadas valorizam algo mais do que o dinheiro: a convivência. As próprias patroas assumem que dão muito mais do que  dinheiro. Laíde relatou o caso de uma funcionária que ela sempre ajudou e que, quando foi embora, tentou acioná-la na Justiça do Trabalho. Acredita que a funcionária desistiu na última hora porque sempre fora uma boa patroa. 
 

"Eu sempre procurei ajudar bastante, e não sei o que aconteceu com ela naquela época e ela resolveu dar queixa na justiça do trabalho. E eu sempre ajudava, até com dinheiro toda vez que precisava, foi uma época áurea inclusive na minha vida. E quando ela [doméstica]  saiu, ela quis acionar. E quando foi marcada a audiência ela não compareceu. Não sei se ela ficou com vergonha... Entende? Porque eu tinha ajudado muito ela, tudo que eu podia e que ela precisava, ajudava com dinheiro, com o que fosse." 
Jane também disse fazer mais do que apenas pagar o salário: "não só pelo salário, mas dá uma ajuda aqui e outra ali, adianta salário, empréstimo, dá roupas que a gente não quer."
 

Dejanira, como presidente do STDMSP, recrimina essa prática e considera que ela não contribui para o reconhecimento da categoria: 
 

"Mas hoje a gente já vê que é uma categoria, um trabalho, mas não é reconhecida até por causa disso, porque muitos patrões ainda ficam com aquela de dar roupa velha, roupa usada e dar isso e aquilo e o valor mesmo do trabalho eles não reconhecem. Entende? Como uma troca assim de alimentação, moradia e não vêem que hoje é um trabalho como os outros que tem que ter tudo mais, todos os outros direitos."


Mas, ainda que o Sindicato posicione-se contra o clientelismo, são comuns acordos e homologações entre empregados e patrões e só se recorre à justiça como última opção. 
 

"Mas em muitos casos não precisa processo. É um acordo. Vem empregado e empregador e é feita a rescisão com todos os direitos da categoria... Então só vai pra processo aqueles que não pagam mesmo. (...) Porque aí o acordo entre patrão e empregado é feito aqui com a gente, porque é uma rescisão, ou uma homologação, que é a mesma coisa. A gente, o sindicato da categoria, no caso nós diretoras e o patrão e a empregada." 
Jurema Brites analisa de modo instigante essa prática sindical: 
 
"na prática política de sindicalistas, sempre buscam primeiro a via da conciliação, antes de um enfretamento judicial com os patrões. E o fazem pelo profundo conhecimento que dispõem das agruras enfrentadas por sua categoria profissional: são mulheres pobres que não podem arcar com os custos de um processo e que não podem contar com a diligência da corte judicial. Uma das atuações mais importantes do Sindicato, aquela que a bem da verdade ainda o mantém de portas abertas, é seu papel na homologação das rescisões contratuais." 


Diante dessa realidade, torna-se evidente que o combate aberto não é uma boa estratégia para as domésticas, que acabam por apostar numa relação que, de preferência, respeite a legislação mas,  ao mesmo tempo, envolva amizade e intimidade.Agora talvez se faça compreensível a frase que tantas vezes foi ouvida durante o trabalho de campo - "a patroa faz a empregada e a empregada faz a patroa" - e que 
Alexandre explicou de maneira magistral: 
 
 

"As empregadas costumam dizer uma coisa interessante, elas falam assim: "quem faz a patroa é a empregada. E quem faz a empregada é a patroa." Realmente é engraçado. Casa de família é assim uma coisa até meio íntima; é diferente de você ir trabalhar numa empresa. Uma empregada doméstica ela caba se envolvendo muito com a família. Então é uma relação mais íntima, mais próxima. A empregada doméstica fica a par dos problemas da casa, dos problemas da família, né. Então acho que tem que haver respeito de ambas as partes. Se a patroa valoriza a empregada, se trata bem a empregada, então vai ter uma profissional que vai trabalhar direitinho pra ela. Vai querer agradar ela. Uma empregada que se esforça no trabalho, que procura corresponder àquilo que ela ganha, corresponder ao que o patrão quer, procura dar o máximo e o melhor de si, então realmente vai ter uma patroa que vai valorizar o trabalho dela, que vai gostar dela, que vai tratar bem ela. Acho que na grande maioria não tem problemas." 


Existem exigências e expectativas de ambos os lados.  É como relata Dalva: 
 

"A boa patroa é assim, é de ter o respeito de uma para outra. É você ter aquela patroa em casa e você ter aquele respeito por ela. Não é a patroa dar o mundo de coisas, não. É a convivência da patroa com a empregada. Isso que eu acho bonito."
E, segundo Dalva, é esta convivência  que  torna a relação complicada e, ao mesmo tempo, enriquecedora. 
 

Como relatou Jane: 
 

"ela [empregada] vive dentro da sua casa, ela ouve, vê todos os problemas, ela vive a sua vida por aquelas horas e acho desumano você não ter uma relação mais próxima. Você tem que viver a vida dela também. É uma troca de experiências. A gente tem o que aprender com eles e eles têm o que aprender com a gente. A gente tem muita lição de vida com eles. Eles têm uma lição de luxo e a gente tem de vida. É uma relação conflituosa e não vejo como, pelo menos da minha parte, de não apegar. Sempre quando foram embora foi difícil, pensar em começar tudo de novo, será que vou gostar de alguém de novo... no começo eu tento não me envolver mas com o tempo você se envolve com os problemas dela também e me envolvo."

 
 
3.4. Das representações de ambos os lados


A partir das entrevistas realizadas, o próximo passo é desvendar as representações que se formam acerca do emprego doméstico, tanto da parte das patroas quanto das empregadas domésticas.
 

Em relação à rotina de trabalho, as opiniões são diferentes. Para Dalva, o trabalho doméstico é fácil de ser executado e ela gosta do que faz: "Empregada doméstica não cansa". "Eu gosto. São três coisas que eu gosto: passar roupa, lavar e fazer faxina." Sinhá também gosta do seu trabalho: "Agradeço a Deus todo dia por esse serviço. Que é com eles, com esses serviços que eu sustento os meus filhos sozinha, sem ajuda de ninguém. Não quero perder nenhum [serviço]". Já Paula disse: "Não é gostar, a gente gosta porque é o serviço da gente, mas se tivesse outra oportunidade que pudesse escolher entre o emprego doméstico e outro emprego, realmente eu escolheria outro. Porque a empregada doméstica perde muito a liberdade, fica muito tempo na casa, em serviço." Em geral, o emprego doméstico é contraposto a outros tipos de trabalho característicos do mundo da rua, das relações mais formais. Sinhá, diferentemente de suas colegas, trabalhou numa  loja, porém  não ficou muito tempo. Quanto ao motivo respondeu: "Eu não. Eu era estoquista, eu não gostava não. Eu gosto é de trabalhar em casa de família." Já Dalva, que nunca trabalhou em outra função, idealiza um cargo numa firma. Quando foi questionada sobre o que seria um bom emprego, disse: "É saber ler e trabalhar num escritório, numa firma. É isso que eu queria aprender."
 

Todas as vezes em que lhes foi sugerido se  gostariam que seus filhos fossem empregados domésticos, todas negaram, até mesmo Dalva e Sinhá. Acreditam que é um ótimo emprego para quem não tem outra opção, como coloca Dalva: 
 

"Eu gosto. E sabe por que eu gosto? Porque eu não sei ler, pra eu arrumar um emprego numa firma... eu não sei ler... não tô arrependida do serviço que eu tô trabalhando, porque eu tô ganhando o meu dinheiro, pra mim fazer dele o que eu quiser. Então, eu tenho inveja assim, porque eu não sei ler. Mas se eu soubesse ler eu tava ni outro lugar." 


Quanto a Sinhá, respondeu enfaticamente: 
 

"Não, isso não. Gostaria que eles tivessem coisa melhor, estudo e depois... Eu queria que o meu filho mais velho fosse advogado."


A questão da escolarização é indicada, tanto pelas domésticas quanto pelas patroas, como responsável pela existência do emprego doméstico, assim como está indicado na epígrafe de Clarice Lispector: "Não ter naquele dia nenhuma empregada iria me dar o tipo de atividade que eu queria: o de arrumar. Sempre gostei de arrumar. Suponho que esta seja a minha única vocação verdadeira. (...) Mas tendo aos poucos, por meio de dinheiro razoavelmente bem investido, enriquecido o suficiente, isso impediu-me de usar essa minha vocação: não pertencesse eu por dinheiro e por cultura à classe que pertenço, e teria normalmente tido o emprego de arrumadeira numa grande casa de ricos, onde há muito o que arrumar." Dalva, por não ter tido a oportunidade de se alfabetizar, entende que só lhe restou o trabalho doméstico como opção. 
 

Dalva, Sinhá e Paula o fazem o que podem para dar estudo a seus filhos, com medo de que a história se repita. Paula diz: "Isso que eu não gostaria para o meu filho. Tanto que hoje eu me esforço, sei que está difícil, mas ainda não tive oportunidade, nem condições para trazê-lo para cá (está na Bahia) e pagar um colégio para ele melhor para ele estudar. Farei de tudo para que ele não seja".
 

Da mesma forma, quando as patroas manifestaram sua opinião sobre o porquê da existência do trabalho doméstico no Brasil, a escolarização apareceu como  fator decisivo na história de vida dos brasileiros que prestam esse serviço. Segundo Jane, "as pessoas que não podem fazer outra coisa, que não tiveram estudo, não têm instrução, é um problema de qualificação da mão de obra". Para Amanda, "é cultural mesmo, é uma mão-de-obra mais barata, por ser um trabalho menos qualificado, as pessoas não terem acesso a uma escola boa." Laíde diz: "Mesmo às vezes fora, que fala que em outros países não existe essa mão de obra, porque todos têm um nível cultural e social muito melhor e aqui no Brasil infelizmente não é assim, é uma pena." Segundo Hildete P. Melo, "el servicio doméstico remunerado juega um papel importante para la absorción de mujeres de bajo nível profesional y educacional en el mercado de trabajo. Migrantes, a quienes el avance de las relaciones capitalistas en el campo las obliga ir a las ciudades, tienen en el servicio doméstico alternativa". 
 

A opinião dos dois sindicatos já levanta outros pontos para esta análise. Dejanira  coloca a questão da herança escravocrata como fator importante para a existência de seu próprio trabalho: 
 

"É uma das primeiras profissões do Brasil, né? E isso já vem da escravidão, então é comum, é um histórico da escravidão, porque quando libertou as pessoas foram trabalhar na casa-grande pra sobreviver, em troca de comida, essas coisas, né. Então ficou isso, né."


A dra. Margareth, a princípio, pareceu reconhecer a relação com o nível de escolarização, mas depois recorreu ao indivíduo e às vontades individuais para justificar a falta de "cultura" que geraria a existência do emprego doméstico de forma tão generalizada no Brasil. 
 

"O nosso maior problema chama-se cultura. Muitas pessoas que trabalham, você vê, eu fiz três faculdades, duas especializações, não sendo custeada nem por pai, nem por mãe, nem por ninguém. Eu acho que temos que criar nossas oportunidades. Você é jovem, vai criar todas as suas oportunidades sem dúvida. Eu sempre trabalhei, desde os 17 anos de idade, eu sempre fiz meus horários eu me enfiava em cursos à noite, estudava de madrugada, às vezes eu estava saindo de casa quando eu reparava eu estava de pijama, são aqueles lances que você não dorme direito fica só estudando tal, então ... Eu criei minhas oportunidades, mas tem muita gente que não quer levantar às 4 horas da manhã - como eu levantei - para tomar ônibus, um trem, um ônibus, fazer a faculdade e voltar tomar o trem, o ônibus e outro trem para ir trabalhar. Levar ovo cozido na bolsa para você poder comer - eu fazia isso. Então, tem gente que não gosta de fazer sacrifícios na vida. Então, que que acontece? Não estuda, não procuram progredir, se contentam com o que têm. Então, que que acontece? Acontece que ficam pessoas aí sem cultura, sem condições de disputar o campo de mercado... Então essas pessoas para sobreviver vão bater na porta de um empregador  doméstico, se oferecer para o trabalho, muitas vezes o patrão doméstico paga o empregado para ensinar o empregado. Existe hoje, quer dizer desde 72, a categoria do empregado doméstico, mas eles não são profissionais. Você vai mandar para escrever um recado, tomar nota de um recado, não sabe escrever... Infelizmente existe esse pessoal com a própria indolência."


Essa visão que deposita no indivíduo toda a responsabilidade por sua condição social não é exclusiva da Dra. Margareth. Essa percepção em relação ao trabalho doméstico e ao empregado doméstico é amplamente difundida em nossa sociedade, causando prejuízo ao reconhecimento da atividade como profissão legítima. Jane argumenta que só teve uma doméstica que agiu de forma profissional: "eu tinha uma empregada que lavava roupa porque ela lavava muito bem. Era uma pessoa excepcional, uma profissional da casa, digamos. Essa foi a única empregada que eu tive que posso dizer que era uma profissional, que eu entregava a casa de olhos fechados. Nem perguntava como ela ia fazer. Ela gostava do que fazia." 

Profissional, no sentido empregado por Jane, é alguém que tem apreço pelo que faz, que executa o seu serviço com autonomia e que, portanto, não precisa de vigilância nem de ordens para executá-lo.


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