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ENTRE A CASA & A RUA: A RELAÇÃO ENTRE PATRÕES E EMPREGADAS DOMÉSTICAS
Gabriela Renata R. dos Santos, Patrícia Lagun Mesquita e Rafaela de Andrade Deiab
 
3. Descrição e Análise
 
"Eram quase dez horas da manhã, e há muito tempo meu apartamento não me pertencia tanto. No dia anterior a empregada se despedira. O fato de ninguém falar ou andar e poder provocar acontecimentos alargava em silêncio esta casa onde em semiluxo eu vivo. (...) Levantei-me enfim da mesa do café, essa mulher. Não ter naquele dia nenhuma empregada iria me dar o tipo de atividade que eu queria: o de arrumar. Sempre gostei de arrumar. Suponho que esta seja a minha única vocação verdadeira. (...) Mas tendo aos poucos, por meio de dinheiro razoavelmente bem investido, enriquecido o suficiente, isso impediu-me de usar essa minha vocação: não pertencesse eu por dinheiro e por cultura à classe que pertenço, e teria normalmente tido o emprego de arrumadeira numa grande casa de ricos, onde há muito o que arrumar. (...) Começaria talvez por arrumar pelo fim do apartamento: o quarto da empregada devia estar imundo, na sua dupla função de dormida e depósito de trapos, malas velhas, jornais antigos, papéis de embrulho e barbantes inúteis. Eu o deixaria limpo e pronto para a nova empregada. (...) Decidida a começar a arrumar pelo quarto da empregada, atravessei a cozinha que dá para a área de serviço. (...) Há cerca de seis meses - o tempo que aquela empregada ficara comigo - eu não entrara ali, e meu espanto vinha de deparar com o quarto inteiramente limpo. Esperara encontrar escuridões, preparara-me para ter que abrir escancaradamente a janela e limpar com ar fresco o escuro mofado. Não contara é que aquela empregada, sem me dizer nada, tivesse arrumado o quarto à sua maneira, e numa ousadia de proprietária o tivesse espoliado de sua função de depósito." 
(Clarice Lispector, A Paixão Segundo G. H.)
3.1. Categorias do mundo do trabalho doméstico


Como a própria epígrafe sugere, há a categoria genérica "empregadas domésticas", mas, subsumido a esse termo monolítico, há todo um universo de sub-categorias que regem esse específico campo de trabalho. São nuanças que não aparecem à primeira vista, mas que, uma vez dentro desse universo, transformam-se em diferenças expressivas. Uma dessas sub-categorias é a de arrumadeira, também presente como opção profissional para a personagem do texto. 
 

A primeira diferença que aparece quando se adentra esse universo é aquela, cujas raízes já identificamos no século XIX, entre as empregadas que moram na casa em que prestam serviços e aquelas que possuem residência fora da casa dos patrões. Essas últimas são as que trabalham "para ir e voltar", ou que "vão e voltam", e as outras "dormem no serviço". O "ir e voltar" refere-se a ir ao trabalho e voltar para sua própria casa após terminar o serviço, algo mais próximo das relações do mundo empregatício regido pela CLT . Já "dormir no emprego" deixa mais evidente a especificidade do emprego doméstico, posto que essa forma de trabalho determina não só que os serviços sejam prestados no ambiente da casa, como também que os funcionários morem no mesmo lugar em que trabalham. Eis aí uma grande mistura entre o mundo do trabalho e o da casa, uma vez que a doméstica trabalha no  lugar em que reside, sendo que a  casa não é a sua. 
 

Geralmente, são as empregadas mais jovens  que "dormem no serviço", aquelas que ainda não têm família e marido, laços que as vinculem à sua própria casa, como acontece com as mais velhas, que acabam procurando emprego para "ir e voltar". Entre os dois regimes de trabalho há diferenças de salário, como nos explicou Alexandre, proprietário  da agência Nova Gaúcha: 
 
 

"Gabriela - E a doméstica que dorme no emprego ganha mais do que a que vai e volta?

Alexandre - Sim. Normalmente ganha mais. Porque quando é pra ir e voltar, as patroas têm que pagar a condução, então isso acaba diminuindo o salário. E também pelo fato de trabalhar menos horas. (...)

Patrícia - E qual é a média pra quem dorme no emprego?

Alexandre - Empregada serviços gerais, que lava, passa, arruma, cozinha o trivial variado tá numa faixa de R$ 400 a R$ 500. E a que não dorme fazendo o mesmo serviço abaixa um pouquinho, de R$ 300 a R$ 400 mais a condução". 

Como pode ser visto, não há média salarial para uma empregada doméstica "em geral" que durma no emprego. Alexandre responde com a faixa salarial de uma "empregada serviços gerais" que dorme. "Empregada serviços gerais" é aquela que, como ele mesmo falou, "arruma, lava,  passa e cozinha o trivial variado". Dalva já trabalhou nessa função e se orgulha de dar conta de todo o serviço sozinha: 
 
 
"Patricia - E que tipo de serviço você fazia nessas casas? 
Dalva - Olha, fazia tudo. Fazia faxina, fazia almoço, lavava, passava. Fazia tudo completo, na casa. Não tinha faxineira nenhuma. Era eu sozinha." 


Dejanira, que antes de ser presidente do STDMSP trabalhava como doméstica,  pretende voltar "a por a mão na massa" quando acabar o seu mandato. "Eu sempre trabalhei, fazia os serviços gerais na residência. Eu fazia tudo, mas o que eu mais gostava mesmo era de ir pra cozinha, adoro cozinhar. Mas fazia tudo."
 

Dejanira, mesmo gostando de cozinhar, deveria, segundo seu "cargo", cozinhar o "trivial variado" que Alexandre define em relação a outros níveis de cozinha: 
 

"Eu digo trivial variado porque a gente usa aqui uma nomenclatura, de quatro níveis de cozinha. Então é assim: eu tenho trivial simples, trivial variado, trivial variado fino e forno e fogão. Então o trivial variado é o segundo nível, e o trivial simples o primeiro. Só a relação do primeiro pro segundo é o seguinte, uma sabe cozinhar e a outra não sabe. Então, um trivial simples é uma pessoa que faz um arroz, um bife, uma salada, não sai disso. Mas o trivial variado é aquela pessoa que já sabe cozinhar, então ela não faz comida sofisticada, mas ela sabe variar os pratos, ela tem um bom repertório. Cada dia ela faz uma coisinha diferente pra não repetir. E é isso que a maioria das pessoas querem [sic]. (...) A trivial variado fino é intermediária, entre trivial variado e forno-fogão. São pessoas que de vez em quando dão jantares, ela cozinha acima da média, mas o grau de utilização dela é menor. São pessoas que no dia-a-dia fazem aqueles pratos normais, mas se precisar fazer uma coisa mais sofisticada ela sabe fazer. Agora cozinheira é aquela que se restringe mais à cozinha e à lavanderia, que é a parte de lavar e passar roupas. Quando a gente fala cozinheira, já é aquela pessoa que cozinha mais sofisticado e que já vai pra uma casa que exija mais da cozinha, que dão jantares constantemente, recepções. É a forno e fogão que a gente chama aqui."
Percebe-se que, dependendo do nível de habilidade na cozinha, a empregada  deixa de ser classificada como "serviços gerais" para se tornar "cozinheira", deixando de "arrumar" e ocupando-se de cozinhar, lavar e passar.
 

Mas, como a própria epígrafe anunciara, há também as especialistas em arrumar, as "arrumadeiras". Em geral elas se ocupam da arrumação e da limpeza da casa (faxina), sendo mais raras aquelas que também lavam e passam porém jamais cozinham. Segundo Alexandre: "A arrumadeira é aquela pessoa que faz tudo menos cozinhar; lava, passa, arruma".
 

É comum a função arrumadeira se mesclar com outras surgindo, então, figuras como a arrumadeira-copeira ou babá-arrumadeira. A primeira é aquela que, além de arrumadeira, serve a mesa. Porém, existem as que são somente copeiras. É o dono da agência quem descreve esses cargos : 
 

"Copeira aqui, são aquelas copeiras mais finas, que servem à francesa. Sabem colocar uma mesa, é um modo de você servir" e "(acima de 2 anos) já entra a figura da babá-arrumadeira, que é aquela babá que cuida de criança que já vai meio período pra escola. Então, nesse tempo ocioso, ela vai fazer o serviço de arrumação da casa. Essa é que tem a média menor de salário. E a média maior é de babá de recém-nascido."


Paula ocupa justamente esse posto: 
 

"Gabriela - Qual tipo de serviço você faz na casa? 
Paula - Serviço de limpeza, arrumação de casa e como babá, eu cuido das crianças. Eu faço também a limpeza pesada, quando eles estão na escola. Como a casa é grande separo um dia para cada parte da casa." 


Na fala de Alexandre, percebe-se que há outras sub-categorias de babás e, entre elas, novamente, variação salarial. 
 

"A babá cuida de criança. O certo seria isso. A babá só se restringir a cuidar de criança e o que que isso significa? Cuidar de tudo relativo à criança, alimentação, roupa, quarto, brincar. (...) Então, babá funciona da seguinte maneira: quanto menor a criança, maior o salário. A babá de recém-nascido, ela ganha mais, recém-nascido até 2 meses. Então de 3 meses até menos de 2 anos, já uma outra faixa de salário. (...) a babá enfermeira de recém-nascido fica em torno de R$800, de criança de 3 meses até 2 anos de R$500 a R$700, a média do mercado. E a babá arrumadeira a média é R$400. Então você vê que vai diminuindo, de acordo com o aumento da idade da criança."


É possível  pensar, vendo essa gradação, que a "babá arrumadeira" ganha menos por ser uma mão-de-obra menos qualificada, diferentemente da "babá de recém-nascido", que recebe bem mais, porque além de babá é também enfermeira. As falas das domésticas parecem comprovar esta hipótese, uma vez que, em geral, as empregadas adentram nesse mundo do trabalho doméstico como babás, na mais tenra idade . Esse foi o caso de Sinhá, que começou a trabalhar aos 11 anos "cuidando do filho" da patroa, e também de Dalva, que disse: "Eu era babá e tinha 10 aninhos". Ambas começaram a trabalhar muito cedo para ajudar a complementar a renda da família que era muito pobre. 
 

Então, é possível dizer que, no que tange às babás, o salário aumenta conforme sua especialização, que no caso envolve escolaridade, posto que: "(...) enfermeira é aquela pessoa que já tem um curso de enfermagem. Não é uma enfermeira padrão. A gente considera enfermeira, aqui, auxiliar de enfermagem. 
Mas além do curso tem que ter prática". Continuando sua explicação, Alexandre contrapõe dois tipos de enfermeira: 
 

"(...) têm 2 tipos de enfermeira, a de recém-nascido e a enfermeira de adulto. Geralmente pra pessoas acamadas, mesmo. Então, a gente trabalha com enfermeira particular. Normalmente, enfermeira pra adulto ela pega casos mais graves, que tem um problema mais sério de saúde. Já o acompanhante de idosos, ele é mais pra casos mais leves. Então, aquele idoso que, claro, sempre idoso tem aquele probleminha de saúde... mas não é um problema grave. Então, acompanhante é mais pra fazer uma companhia mesmo, pra dar remedinho na hora certa, pra passear com o idoso. É também conhecido como 'dama de companhia'. Então, quando o cliente faz o pedido aqui pra adulto, a gente pede mais ou menos o quadro clínico: se é muito grave indicamos um enfermeiro, porque normalmente acompanhante não vai saber lidar com aquilo. Às vezes tem que aplicar uma sonda, tem que dar um banho de leito, fazer curativo. E isso é uma coisa que o acompanhante já não tem a prática. Embora tenham acompanhantes que tenham adquirido a prática no mercado, mas a gente aqui não manda porque não tem o curso." 


Ao diferenciar os tipos de enfermeiras - de recém-nascido e de adulto -  foi necessário contrapor essa última categoria com a de acompanhante de idosos, separando-as em função do quadro clínico do assistido. Aqui, diferentemente do que ocorria nas outras funções, começam a aparecer os empregados domésticos homens que, em geral,  prestam auxílio a idosos ou "acamados" do sexo masculino, como confirma Alexandre:
 

"Homem, basicamente o que aparece é caseiro e motorista. Enfermeiro homem também, porque às vezes tem um paciente homem que quer um homem. Mas fora isso não."


Aparecem, assim, as outras duas funções predominantemente masculinas: "motorista" e "caseiro". 
 
 

"Motorista particular é o seguinte, é aquele que trabalha para a casa, leva o patrão e a patroa no trabalho, leva criança pra escola." 


O motorista que trabalha em casa de família é adjetivado como "motorista particular" talvez porque trabalhe para um grupo doméstico que, no caso, é "privado", tendo-se como contrapondo outros tipos de motoristas, os "públicos", como de táxi, ônibus ou, até mesmo, firmas. Novamente encontramos referências à  relação diacrítica entre público e privado que permeia o mundo do emprego doméstico. 
 

A função de motorista particular, contudo, encontra-se em baixa no mercado de trabalho segundo o dono da agência, que quase não recebe pedidos para tal cargo. 
 

"Essa função, entre outras, está em baixa. (...)  porque a situação econômica não tá fácil. Então, é muito luxo. Não é uma necessidade premente. Então numa casa que você tem babá, cozinheira, arrumadeira e motorista, quem que você vai tirar? O motorista. Então pelo momento econômico que nós estamos vivendo, o motorista particular caiu muito a colocação. E trabalhamos também servindo a empresas, motorista de diretoria, mas também mesma coisa, muito difícil a colocação. Então a patroa começou a dirigir o carrinho dela, o patrão ... Então é uma coisa assim que só se a pessoa tiver pânico de dirigir ou algum problema que impeça." 
Para Karl Marx, as necessidades são criadas historicamente, logo, elaboradas culturalmente. Deste modo, pode-se pensar que o motorista é um luxo e não uma "necessidade premente", não porque os patrões saibam dirigir - pois segundo esse mesmo raciocínio as arrumadeiras também seriam dispensáveis já que patroas sabem limpar uma casa ou arrumá-la  - mas porque dirigir um automóvel utilitário está culturalmente associado com o trabalho manual, doméstico e, conseqüentemente, aviltante. Quase o oposto acontece ao se dirigir os carros da moda: é uma forma de adquirir status. Mas status ainda superior tem aquele que possui o carro da moda e sequer precisa dirigi-lo.
 

Quanto aos cargos masculinos, "os caseiros"  geralmente são contratados junto com suas esposas: solicita-se à agência um "casal de caseiros". Então se efetiva a divisão sexual do trabalho: a mulher cuida da casa e o homem da área externa. Outra sub-divisão que cinde esse cargo é a do local para o qual são contratados: para a casa da cidade, onde os patrões moram, ou para a casa de campo ou veraneio que eles visitam ocasionalmente e que precisa ser mantida e conservada pelo casal. Nas palavras de Alexandre, 
 

"o caseiro urbano, que são em casas aqui da cidade, então ele cuida de piscina, cuida de jardim, faz reparos na casa, se tem cachorro ele cuida do cachorro, lava carro e etc. Ele cuida mais da parte externa da casa. Geralmente são casais que eles pedem, o homem faz a parte externa e a mulher faz o serviço da casa, o serviço doméstico mesmo. E tem o casal também para o interior e pra litoral. Aí interior são mais sítios, casas de campo, chácaras. E já são pessoas que têm que ter mais experiência com o campo, com roça, com bicho. (...) E tem litoral, que são casas de praia pra cuidar. Geralmente são pessoas que vão assim de fim de semana, e o caseiro toma conta. Mas é basicamente o mesmo serviço". 


Nesse caso de emprego doméstico, especificamente no "interior e litoral", o casal ainda vive na propriedade patronal, mas possui muito mais liberdade do que o caseiro urbano, já que vive alheio à constante vigilância e influência dos empregadores. Às vezes, essa maior liberdade é expressa fisicamente em casinhas, que ficam na parte detrás dos sítios e são destinadas ao casal de caseiros e sua família. Deste modo, forja-se uma "casa" dos empregados próxima à dos patrões. Outro ponto peculiar nessa categoria é o modo de remuneração, cotado por casal e não por pessoa
 

"Rafaela - E o salário é comum pros dois? 

Alexandre - Geralmente é um salário que soma o trabalho dos dois. Então caseiro urbano tá R$1.000 o casal. Quando é litoral e interior, o salário tende a diminuir. Se for um casal que sai de São Paulo e vai para o interior ou litoral, aí o salário é na faixa de R$800. Agora se for lá, a média da cidade é menor, mais baixa."


Outra função masculina em desuso , também vista como "artigo de luxo", é a de "mordomo". 
 

"Mordomo já é uma função meio em desuso, é tipo governanta. São casas muito grandes, que têm muitos empregados, né?. Porque o mordomo é como se fosse um segundo patrão, e a governanta também. Coordena tudo. A governanta ela cuida do menu, o que que vai ser servido, da compra da despensa, leva criança pra escola, ajuda na lição..." 


Na fala do dono da agência, "mordomo" e "governanta"  são aqueles que comandam todos os empregados da casa, fazendo a intermediação entre eles e os patrões. Entretanto, devido à crise econômica atual, são considerados supérfluos e, portanto, prescindíveis. Como já defendemos acima, o desnecessário é definido segundo padrões culturais e, de acordo com a gramática cultural brasileira, é mais legítimo destituir a governanta ou mordomo e assumir a situação de comando da casa e dos empregados do que fazer o serviço doméstico. A  hierarquia interna ao mundo do trabalho doméstico revela essas regras: as governantas ocupam posição superior, são mandatárias e não executoras do trabalho, portanto estão mais próximas estruturalmente dos patrões. Os demais empregados  ocupam posições consideradas inferiores, o que também se reflete nos salários.
 

Outros cargos em baixa são os de "acompanhante de idosos" e "enfermeiro de adultos". 
 

"Acompanhante de idosos também é outra função que tá bem difícil colocação. Outra função que tá bem difícil é enfermeira. Por que que a enfermeira e a acompanhante tão bem difícil? Porque, atualmente, abriram muitas home-cares que é outro sistema de trabalho, que é terceirização. (...) Clínicas de repouso também abriram muito, então isso tirou muito mercado."


Pode-se buscar uma lógica nesse quadro geral de profissões "em baixa" na crise econômica. Geralmente, as funções mais bem remuneradas são cortadas e a  maior remuneração indica maior especialização ou, ainda, maior competência no léxico de práticas patronais, levando a cargos hierarquicamente superiores. As funções especializadas estão sendo substituídas por trabalhadores organizados formalmente no mundo público (home-care), que prestam serviços pagos por hora ou diária nas residências. Ou ainda, por cuidados especiais prestados em outro lugar que não a casa (casas de repouso). Essas funções, portanto, ou deixam a casa em busca de mais especialização e conforto ou adentram a casa de modo mais qualificado e numa relação mais formal que a anterior.
 
 

Quanto aos cargos hierarquicamente superiores, são "cortados" em momentos de restrição orçamentária, por serem estruturalmente mais próximos ao papel desempenhado pelos patrões que, a partir de então, passa a incorporá-los. Cortam-se os "segundos patrões" e fica-se apenas com os "primeiros".
 
 

Outro par de categorias contrastivas dentro do campo do trabalho doméstico é  "diarista" versus "mensalista". Aqui, pode-se dizer que a separação envolve questões contratuais. A diarista é aquela que, como o próprio termo sugere, trabalha por dia. Isso é, recebe uma quantia em dinheiro pelo serviço de um dia. Já a mensalista é aquela que trabalha durante toda a semana ou ao menos três dias na mesma residência
 
 

Para além dessa questão contratual, sobrepõe-se a essa diferença uma outra, que alude ao tipo de serviço executado: a diarista faz, em geral, somente a limpeza da casa, a limpeza considerada "mais pesada", a faxina. "Limpar azulejos, lavar e encerar o chão, limpar e arrumar armários e prateleiras, limpar portas e vidros". Essa limpeza deve, segundo a apostila do STDMSP, página 12, ser realizada uma vez por semana, o que coincide, em geral, com o regime de trabalho da diarista, que vai às casas em que trabalha uma (ou duas) vez(es) por semana. Em geral, as diaristas ou faxineiras referem-se às suas patroas associando-as aos dias da semana em que trabalham para elas. Isto está presente na entrevista de Sinhá, que trabalhou como mensalista e agora é diarista:
 
 

"Rafaela - Então, você era mensalista e fazia faxina aqui de vez em quando? 

Sinhá - Eu fazia de sábado para elas, lá na outra república. Mas, diarista assim mesmo eu estou a dois anos já.

R - E quando você decidiu largar do serviço por mês?

S - Depois que  eu tive o meu nenê. O tempo ficou mais apertado, tendo que pagar tudo sozinha... eu sou separada.

R - Foi fácil completar a semana inteira como diarista?

S - Foi. Porque eu tive indicação do meu irmão. Meu irmão era porteiro de prédio aí eu consegui o primeiro. O primeiro desses dois anos. Aí o meu irmão me chamou pra um outro casal, estou com eles vai fazer 2 anos, duas vezes por semana para eles. Uma outra moradora perguntou de uma diarista pro meu irmão. Ele disse: Tem minha irmã. Aí eu tô com ela há um ano e meio já. [,,,]  É. Eu vou te falar, eu tenho sorte. No mês retrasado eu tava andando no elevador,  subiu uma grávida, eu conversando com ela: "Ah não tá precisando de diarista, não?" Ela "Eu tô. Você não quer vir para mim?" Aí eu tô com ela. [,,,]  Aí eu tô com ela já tem 3 meses. Eu vou de quarta-feira.


Nessa fala nota-se, também, que a mudança do regime contratual implica na mudança de rendimentos. Daí porque Sinhá prefere ser diarista: "Porque ganha mais". Ela recebe R$ 40 por dia de faxina, mais "a condução", ou R$ 50 com "a condução" incluída. "Condução" quer dizer o valor em dinheiro das passagens pagas pela doméstica para ir da sua casa  até o trabalho e do trabalho para casa. 
 

A empregada doméstica mensalista pode ter múltiplas funções como foi visto acima (serviços gerais, arrumadeira, babá-arrumadeira, copeira, cozinheira, etc.), sendo que algumas inclusive incorporam a faxina, como é o caso das "arrumadeiras" e das "serviços gerais". Esse é o caso de Paula e Dalva. Dalva gabava-se de fazer o serviço sem ter faxineira na casa para ajudá-la. ("Olha, fazia tudo. Fazia faxina, fazia almoço, lavava, passava. Fazia tudo completo, na casa. Não tinha faxineira nenhuma. Era eu sozinha.")
 

Retomando as diferenças contratuais, a diarista é legalmente considerada como autônoma, não precisando de carteira registrada; no entanto, a mensalista deve obrigatoriamente ser registrada. Contudo, há muita controvérsia nesse ponto. Alguns, como o dono da agência Nova Gaúcha, adotam o seguinte critério: 
 

"diarista é aquela empregada que trabalha até duas vezes por semana; por lei ela é considerada diarista; a partir de 3 vezes por semana ela já é mensal, então ela tem que ser registrada, já muda a categoria dela. 

Patrícia - Diarista não precisa ser registrada?

A - Não, diarista é considerada autônoma. Então ela mesmo contribui como autônomo."


Ao recorrer à lei que rege o trabalho dos empregados domésticos, outras dúvidas surgiram. A lei no 5.859/72, no seu artigo 1o , diz o seguinte: É empregado doméstico "todo aquele que presta serviços de natureza contínua e de finalidade não lucrativa à pessoa ou família, no âmbito residencial destas". A polêmica reside justamente no caráter contínuo da prestação de serviços. Para Alexandre, isto significa mais de duas vezes na semana. Contudo, na apostila do sindicato das trabalhadoras domésticas encontra-se a seguinte versão: "a diarista que executa suas tarefas em determinados dias da semana, durante um tempo razoável, é empregada doméstica porque seus serviços têm natureza contínua, ou seja, não são serviços eventuais, episódicos nem ocasionais. Portanto a diarista que trabalha um dia por semana, dois dias por semana ou mais de acordo com o art. 1o da lei 5.859/72, têm [sic] direito ao registro em carteira e também aos outros direitos iguais da mensalista"
 

No site "a patroa e sua empregada", também se define como não-eventual "a prestação de serviços de uma faxineira que vai toda semana, por longos anos, à residência da família, sempre nos mesmos dias da semana";  Somente é "considerada trabalhadora autônoma a faxineira que escolha os dias da semana em que pretende trabalhar, mudando-os constantemente, de modo a casar o horário das outras residências onde trabalhe, mas sempre sob sua orientação e determinação própria" (Idem). Assim, a questão da continuidade é interpretada tendo em vista a autonomia ou não da diarista para escolher o dia em que presta os serviços.
 

Ainda que o sindicato  lute pelo reconhecimento de quase todas as diaristas como empregadas domésticas, com registro e direitos,  a posição de diarista autônoma pode significar mais independência em relação à "patroa", podendo essa última transformar-se em "cliente". É justamente esse o processo observado por Soraya Fleischer ao estudar as brasileiras que trabalham como housecleaners em Boston. Nos EUA, a "diarista" sente-se respeitada, apesar de ser imigrante ilegal e estrangeira, porque é bem paga, bem tratada, determina as  suas atribuições bem como a técnica de limpeza utilizada (em geral com mais tecnologia) e se considera uma autônoma, não tomando a americana como patroa e, sim, como cliente
 

Deste modo, pode-se pensar que a "diarista autônoma", seguida pela "diarista com carteira", pela empregada que "vai e volta" e, por último, pela que "dorme" representam um gradiente que parte de uma maior influência da ordem pública, da rua, do mundo do emprego socialmente valorizado, até a vigência das regras da ordem privada, da casa, do mundo do serviço doméstico. 
 

Cabe relembrar o que DaMatta concebe como sendo o universo da casa e seu oposto, a rua: "(...) a casa demarca um espaço calmo, dominado por um grupo social que, no Brasil, é concebido como 'natural'. 
 

Realmente, entre nós, a família é igual a 'sangue', 'carne' e tendências inatas (...). Em todo o caso, se a casa distingue esse espaço de calma, repouso, recuperação e hospitalidade, enfim, de tudo aquilo que se soma e define a nossa idéia de 'amor', 'carinho' e 'calor humano', a rua é definida como espaço precisamente ao inverso. Terra que pertence ao 'governo' e ao 'povo' e que está repleta de fluidez e movimento. A rua é um local perigoso."   Dessa maneira, em se tratando de empregadas que dormem no serviço, no limite elas não têm casa - um lugar onde residam com sua família e onde mantenham relações de sangue regidas por regras que sejam reconhecidas como imanentes de seu próprio grupo familiar. Ou ainda, sua casa legítima ficou na terra de origem onde está a família de sangue e, principalmente, os filhos, o que leva muitas domésticas que dormem no trabalho a abandonar o emprego por saudades de "sua casa". Foi o que aconteceu com Paula. 
 

"Uma outra [casa de patroa] eu trabalhei dois anos, cuidava de duas crianças e da casa também; eu estava numa boa com eles, eu gostava deles e eles gostavam de mim, são ótimas pessoas, minha patroa era super nova, mais nova que eu na época; de repente me bateu uma saudade do meu filho que estava no interior, não agüentava de saudade, aí pedi a conta e fui embora." 


Assim sendo, a doméstica que dorme no serviço mora em "casa" alheia,  regida por normas de um outro grupo familiar, que poderá vir a reconhecê-la "como sendo da família". Caso contrário, como atribuir-lhe significado dentro do espaço da casa, já que partilha cotidianamente da vida daquelas pessoas?  Já a empregada que "vai e volta" tem seu lugar de calma e hospitalidade próprio,  sua  família e acaba por relacionar o emprego à esfera pública - "vai" e "volta" pela rua todo dia -  ao mundo do governo, ainda que seja um governo arbitrário do qual se tem receio (embora o sindicato tente fazer com que as leis pareçam mais próximas).


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