3. Descrição
e Análise
"Eram quase
dez horas da manhã, e há muito tempo meu apartamento não
me pertencia tanto. No dia anterior a empregada se despedira. O fato de
ninguém falar ou andar e poder provocar acontecimentos alargava
em silêncio esta casa onde em semiluxo eu vivo. (...) Levantei-me
enfim da mesa do café, essa mulher. Não ter naquele dia nenhuma
empregada iria me dar o tipo de atividade que eu queria: o de arrumar.
Sempre gostei de arrumar. Suponho que esta seja a minha única vocação
verdadeira. (...) Mas tendo aos poucos, por meio de dinheiro razoavelmente
bem investido, enriquecido o suficiente, isso impediu-me de usar essa minha
vocação: não pertencesse eu por dinheiro e por cultura
à classe que pertenço, e teria normalmente tido o emprego
de arrumadeira numa grande casa de ricos, onde há muito o que arrumar.
(...) Começaria talvez por arrumar pelo fim do apartamento: o quarto
da empregada devia estar imundo, na sua dupla função de dormida
e depósito de trapos, malas velhas, jornais antigos, papéis
de embrulho e barbantes inúteis. Eu o deixaria limpo e pronto para
a nova empregada. (...) Decidida a começar a arrumar pelo quarto
da empregada, atravessei a cozinha que dá para a área de
serviço. (...) Há cerca de seis meses - o tempo que aquela
empregada ficara comigo - eu não entrara ali, e meu espanto vinha
de deparar com o quarto inteiramente limpo. Esperara encontrar escuridões,
preparara-me para ter que abrir escancaradamente a janela e limpar com
ar fresco o escuro mofado. Não contara é que aquela empregada,
sem me dizer nada, tivesse arrumado o quarto à sua maneira, e numa
ousadia de proprietária o tivesse espoliado de sua função
de depósito."
(Clarice Lispector, A
Paixão Segundo G. H.)
3.1. Categorias
do mundo do trabalho doméstico
Como a própria
epígrafe sugere, há a categoria genérica "empregadas
domésticas", mas, subsumido a esse termo monolítico, há
todo um universo de sub-categorias que regem esse específico campo
de trabalho. São nuanças que não aparecem à
primeira vista, mas que, uma vez dentro desse universo, transformam-se
em diferenças expressivas. Uma dessas sub-categorias é a
de arrumadeira, também presente como opção profissional
para a personagem do texto.
A primeira diferença
que aparece quando se adentra esse universo é aquela, cujas raízes
já identificamos no século XIX, entre as empregadas que moram
na casa em que prestam serviços e aquelas que possuem residência
fora da casa dos patrões. Essas últimas são as que
trabalham "para ir e voltar", ou que "vão e voltam", e as outras
"dormem no serviço". O "ir e voltar" refere-se a ir ao trabalho
e voltar para sua própria casa após terminar o serviço,
algo mais próximo das relações do mundo empregatício
regido pela CLT
. Já "dormir no emprego" deixa mais evidente a especificidade do
emprego doméstico, posto que essa forma de trabalho determina não
só que os serviços sejam prestados no ambiente da casa, como
também que os funcionários morem no mesmo lugar em que trabalham.
Eis aí uma grande mistura entre o mundo do trabalho e o da casa,
uma vez que a doméstica trabalha no lugar em que reside, sendo
que a casa não é a sua.
Geralmente, são as
empregadas mais jovens que "dormem no serviço", aquelas que
ainda não têm família e marido, laços que as
vinculem à sua própria casa, como acontece com as mais velhas,
que acabam procurando emprego para "ir e voltar". Entre os dois regimes
de trabalho há diferenças de salário, como nos explicou
Alexandre, proprietário da agência Nova Gaúcha:
"Gabriela
- E a doméstica que dorme no emprego ganha mais do que a que vai
e volta?
Alexandre
- Sim. Normalmente ganha mais. Porque quando é pra ir e voltar,
as patroas têm que pagar a condução, então isso
acaba diminuindo o salário. E também pelo fato de trabalhar
menos horas. (...)
Patrícia -
E qual é a média pra quem dorme no emprego?
Alexandre
- Empregada serviços gerais, que lava, passa, arruma, cozinha o
trivial variado tá numa faixa de R$ 400 a R$ 500. E a que não
dorme fazendo o mesmo serviço abaixa um pouquinho, de R$ 300 a R$
400 mais a condução".
Como pode ser visto, não
há média salarial para uma empregada doméstica "em
geral" que durma no emprego. Alexandre responde com a faixa salarial de
uma "empregada serviços gerais" que dorme. "Empregada serviços
gerais" é aquela que, como ele mesmo falou, "arruma, lava,
passa e cozinha o trivial variado". Dalva já trabalhou nessa função
e se orgulha de dar conta de todo o serviço sozinha:
"Patricia
- E que tipo de serviço você fazia nessas casas?
Dalva
- Olha, fazia tudo. Fazia faxina, fazia almoço, lavava, passava.
Fazia tudo completo, na casa. Não tinha faxineira nenhuma. Era eu
sozinha."
Dejanira, que antes de
ser presidente do STDMSP trabalhava como doméstica, pretende
voltar "a por a mão na massa" quando acabar o seu mandato. "Eu sempre
trabalhei, fazia os serviços gerais na residência. Eu fazia
tudo, mas o que eu mais gostava mesmo era de ir pra cozinha, adoro cozinhar.
Mas fazia tudo."
Dejanira, mesmo gostando
de cozinhar, deveria, segundo seu "cargo", cozinhar o "trivial variado"
que Alexandre define em relação a outros níveis de
cozinha:
"Eu
digo trivial variado porque a gente usa aqui uma nomenclatura, de quatro
níveis de cozinha. Então é assim: eu tenho trivial
simples, trivial variado, trivial variado fino e forno e fogão.
Então o trivial variado é o segundo nível, e o trivial
simples o primeiro. Só a relação do primeiro pro segundo
é o seguinte, uma sabe cozinhar e a outra não sabe. Então,
um trivial simples é uma pessoa que faz um arroz, um bife, uma salada,
não sai disso. Mas o trivial variado é aquela pessoa que
já sabe cozinhar, então ela não faz comida sofisticada,
mas ela sabe variar os pratos, ela tem um bom repertório. Cada dia
ela faz uma coisinha diferente pra não repetir. E é isso
que a maioria das pessoas querem [sic]. (...) A trivial variado fino é
intermediária, entre trivial variado e forno-fogão. São
pessoas que de vez em quando dão jantares, ela cozinha acima da
média, mas o grau de utilização dela é menor.
São pessoas que no dia-a-dia fazem aqueles pratos normais, mas se
precisar fazer uma coisa mais sofisticada ela sabe fazer. Agora cozinheira
é aquela que se restringe mais à cozinha e à lavanderia,
que é a parte de lavar e passar roupas. Quando a gente fala cozinheira,
já é aquela pessoa que cozinha mais sofisticado e que já
vai pra uma casa que exija mais da cozinha, que dão jantares constantemente,
recepções. É a forno e fogão que a gente chama
aqui."
Percebe-se que, dependendo do
nível de habilidade na cozinha, a empregada deixa de ser classificada
como "serviços gerais" para se tornar "cozinheira", deixando de
"arrumar" e ocupando-se de cozinhar, lavar e passar.
Mas, como a própria
epígrafe anunciara, há também as especialistas em
arrumar, as "arrumadeiras". Em geral elas se ocupam da arrumação
e da limpeza da casa (faxina), sendo mais raras aquelas que também
lavam e passam porém jamais cozinham. Segundo Alexandre: "A arrumadeira
é aquela pessoa que faz tudo menos cozinhar; lava, passa, arruma".
É comum a função
arrumadeira se mesclar com outras surgindo, então, figuras como
a arrumadeira-copeira ou babá-arrumadeira. A primeira é aquela
que, além de arrumadeira, serve a mesa. Porém, existem as
que são somente copeiras. É o dono da agência quem
descreve esses cargos :
"Copeira
aqui, são aquelas copeiras mais finas, que servem à francesa.
Sabem colocar uma mesa, é um modo de você servir" e "(acima
de 2 anos) já entra a figura da babá-arrumadeira, que é
aquela babá que cuida de criança que já vai meio período
pra escola. Então, nesse tempo ocioso, ela vai fazer o serviço
de arrumação da casa. Essa é que tem a média
menor de salário. E a média maior é de babá
de recém-nascido."
Paula ocupa justamente
esse posto:
"Gabriela
- Qual tipo de serviço você faz na casa?
Paula
- Serviço de limpeza, arrumação de casa e como babá,
eu cuido das crianças. Eu faço também a limpeza pesada,
quando eles estão na escola. Como a casa é grande separo
um dia para cada parte da casa."
Na fala de Alexandre,
percebe-se que há outras sub-categorias de babás e, entre
elas, novamente, variação salarial.
"A
babá cuida de criança. O certo seria isso. A babá
só se restringir a cuidar de criança e o que que isso significa?
Cuidar de tudo relativo à criança, alimentação,
roupa, quarto, brincar. (...) Então, babá funciona da seguinte
maneira: quanto menor a criança, maior o salário. A babá
de recém-nascido, ela ganha mais, recém-nascido até
2 meses. Então de 3 meses até menos de 2 anos, já
uma outra faixa de salário. (...) a babá enfermeira de recém-nascido
fica em torno de R$800, de criança de 3 meses até 2 anos
de R$500 a R$700, a média do mercado. E a babá arrumadeira
a média é R$400. Então você vê que vai
diminuindo, de acordo com o aumento da idade da criança."
É possível
pensar, vendo essa gradação, que a "babá arrumadeira"
ganha menos por ser uma mão-de-obra menos qualificada, diferentemente
da "babá de recém-nascido", que recebe bem mais, porque além
de babá é também enfermeira. As falas das domésticas
parecem comprovar esta hipótese, uma vez que, em geral, as empregadas
adentram nesse mundo do trabalho doméstico como babás, na
mais tenra idade
. Esse foi o caso de Sinhá, que começou a trabalhar aos 11
anos "cuidando do filho" da patroa, e também
de Dalva, que disse: "Eu era babá e tinha
10 aninhos". Ambas começaram a trabalhar muito cedo para
ajudar a complementar a renda da família que era muito pobre.
Então, é possível
dizer que, no que tange às babás, o salário aumenta
conforme sua especialização, que no caso envolve escolaridade,
posto que: "(...) enfermeira é aquela pessoa
que já tem um curso de enfermagem. Não é uma enfermeira
padrão. A gente considera enfermeira, aqui, auxiliar de enfermagem.
Mas
além do curso tem que ter prática". Continuando sua
explicação, Alexandre contrapõe dois tipos de enfermeira:
"(...)
têm 2 tipos de enfermeira, a de recém-nascido e a enfermeira
de adulto. Geralmente pra pessoas acamadas, mesmo. Então, a gente
trabalha com enfermeira particular. Normalmente, enfermeira pra adulto
ela pega casos mais graves, que tem um problema mais sério de saúde.
Já o acompanhante de idosos, ele é mais pra casos mais leves.
Então, aquele idoso que, claro, sempre idoso tem aquele probleminha
de saúde... mas não é um problema grave. Então,
acompanhante é mais pra fazer uma companhia mesmo, pra dar remedinho
na hora certa, pra passear com o idoso. É também conhecido
como 'dama de companhia'. Então, quando o cliente faz o pedido aqui
pra adulto, a gente pede mais ou menos o quadro clínico: se é
muito grave indicamos um enfermeiro, porque normalmente acompanhante não
vai saber lidar com aquilo. Às vezes tem que aplicar uma sonda,
tem que dar um banho de leito, fazer curativo. E isso é uma coisa
que o acompanhante já não tem a prática. Embora tenham
acompanhantes que tenham adquirido a prática no mercado, mas a gente
aqui não manda porque não tem o curso."
Ao diferenciar os tipos
de enfermeiras - de recém-nascido e de adulto - foi necessário
contrapor essa última categoria com a de acompanhante de idosos,
separando-as em função do quadro clínico do assistido.
Aqui, diferentemente do que ocorria nas outras funções, começam
a aparecer os empregados domésticos homens que, em geral,
prestam auxílio a idosos ou "acamados" do sexo masculino, como confirma
Alexandre:
"Homem,
basicamente o que aparece é caseiro e motorista. Enfermeiro homem
também, porque às vezes tem um paciente homem que quer um
homem. Mas fora isso não."
Aparecem, assim, as outras
duas funções predominantemente masculinas: "motorista" e
"caseiro".
"Motorista
particular é o seguinte, é aquele que trabalha para a casa,
leva o patrão e a patroa no trabalho, leva criança pra escola."
O motorista que trabalha
em casa de família é adjetivado como "motorista particular"
talvez porque trabalhe para um grupo doméstico que, no caso, é
"privado", tendo-se como contrapondo outros tipos de motoristas, os "públicos",
como de táxi, ônibus ou, até mesmo, firmas. Novamente
encontramos referências à relação diacrítica
entre público e privado que permeia o mundo do emprego doméstico.
A função de
motorista particular, contudo, encontra-se em baixa no mercado de trabalho
segundo o dono da agência, que quase não recebe pedidos para
tal cargo.
"Essa
função, entre outras, está em baixa. (...) porque
a situação econômica não tá fácil.
Então, é muito luxo. Não é uma necessidade
premente. Então numa casa que você tem babá, cozinheira,
arrumadeira e motorista, quem que você vai tirar? O motorista. Então
pelo momento econômico que nós estamos vivendo, o motorista
particular caiu muito a colocação. E trabalhamos também
servindo a empresas, motorista de diretoria, mas também mesma coisa,
muito difícil a colocação. Então a patroa começou
a dirigir o carrinho dela, o patrão ... Então é uma
coisa assim que só se a pessoa tiver pânico de dirigir ou
algum problema que impeça."
Para Karl Marx, as necessidades
são criadas historicamente, logo, elaboradas culturalmente. Deste
modo, pode-se pensar que o motorista é um luxo e não uma
"necessidade premente", não porque os patrões saibam dirigir
- pois segundo esse mesmo raciocínio as arrumadeiras também
seriam dispensáveis já que patroas sabem limpar uma casa
ou arrumá-la
- mas porque dirigir um automóvel utilitário está
culturalmente associado com o trabalho manual, doméstico e, conseqüentemente,
aviltante. Quase o oposto acontece ao se dirigir os carros da moda: é
uma forma de adquirir status. Mas status ainda superior tem
aquele que possui o carro da moda e sequer precisa dirigi-lo.
Quanto aos cargos masculinos,
"os caseiros" geralmente são contratados junto com suas esposas:
solicita-se à agência um "casal de caseiros". Então
se efetiva a divisão sexual do trabalho: a mulher cuida da casa
e o homem da área externa. Outra sub-divisão que cinde esse
cargo é a do local para o qual são contratados: para a casa
da cidade, onde os patrões moram, ou para a casa de campo ou veraneio
que eles visitam ocasionalmente e que precisa ser mantida e conservada
pelo casal. Nas palavras de Alexandre,
"o
caseiro urbano, que são em casas aqui da cidade, então ele
cuida de piscina, cuida de jardim, faz reparos na casa, se tem cachorro
ele cuida do cachorro, lava carro e etc. Ele cuida mais da parte externa
da casa. Geralmente são casais que eles pedem, o homem faz a parte
externa e a mulher faz o serviço da casa, o serviço doméstico
mesmo. E tem o casal também para o interior e pra litoral. Aí
interior são mais sítios, casas de campo, chácaras.
E já são pessoas que têm que ter mais experiência
com o campo, com roça, com bicho. (...) E tem litoral, que são
casas de praia pra cuidar. Geralmente são pessoas que vão
assim de fim de semana, e o caseiro toma conta. Mas é basicamente
o mesmo serviço".
Nesse caso de emprego
doméstico, especificamente no "interior e litoral", o casal ainda
vive na propriedade patronal, mas possui muito mais liberdade do que o
caseiro urbano, já que vive alheio à constante vigilância
e influência dos empregadores. Às vezes, essa maior liberdade
é expressa fisicamente em casinhas, que ficam na parte detrás
dos sítios e são destinadas ao casal de caseiros e sua família.
Deste modo, forja-se uma "casa"
dos empregados próxima à dos patrões. Outro ponto
peculiar nessa categoria é o modo de remuneração,
cotado por casal e não por pessoa
.
"Rafaela
- E o salário é comum pros dois?
Alexandre
- Geralmente é um salário que soma o trabalho dos dois. Então
caseiro urbano tá R$1.000 o casal. Quando é litoral e interior,
o salário tende a diminuir. Se for um casal que sai de São
Paulo e vai para o interior ou litoral, aí o salário é
na faixa de R$800. Agora se for lá, a média da cidade é
menor, mais baixa."
Outra função
masculina em desuso , também vista como "artigo de luxo", é
a de "mordomo".
"Mordomo
já é uma função meio em desuso, é tipo
governanta. São casas muito grandes, que têm muitos empregados,
né?. Porque o mordomo é como se fosse um segundo patrão,
e a governanta também. Coordena tudo. A governanta ela cuida do
menu, o que que vai ser servido, da compra da despensa, leva criança
pra escola, ajuda na lição..."
Na fala do dono da agência,
"mordomo" e "governanta" são aqueles que comandam todos os
empregados da casa, fazendo a intermediação entre eles e
os patrões. Entretanto, devido à crise econômica atual,
são considerados supérfluos e, portanto, prescindíveis.
Como já defendemos acima, o desnecessário é definido
segundo padrões culturais e, de acordo com a gramática cultural
brasileira, é mais legítimo destituir a governanta ou mordomo
e assumir a situação de comando da casa e dos empregados
do que fazer o serviço doméstico. A hierarquia interna
ao mundo do trabalho doméstico revela essas regras: as governantas
ocupam posição superior, são mandatárias e
não executoras do trabalho, portanto estão mais próximas
estruturalmente dos patrões. Os demais empregados ocupam posições
consideradas inferiores, o que também se reflete nos salários.
Outros cargos em baixa são
os de "acompanhante de idosos" e "enfermeiro de adultos".
"Acompanhante
de idosos também é outra função que tá
bem difícil colocação. Outra função
que tá bem difícil é enfermeira. Por que que a enfermeira
e a acompanhante tão bem difícil? Porque, atualmente, abriram
muitas home-cares que é outro sistema de trabalho, que é
terceirização. (...) Clínicas de repouso também
abriram muito, então isso tirou muito mercado."
Pode-se buscar uma lógica
nesse quadro geral de profissões "em baixa" na crise econômica.
Geralmente, as funções mais bem remuneradas são cortadas
e a maior remuneração indica maior especialização
ou, ainda, maior competência no léxico de práticas
patronais, levando a cargos hierarquicamente superiores. As funções
especializadas estão sendo substituídas por trabalhadores
organizados formalmente no mundo público (home-care), que
prestam serviços pagos por hora ou diária nas residências.
Ou ainda, por cuidados especiais prestados em outro lugar que não
a casa (casas de repouso). Essas funções, portanto, ou deixam
a casa em busca de mais especialização e conforto ou adentram
a casa de modo mais qualificado e numa relação mais formal
que a anterior
.
Quanto aos cargos hierarquicamente
superiores, são "cortados" em momentos de restrição
orçamentária, por serem estruturalmente mais próximos
ao papel desempenhado pelos patrões que, a partir de então,
passa a incorporá-los. Cortam-se os "segundos patrões" e
fica-se apenas com os "primeiros".
Outro par de categorias contrastivas
dentro do campo do trabalho doméstico é "diarista"
versus "mensalista". Aqui, pode-se dizer que a separação
envolve questões contratuais. A diarista é aquela que, como
o próprio termo sugere, trabalha por dia. Isso é, recebe
uma quantia em dinheiro pelo serviço de um dia. Já a mensalista
é aquela que trabalha durante toda a semana ou ao menos três
dias na mesma residência
Para além dessa questão
contratual, sobrepõe-se a essa diferença uma outra, que alude
ao tipo de serviço executado: a diarista faz, em geral, somente
a limpeza da casa, a limpeza considerada "mais pesada", a faxina. "Limpar
azulejos, lavar e encerar o chão, limpar e arrumar armários
e prateleiras, limpar portas e vidros". Essa limpeza deve, segundo a apostila
do STDMSP, página 12,
ser realizada uma vez por semana, o que coincide, em geral, com o regime
de trabalho da diarista, que vai às casas em que trabalha uma (ou
duas) vez(es) por semana. Em geral, as diaristas ou faxineiras referem-se
às suas patroas associando-as aos dias da semana em que trabalham
para elas. Isto está presente na entrevista de Sinhá, que
trabalhou como mensalista e agora é diarista:
"Rafaela
- Então, você era mensalista e fazia faxina aqui de vez em
quando?
Sinhá
- Eu fazia de sábado para elas, lá na outra república.
Mas, diarista assim mesmo eu estou a dois anos já.
R - E quando você
decidiu largar do serviço por mês?
S
- Depois que eu tive o meu nenê. O tempo ficou mais apertado,
tendo que pagar tudo sozinha... eu sou separada.
R - Foi fácil
completar a semana inteira como diarista?
S
- Foi. Porque eu tive indicação do meu irmão. Meu
irmão era porteiro de prédio aí eu consegui o primeiro.
O primeiro desses dois anos. Aí o meu irmão me chamou pra
um outro casal, estou com eles vai fazer 2 anos, duas vezes por semana
para eles. Uma outra moradora perguntou de uma diarista pro meu irmão.
Ele disse: Tem minha irmã. Aí eu tô com ela há
um ano e meio já. [,,,] É. Eu vou te falar, eu tenho
sorte. No mês retrasado eu tava andando no elevador, subiu
uma grávida, eu conversando com ela: "Ah não tá precisando
de diarista, não?" Ela "Eu tô. Você não quer
vir para mim?" Aí eu tô com ela. [,,,] Aí
eu tô com ela já tem 3 meses. Eu vou de quarta-feira.
Nessa fala nota-se, também,
que a mudança do regime contratual implica na mudança de
rendimentos. Daí porque Sinhá prefere ser diarista: "Porque
ganha mais". Ela recebe R$ 40 por dia de faxina, mais "a condução",
ou R$ 50 com "a condução" incluída. "Condução"
quer dizer o valor em dinheiro das passagens pagas pela doméstica
para ir da sua casa até o trabalho e do trabalho para casa.
A empregada doméstica
mensalista pode ter múltiplas funções como foi visto
acima (serviços gerais, arrumadeira, babá-arrumadeira, copeira,
cozinheira, etc.), sendo que algumas inclusive incorporam a faxina, como
é o caso das "arrumadeiras" e das "serviços gerais". Esse
é o caso de Paula e Dalva. Dalva gabava-se de fazer o serviço
sem ter faxineira na casa para ajudá-la. ("Olha,
fazia tudo. Fazia faxina, fazia almoço, lavava, passava. Fazia tudo
completo, na casa. Não tinha faxineira nenhuma. Era eu sozinha.")
Retomando as diferenças
contratuais, a diarista é legalmente considerada como autônoma,
não precisando de carteira registrada; no entanto, a mensalista
deve obrigatoriamente ser registrada. Contudo, há muita controvérsia
nesse ponto. Alguns, como o dono da agência Nova Gaúcha, adotam
o seguinte critério:
"diarista
é aquela empregada que trabalha até duas vezes por semana;
por lei ela é considerada diarista; a partir de 3 vezes por semana
ela já é mensal, então ela tem que ser registrada,
já muda a categoria dela.
Patrícia -
Diarista não precisa ser registrada?
A
- Não, diarista é considerada autônoma. Então
ela mesmo contribui como autônomo."
Ao recorrer à
lei que rege o trabalho dos empregados domésticos, outras dúvidas
surgiram. A lei no 5.859/72, no seu artigo 1o , diz o seguinte: É
empregado doméstico "todo aquele que presta serviços de natureza
contínua e de finalidade não lucrativa à pessoa ou
família, no âmbito residencial destas". A polêmica reside
justamente no caráter contínuo da prestação
de serviços. Para Alexandre, isto significa mais de duas vezes na
semana. Contudo, na apostila do sindicato das trabalhadoras domésticas
encontra-se a seguinte versão: "a diarista que executa suas tarefas
em determinados dias da semana, durante um tempo razoável, é
empregada doméstica porque seus serviços têm natureza
contínua, ou seja, não são serviços eventuais,
episódicos nem ocasionais. Portanto a diarista que trabalha um dia
por semana, dois dias por semana ou mais de acordo com o art. 1o da lei
5.859/72, têm [sic] direito ao registro em carteira e também
aos outros direitos iguais da mensalista"
No site "a
patroa e sua empregada", também se define como não-eventual
"a prestação de serviços de uma faxineira que vai
toda semana, por longos anos, à residência da família,
sempre nos mesmos dias da semana"
;
Somente é "considerada trabalhadora autônoma a faxineira que
escolha os dias da semana em que pretende trabalhar, mudando-os constantemente,
de modo a casar o horário das outras residências onde trabalhe,
mas sempre sob sua orientação e determinação
própria" (Idem). Assim, a questão da continuidade é
interpretada tendo em vista a autonomia ou não da diarista para
escolher o dia em que presta os serviços.
Ainda que o sindicato
lute pelo reconhecimento de quase todas as diaristas como empregadas domésticas,
com registro e direitos, a posição de diarista autônoma
pode significar mais independência em relação à
"patroa", podendo essa última transformar-se em "cliente". É
justamente esse o processo observado por Soraya Fleischer ao estudar as
brasileiras que trabalham como housecleaners em Boston. Nos EUA,
a "diarista" sente-se respeitada, apesar de ser imigrante ilegal e estrangeira,
porque é bem paga, bem tratada, determina as suas atribuições
bem como a técnica de limpeza utilizada (em geral com mais tecnologia)
e se considera uma autônoma, não tomando a americana como
patroa e, sim, como cliente
.
Deste modo, pode-se pensar
que a "diarista autônoma", seguida pela "diarista com carteira",
pela empregada que "vai e volta" e, por último, pela que "dorme"
representam um gradiente que parte de uma maior influência da ordem
pública, da rua, do mundo do emprego socialmente valorizado, até
a vigência das regras da ordem privada, da casa, do mundo do serviço
doméstico.
Cabe relembrar o que DaMatta
concebe como sendo o universo da casa e seu oposto, a rua: "(...) a casa
demarca um espaço calmo, dominado por um grupo social que, no Brasil,
é concebido como 'natural'.
Realmente, entre nós,
a família é igual a 'sangue', 'carne' e tendências
inatas (...). Em todo o caso, se a casa distingue esse espaço de
calma, repouso, recuperação e hospitalidade, enfim, de tudo
aquilo que se soma e define a nossa idéia de 'amor', 'carinho' e
'calor humano', a rua é definida como espaço precisamente
ao inverso. Terra que pertence ao 'governo' e ao 'povo' e que está
repleta de fluidez e movimento. A rua é um local perigoso."
Dessa maneira, em se tratando de empregadas que dormem no serviço,
no limite elas não têm casa - um lugar onde residam com sua
família e onde mantenham relações de sangue regidas
por regras que sejam reconhecidas como imanentes de seu próprio
grupo familiar. Ou ainda, sua casa legítima ficou na terra de origem
onde está a família de sangue e, principalmente, os filhos,
o que leva muitas domésticas que dormem no trabalho a abandonar
o emprego por saudades de "sua casa". Foi o que aconteceu com Paula.
"Uma
outra [casa de patroa] eu trabalhei dois anos, cuidava de duas crianças
e da casa também; eu estava numa boa com eles, eu gostava deles
e eles gostavam de mim, são ótimas pessoas, minha patroa
era super nova, mais nova que eu na época; de repente me bateu uma
saudade do meu filho que estava no interior, não agüentava
de saudade, aí pedi a conta e fui embora."
Assim sendo, a doméstica
que dorme no serviço mora em "casa" alheia, regida por normas
de um outro grupo familiar, que poderá vir a reconhecê-la
"como sendo da família". Caso contrário, como atribuir-lhe
significado dentro do espaço da casa, já que partilha cotidianamente
da vida daquelas pessoas?
Já a empregada que "vai e volta" tem seu lugar de calma e hospitalidade
próprio, sua família e acaba por relacionar o
emprego à esfera pública - "vai" e "volta" pela rua todo
dia - ao mundo do governo, ainda que seja um governo arbitrário
do qual se tem receio (embora o sindicato tente fazer com que as leis pareçam
mais próximas).
