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ENTRE A CASA & A RUA: A RELAÇÃO ENTRE PATRÕES E EMPREGADAS DOMÉSTICAS
Gabriela Renata R. dos Santos, Patrícia Lagun Mesquita e Rafaela de Andrade Deiab
 
Fernando Novais, no capítulo "Condições de Privacidade na Colônia", que foi escrito para o volume História da vida privada no Brasil 1, constrói a estrutura do processo de longa duração que foi a Colônia, demarcando os limites da vida privada (ou intimidade) no período. E, tal como Gilberto Freyre,  explora a hipertrofia do privado nesse momento histórico. Para tal, em sua epígrafe, Novais traz um trecho de frei Vicente do Salvador, o nosso primeiro historiador: "Notava as coisas e via que mandava comprar um frangão, quatro ovos e um peixe de comer, e nada lhe traziam, porque não se achava na praça, nem no açougue, e, se mandava pedir as ditas coisas e outras mais às casas particulares, lhas mandavam. Então disse o bispo: verdadeiramente que nesta terra andam as coisas trocadas, porque toda ela não é república, sendo-o cada casa".  E o historiador comenta: "(...) o arguto cronista deixa claro que os níveis do público e do privado, para além de inextricavelmente ligados, apresentavam-se da mesma forma curiosamente invertidos." (dem). E, tal como em Freyre, esse relacionamento entre público e privado, que se dá de modo inverso, aparece como peculiaridade desta terra.
 

Em sua análise, contudo, o historiador se afasta grandemente de Freyre,  que acaba por singularizar a civilização do açúcar de Pernambuco, que tem como eixo a casa-grande e a senzala, como um caso dentre tantos ocorridos nesse período e no vasto território em crescimento da América Portuguesa. 
 

Num contexto de exploração comercial da colônia e acúmulo de capital mercantil autônomo na metrópole,  forma-se "uma estrutura fundante que lastreia o por assim dizer sentimento dominante do viver em colônias, ou seja, essa sensação intensa e permanente deinstabilidade, precariedade e provisoriedade que se expressa por todos os poros de nossa relação" (Idem. p.31) Essas características ficam evidentes na constante mobilidade demográfica, ou seja, na infinda incorporação de grandes massas de gente, tanto reinóis como escravos. Há também a mobilidade horizontal, isto é, contínuos deslocamentos pelo espaço nas frentes de colonização. Além do vasto e crescente território cobiçado pela metrópole em disputa com os demais Estados Nacionais europeus, há ainda a diversidade étnica e de situação hierárquica das populações, que contribuíram ainda mais para um sentimento generalizado de incerteza, pautado por todos esses impedimentos à sedimentação de laços primários conformadores de uma sociedade. 
 

Nesse ínterim, o nordeste açucareiro é a formação social que adquire estabilidade e formas de convívio sedimentadas nos moldes do patriarcado rural. Sendo o centro da empresa colonial, delineia-se como uma economia rural litorânea e voltada para fora, em oposição à periferia do sistema, como foi no início São Paulo, marcada por uma formação de extrema mobilidade como eram as Bandeiras, de configuração urbana e voltada para o interior do país. Assim também serão as Minas Gerais do século XVIII.
 

Fenômeno inequívoco e generalizado durante a colônia é, sem dúvida, a escravidão,  indígena ou africana, que divide a população entre dominadores (que compelem ao trabalho) e dominados (que são compelidos ao trabalho) e, entre esses pólos,  emerge toda uma gama de situações intermediárias. É a localização nessa estrutura hierárquica que revela categorias da vivência do dia-a-dia tais como moradia e organização familiar. A escravidão, como relação social dominante, repercute na esfera do cotidiano de maneira decisiva, delineando três tipos básicos de relações primárias: intra-classe senhorial, intra-escravos e relações intermediárias entre senhores e escravos, essas instâncias  aproximando-se, interpenetrando-se, mas mantendo entre si distâncias irredutíveis. Como exemplo de distância a "atitude em face ao trabalho fica marcada pelo estigma insuperável que identifica trabalho com servidão, lazer com dominação" {(Idem. p.30)  Como exemplo de aproximação, tem-se a miscigenação, que era, ao mesmo tempo, dominação. 
 

Esse regime de trabalho contribui muito para aquele quadro de precariedades com que Novais descreve a vida privada na colônia, isso porque se constitui uma sociedade estamental com mobilidade: "(...) a sociedade da Colônia ao mesmo tempo estratificava-se de forma estamental e apresentava intensa mobilidade; o que, provavelmente, criava uma sensação de ambigüidade, pois a junção dessas duas características envolvia simultaneamente, tendência de aproximação e distanciamento das pessoas" (Idem). 
Segundo Novais, é essa a nossa originalidade enquanto formação colonial. Conclusão algo parecida com a de Freyre.
 

Outra autora, Leila Mezan Algranti, realizou um estudo histórico empírico sobre a família e o domicílio durante o período colonial, dando, dessa maneira, um certo recheio àquele "esqueleto condicional" montado por Novais. Famílias e domicílios são marcados por alguns elementos da formação da sociedade brasileira que já haviam sido apontados pelo outro historiador, tais como a falta de mulheres brancas que leva à miscigenação e à escravidão negra e indígena.
 

O mais interessante nesse estudo, que se vale da arquitetura histórica, da cultura material, dos relatos de viajantes e da demografia histórica, é a desconstrução daquele modelo canonizado e generalizado para todo o Brasil da opulenta casa-grande, do vasto plantel de escravos (logo, vastas senzalas) e da família patriarcal instituída construído por Freyre. Diferentemente, temos informações específicas e pontuais de diversos momentos e lugares da colônia.
 

As famílias freqüentemente encontravam-se dispersas por longos períodos (em função dos condicionantes da colonização) e os domicílios possuíam múltiplas formas : apenas pessoas de uma família nuclear e um ou dois escravos; ou então, somavam-se agregados e parentes próximos, como mães viúvas ou irmãs solteiras. Por vezes, eram apenas padres com suas escravas, concubinas e afilhadas; em outros,  mulheres e seus filhos ou um casal de cônjuges e a concubina do marido. Isso sem falar dos filhos legítimos e ilegítimos. "Tantas foram as formas que a família colonial assumiu, que a historiografia recente tem explorado em detalhe suas origens e o caráter das uniões, enfatizando-lhe a multiplicidade e especificidades em função das características regionais da colonização e da estratificação social dos indivíduos." Quanto à estrutura arquitetônica dos domicílios nos três primeiros séculos de colonização, nas vilas e cidades as casas eram moradas bem simples e pobres (p. 90), de um andar, com quintais e anexos aos fundos, cobertos por telhas e palhas,  circundados por muros baixos que delimitavam o espaço doméstico. Eram residências voltadas para dentro, sendo na parte dos fundos que a vida doméstica se desenvolvia intensamente. "Os quintais, nos fundos das casas, são separados uns dos outros por muros baixos de barro, e contêm em geral um telheiro, sob o qual se cozinha, e senzalas para criadagem da casa.".{(p. 94). Os homens pobres e livres do campo e da cidade moravam em choupanas com apenas um ou dois cômodos onde se dormia, cozinhava e abrigava uma pequena oficina.(p. 99). No nordeste promissor, as casas-grandes eram construções mais complexas, com mais divisões internas, o que permitia uma maior preservação da intimidade. Os sobrados, mais comuns com a aproximação do século XIX, podiam ter dois ou mais andares e eram uma formação mais urbana, que permitia a instalação de um negócio no térreo, estando a família resguardada no andar de cima.
 

Até no abrigo dos escravos havia variações. "Quanto aos cativos, quando por falta de espaço não dispunham de uma senzala ou galpão, esticavam a noite suas esteiras em qualquer lugar, inclusive na cozinha, próximas ao fogão. Tal era o costume nas casas mais simples da cidade, que dispunham de um ou dois escravos para todos os serviços. Nos sobrados do século XVIII e XIX, os escravos dormiam no  porão ou no rés-do-chão. No mundo rural, como é sabido, as senzalas sempre presentes nas grandes fazendas abrigavam um número bem maior de escravos"( p.95). 
 

Sendo os fundos uma área de intenso serviço doméstico no Brasil, resguardada da rua, sempre que possível os fogões e jiraus eram levados para fora e deixados a cargo das escravas, mesmo nas regiões mais frias, como no Sul do país. "Essa opção arquitetônica pode ser entendida como forma de divisão de espaços entre senhores e seus escravos, que foi se transformando com o passar dos séculos à medida que as refeições se tornaram momentos mais importantes de reunião familiar e a praticidade da localização da cozinha no interior das residências tornava-se evidente" (Idem. p.103). Contudo, ainda na atualidade é possível notar-se uma separação do espaço da casa próprio aos serviçais, tanto  que a dependência de empregadas fica sempre junto da cozinha e da lavanderia e jamais junto dos demais dormitórios do domicílio, destinados à família ou aos hóspedes dos patrões. 
 

Também na arquitetura colonial a lavanderia está nos fundos. A lavagem das roupas e louças, "essas atividades ligadas à limpeza eram efetuadas nas áreas de serviço situadas fora das casas, ou à beira dos rios, preservando-se o ambiente interno. (...) Quando a água encanada finalmente chegou para o conforto dos moradores, o hábito se manteve, com a instalação dos tanques nas dependências externas das casas.. 
 

Enquanto isso não ocorreu, no mundo urbano, o vaivém dos escravos, que se incumbiam do abastecimento de água, propiciava os encontros dos cativos e os inevitáveis mexericos sobre o que se passava nos domicílios, mais um fator que contribuía para devassar o cotidiano dos indivíduos, já tão à mercê de olhares estimulados pela arquitetura externa e interna das casas." (p. 103).
 

Aqui a autora aponta uma questão interessante: a impossibilidade de intimidade devido à presença constante de escravos domésticos que fofocavam entre si sobre a vida de seus senhores. Novamente, algo análogo  à atual perda de privacidade dos patrões com a introdução dos empregados domésticos que, alheios à família, participam de sua intimidade podendo comentá-la com pessoas de fora do lar. Esse é um dos maiores medos das patroas, sendo a discrição e a confiança  sempre exigidas das empregadas, que  podem ser demitidas por justa causa em caso de difamação do empregador
 

Pela descrição  de domicílios precários e famílias nem sempre estáveis, é compreensível entender porque  o espaço da sociabilidade nos primeiros séculos de colonização  encontrava-se fora das paredes da casa, em geral na rua e nas igrejas, sobretudo nas festas religiosas, quando rua e igreja se fundiam. No domicílio, predominava o hábito de fazer visitas sem aviso prévio e de dar abrigo a estrangeiros. 
 

Quanto ao trabalho doméstico, Algranti evidencia ser o gênero uma variável relevante para o entendimento da configuração colonial. No início, devido à falta de mulheres brancas, a provisão de alimentos e a organização doméstica ficaram a cargo das índias, que socavam o milho, preparavam a mandioca, teciam redes e moldavam o barro. Nos séculos seguintes, as portuguesas assumiram o controle da vivenda, auxiliadas pelas escravas negras
 

A manutenção da vida e da casa era muito trabalhosa durante a colônia, ocupando todo o dia-a-dia de escravos e senhores em atividades que visavam a alimentação, o vestir e a construção e fabricação dos utensílios de uso diário. "São, portanto, inúmeros os registros sobre a presença de crianças escravas no espaço doméstico brincando com os filhos dos senhores e engatinhando pela casa, de escravos que serviam de pajens, de mucamas que dormiam no quarto de seus senhores, que levavam recados e faziam parte do séquito familiar quando este saía de casa. Isso sem contar os que serviam a mesa, introduziam as visitas, costuravam e teciam com suas senhoras. Lugar de escravo não era, portanto, somente na cozinha e no eito das grandes fazendas. Eles ficavam em diversos lugares, em diferentes momentos compartilhavam o cotidiano de seus senhores, ou no trabalho, ou dividindo uma esteira e um pouco de comida com aqueles proprietários mais pobres" (Idem. p.132). 
 

Quanto ao Império, é preciso trazer ao texto alguns elementos desse novo cenário. Uma crescente 
urbanização aconteceu em função da vinda da Família Real ao Brasil e da internalização do aparelho estatal na antiga Colônia que, em seguida,  torna-se independente. Era também o momento em que despontava o café como produto lucrativo, sedento de mão-de-obra, primeiramente no Rio de Janeiro e em seguida no oeste paulista. Assim sendo, a escravidão despontou como questão polêmica durante quase todo o século XIX, sendo já alvo de acalorados debates quando da Proclamação da Independência. Esta, embora promovida por liberais, manteve o mesmo regime de trabalho, ou melhor, o recriou no seio de um novo momento histórico . Pela primeira vez faz sentido falar em vida privada em oposição a um mundo público incipiente instaurado no Império. 
 

Na Europa, essa diferenciação "público versus privado" está ligada à consolidação do "projeto moderno", isto é, à projeção do indivíduo livre, que vive em um Estado laico em que a burguesia é a classe dominante. Aqui, em terras tupiniquins, essa antinomia se dará de uma outra maneira, dadas as peculiaridades de nosso processo histórico, sobretudo dada a  peculiar forma de Estado que possuíamos. 
 

"Nos confins da língua latina e do direito romano, a palavra privus (particular) deu origem a duas variantes, privatus (privado) e privus lex ou privilegium (lei para um particular, privilégio). Essas variantes fundem-se de novo num só significado no contexto do escravismo moderno, no qual o direito - o privilégio - de possuir escravos incide diretamente sobre a concepção da vida privada" (Idem. p.16)
 

Desse modo, a vida privada no Brasil nasce marcada pelo escravismo moderno, o qual envolvia o direito - a lei integrante da ordem pública - e daí nossas particularidades (talvez idiossincrasias) no dualismo público (Estado escravista) versus privado (família escravista). Ou seja, a escravidão é uma instituição que possibilita uma enorme permeabilidade entre as duas ordens. "Como na Colônia, a vida privada brasileira confunde-se, no Império, com a vida familiar. Resta que, no decorrer do processo de organização política e jurídica nacional, a vida privada escravista desdobra-se numa ordem privada prenhe de contradições com a ordem pública. Manifesta-se a dualidade que atravessa todo o Império: escravo é um tipo de propriedade particular cuja posse e gestão demandam, reiteradamente, o aval da autoridade pública."(Idem). 
 

Essa permeabilidade entre as ordens pública e privada em função da escravidão, sobretudo da escravidão doméstica, oferece certas pistas das contradições que também estarão presentes no atual mundo do  emprego doméstico. Isto porque a contradição é quase a mesma. É o Estado (mundo público) que regulamenta o usufruto da mão-de-obra, mas quem a usufrui é a família (mundo privado), regida pelas regras internas à casa, portanto um universo  pouco permeável aos ditames externos e à sua lógica, além de muito fechado à fiscalização própria da ordem pública. Assim, por mais que o emprego doméstico seja constante nos dias de hoje, sob as leis da República Federativa do Brasil, o seu exercício, ao ser realizado na casa, fica mais suscetível às regras do domicílio e da família do que àquelas que imperam  no mundo público da rua, da empresa. 
 

Mas voltemos ao século XIX e a um estudo sobre o serviço doméstico no Rio de Janeiro, em 1870, que traz um dualismo que já foi anunciado: a casa versus a rua. 
 

Segundo Sandra Lauderdale Graham, que realizou um estudo demográfico da população feminina e suas ocupações na então capital do Império, dos seus 275 mil habitantes, aproximadamente 30 mil mulheres livres ou escravas  trabalhavam como domésticas, "principalmente, porque, las mujeres que trabajaban tenían poca elección fuera de emplearse como domésticas: cocineras, sirvientas; amas de leite (nodrizas) o amas secas (niñeras), que cuidaban niños pequeños, lavanderas o mujeres que solamente almidonaban o plachaban; las que se ocupan de la despensa; mucamas, doncelas o camareras, y costureras. Incluso las mujeres, especialmente las esclavas, que vendían hortalizas o dulces en la calle, generalmente trabajaban como sirvientas domésticas durante el día"  Aqui já se encontram indicativos das especialidades da escravidão urbana, sendo que algumas escravas trabalhavam tanto nas casas de seus senhores como nas ruas vendendo doces e hortaliças,  entregando aos senhores parte ou todo o dinheiro da venda. Esse tipo de escravo era conhecido como "escravo de ganho". Algumas dessas escravas sequer moravam com seus senhores, eram escravas que "iam e voltavam"  (tenían cama afuera) e poderiam se instalar nos mocambos que se espalhavam pela cidade. "Aun las mujeres esclavas a veces lograban una vida separada. Maria Joaquina vivía por su cuenta, con 'licencia de su amo'. De su trabajo como lavandera devolvía en efectivo a su dueño una parte de lo que ganaba, guardando el resto para mantenerse." (Idem. p.75). 
 

Mas era uma minoria de escravas que usufruía dessa condição, a maior parte delas trabalhava "com cama adentro" ou "servían de puertas para dentro" estando, portanto, sujeitas à autoridade do chefe do lar. "Más importante aún era el hecho de que la autoridad paterna no terminaba en el círculo de su familia imediata, sino que se extendía a todos los miembros de la casa. El amo - jefe del hogar y maestro - poseía, de acuerdo a la ley portuguesa, el derecho a castigar físicamente a su sirviente, seguidor, esposa, hijo o esclavo. Sin embargo, al mismo tiempo se esperaba que el jefe de la familia asegurara la protección del honor de las sirvientas. El hombre que trataba de tener relaciones sexuales con una sirvienta o de casarse con ella  sin permiso de su patrão arriesgaba el destierro o la muerte" (Idem. p. 71). Assim sendo, essas criadas "viviam como membros do lar", sob a autoridade do chefe do lar e, como pudemos perceber, o lar, no Brasil desse contexto, compreendia simultaneamente a família, seus dependentes e a casa onde eles viviam. É nesse sentido que, ainda que a escravidão fosse regida publicamente, no interior do lar as regras a serem seguidas eram  muito diversas, emanando da autoridade paterna. 
 

O chefe do domicílio era responsável pelas suas serventes: "si los amos confiaban algumas sirvientas a trabajos en el interior porque el mundo afuera las podía dañar o tentar, no todas las servientas necesitaban o garantizaban esse cuidado." (Idem. p. 72). Se até mesmo as escravas eram poupadas no interior da casa, imagine as mulheres de "boa família", que jamais poderiam adentrar o espaço público, o desagradável e perigoso espaço da rua. Elas só o faziam acompanhadas dos homens da família ou de suas escravas, que acabavam por assumir a proteção da casa. 
 

Contudo, ainda que o imaginário dominante classificasse a  rua como o lugar do anonimato, do desordenado e do perigoso, a autora defende que, do ponto de vista das criadas, a rua era uma mundo mais diversificado e igualitário. "Lejos del ojo avizor de una siempre observante dona de casa, las mujeres podían esperar encontrarse en la calle con otras sirvientas con similar rumbo o brevemente con amigos o amantes, en un lugar y a una hora prefijada. (...) En esos lugares públicos se podían establecer lazos sociales entre semejantes probados, disfrutados y forjarse identidades individuales. Lavar en la fuente o en los tanques de las lavanderías o en el cortiço, o hacer cola para llenar las vajilas con água, eran ocasiones sociales (...) Lavar la roupa también daba tiempo para la camaradería. Durante várias horas o durante un día entero, las mujeres se encontraban liberadas de la necesidad de comportarse con deferencia y moverse silenciosamente y así el sítio de la fuente resonaba con sus conversaciones e con sus trabajos y los cargadores de agua que esperaban en la fuente o cerca del grifo en la esquina de la calle gozaban del tiempo conversando e flirteando" (Idem. p.72). Assim, "casa y calle eran conceptualizaciones competitivas. Para las sirvientas llevaban implícitos significados contrários a aquellos dados por los patrões. Los significados que las sirvientas derivaban de su propria experiencia formaban parte de la autoconciencia por la cual se diferenciaban de los patrões y de los hogares en los cuales trabajaban" (p.76). 
 

No século XIX, quando trabalho escravo e trabalho livre se misturavam, Ina Von Binzer fez um comentário interessante: "Todo o serviço doméstico é feito por pretos: é um cocheiro preto quem nos conduz, uma preta que nos serve, junto ao fogão, o cozinheiro é preto e a escrava amamenta a criança branca; gostaria de saber o que fará essa gente quando for decretada a completa emancipação dos escravos".  Aqui, notamos as marcas indeléveis que a escravidão deixa no mundo do trabalho, sobretudo no trabalho doméstico.  O trabalho manual e doméstico,  percebido como desabonador, como "serviço de preto", é impensável de ser realizado pelos seus antigos senhores, daí serem as empregadas domésticas uma resposta à pergunta de Von Binzer. 
 

Na própria fala de algumas domésticas e patroas que foram entrevistadas isso aparece. As primeiras se queixam de fazerem um trabalho pouco reconhecido socialmente e as segundas concordam que é um trabalho braçal, chato e cansativo, sendo por isso  muito difícil viver sem empregada. Além disso, em função da herança escravocrata, há um cruzamento da questão racial com o mundo do emprego doméstico. "(...) 'serviço de negro', tem dupla conotação, de 'serviço mal feito' e de 'serviço desqualificado'. Outras associações também freqüentes são entre cozinheira e negra; empregada doméstica e negra; e 'ser da cozinha' [ou ter o pé na cozinha] com a negritude e a escravidão. No que concerne ao trabalho em geral, se as atividades manuais são sobrecarregadas de um significado 'aviltante', o próprio fazer doméstico receberá um significado homólogo. A escravidão doméstica não impõe sua marca apenas no fazer, mas também nas atitudes e comportamento daqueles que, na família, se socializam para o mando e para a disponibilidade de alguém que lhes atenda a vontade" {Idem. p.136 e137). Outro exemplo da permanência da questão racial é a existência da pergunta sobre cor na ficha preenchida nas agências de colocação de empregadas domésticas, bem como a preferência das patroas por pretas ou não pretas. Como fica explícito na fala do proprietário da agência Nova Gaúcha: 
 

"As patroas geralmente entram em contato com a gente por telefone. Então, elas passam o perfil desse candidato que elas estão precisando. A gente tem algumas perguntas básicas. (...) O que a gente pergunta, basicamente, com relação à empregada é: que serviço que é pra fazer, qual a função que ela vai desempenhar, se a pessoa tem preferência de idade e perguntamos também se tem preferência de cor. (...)
Gabriela - Mas vocês induzem a pessoa a falar ou elas espontaneamente dizem 'eu prefiro...'? (...)
Alexandre - (...) Pergunto com relação à cor. Por quê? Justamente para evitar mandar uma pessoa, se a pessoa tem algum problema com isso. Eu não vou perder o meu tempo nem o da candidata. Quando a gente começou eu nem lembro se a gente fazia essa pergunta. A gente colheu informações de outras agências e as agências falaram que era bom perguntar isso. Então a gente passou a incluir essa pergunta, não para discriminar, porque a gente faz ficha aqui com todo mundo, mas infelizmente pra saber se a pessoa tem algum problema, porque se tiver a gente não vai mandar. Agora é o que eu vou falar, normalmente não tem esse tipo de problema. Às vezes acontece o contrário. Sabia que já aconteceu o contrário? Tem pessoa que pede pessoa de cor negra. Engraçado, né... (...) 'Olha eu quero uma negra, eu gosto de doméstica negra, não gosto de empregada branca. Gosto de negra, porque as negras são limpas.' É, quer dizer, é o contrário, né, o inverso do preconceito. Sei lá. Mas isso é muito difícil, mas normalmente as pessoas não têm essa preferência, algumas até ficam meio indignadas quando eu pergunto 'Não, imagina, não tenho nada com isso'."
Em vez "do contrário do preconceito", talvez a preferência por negras mostre justamente aquilo que já foi sugerido: uma associação existente entre domésticas e negras como herança do mundo do trabalho escravo.
 

São também próprias do século XIX, dos meandros da crise do sistema escravagista,  as discussões sobre a regulamentação do emprego doméstico. "Em 1886, o Código de Posturas do Município de São Paulo regulou, entre outras, as atividades 'dos criados e das amas de leite'. O 'criado de servir' é definido como 'toda pessoa de condição livre que mediante salário convencionado tiver, ou quiser ter, ocupação de moço de hotel, hospedaria ou casa de pasto, cozinheiro, copeiro, cocheiro, ama de leite, ama seca, engomadeira ou costureira e, em geral, a de qualquer serviço doméstico.' O empregado deveria ser registrado na Secretaria de Polícia, que expedia uma carteira de identificação, sendo obrigado a conceder aviso prévio na rescisão do contrato por tempo indeterminado. (...) Em 1890, no Estado do Piauí, foi aprovado um decreto que criava a 'matrícula, carteira de trabalho, fixação dos direitos e obrigações.' Embora os objetivos fossem principalmente de saúde pública e de controle policial, estabelecia algumas garantias aos trabalhadores." (Idem. p.275). 
 

Foram as Secretarias de Polícia e a Saúde Pública os lugares em que primeiramente foram registrados os empregados domésticos. Ainda que a maior parte das identificações civis fosse feita pela polícia, entre outras atribuições aí também eram registrados os "suspeitos" submetidos a uma vigilância policial mais estrita. Isto revela a importância do controle daqueles que trabalhavam junto às famílias, no sacrossanto espaço da casa, que poderia ser usurpado. Mas também é digno de nota o fato de, ainda nos dias de hoje, serem as empregadas submetidas a uma outra espécie de controle policial. Na ocasião da contratação, é de praxe - e legalmente permitido - tirar o atestado de antecedentes da candidata ao emprego doméstico. Interessante é notar que, aos empregadores de trabalhadores celetistas, essa prática é vetada por constituir discriminação.
 

A relação entre espaço público e espaço privado, mediada pela discussão da herança da escravidão, também aparece em Florestan Fernandes, principalmente em A Integração do Negro na Sociedade de Classes . Nesse livro, Florestan  analisa a situação do negro frente à sua integração na sociedade de classes, defendendo  a existência de permanências dos padrões tradicionalistas de relações raciais - paternalismo e personalismo - no bojo da ordem social competitiva em ascensão. 
 

Dessa maneira, o desenvolvimento do mundo público, moderno, pautado pelo sistema capitalista em formação - a moderna sociedade nos trópicos - encontra impedimentos nas permanências de estruturas arcaicas ligadas ao regime escravocrata, sobretudo naquelas disposições culturais privatistas (paternalismo, clientelismo, personalismo) que impediriam a integração do negro num regime estratificado de classes. 
 

A anomia social, a pauperização e a integração incompleta do negro e mulato que Florestan Fernandes analisou frente à sociedade competitiva, aberta e democrática que  o Brasil pretendia ser, estão também presentes na situação dos empregados domésticos do Brasil.
 

Por mais que a escravidão seja um período historicamente superado, nos tempos atuais  o trabalho doméstico ainda está imbricado na organização do mundo privado, não só nas classes superiores, como também nas classes médias . Deste modo, a perspectiva de Fernandes, que retoma as permanências daquele legado escravista no atual sistema, torna inteligível o quadro da manutenção do trabalho doméstico no Brasil, que atualmente emprega quase 1/3 (21%) das mulheres inseridas no mercado de trabalho, sendo 61% deste contingente de mulheres negras. 
 

Logo, é legítimo atentar para as reminiscências do regime escravocrata presentes na atual situação da instituição do emprego doméstico no Brasil, tal como foi visto neste quadro teórico e histórico. 
 

Agora, na etnografia, serão as vozes atuais que terão vida. Nelas ainda ecoarão relações e organizações sociais do período da escravidão. Daí a razão de retornar à Colônia: a relação do trabalho doméstico com a "escravidão" continua presente no discurso de empregadas domésticas e patroas. Vamos, portanto, a essas vozes dialógicas que interagem na instituição - emprego doméstico - tomada como objeto desse trabalho de campo. 


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