Este artigo apresenta
os resultados da pesquisa desenvolvida a partir do projeto intitulado originalmente
"Projeto para Pesquisa de Campo em Antropologia", que se propunha estudar
o trabalho doméstico enquanto uma instituição social
brasileira a partir da relação entre empregadas domésticas
e patroas. Algumas questões foram levantadas, como: "Por que
essa relação existe de forma tão disseminada em nosso
país?", "Por que é potencialmente conflituosa?", "Como se
reproduz e se reinventa na sociedade brasileira ao longo do tempo?".
Para responder estas questões, tomou-se como recorte a relação
entre patroas e empregadas na cidade de São Paulo enquanto
instituição peculiar, que estabiliza a vida familiar brasileira
e situa-se num determinado nicho do mercado de trabalho.
Debruçar-se sobre
um tema tão presente e codificador da convivência na sociedade
brasileira revelou-se muito estimulante. O trabalho doméstico é
parte constituinte da maioria dos lares brasileiros de classe média
e alta. Talvez por ser tão disseminada - quase naturalizada - a
relação empregada doméstica/patroa tenha sido pouco
estudada pelas Ciências Sociais.
Este artigo propõe
como um dos objetivos mostrar a especificidade da relação
patroa-empregada, buscando apresentar como ela se compôs e se reinventou
enquanto instituição que pauta o mundo do trabalho ao longo
dos diversos momentos da história brasileira. Além disso,
a partir das falas das empregadas e patroas, bem como das expressões
utilizadas em suas respectivas associações e agências
de emprego, construiu-se um léxico do universo do trabalho doméstico
para entender as categorias que o permeiam, tais como "arrumadeira", "empregada",
"babá", "cozinheira", "serviços gerais", "trabalhadora",
"atestado de antecedentes", "referências", etc.
Como foi dito anteriormente,
no projeto que deu origem a este artigo, "acreditamos que, por meio de
um incurso histórico, descobriremos a formação dessas
classificações, em outras palavras, realizaremos como que
uma arqueologia dessas categorias. Além dessas categorias formais,
procuraremos compreender as representações que se forjam
nessa relação social e que dão sentido a ela."
Portanto, este estudo busca
usufruir as ferramentas teórico-metodológicas que a Antropologia
oferece: explorar a versão nativa, o modo pelo qual as pessoas organizam
o cotidiano e, portanto, conferem significados ao seu modo de viver.
Dessa maneira, uma abordagem
antropológica da relação institucionalizada entre
patroas/empregadas permite entrever como essas pessoas lidam com sua rotina
diária, como essa relação compõe sentidos,
cria expectativas, deposita valores e estabelece limites.
2. QUADRO DE REFERÊNCIAS
2.1. Procedimentos
Metodológicos
Grande parte dos procedimentos
metodológicos propostos foi cumprida. Foram realizadas entrevistas
com domésticas e patroas. Em duas delas, patroas e empregadas eram
da mesma residência. Dentre as domésticas entrevistadas, houve
certa heterogeneidade de condições de trabalho: uma profissional
"dormia no emprego", realizando serviços de "babá-arrumadeira";
outra "ia e voltava", realizando "serviços gerais"; a terceira era
"diarista", "faxineira".
Não foram utilizados
questionários, mas algumas perguntas estão presentes em quase
todas as entrevistas, entre elas: "O que é uma boa patroa/empregada?",
"Por que existe emprego doméstico no Brasil?", "No geral, como define
a relação entre empregadas e patroas? Pacífica? Tumultuada?",
"Qual é o horário de trabalho?", etc. Isso porque são
perguntas que dão margem a respostas que indicam pistas para
os questionamentos já expostos na introdução.
Sindicatos foram visitados.
Na primeira visita ao SEDESP (Sindicato dos Empregadores Domésticos
do Estado de São Paulo), uma secretária recepcionou o grupo.
Segundo sua opinião, a Antropologia não tinha nenhuma relação
com o serviço prestado pelo sindicato. Foi marcada uma entrevista
com a presidente, uma advogada, para a semana seguinte. Na ocasião,
a Dra. Margareth Carbinato recebeu muito bem o grupo, oferecendo
até mesmo um cafezinho, chamando sua secretária por meio
de uma campainha. Muito solícita, ela reiteradamente se ofereceu
para dar uma palestra na USP, caso o professor quisesse.
Quanto ao STDMSP (Sindicato
dos Trabalhadores Domésticos do Município de São Paulo),
foi marcada por telefone a entrevista com sua presidente, Dejanira. Contudo,
o grupo não foi recebido na data combinada, pois Dejanira tinha
saído em função de uma emergência. A "viagem"
não foi de todo perdida, posto que foi possível entrevistar
uma associada que havia procurado o sindicato querendo saber sobre "seus
direitos". A entrevista foi remarcada para o dia seguinte. Dejanira interrompeu
várias vezes a conversa para receber telefonemas e membros da diretoria
que vinham pedir sua assinatura em documentos. O encontro durou menos
de 30 minutos porque o sindicato fecha, religiosamente, às 16hs,
horário em que os seguranças são dispensados.
A entrevista na Agência
Nova Gaúcha foi muito interessante. Seu proprietário, Alexandre,
recebeu muito bem o grupo e deu todas as informações
que foram pedidas, mesmo quando estranhava perguntas como "O
que faz uma babá?". "Oras, cuida de criança!".
Todas as entrevistas foram
gravadas e transcritas, constando dos anexos do projeto original. Os panfletos
(SEDESP), a apostila do STDMSP, o livro da presidente do SEDESP, os sites
dos sindicatos e da ONG "A patroa e sua empregada" também integram
estes anexos e são utilizados como documentação na
etnografia.
É preciso dizer que
houve dificuldades para encontrar patroas e empregadas disponíveis
e que quisessem dar entrevistas. Conseqüentemente, foi impossível
observar o dia-a-dia de uma casa e coletar diretamente dados para a análise
da interação entre empregadas e patroas. Assim sendo, diferentemente
daquilo que o projeto anunciava como objeto, foi enfocada apenas a relação
entre esses dois atores e não sua interação.
O quadro teórico
cumpre, na verdade, duas funções: resgatar as raízes
do serviço doméstico no Brasil (quadro histórico)
e, ao mesmo tempo, os conceitos trabalhados pelo pensamento brasileiro
para tratar desta sociedadee de tão peculiar instituição,
o serviço doméstico, ambígua por articular o público
e o privado.
2.2. Quadro Teórico
- Histórico
Quando o objeto de estudo
foi escolhido, já se tinha em mente a análise de seu caráter
disseminado e potencialmente conflituoso. A hipótese sugerida durante
o projeto foi que essa tensão teria suas raízes na ambigüidade
própria ao "emprego doméstico". Para analisar a relação
de emprego - integrante do mundo público, formal, moderno, capitalista
- quando realizada no espaço doméstico - privado, arbitrário,
informal, tradicional - foi proposta a recuperação da conformação
histórica dessa instituição. Ou seja, as categorias
"serviço", "trabalho" e "emprego" domésticos
foram contextualizadas historicamente, bem como sua reinvenção
ao longo dos diversos momentos da sociedade brasileira. Mas, como definir
essa instituição?
A
categoria "serviço doméstico", na acepção aqui
utilizada, englobará todas as atribuições da casa
realizadas por pessoas que não sejam da família. Deste modo,
as conexões históricas entre o universo do trabalho doméstico
e a herança escravocrata serão trazidas à tona, tendo
como foco as relações entre o mundo privado e o público.
Isso porque essas são categorias estruturais que se repõem
naquela ambigüidade já referida, que mistura a casa e a rua,
a família e o trabalho, a moral e as relações econômicas,
as empregadas que "são da família" e seus irrisórios
salários etc.
Sendo o ponto de partida
o Brasil colônia, já de início surge um problema: como
definir o que é privado, pois, se vida privada contrapõe-se
a vida pública e pressupõe o Estado moderno como critério
de delimitação, a rigor a história da vida privada
só seria possível a partir do século XIX. Uma solução
é ampliar o sentido do conceito para incluir o universo da
intimidade e do cotidiano. Portanto, esse alargamento do conceito engloba
indagações sobre as manifestações da intimidade
em momentos em que seu espaço ainda não estava plenamente
definido
.
Nessa medida, é interessante
começar pela obra Casa-Grande & Senzala, que deixa evidente
esse mal-estar entre público e privado no Brasil já nas primeiras
décadas do século. O espaço privado da casa-grande
em sua relação com a senzala é eleito por Gilberto
Freyre como produtor de uma sociabilidade que nos é peculiar e,
no limite, brasileira. Somos, segundo a obra de Freyre, uma civilização
que surgiu do espaço privado. É nele que se ensejam as relações
que nos são típicas por serem tensas e, simultaneamente,
envolverem proximidade, num equilíbrio de antagonismos que matiza
a violência com a doçura
.
A proximidade entre escravos
e senhores que se desenrola nesse locus específico, a grande propriedade,
cria laços sentimentais que amenizam a violência. É
neste espaço hierárquico, regido pela família patriarcal
e escravista - logo, violenta - que se misturam sentimentos doces e de
dominação, que criam e caracterizam a nossa cultura. É
nesta moldura - do autoritarismo privado e adocicado - que Freyre aloca
os escravos domésticos e seus serviços prestados na casa
sob a vigilância das ia-iás. "Quanto às mães-pretas,
referem às tradições o lugar verdadeiramente de honra
que ficavam ocupando no seio das famílias patriarcais. Alforriadas,
arredondavam-se quase sempre em pretalhonas enormes. Negras a quem se faziam
todas as vontades: meninos tomavam-lhe a bênção; os
escravos tratavam-nas de senhoras; os boleeiros andavam com elas de carro.
E dia de festa, quem as visse anchas e enganjentas entre os brancos da
casa, havia de supô-las senhoras bem-nascidas; nunca ex-escravas
vindas da senzala. É natural que essa promoção de
indivíduos à Casa-Grande, para o serviço doméstico
mais fino, se fizesse atendendo a qualidades físicas e morais; e
não à toa e desleixadamente. A negra ou mulata para dar de
mamar a nhônhô, para niná-lo, preparar-lhe a comida
e o banho morno, cuidar-lhe a roupa, contar-lhe histórias, às
vezes substituir-lhe a própria mãe - é natural que
fosse escolhida dentre as melhores escravas da senzala. Dentre as mais
limpas, mais bonitas, mais fortes."
Nesse trecho Freyre cita
quase todos os pontos que desenvolve sobre esse assunto durante todo o
livro. As histórias portuguesas, que sofrem alterações
na boca das amas-de-leite, passam a ter, como personagens principais, bichos
ao invés de príncipes (Idem. 2001.p.386 e 387). As canções
de ninar, que embalavam o sono do iô-iô, também
foram mudadas, amolecidas pela boca negra, tal como as palavras das históriashistórias
(p. 382 e 383). Amolecida e adoçada também fora a comida
dada aos garotos e meninas. "À figura da ama negra que, nos tempos
patriarcais, criava o menino lhe dando de mamar, que lhe embalava a rede
ou o berço, que lhe ensinava as primeiras palavras do português
errado, o primeiro 'padre-nosso', a primeira 'ave-maria', o primeiro 'vôte!'
ou 'oxente', que lhe dava o primeiro pirão com carne e 'molho ferrugem',
ela própria amolengando a comida (...)" (p.389). E, para terminar,
as mulatas iniciavam os meninos no amor físico, transmitindo-lhes
a primeira sensação de ser um homem completo.(p.343). Devotavam-lhes
tão verdadeiro amor, que houve casos de sinhôs que se casaram
com suas mucamas (p.395). Em outras situações, amores mais
maternais foram dedicados às crianças: "(...) ao recém-nascido,
reuniram-se, no Brasil, as duas correntes místicas: a portuguesa,
de um lado; a africana de outro. Aquela representada pelo pai ou pelo pai
e mãe brancos; esta, pela mãe índia ou negra, pela
ama-de-leite, pela mãe de criação, pela mãe
preta, pela escrava africana. Os cuidados profiláticos de mãe
e ama confundiram-se sob a mesma onda de ternura maternal. Quer os cuidados
de higiene do corpo, quer os espirituais contra quebrantos e o mau-olhado"
(p.382).
É interessante notar
que os negros, sobretudo a negra, têm papel civilizador no modelo
montado pelo "antropólogo" pernambucano. A mulher negra não
aparece como pessoa dominada, subjugada pelas regras do senhor; ao contrário,
ela cria, inventa, chantageia, seja por meio das comidas, das histórias,
dos doces, da magia, da medicina tradicional e, até mesmo, por meio
de sua própria sensualidade. Logo, é em função
dessa estrutura hierárquica que se produz a "peculiaridade nacional",
em que se tenta remediar, amansar, adoçar, dificultando uma formalidade
na resolução de impasses. A relação formal
remete-se à igualdade e ao distanciamento dos corpos, ao menos
ao reconhecimento do outro.
Entretanto, olhe-se mais
de perto esses múltiplos serviços prestados pelos escravos
e escravas dentro da casa. Será que eram apenas amas-de-leite as
negras que cuidavam dos nho-nhôs? Ou seriam pajens, bás ou,
ainda, somente amas? Parece haver uma indefinição ou variedade
muito grande quanto aos personagens e nomes das pessoas responsáveis
pelos serviços da casa.
Freyre, a partir dos anúncios
de escravos fugidos
,
arrola as seguintes ocupações de escravos: "São freqüentes
nos anúncios de jornais (...) as seguintes especializações
entre os homens: catraeiro, lenhador, talhador de carne, carreiro, sapateiro,
padeiro, pescador, sangrador, cozinheiro, cambiteiro, alfaiate, caiador,
carpina, marceneiro e pajem. Entre as mulheres: engomadeira, lavadeira,
costureira, doceira, ama-de-leite, marisqueira, enfermeira e mucama
."
Mesmo em Casa-Grande & Senzala
, ele alterna o uso de escrava, sinhama, mucama, negra velha, mãe-preta,
mulata, ama e ama-de-leite para se referir a essas negras próximas
às crianças.
Naquela primeira lista, uma
surpresa: pajem, hoje entendido como sinônimo de babá - ocupação
feminina - consta da lista masculina e era a única ocupação
doméstica. Esse significado parece ter sido mantido no século
XIX, em São Paulo: "(Correio Paulistano 17/02/1865) Atraz de
santa Iphigenia aluga-se uma escrava de 14 annos para casa de família,
afiancia-se sua conducta e um rapaz de 22 para serviço de pagem,
muito diligente e fiel."
Talvez o dicionário
ajude a esclarecer este impasse: "sm 1. Na Idade Média, mancebo
da nobreza que acompanhava um príncipe, um fidalgo, ou uma dama,
para prestar-lhes certos serviços e iniciar-se na carreira das armas.
2. Nas touradas, cavaleiro que transmite ordens. Em navios de guerra, marinheiro
que cuida da limpeza. sf Ama-seca
."
Como pode ser visto, a palavra é primeiramente remetida ao masculino
e, em múltiplos contextos, a um homem que presta serviços
e também dá algumas ordens. Assim, "pagens" provavelmente
eram os escravos que prestavam toda espécie de serviço
dentro da casa senhorial. Esse outro anúncio de fuga de escravo
revela mais detalhadamente esses serviços prestados pelo pagem "(Correio
Paulistano, 06/05/1880): Juiz de Fora, escravo fugido. Acha-se fugido
desde 1o de março do corrente, o escravo Theodoro (...) e tendo
mais ou menos 22 annos, pagem de serviço doméstico acostumado
a lidar com animaes, copeiro, entende do ofício de carpinteiro,
sabe lidar com máquinas de corte (...)"
.
Quanto ao significado feminino
de pajem no dicionário, refere-se à ex-ama-de-leite que,
agora "seca", serviria a outro tipo de ocupação, sobretudo
ao trato das crianças. Talvez por ser uma mulher "seca de leite"
- sendo o leite traço essencialmente feminino - tenha sido
qualificada pelo substantivo anteriormente empregado no masculino.
Retornando aos anúncios,
já se encontra nessas poucas linhas aquilo que era valorizado na
escravaria doméstica: conduta afiançada pelo ex-dono (que
aparecerá mais tarde sob a forma das "referências") e qualidades
como "muito diligente e fiel". A diligência se refere ao afinco no
trabalho e a fidelidade aos laços morais que ligariam escravo e
senhor, indicando, assim, que o serviçal não fugiria nem
se revoltaria.
Os qualificativos usados
pelos senhores para propagandear os escravos ("fiel", "diligente" ou mesmo
"pagem", referindo-se à ama-seca) nos remetem à expressão
"'Servus non habent personam', de Marcel Mauss, indicando que o
escravo não tem personalidade, nem corpo, nem antepassados, nem
nome, cognomeou bens próprios. O escravo entendido como corpo
sem persona é, por definição, para o branco, o próprio
"vazio social" (Idem. p.162). E justamente esse vazio social é preenchido
pelas representações construídas pelos senhores, das
quais são parte integrante os adjetivos acima expostos.
Pode-se ressaltar, ainda,
a idade da escrava doméstica citada: "14 annos". Veremos que
essa tenra idade se repete nos anúncios do século XIX paulistano
e nas falas das empregadas domésticas entrevistadas. Ainda meninas,
encarregar-se-ão não só do trato das crianças,
como de todo o serviço da casa, algo que continua a acontecer nos
dias de hoje. "(Correio Paulistano, 22/02/1865) Mulatinha. Nesta typographia
se dirá quem vende uma mulatinha com 7
para 8 annos de edade, com princípios de costura e
muito geitosa para carregar creanças." (Correio Paulistano,
03/01/1886) "Uma bonita preta creoula desta cidade, muito
nova, sadia, sabendo costurar, cosinhar,
lavar, engommar, todo o serviço doméstico, e tratar de creanças
etc. Trata-se na casa acima referida com o illm. Director da mesma o snr.
Coronel Oliveira." (Correio Paulistano, 06/01/1865) "Aluga-se uma creoula,
sadia, muito própria para tratar de creanças,
por ser muito carinhosa. Já sabe costuras, e engommar
alguma cousa, sem vício nenhum: trata-se na rua do Braz
defronte da igreja, armazém."
As "costuras" são
referências comuns porque, desde a colônia, a tecelagem, fiação
e confecção de roupas, principalmente a dos empregados, era
considerada um serviço doméstico também a cargo das
escravas e sinhás. "As atividades domésticas de homens e
mulheres [durante a colônia], porém, não se resumiam
à cozinha e suas dependências. A fiação do algodão
e sua tecelagem, que visavam à confecção de roupas
brancas masculinas e femininas e às vestimentas dos serviçais,
consumiam parte do tempo dedicado ao trabalho doméstico, sobretudo
dos escravos"
.
Neste último anúncio
classificado, surgem as qualidades evidenciadas nessas serviçais
do lar: o carinho com as crianças e a ausência de vícios.
Quanto a estes últimos, Gilberto Freyre ilustra quais eram:
"O vício de comer terra era talvez o pior.(...) Havia negros que
se suicidavam comendo terra. Do banzo passavam ao suicídio. (...)
O vício do tabaco, fumado em cachimbo de pau ou de barro, ou mascado,
provavelmente com uma folhinha ou duas de maconha ou diamba para aumentar
o gosto do pecado, era mais comum. (...) Nas senzalas havia cachimbeiras
inveteradas e até bebedeiras de fumo, isto é, negras que
bebiam fumo. (...) Vício comum entre escravos do tempo do Império
foi também o da cachaça (...).
" Certamente quem fosse amamentar os infantes não poderia
ter vícios, pois deveria ser "sadio". Na atualidade, as babás
também devem gostar de crianças, ter boa aparência
(tal como as escravas domésticas), ser saudáveis, limpas
e sem vícios, sobretudo não fumar, tal como se verá
na descrição etnográfica.
Outras versões geram
suspeitas sobre o quadro idílico pintado por Freyre, em que estão
inseridas as amas dentro da casa-grande. Muitas vezes "aspirando a sair
de seu estatuto aviltante, 'seduzida e embalada' por essa esperança,
a mucama deixaria de lado sua 'cria' para fornecer ao nhonhozinho todo
o carinho de que ele necessitasse. O arbítrio senhorial lograva
extorquir da escrava um tipo especial de serviço que o simples salário
não podia obter da ama-de-leite livre."
Outros
elementos surgiriam complicando um pouco mais o quadro anterior, principalmente
no que concerne ao mercado urbano das amas-de-leite, onde se nota que os
senhores exploravam suas negras, fazendo-as abdicar do trato dos próprios
filhos. Fica clara a crueldade decorrente da escravidão nessa relação
que muito foi enaltecida para subsidiar uma escravidão "adocicada"
e na qual as "mães-pretas" eram quase um símbolo. Contudo,
cada "filho branco" custava a essa "mãe" a renúncia do filho
natural, muitas vezes vendido.
Os anúncios de jornal
novamente são um bom sintoma desse processo. "(Correio Paulistano
05/01/1865) Escrava e filho. Quem quizer comprar uma mulata muito moça,
sem vícios, sabendo cosinhar, lavar e engommar e estando com um
filho de dous mezes e abundante leite, nesta typographia se dirá
quem vende."
Em 1872, um suíço
- Charles Pradez- comenta anúncios semelhantes a esses publicados
no Rio de Janeiro: "Uma coluna do Jornal do Commercio se enche todos os
dias de anúncios de aluguel de amas-de-leite; para quem sabe do
que se trata, cada linha representa um drama íntimo, a história
do naufrágio de uma aflição santa ou indica uma cruel
separação; cada anúncio significa lágrimas,
luto e desespero! Apesar disso, o interesse pesa sobre essas coisas e outras,
cada ama corresponde de 120 a 150 francos por mês. Tirar o filho
de sua mãe! Não é atroz? Não é revoltante?
Pois é: fala-se da emancipação diante de algumas pessoas
mais ou menos interessadas em manter a ordem de coisas atual e elas responderão
se é utópico, visionário, que os operários
europeus são muito mais infelizes que os negros etc. etc."
Nessa mesma linha de argumentação, Miriam Moreira Leite encaixa
sua análise das fotos de amas: "Os retratos de amas-de-leite que
conhecemos apresentam tão-somente a imagem positiva do relacionamento
afetivo da ama vestida à européia, com o bebê branco
ao colo. Mas é fácil verificar que (...) a prática
da amamentação por escravas alugadas a particulares ou asilos
de crianças abandonadas foi responsável por uma das formas
mais sinistras de inter-relacionamento nos grupos de convívio. Além
de privar os filhos de seu leite, as amas-de-leite eram exploradas fisicamente
ao máximo, tanto quando eram alugadas a instituições
para amamentar diversas crianças, como pelo período prolongado
que se exigia que aleitassem"
.
Algo formalmente análogo se passa nos dias de hoje: as mães
da classe média e média alta, para ingressarem no mercado
de trabalho, consideram imprescindível a doméstica dormir
no serviço para cuidar de seus filhos. Deste modo, as empregadas
são obrigadas a se apartar de seus rebentos deixando-os com parentes,
ou na creche, enquanto cuidam dos filhos de sua patroa.
Se esses últimos anúncios
apresentavam o quadro geral entre 1865 e a década de 1870, em princípios
dos 1880 novidades começam a surgir : "amas brancas", "preferência
por brancas ou estrangeiras", "preferência por captivas" e "ama se
oferece" são termos que começam a pulular nesse tempo de
transição."(A Província de São Paulo, 11/01/1883)
Ama de leite. Precisa-se de uma que seja sadia, preferindo-se
a côr branca. Para tratar rua da Imperatriz n.2, 2o andar."
"(A Província de São Paulo, 03/03/1883) Ama. Precisa-se de
uma preferindo estrangeira." "(A Província
de São Paulo, 04/10/1880) Criada. Precisa-se de uma para carregar
criança. Prefere-se branca e estrangeira.
Tratar na r. Direita n. 8." "(A Província de São Paulo, 13/09/1880)
Ama de leite. Uma boa ama de leite se offerece
para receber e amamentar uma criança em sua casa, rua 21 de maio
n.28, no Chá" "(A Província de São Paulo, 14/09/1880)
Ama de leite. Precisa-se de uma que seja sadia: prefere-se
captiva, sem filho. Para tratar na rua de Santo Amaro em frente
ao matadouro."
Esses novos termos indicam
sinais de grandes modificações nos referenciais culturais,
sendo decorrentes do processo de declínio do sistema escravista
e do início da imigração. Uma aproximação
mais detalhada desse contexto pode revelar os nexos dessa mudança
de "preferências".
Sintomático desses
novos tempos de ares "civilizantes" é o anúncio de um produto
considerado moderno: a farinha láctea. "A escassez da ama sadia
e o seu preço elevado tem tornado a introdução da
farinha láctea Nestlé um verdadeiro benefício para
o Brasil. Hoje uma mãe pode ter a satisfação de criar
seu filho com o leite se tiver pouco, sem risco de enfraquecer nem se sofrer
na sua saúde (...)"
Aqui fica claro como a publicidade do produto estrangeiro tem que dialogar
com os valores e o imaginário locais. Nessa medida, evidencia as
benesses desse alimento para toda a nação, que poderá
substituir as amas cada vez mais caras e menos sadias.
O anúncio revela,
também, o imaginário existente em torno da amamentação
materna pautada pelo receio de enfraquecimento e perda de saúde.
Agora, porém, a fragilidade do bem-estar materno (remediado por
produtos como a farinha láctea) parece preferível perante
os "novos riscos" da amamentação por escravas (negras).
Houve nos jornais e nas escolas de medicina acaloradas discussões
sobre os malefícios (nos quais em décadas anteriores não
se tocara) da amamentação por amas, amas negras. A mãe
branca, enquanto figura moral mais "elevada", agora poderá transmitir
no leite tal qualidade a seu filho. "Na Europa há toda uma discussão
sobre as vantagens do leite materno, a fim de garantir melhores cuidados
ao bebê e, supostamente, transmitir-lhe, pelo leite, as qualidades
naturais de sua mãe. Pouco a pouco o costume das amas-de-leite de
aluguel declina, e o médico baseado numa nova especialidade - a
puericultura -, intervém cada vez mais no cuidado dos bebês,
em detrimento de práticas e da autoridade materna."
Contudo, os hábitos sempre são mais arraigados do que as
novas teorias; assim, uma mudança menos radical seria a contratação
de amas brancas, melhor ainda se estrangeiras.
As novas imigrantes brancas,
beneficiadas pelo contexto, usufruiriam o "nicho de mercado" já
aberto pelas negras escravas, agora tornadas insalubres. Alfabetizadas,
ofereciam-se nos jornais para amamentar filhos alheios na própria
casa. Alencastro analisa argutamente esse novo quadro social pela mudança
da partícula "se". "Uma oferta de senhora (...) que inverte o pronome
pessoal se, mudando a partícula apassivadora do verbo pronominal
em objeto direto, ativo: uma mucama é posta a alugar-se pelo seu
proprietário, a senhora livre se aluga ela própria" (Idem.
p. 64).
Há ainda aqueles senhores
e senhoras que, impregnados da lógica da escravidão, são
mais resistentes a esse processo de "modernização" que os
retiraria da posição central do arbítrio e poder,
dosados estes pelo uso da força física. Eles preferem as
"captivas". A preferência por cor e origem também se
faz presente nos pedidos que as patroas, em 2003, fazem às agências
de colocação de empregados domésticos.
Definitivamente, os processos
culturais têm uma temporalidade peculiar, re-inventando e re-interpretando
os artífices que ocupam quase o mesmo lugar nos sistemas de relações
do serviço doméstico, há tanto tempo sedimentado.
É preciso, contudo,
matizar a interpretação feita por Freyre, trazendo os estudos
de outros historiadores no que tange à Colônia. E, ainda,
faz-se necessário marcar a passagem para o Império, posto
que esta narrativa é quase linear, aproveitando as categorias do
serviço doméstico escravo, colonial e nordestino, somando-as
aos exemplos do Segundo Reinado paulistano, para mostrar a permanência
desses termos e funções.