|
Neste artigo pretende-se explorar
as relações de proximidade ou de afastamento que o campo
evangélico e o catolicismo mantêm entre si no contexto contemporâneo.
A análise compara a utilização do espaço da
cidade pelos fiéis da Renovação Carismática
Católica que buscam a Igreja do Loreto, localizada no bairro de
Jacarepaguá (RJ), àqueles que procuram a chamada ‘Catedral
Mundial da Fé’ da Igreja Universal do Reino de Deus, localizada
no subúrbio do Rio de Janeiro.
Nas últimas décadas,
como vários autores já vêm assinalando, o espaço
religioso vem se modificando no contexto das grandes cidades (Maggie
& Contins, 1980; Silva, 1996; Mariz
& Machado, 1998; Birman & Leite, 2000;
Contins, 2003; Contins
& Gomes, 2005). Uma das características desse processo é
o crescimento e a visibilidade alcançados pelas denominações
evangélicas pentecostais, em especial das chamadas neopentecostais,
além do aumento de igrejas católicas com características
carismáticas (Movimento de Renovação Carismática
Católica - MRCC). Ressalte-se que as mudanças não
se dão apenas externamente na relação que estabelecem
com e no espaço público, mas também internamente às
confissões religiosas envolvidas.
Enquanto as igrejas evangélicas
mais antigas já atuavam em locais onde havia predominância
da Igreja Católica e de terreiros de Candomblé e Umbanda
(como por exemplo, na Baixada Fluminense) e privilegiavam atividades religiosas
voltadas à congregação e à população
local, as igrejas neopentecostais apresentam características distintas.
Estas são igrejas basicamente voltadas para receber um grande público,
bem diferente das igrejas pentecostais mais tradicionais, como a Assembléia
de Deus .
Além de disporem de um público fixo, investem em uma ‘clientela’
difusa e móvel. Sua arquitetura também se distingue das construções
das pequenas igrejas de bairro. Uma das características importantes
está em sua localização, geralmente no entroncamento
de grandes avenidas, expostas aos permanentes deslocamentos da população.
A renovação carismática católica, apesar de
atuar na esfera da própria Igreja Católica, também
realiza missas e eventos voltados para um grande público. Esta característica
reflete-se na escolha do local que será utilizado para a realização
dos eventos e na própria relação que se estabelece
com o espaço da cidade.
Desde a obra de autores clássicos,
tais como Max Weber (1980) e Troeltsh
(1909; 1983), o paralelo entre o mundo católico e protestante em
suas relações com a modernidade tem sido um tema importante
na sociologia da religião, e continua recorrente nas discussões
atuais (Harding, 1987; Hudson,
1981; Leonard, 1981; Martin,
1990; Novaes, 1985; Rolim, 1985;
Saunders, 1993). Mudanças recentes nesses
universos religiosos, assim como suas adaptações a diferentes
contextos sociais e históricos sugerem que esse tipo de comparação
requer uma atualização constante. As relações
de identidade e diferença que o protestantismo e o catolicismo mantêm
entre si em contextos urbanos contemporâneos conformam o pano de
fundo da análise aqui empreendida. Neste sentido, ao focalizar o
que chamamos de “conexões urbanas”, são expostos os vínculos
de natureza total exercidos nas relações desses grupos, não
somente com outros grupos sociais e instituições no espaço
da cidade, mas igualmente, e não menos importante, seus vínculos
com a ordem cósmica, relações expressas por categorias
nativas de natureza mágico-religiosa.
Os grupos selecionados parecem convergir
ao considerarem como ponto fundamental no seu culto o papel da categoria
“espírito santo” enquanto mediador entre os homens e a esfera extramundana.
De certo modo, a “possessão pelo espírito santo” aparece
de maneira similar entre católicos carismáticos e evangélicos
pentecostais. As singularidades podem ser observadas especialmente nas
cosmologias e práticas nas quais estão inscritas. No caso
dos pentecostais e dos carismáticos católicos, o “espírito
santo” é incorporado pelo fiel e se manifesta através de
dons carismáticos, em especial o dom de “falar em línguas
estranhas”. A relação entre fiel e “espírito santo”
ocorre de forma individualizada e bastante próxima. Alguns autores
apontam a aproximação da Renovação Carismática
com o protestantismo, principalmente no que se refere ao tipo de adesão,
comprometimento institucional, que este prescreve aos seus membros: “só
pode ser identificado como protestante ou evangélico quem, além
de aceitar Jesus, tiver se batizado ou se afiliado a alguma igreja e tiver
compromisso com esta igreja” (Mariz e Machado,
1998, p. 28). O processo de adesão religiosa é marcado pelo
“novo nascimento” inscrito na concepção de reavivamento pelo
espírito santo e no relacionamento direto com este.
Max Weber
(1980) considera a importância e a relevância do ritual na
relação com as divindades como a principal diferença
entre cristãos católicos e protestantes. Protestantes rejeitam
a idéia de que existe um valor inerente às ações
rituais ou que é somente através dos sacramentos (como dizem
os católicos) que os homens entram em contato com o universo ultramundano
e recebem suas graças. A necessidade de um mediador entre esse universo
e os homens está fortemente presente no catolicismo popular, na
RCC e, paradoxalmente, entre os chamados neopentecostais. Apesar desta
dimensão individual, marcada pela interioridade e pela relação
direta entre o fiel e a divindade, é importante ressaltar que a
presença do “espírito santo” nas diferentes manifestações
dos dons espirituais e no batismo, só tem sentido na dimensão
espacial e temporal do culto. Cabe ressaltar que entre carismáticos
e pentecostais a conversão e a prática do proselitismo para
alcançar a salvação são indissociáveis.
Outro ponto convergente é
que tanto as diferentes reuniões realizadas na Catedral Mundial
da Fé como as missas de cura e libertação que têm
lugar na Igreja de Nossa Senhora do Loreto se caracterizam pela grande
participação de fiéis oriundos de diversas localidades
da cidade e de outras regiões. O propósito aqui será
explorar as funções sociais e simbólicas que essas
práticas exercem no processo de estabelecimento de conexões
sociais e simbólicas entre esses grupos religiosos e outros segmentos
sociais no espaço da cidade.
Paróquia do Loreto: tradição
e carisma em comunhão
No último século, ainda
na década de setenta, os padres jesuítas norte-americanos
Haroldo Rahm e Eduardo Dougherty introduzem a Renovação Carismática
Católica (RCC) no Brasil. Este movimento vem ganhando novos adeptos
entre os católicos tradicionais e mais espaço nos meios de
comunicação. A RCC vem promovendo megaeventos tais como shows,
missas em estádios de futebol e ginásios, apresentações
em programas de televisão e rádio, que representam um aspecto
significativo deste movimento. Um exemplo marcante desse investimento no
processo de modernização da evangelização é
a Comunidade de Vida no Espírito Canção Nova. Esta
comunidade, apesar de ter como foco o “desenvolvimento do interior sagrado
dos sujeitos”, utiliza alta tecnologia, investindo em muitos recursos midiáticos.
A Canção Nova conta com uma TV, com duas emissoras e 268
retransmissoras, uma rede de rádio e um portal na Internet (Martins,
2005, p. 2).
Os rituais da Renovação
Carismática Católica e de seus “grupos de oração”
se caracterizam pela presença de práticas como glossolalia,
profecia, visões, revelações, libertações,
curas etc. No “grupo de oração” da Igreja do Loreto no Rio
de Janeiro, todos esses “carismas” podem ser presenciados. No entanto,
o “dom da cura” é o mais enfatizado e procurado durante os encontros.
Os sacerdotes e lideranças leigas do grupo de oração
carismática focalizam principalmente a “capacidade de curar e de
receber a cura pelo Espírito Santo”. Segundo o ponto de vista das
mulheres que trabalham na equipe de serviço intitulada “Grupo de
Oração Jesus Ressurgiu”, a “cura de enfermidades” e “a libertação
de diversos problemas” ocupam um espaço determinante no universo
simbólico dos carismáticos. Vinte e três mulheres com
idade acima de 40 anos são responsáveis pela organização,
administração e reuniões semanais deste grupo. São
estas as que mais manifestam os “dons carismáticos”, em especial
curas e revelações (Macedo, 2004).
A Paróquia Nossa Senhora do
Loreto é um ponto de referência para a comunidade de Jacarepaguá,
mais especificamente para a área da Freguesia. Jacarepaguá
localiza-se na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro. Com localização
privilegiada, faz a ligação entre diversos subúrbios
e bairros e a região da Barra da Tijuca. A igreja está localizada
em uma região central da Freguesia, num ponto que conta com um amplo
suporte de meios de transportes, que ligam a Zona Oeste à Zona Norte
e ao centro da cidade do Rio
A igreja do Loreto, fundada em 6
de março de 1661, é um dos símbolos mais recorrentes
nas reproduções de imagens desta região. É
também considerada responsável pela autonomia do bairro.
Na primeira metade do século XVII, Jacarepaguá já
possuía uma população considerável, mas sua
administração estava ainda sob a responsabilidade da Freguesia
de Nossa Senhora da Apresentação, em Irajá. Seu território
era composto na época por propriedades particulares (fazendas) que
se dedicavam à agricultura e que estavam vinculadas à jurisdição
da freguesia de Irajá. A independência do bairro só
foi alcançada quando houve a fundação da Igreja de
Nossa Senhora do Loreto e Santo Antônio, pois foi a partir de então
que documentos como certidões de nascimento, óbitos, casamentos
e batizados começaram a ser feitos no local e não mais em
Irajá. Portanto, a construção da paróquia significou
um marco importante para a constituição da identidade bairro.
Boa parte do território que
compõe hoje o bairro de Jacarepaguá pertenceu no passado
aos familiares do fundador da cidade do Rio de Janeiro, Estácio
de Sá. Em 1634 o local que compreende atualmente a área da
Freguesia foi vendido pelo General Salvador Correia de Sá e desde
então inúmeros fazendeiros assumiram o controle dessas terras.
No ano de sua fundação, a pequena capela de Nossa Senhora
do Loreto foi construída em propriedade que pertencia ao Capitão
Rodrigo da Veiga; em 1664, o padre Manoel de Araújo construiu no
lugar desta, uma igreja bem maior, exatamente no lugar em que se ergue
a atual matriz .
Com o crescimento do bairro de Jacarepaguá,
a Igreja do Loreto também expandiu seus domínios. Pode-se
dizer que hoje a paróquia atende a uma grande população,
que não apenas freqüenta as missas como também participa
de atividades pastorais, movimentos e festas beneficentes e religiosas.
A Paróquia Nossa Senhora do Loreto é responsável por
nove capelas que se espalham em diversas áreas do mesmo bairro:
Capela de São Sebastião (Sertão - Anil); Nossa Senhora
Aparecida (Araticum); Nossa Senhora do Amparo (Anil); Nossa Senhora de
Belém (Freguesia); São José (Carmelo – Freguesia);
Santo Antônio (Freguesia); Santa Luzia (Gardênia Azul); Nossa
Senhora Mãe da Divina Providência e São João
Batista (Rio das Pedras) e São Pedro (Canal do Anil).
A comunidade religiosa católica
de Jacarepaguá foi crescendo, principalmente em áreas como
Freguesia, Anil e Rio das Pedras e, neste sentido, foi preciso que a igreja
expandisse seu espaço físico para atender a todos que a procuravam.
A partir do momento que a Ordem Barnabita assumiu a igreja, diversas alterações
e adaptações foram necessárias com o objetivo de melhor
assistir aos paroquianos. Na década de 80, o santuário (a
capela original do Loreto) não conseguia abrigar a enorme quantidade
de pessoas que vinham assistir às missas, principalmente as missas
de cura carismática. Nesta época, o então pároco,
padre Sebastião, providenciou a construção de um grande
ginásio de esportes, que além de servir como área
de recreação e lazer, serviria também para a celebração
das missas de sábado e domingo (os dois dias da semana em que as
missas eram mais freqüentadas). Esse ginásio ficou conhecido
pela comunidade como “Loretão” e atualmente, apesar de sua grande
arquibancada, já se tornou pequeno para a assembléia, pois
durante as missas dominicais é comum verificar uma grande quantidade
de pessoas em pé. Segundo um participante desta igreja:
Nas missas de domingo deve
haver umas 900 pessoas, porque uma vez eles fizeram a contagem, fizeram
papeizinhos com senhas e conforme você ia entrando as pessoas iam
distribuindo para ter um cálculo de mais ou menos quantas pessoas
tinha. Isso tem mais de dez anos. A missa da noite não era tão
freqüentada como ela é hoje em dia, porque sempre houve aquele
costume de assistir à missa de manhã. Então quando
surgiu a missa da noite, muita gente passou a ir de noite porque você
faz tudo o que puder de manhã e de noite vai à missa. Pronto,
cumpriu com sua obrigação dominical! Principalmente os mais
preguiçosos que não gostam de acordar cedo para ir a missa
de Domingo de manhã, por isso a missa das 19:00 horas é a
mais cheia.
Em 1999, a Igreja do Loreto ainda
possuía uma grande área ociosa em seu terreno, e não
tinha como aumentar suas instalações por falta de dinheiro
e também não podia vender a área desocupada porque
havia sido doada ao santuário. Neste mesmo ano recebeu proposta
de uma empresa de construir um shopping no local. Esta forneceria em troca
material e mão-de-obra para a edificação de um centro
de estudos para a igreja, em outra parte do terreno. Sobre este caso um
informante relata:
Foi mais ou menos uma troca
de favores. Porque aquela área ali é uma área de doação
da igreja, aquilo ali foi doado à igreja em épocas imemoriais
e se foi doada não pode ser vendida. Então eles fizeram um
trato com os construtores do shopping que eles cederiam o terreno
para o shopping, pelo menos foi assim relatado pelo Padre Sebastião,
na época na frente de todas as pessoas que estavam na missa. Até
porque o terreno era um matagal que não servia para nada e em troca
disso a firma encarregada de construir o shopping construiria o
centro paroquial, que é o CEPAR, para o Loreto em um terreno que
também estava ali praticamente à toa, tinha apenas um salão
paroquial e um estacionamento de barro. Então, em troca eles fariam
isso: deixamos vocês construir no nosso terreno, mas vocês
também vão construir isso aqui para gente.
Em 2000 foi inaugurado o CEPAR (Centro
de Estudos Paroquiais Nossa Senhora do Loreto) que é um grande prédio
composto de salas de aula, teatros, salas de vídeo, auditórios,
salão de festas e uma capela. A inauguração do centro
facilitou a organização das atividades promovidas pela igreja.
Grupos como ECC (Encontro de Casais com Cristo), EAC (Encontro de Adolescentes
com Cristo), Fé e Dons, reuniões de pastorais e palestras
passaram a utilizar esse espaço.
Reúnem-se na igreja dois grupos
de oração da Renovação Carismática.
O primeiro existe há 28 anos, desde 1975, e chama-se “Grupo de Oração
Nossa Sra. do Loreto”. Este se reúne todas as segundas-feiras à
noite. O segundo grupo existe há 25 anos e é chamado de “Grupo
de Oração Jesus Ressurgiu”, com reuniões às
segundas-feiras, à tarde. Este último nasceu em 1978 por
iniciativa de uma senhora, que foi a primeira coordenadora do grupo e atualmente
é membro da equipe de serviço. O padre da paróquia
apenas celebrava as missas uma vez por mês e participava das reuniões
com a equipe de serviço deste grupo de oração, que
ocorria a cada 15 dias. Atualmente, o grupo está estruturado de
forma diferente: possui 23 mulheres trabalhando na equipe de serviço,
além de uma banda de música que acompanha as reuniões
e missas.
Uma das características fundamentais
dos grupos de oração, tanto o grupo da noite quanto o da
tarde, é a importância que os leigos assumem em sua administração.
Embora exista um controle exercido por parte dos sacerdotes sobre as atividades,
a organização e a condução das reuniões
ficam sob o encargo da equipe de serviço. A escolha do tema a ser
trabalhado, as leituras e, até mesmo, as orações que
serão realizadas ficam sob sua responsabilidade. Além disso,
é a equipe, através dos chamados “dons espirituais”, que
lidera as etapas das reuniões e estimula os fiéis a se manifestarem,
seja dando testemunhos, fazendo orações ou desenvolvendo
seus carismas. O poder de discurso e de convencimento exercido pelos leigos
no grupo de oração é constitutivo do Movimento de
Renovação Carismática.
As reuniões do Grupo de Oração
Jesus Ressurgiu acontecem todas as segundas-feiras no espaço do
Santuário Nossa Sra. do Loreto a partir das 14:00 horas e seu encerramento
se dá por volta das 16:30. A quantidade de pessoas que freqüentam
as reuniões é variável; no entanto, a média
de participantes fica em torno de 70 pessoas em cada encontro. No primeiro
momento as mulheres da equipe de serviço se dividem entre as funções
de recepcionar os fiéis e o entretenimento dos que chegam, entoando
de cantos e discursos de boas vindas. As “Missas de Cura e Libertação”
promovidas uma vez por mês atraem uma multidão de fiéis
que vem tocar no “Santíssimo”. São fiéis que se deslocam
do seu bairro de residência, nas adjacências da cidade e de
outras cidades da região metropolitana do Rio de Janeiro, principalmente
da Baixada Fluminense, em busca da cura e da libertação de
doenças e problemas diversos.
É possível perceber
que a faixa econômica do público que freqüenta a igreja
nessas ocasiões é bem diversificada. Participam das missas
de cura pessoas de camadas sociais situadas nos níveis mais inferiores,
e de camadas socialmente mais altas da população. No entanto,
há que se assinalar uma característica distintiva com relação
à participação de moradores de áreas menos
favorecidas, tais como Rio das Pedras e Anil: eles preferem trabalhar em
atividades dentro das capelas/comunidades mais próximas ao local
onde moram, privilegiando as pastorais.
A celebração segue
todos os ritos e etapas de uma missa comum. A diferença se concentra
na exposição do “santíssimo” perante a assembléia
após o sacramento da comunhão. Durante a missa de cura, as
pessoas são incentivadas a manifestarem os carismas de línguas,
profecia e revelação. Quem celebra a missa é o pároco
da igreja e o diretor espiritual do grupo. As mulheres da equipe de serviço
se dividem em diversas funções. Algumas são ministras
da eucaristia e assistem o padre exercendo o papel de coroinha. Outras
ajudam a “animar as pessoas” e a organizar a celebração durante
o ofertório ou na passagem do “santíssimo”.
Após a homilia, a missa segue
a seqüência habitual. Após a distribuição
da eucaristia, o padre coloca uma hóstia consagrada dentro do ostensório
(mais conhecido pelos católicos como “santíssimo”). Em seguida,
o santíssimo (que deve ter em volta de 60 centímetros e é
banhado a ouro) é passado a cada uma das pessoas presentes. Os fiéis
ficam durante alguns segundos tocando, beijando ou aproximando-o na direção
de suas frontes. Os carismáticos acreditam que o santíssimo
possui o “poder de curar e libertar de todo o mal”.
Concomitantemente, as pessoas levantam
fotos de familiares, carteiras de trabalho e carteiras de identidade. As
mulheres da equipe de serviço que possuem os dons de profecia e
revelação enumeram uma série de curas e libertações
que estão sendo realizadas a partir do toque no santíssimo.
Praticamente todos tocam no santíssimo neste ritual que se estende
por cerca de três horas. Em seguida, o padre comanda os ritos finais
da missa e termina a celebração com a canção
da família.
A comunidade da Paróquia do
Loreto, que inicialmente realizava apenas a missa católica tradicional,
foi aos poucos aderindo ao movimento carismático. Durante as missas
dominicais tradicionais que ocorrem nesta igreja, também se percebe
a influência da RCC na organização e realização
dos rituais. As atividades específicas desenvolvidas pelos carismáticos,
contrastantes quanto ao formato assumido pelo catolicismo tradicional,
trazem em seu nível discursivo uma reapropriação de
categorias como “espírito santo”, “carismas”, “cura” e “eucaristia”,
num processo de re-encantamento do mundo.
As reuniões carismáticas atuais ficam repletas de fiéis,
dobrando o número inicial de participantes. As chamadas “missas
de cura e libertação” recebem um grupo substantivo de moradores
de Jacarepaguá e também de outros bairros da cidade, além
daqueles provenientes da Baixada Fluminense. Geralmente os grupos de carismáticos
vindos de outros bairros da cidade do Rio de Janeiro e de outras regiões,
se deslocam em ônibus fretados especialmente para as missas de cura.
O mesmo ocorre com a Catedral Mundial
da Fé da IURD: caravanas de diversas regiões do estado do
Rio de Janeiro, de outros estados e mesmo do exterior, buscam esse local
por diferentes motivações, como veremos adiante.
A “Catedral Mundial da Fé”:
um “lugar de poder mais forte”
Desde a fundação
da Igreja Universal ,
em 1977, seus templos têm como característica principal o
diálogo com a cidade. A Igreja sempre utilizou locais que pudessem
comportar não só uma grande quantidade de pessoas, mas que
também possibilitassem a sua movimentação durante
a realização dos cultos.
No inicio de suas atividades, Edir
Macedo, fundador da IURD, pregava em uma praça, no “coreto do Jardim
do Méier”, localizada no Méier, subúrbio do Rio de
Janeiro. Essas reuniões ao ar livre chamavam-se “Cruzada do Caminho
Eterno”. Ainda em 1977, a igreja fez seu percurso por subúrbios
da cidade do Rio de Janeiro, na busca de um lugar próprio para a
realização das reuniões, mas não abandonando
a pregação em lugares públicos. Primeiramente foi
alugado o cinema Bruni, localizado no Méier; depois se transferiram
para outro cinema na Piedade. Foram depois para um galpão
localizado na Avenida Suburbana, que havia sido antes uma funerária.
Foi nesse local que nasceu oficialmente uma nova igreja, sob o nome de
Igreja da Benção, em 9 de julho de 1977. A história
oficial da IURD mostra que esse local tornou-se pequeno para o número
de membros que se multiplicava (Gomes, 2004).
A partir do final da década
de 1980 e início dos anos 1990, a IURD ficou conhecida pelas grandes
concentrações de fieis em estádios de futebol por
todo o país. Considerada como igreja essencialmente urbana
preconizou a prática de se instalar em cinemas, teatros, galpões
ou mesmo supermercados.
A discussão sobre a instalação de igrejas neopentecostais,
principalmente a Igreja Universal do Reino de Deus, em espaços da
cidade destinados a outros fins que não os “religiosos”, gerou interesse
da imprensa sobre esse tipo de intervenção na paisagem
urbana.
Somente entre janeiro e fevereiro do ano de 1997, por exemplo, o jornal
“O Globo” publicou duas notícias sobre a aquisição
de cinemas por esta igreja. Na edição do dia 23 de janeiro
de 1997 temos a seguinte notícia: “Imperator na Mira da Igreja Universal”.
No primeiro caderno do mesmo jornal, de 14 de fevereiro de 1997, temos
a seguinte notícia:
Cinema de Teresópolis,
o Alvorada – fundado há trinta e quatro anos – vai fechar as portas
em março. Vendido ao insaciável bispo Edir Macedo, terá
as duas salas de projeção transformadas em templos da Igreja
Universal do Reino de Deus. (O Globo, 1997, p.2)
Nesse contexto havia um debate entre
o que seria “espaço de culto religioso” e “espaço de cultura”.
A ocupação de cinemas e teatros foi vista por parte da imprensa
carioca como uma espécie de agressão e usurpação
da “cultura” de um povo que supostamente já teria “pouca cultura”.
Existem pelo menos dois aspectos articulados nesta visão: o material
e o imaterial. O primeiro destaca a questão da ocupação
física e do espaço da cidade; e o segundo enfatiza a intervenção
na memória e na tradição da cidade. Era uma oposição
entre o que deveria ser permanente e o que se caracterizava, segunda essa
perspectiva, como fluido e transitório. Nesse sentido, a IURD atuava
como a antagonista, uma seita destituída de “autênticas” motivações
religiosas, sem raiz, sem história, e que atribui a esses espaços
uma função vinculada ao “mercado da fé”.
O conflito entre parte da sociedade
carioca e a Igreja Universal se estabelece nesse contexto, uma vez que
a prática do aluguel de imóveis representou, em grande parte,
a forma de instalação dos templos da IURD até meados
da década de noventa. Instalar seus templos em locais amplos e centrais
é uma prática incorporada à forma como ela se estrutura
e se pensa como igreja, como se nota também no caso de suas “catedrais”
construídas a partir de 1997. Esse tipo de vínculo com os
“lugares” permite interpretações calcadas na noção
de transitoriedade e fluidez .
Esse debate é importante para pensarmos sobre o processo de construção
da sua Sede mundial e a importância que esta assume para o local,
para a cidade e para o dia-a-dia das pessoas que vivem nos subúrbios
do Rio de Janeiro.
As catedrais representam um marco
para a IURD, um símbolo de consolidação do seu processo
institucional. A partir da construção dessas catedrais a
IURD busca responder às diversas “acusações” e “perseguições”
dirigidas à igreja. Elas aparecem imediatamente após um período
tenso e conflituoso - final da década de oitenta e a primeira metade
dos anos noventa - entre a IURD e diferentes interlocutores. As catedrais
representam para a IURD a iniciativa de construir seus locais de culto
impondo uma concepção própria e singular de arquitetura,
mantendo as principais características que a acompanham desde a
fundação: ocupar locais centrais, de fácil acesso,
em avenidas, ruas principais e praças. Ela segue mantendo a padronização,
mas em um formato diferente, identificando-se ao estilo que chamam “ecletismo
com referência ao neoclássico” .
As categorias “catedral” e “monumento”
aparecem quase que como sinônimos nos diversos artigos publicados
pela imprensa da IURD. Os entrevistados mostram que compartilham da mesma
visão, destacando traços como beleza, grandiosidade, conforto,
lugar de paz e, ressalte-se, cercadas por um grande poder. As catedrais
também aparecem como lugares onde todos os membros podem entrar,
do qual podem partilhar e se orgulhar.
Todos os seus templos estão
posicionados de maneira a encontrarem-se sempre presentes e facilmente
identificáveis na paisagem urbana. Mais que uma estratégia
na disputa por fiéis, em um quadro de pluralidade e mercado religioso,
esse tipo de relação com a cidade é parte fundamental
do que ela pretende ser. A utilização de cinemas, galpões,
teatros não constitui uma tática formulada essencialmente
para causar um impacto e tampouco um componente secundário de suas
práticas. Ao contrário, é um componente estruturante.
A IURD formula suas práticas seguindo o princípio de que
tem que colocar “a fé em ação” e levar a “Palavra”
para todos, utilizando-se dos diversos instrumentos, incluindo as edificações.
A localização de seus templos em áreas centrais e
de passagem, sejam pequenas igrejas ou catedrais, permite a implementação
deste princípio.
A Catedral Mundial da Fé,
também conhecida como “Sede Mundial” e hoje como Templo Maior, começou
a ser construída em outubro de 1997 e está localizada na
antiga Avenida Suburbana, hoje Av. Dom Hélder Câmara, número
4.242, em Del Castilho, subúrbio do Rio de Janeiro. Retomando o
percurso inicial da história da IURD vemos, também, que a
escolha de um subúrbio do Rio de Janeiro para receber a “Sede Mundial”
está vinculada às suas origens institucionais. O terreno
havia sido comprado pela igreja entre 1989 e 1990. Esse local já
era utilizado para os grandes eventos ou as grandes concentrações
organizados pela igreja desde 1992.
O propósito simbólico
que informa sua arquitetura é a de “levar o pensamento a Israel”.
Como o próprio bispo Macedo afirmou, ela é uma forma de deixar
a “Terra Santa” mais perto dos fiéis. O deslocamento de fiéis
para a Terra Santa, através de caravanas, é uma prática
constante da IURD desde o início de suas atividades. Em 1980, três
anos após a fundação da IURD, consta que o bispo Macedo
foi pela primeira vez a Jerusalém. Delineia-se assim um caminho
inverso: ao invés de levar seus membros a Jerusalém, reproduzem-se
alguns elementos da “Terra Santa” na construção da Sede mundial,
fazendo convergir para ela a demanda de fiéis. A concepção
da Sede mundial elabora uma experiência com o sagrado por meio da
arquitetura. No caso da IURD, mesmo aqueles membros que realizam a peregrinação
a Israel, participando das caravanas organizadas pela igreja, buscam imaginar
e visualizar o “Israel do tempo de Jesus”.
Segundo a IURD, construir catedrais “é uma necessidade”. O mesmo
raciocínio é empregado quando falam sobre a “Terra Santa”.
A impossibilidade da experiência direta com a “Terra Santa” pela
maioria de seus membros, não é um impedimento para que essa
“necessidade” seja concretizada através de objetos que ativam e
promovem o contato com este “lugar sagrado”, sejam eles utilizados em práticas
rituais, sejam nas referências materializadas na Sede mundial.
A catedral é enorme,
cabem mais de vinte mil pessoas! Ali é diferente. É como
se um time de futebol do Flamengo fosse jogar no Olaria e depois fosse
jogar no Maracanã. É muito diferente. (...) Quanto mais o
tempo vai passando, a igreja vai mudando as coisas. O tamanho chama atenção.
Tem que sofisticar, sem ficar aquela mesmice (...) Porque é uma
igreja, a gente tem que dar valor, não é qualquer coisa.
É um lugar santo, tem que manter bonita, bem tratada. (Alex, há
15 anos na igreja)
É desta forma que a IURD imprime
o aspecto simbólico do contato com a “Terra Santa” em sua concepção
religiosa. Neste sentido, a autenticidade da construção está
na idéia de “trazer Israel” para perto de seus membros. Redefine-se
a experiência espacial com o sagrado. A elaboração
arquitetônica dessa sede tem como objetivo a demonstração
material de sua consolidação como igreja e do seu vínculo
com a Terra Santa. As referências a Israel e ao texto bíblico,
inscritas no material utilizado na construção – pedras trazidas
de Jerusalém, trechos da Bíblia colocados nas paredes dos
pátios e nas entradas e, especialmente, a “Maquete da Jerusalém
Antiga” - indicam a busca por uma confirmação de sua autenticidade
religiosa. A Terra Santa atua como mediador simbólico não
só no que tange ao edifício da sede, mas também em
diferentes momentos e rituais elaborados pela igreja.
A sede mundial, além de dispor
de um ambiente confortável, previsto em sua concepção
arquitetônica, está localizada em uma área de trânsito
intenso, que conta com uma boa estrutura de meios de transporte urbano,
como várias linhas de ônibus, táxis e transporte alternativo
(Vans e Kombis), regularizados ou não. Dentre estas possibilidades
de acesso à sede, destaque-se o transporte metroviário, com
as estações de Del Castilho e Maria da Graça. Este
último tipo de transporte faz a ligação entre a Zona
Sul e a Zona Norte do Rio de Janeiro, cruzando o centro da cidade. Com
a ampliação da linha dois do metrô, é possível
ainda o acesso à Baixada Fluminense, Município de São
João de Meriti, pela última estação da Pavuna.
A Sede mundial constitui-se como
um espaço projetado para receber, local de convergência de
membros e não membros .
Foi concebida para receber membros e visitantes de todos os lugares, possuindo
amplas instalações que permitem a convivência e lazer.
Houve até mesmo um Projeto de Lei tramitando na Assembléia
Legislativa do Rio de Janeiro, que propôs a inclusão da Catedral
Mundial da Fé no roteiro turístico da cidade .
Trata-se de um local de encontro e sociabilidade. É um espaço
onde, além de cumprir obrigações religiosas, poderão
realizar atividades de lazer, ressalvando que grande parte dos membros
não dispõe de acesso fácil a locais de lazer. Uma
entrevistada, moradora da Baixada Fluminense, afirmou sentir-se segura
na sede mundial, uma vez que seus filhos podiam passear nos fins de semana,
usufruindo a comodidade de suas instalações, com restaurantes,
livrarias, a “Maquete de Jerusalém” e espaços para a sociabilidade
e interação com outras pessoas, membros da igreja ou não.
Uma outra entrevistada, uma senhora católica, moradora da Baixada,
trouxe-nos a mesma interpretação, disse-nos que já
tinha ido visitá-la e voltaria outras vezes.
Comodidade, segurança, limpeza,
entretenimento e cumprimento da fé são as principais características
mencionadas tanto pela liderança quanto pelos membros e visitantes
da sede. A sede mundial não é somente palco de acontecimentos
religiosos. No aspecto da construção de uma “memória”
no espaço (Halbwachs, 1990; Nora,
1993), atua como o principal suporte da materialização do
“projeto de igreja” da IURD. Ela foi concebida e edificada para expressar
uma identidade distinta e fortalecida.
No setor leste do pátio, onde
fica a cúpula da entrada auxiliar, encontra-se uma lanchonete, do
tipo fast food (Bob´s), que conta com um bom espaço onde as
pessoas podem ficar. É constante a presença de famílias,
especialmente aos domingos, que depois das “reuniões” fazem um lanche
e conversam por algum tempo nas mesas dispostas na área à
frente da lanchonete. Formam-se longas filas. A livraria também
recebe visitantes que pretendem adquirir livros, CDs, lembranças,
entre outros produtos.

A vida das pessoas que não
são da igreja também foi atingida com a instalação
da catedral. O exemplo está nos olhares de admiração
e desconfiança que a população em geral projeta sobre
a construção, sugerindo interpretações sobre
sua estética: é vista como bonita ou como kitsch.
A imagem negativa em relação à igreja, principalmente
quando associada às práticas de arrecadação
de dinheiro em suas atividades religiosas, permanece como foco de tensão.
Para os membros da IURD a sede mundial é um espaço que acolhe
e que os faz “sentir-se bem” e “tem um poder muito forte”. Além
de ressaltarem esse aspecto, associam a construção da catedral
a uma etapa de maturidade da igreja.
A catedral é um templo.
É o tudo ali. Eu me sinto bem ali, eu acho que é uma coisa
mais forte. Porque ali tá o povo unido ali, na mesma ordem e fé.
Então, eu entrando na sede, eu sinto uma coisa, da gente pisar ali
e sentir, assim, um poder muito grande. (Carlos, há 15 anos da igreja)
A catedral é a Sede
Mundial, onde a Palavra é de um bispo que tem mais experiência,
para você amadurecer mais. A palavra é mais madura”. (Alex,
há 15 anos na igreja)
“Muita gente tem saído
daqui de São Gonçalo para ir se batizar na Catedral de Del
Castilho. Eles acham que é mais forte, que lá tem mais validade
ainda. Vários colegas fizeram isso, eu mesmo fui para assistir.
Mas acho besteira, o importante é aceitar Jesus”. (Ana, há
10 anos na igreja)
Nesse sentido, o que motiva o percurso
dos fiéis pela cidade é a busca por uma “palavra mais madura”.
O local e a palavra “mais fortes” se complementam para tornar a experiência
religiosa mais autêntica (Gomes, 2004).
Os próprios rituais realizados na catedral são considerados
“mais verdadeiros” e confiáveis pelos fiéis. Assim,
a realização do batismo nas águas pode ocorrer em
uma piscina de plástico, rio, quintal ou em igrejas locais. No entanto,
a sede mundial e as demais catedrais regionais aparecem no imaginário
do fiel como locais que concentram um “poder mais forte”.
O mesmo pode ser dito sobre a intensa
procura pela Igreja do Loreto. Por seu intermédio, as pessoas estabelecem
conexões sociais e simbólicas nos percursos que realizam
pela cidade. Neste contexto, o exercício da experiência religiosa
na cidade está associado ao “poder” que emana de certos lugares.
Considerações Finais
A relação com o espaço
da cidade tem repercussões no processo de construção
da subjetividade, como diversos autores já assinalaram, notadamente
Georg Simmel (1971; 1987) e toda a tradição
de estudos da chamada antropologia urbana (Velho,
1980; 1994). O espaço da cidade não somente permite como
suscita um trânsito e trocas intensas entre de fiéis de diferentes
confissões. O fluxo entre fronteiras religiosas permite novas representações
em termos de categorias espaciais e sociais. No espaço da
cidade desenha-se um contexto de pluralidade em que a prática religiosa
tem sido mais transitiva e a procura por novas experiências ultrapassam
seus espaços originais.
Os evangélicos pentecostais
e os carismáticos católicos realizam seus eventos em grandes
espaços, como é o caso dos estádios e catedrais da
Igreja Universal, e mesmo espaços públicos como a Praça
XV (utilizada pela Igreja “Deus é Amor”, em 2004); o Aterro do Flamengo
(local escolhido por diferentes denominações para a realização
de eventos religiosos, incluindo a Igreja Católica, a IURD, Igreja
Internacional da Graça; entre outras). O fato de serem realizados
no espaço da grande cidade vem sendo considerado como um dado relevante
para a compreensão de práticas e significados que a experiência
religiosa assume na contemporaneidade, na medida em que lhe impõe
características fundamentais.
De acordo com Magnani,
os atores sociais possuem múltiplos vínculos e elaboram diferentes
e criativos arranjos coletivos nos diferentes usos da cidade. Esse uso
do espaço da cidade não é errático e apresenta
padrões. Os ‘fiéis’ atravessam a cidade, segundo os fiéis
da IURD, em busca de “um lugar de poder mais forte”, seja nas catedrais
da IURD, seja nas igrejas católicas freqüentadas por carismáticos
católicos. Na maioria das vezes, o percurso não é
solitário e tampouco anônimo. Os fiéis organizam grupos,
em caravanas, em suas respectivas congregações locais e partem
juntos. Outras vezes, formam-se grupos de parentes, amigos ou conhecidos.
Um levando o outro, em uma espécie de “efeito dominó” (cf.
Natividade 2005) com o propósito de, individual
e coletivamente, ter uma experiência com o sagrado. Partem de um
lugar pré-estabelecido em direção ao “lugar de poder
mais forte” (Gomes 2004). Nos dois casos apresentados,
os fiéis sabem para onde estão se deslocando. Possuem vínculos,
sejam religiosos, familiares ou de amizade. Em última análise,
não andam como “errantes” pelas ruas da cidade, nem a contemplam
sem interesse. Possuem objetivos e vínculos concretos. Este é
um ponto fundamental para se perceber a diversidade e a multiplicidade
dos usos religiosos do espaço da grande cidade moderna. Ao mesmo
tempo, a cidade recebe novas interpretações daqueles que
a percorrem. Tomam conhecimento de espaços que antes não
conheciam e estes são redefinidos como parte de seu percurso religioso
e não apenas espaços impessoais de comércio e de serviços.
Pode-se dizer que os dois contextos
descritos - a Igreja do Loreto, em Jacarepaguá e a Catedral da Igreja
Universal, em Del Castilho - mantêm uma relação orgânica
com a cidade do Rio de Janeiro. De modos distintos, as duas igrejas estão
situadas em locais privilegiados. A Paróquia do Loreto, situada
em lugar alto e de fácil localização, concentra um
número extenso de atividades tanto religiosas quanto sociais.
A Catedral da Fé da Igreja Universal do Reino de Deus é acessível
a pessoas de diversos subúrbios, bairros ou municípios do
Rio de Janeiro. Além das atividades propriamente religiosas e sociais,
esta sede recebe um número igualmente extenso de pessoas que querem
apenas “visitar” a catedral. Ambas recebem um grande número de fiéis
e também de integrantes de outras denominações religiosas.
Nas “missas de cura” carismática, assim como nas “reuniões
de cura e libertação” da IURD, a crença na presença
do “espírito santo” é fundamental. Podemos dizer que de alguma
forma o espírito santo faz a passagem entre os seres humanos e o
universo extramundano, mas também possibilita a relação
entre um local religioso e outro.
As tradições religiosas
católica e pentecostal, respectivamente associadas a essas igrejas,
são fundamentais na própria história da formação
de cada uma das igrejas em seus contextos locais. A Paróquia do
Loreto, fundada no século XVII, teve um papel essencial no crescimento
do bairro de Jacarepaguá. Podemos dizer que o bairro foi criado
ao redor dessa paróquia. Cresceu e se desenvolveu a partir desse
centro. Este começou com a Paróquia do Loreto. Já
a Catedral Mundial da Fé, evidentemente, não se formou junto
com o bairro e sua localização foi escolhida porque apresentava
todas as características (local privilegiado e de fácil acesso)
apropriadas para ser a sede/centro dessa instituição religiosa.
Nesse caso, a Igreja Universal caracteriza-se por estar relacionada a uma
cidade que apresenta uma extensa e complexa rede de relações,
onde muitos outros grupos religiosos estão em constante movimento
de contato e trocas. No caso da Paróquia do Loreto, verifica-se
que ela cresceu praticamente sozinha, poucos grupos religiosos convivendo
na mesma região. No entanto, o seu crescimento atual se deve à
presença do movimento carismático em seu interior, no qual
interagem distintas vertentes do catolicismo. A utilização
do espaço da cidade pelas diferentes religiões proporciona
novas formas de percepção sobre o fenômeno religioso,
redefinindo as diversas formas de utilizar o espaço da cidade por
meio da experiência religiosa.
Universidade
Estadual do Rio de Janeiro - UERJ
Centro
de Estudos da Metrópole de Centro de Estudos Brasileiros de Análise
e Planejamento - CEM/CEBRAP
Notas
Desde o final da década de 1980, observa-se um movimento de mudança
dentro da própria Assembléia de Deus que se reflete no espaço
de culto. Atualmente, há investimento desta denominação
no sentido de criar espaços que possam receber maior quantidade
de pessoas, inclusive adotando estilo semelhante àquele das catedrais
iurdianas, como é o caso encontrado em Barra do Piraí, estado
do Rio de Janeiro.
A pesquisa realizada nesta igreja faz parte de um projeto desenvolvido
por Marcia Contins que teve a colaboração das alunas e bolsistas
de Iniciação Científica/PIBIC UERJ, CNPq e Faperj:
Luciana Macedo, Mariana Meireles, Clarissa Bastos de Oliveira e Renata
Maynard.
O Padre Manoel de Araújo também foi o responsável
pela fundação da “Igreja Nossa Senhora da Pena”, que está
localizada em um morro acima da “Paróquia do Loreto” ou “Loreto”
como é chamada pelas pessoas que a freqüentam. As duas igrejas
são tradicionais na região e possuem histórias que
de certa forma são significativas para o bairro. Anteriormente à
Capela Nossa Senhora da Pena havia no local uma ermida em homenagem à
santa, que é padroeira dos intelectuais e artistas.
Reconhecemos a importância da discussão sobre secularização
e dessecularização para a compreensão do fenômeno
religioso, no entanto para o momento não vamos investir nesse debate.
(Ver Weber, 1980; Berger, 1973, 2001; Mariz, 2001)
A IURD foi fundada em 09/07/1977 pelo então pastor Macedo e RR Soares
(fundador da Igreja Internacional da Graça). Na década de
1980 não aparecia no Censo do IBGE. Já no Censo de 1991,
contava com 269 000 fiéis. Hoje os dados do Censo 2000, com as atualizações
de 2002, sinalizam que ela possui 2,1 milhões de fiéis, cerca
de 12% dos evangélicos pentecostais, com crescimento anual de 25,7%,
ocupando o terceiro lugar neste grupo. A Assembléia de Deus vem
em primeiro com 8,4 milhões de fiéis, e a Congregação
Cristã, em seguida, com 2,5 milhões de fiéis. Entre
as igrejas protestantes em geral, incluindo evangélicos pentecostais
e evangélicos de missão, a IURD ocupa o quarto lugar em número
de membros. (Jacob, 2003).
O material relativo à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) foi
produzido pela pesquisa de doutorado desenvolvida por Edlaine de Campos
Gomes, com orientação de Marcia Contins.
Assim como todas as igrejas denominadas como neopentecostais. Freston (1994,
p. 132-133) aponta que a “terceira onda” do pentecostalismo no Brasil caracterizou-se
pela fundação de igrejas no Rio de Janeiro, “sobretudo por
igrejas cariocas fundadas por pessoas citadinas de nível cultural
um pouco mais elevado e pele mais clara. Iniciando-se no contexto de um
Rio de Janeiro marcado pela decadência econômica, pelo populismo
político e pela máfia do jogo, o novo pentecostalismo se
adapta facilmente à cultura urbana, influenciada pela televisão
e pela ética yuppie”.
Os dados do Censo 2000 (IBGE) mostraram que a maior parte dos 2,1 milhões
de “adeptos” da IURD no Brasil está nas capitais dos estados, principalmente
no Rio de Janeiro, com 350.000 pessoas, e São Paulo, com 240.000
pessoas. Apontam que é somente nessas cidades que há essa
presença acentuada de adeptos, refletindo uma grande dispersão
geográfica, mas com implantação nacional. (ATLAS da
Filiação Religiosa e Indicadores Sociais do Brasil, 2003,
p. 42-43).
Em pesquisa realizada por Edlaine Campos Gomes (1998), discutiu-se a ocupação
de cinemas e teatros, principalmente em lugares centrais dos diversos municípios
da Baixada, fato que também pôde ser observado nas demais
regiões nas quais esta igreja vem se instalando, bem como a constante
mudança de endereço das igrejas. A autora observa que era
até mesmo difícil acompanhar esse ritmo, não só
quanto a IURD, mas quanto a outras pequenas igrejas pentecostais que se
multiplicavam na Baixada, naquele período. Um dia, estavam num endereço;
no outro, podiam não estar mais, ficando difícil, até
mesmo para as prefeituras da região pesquisada, realizarem um levantamento
preciso sobre a quantidade de templos religiosos nos municípios.
É importante lembrar que essa característica não pode
ser utilizada sem um certo cuidado, em relação a todas as
igrejas pentecostais, e nem mesmo no caso da própria IURD.
Por exemplo, a mudança de local não é uma característica
de suas sedes regionais. Pode-se observar que a sede regional do Rio de
Janeiro, na Abolição, por exemplo, permanece no mesmo local
desde que foi instalada como igreja, para posteriormente tornar-se “Catedral
da Fé”.
O ano de 1995 é considerado o ápice dessa crise, com acontecimentos
como: o “Chute na Santa”, processos judiciais, uma série de vídeos
denúncia, a minissérie da Rede Globo “Decadência”,
entre outros. Após 1995, a IURD inicia uma série de projetos
que atuam como uma espécie de demonstração de sua
potência; assim como passa a orientar seu discurso no sentido de
que “não basta estar envolvido, tem que ter compromisso”. Para a
discussão da escolha do estilo arquitetônico adotado para
as catedrais da IURD ver em Gomes, 2004.
Esta característica não é específica da IURD;
ao analisar as peregrinações de evangélicos à
“Terra Santa”, Bloomfield (1997) observou que o que eles buscavam não
era o Israel do presente, mas aquele que é descrito na Bíblia
Gomes (2004) aponta quatro tipos ideais de “membros”, aos quais a IURD
se refere: Tipo 1 - Os membros convertidos, “os servos de Deus”, o “obreiro”:
aqueles que passaram pelo “batismo nas águas” e “no Espírito
Santo”, assumindo a identidade iurdiana; Tipo 2 - Os membros em processo
de conversão: aqueles que participam do cotidiano da igreja, já
foram batizados nas águas, mas não “no Espírito Santo”,
no entanto, continuam buscando essa “graça”; Tipo 3 - Os membros
esporádicos: aqueles não batizados nas “águas” e nem
no “Espírito Santo”, caracterizados pela busca de uma bênção
imediata, ou mesmo pela curiosidade em conhecer a igreja; Tipo 4 -
Os membros em potencial: que são todos os que devem ser levados
a conhecer a “Palavra”. Todas as pessoas, indiscriminadamente, são
consideradas como membros em potencial.
Referências Bibliográficas
BERGER,
Peter. A dessecularização do mundo: uma visão global.
Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, Iser,.n.. 1,
vol 21, p. 9-24, 2001
BERGER,
Peter. Um Rumor de Anjos. A sociedade moderna e a redescoberta do
sobrenatural. Petrópolis: Editora Vozes, 1973.
BIRMAN, Patrícia
e LEITE, Márcia. O que aconteceu com o antigo maior país
católico do mundo”, in: BETHELL, Leslie (org.). Brasil,
fardo do passado, promessa do futuro. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2002, p. 323-348.
BLOOMFIELD,
Sonia. Israelis and Jews as perceived by neo-evangelicals in Brazil. In:
WORLD CONGRESS OF JEWISH STUDIES, 12., 1997, Jerusalem. Proceedings....
Jerusalém, [s.n.], 1997.
BOECHAT, Ricardo.
Coluna Swann. O Globo, 14 fev. 1997., C1
CONTINS,
Marcia. Espaço, Religião e Etnicidade: um estudo comparativo
sobre as representações do Espírito Santo no catolicismo
popular e o pentecostalismo. In: BIRMAN, Patrícia. Religião
e Espaço Público. São Paulo: Attar Editorial,
2003, p. 221-234.
CONTINS,
Marcia; Gomes, Edlaine de Campos. Religião, Subjetividade e Cidade:
usos contemporâneos do discurso religioso católico e protestante’.
In REUNIÓN DE ANTROPOLOGÍA DEL MERCOSUR, VI,
2005, Montevideo/Uruguai. Anais... Universidad de la República,
2005.
FRESTON,
Paul. Breve história do pentecostalismo brasileiro. ANTONIAZZI,
Alberto et al.
Nem anjos nem demônios: interpretações
sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes,
1994, p. 67-162.
GOMES, Edlaine
C. A Era das catedrais da IURD: a autenticidade em exibição.
(Tese de Doutorado em Ciências Sociais) PPCIS/UERJ, Rio de Janeiro,
2004.
GOMES, Edlaine
C. O Movimento do Espírito: diversidade e unidade do pentecostalismo
na Baixada Fluminense. (Dissertação de Mestrado em
Sociologia e Antropologia) PPGSA/ UFRJ, Rio de Janeiro, 1998.
HALBWACHS,
Maurice. Memória Coletiva. São Paulo: Vértice,
1990.
HARDING, Susan.
Convicted by the holy spirit: the rhetoric of fundamental Baptist conversion.
In:
American Ethnologist, v.14: 1, 1987.
HUDSON, Winthrop.
Religion in America. New York: C. Scribner's sons, 1981.
JACOB, Cesar
Romero. Atlas da filiação religiosa e indicadores sociais
no Brasil. Rio de Janeiro: PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2003.
LÉONARD,
Émile G. O protestantismo brasileiro. Estudo de eclesiologia
e história social. 2a.ed. Rio, São Paulo: JUERP/ASTE,
1981.
MACEDO, Luciana
de Oliveira.
A cura pelo Espírito Santo: estudo de caso em
um grupo de oração da RCC. (Bacharelado em Ciências
Sociais) IFCH/UERJ, Rio de Janeiro, 2004.
MACHADO, M.D.C.
Carismáticos e Pentecostais: adesão Religiosa na esfera
Familiar. São Paulo/ Campinas: ANPOCS e Editores Autores
Associados, 1994.
MAGGIE,Yvonne
& CONTINS, Marcia. Gueto Cultural ou a Umbanda como Modo de Vida: notas
sobre uma experiência de campo na Baixada Fluminense. In: VELHO,
Gilberto.
O Desafio da Cidade. Rio de Janeiro: Campus, 1980.
MAGNANI, José
Guilherme. “De perto
e de dentro: notas para uma etnografia urbana”, Revista Brasileira
de Ciências Sociais, vol. 17(49), p. 11-29, 2002.
MARIZ, Cecília
Loreto & MACHADO, Maria das Dores Campos. Mudanças recentes
no campo religioso brasileiro. Revista Antropolítica,
UFF, v.5, p.21-43, 1998.
MARIZ, Cecília
Loreto. Secularização e dessecularização: comentários
a um texto de Peter Berger. In Religião e Sociedade,
Rio de Janeiro, Iser, n. 1, vol 21, p. 25-39, 2001
MARTIN, David.
Tongues of fire. The explosion of protestantism in Latin America.
Oxford: Basil Blackwell, 1990.
MARTINS, Eliane
de Oliveira. Olhares sobre o mundo do interior: confrontando representações
imagéticas da cidade de Cachoeira Paulista realizadas pela Comunidade
Carismática Canção Nova com as veiculadas pelo Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). In CONGRESSO LATINOAMERICANO
DE ANTROPOLOGIA, 1, 2005, Rosário. Anais (CD-ROM), Rosário:
Departamento de Antropologia/UNR, 2005.
MAUSS, Marcel.
Sociologia e antropologia. São Paulo: Edusp, 1974.
NATIVIDADE,
Marcelo Tavares. Homossexualidade masculina e experiência religiosa
pentecostal. In: HEILBORN, Maria Luiza et al. Família, Sexualidade
e Ethos Religioso. Rio e Janeiro: Garamond, 2005.
NORA, Pierre.
Entre memória e história: a problemática dos lugares.
Projeto História, São Paulo, n. 10, p. 7-28,
dez. 1993.
NOVAES, Regina
R. Os Escolhidos de Deus: pentecostais, trabalhadores e cidadania.
Rio de Janeiro: ISER, 1985.
Referências Bibliográficas
ROLIM, Francisco
C. Pentecostais no Brasil: uma interpretação sócio-religiosa.
Petrópolis, RJ: Vozes, 1985.
SAUNDERs,
George. The crises of presence in Italian Pentecostal conversion. American
Ethnologist,. v.22(2), p.324-340, 1993.
SILVA, Vagner
Gonçalves da. As esquinas sagradas: o Candomblé e o uso religioso
da cidade. In MAGNANI, José Guilherme C.; TORRES, Lílian
De Lucca. Na metrópole: textos de antropologia urbana.
São Paulo: Editora USP; Fapesp, 1996.
SIMMEL,
Georg. A metrópole e a vida mental. In: VELHO, Otávio
G. O fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Zahar, 1994,
p.11-25.
SIMMEL,
Georg. On individuality and social forms. Chicago; Londres:
Univ. of Chicago Press, 1980.
TROELTSCH,
E.
El protestantismo y el mundo moderno. México:
Fondo de Cultura Económica,
108p, 1983
TROELTSCH,
E.
Protestantisme et modernité. Paris: Ed. Gallimard.
1991. 165p.
VELHO, Gilberto.
O desafio da cidade. Novas perspectivas da antropologia brasileira.
Rio de Janeiro: Campus, 1981.
VELHO, Gilberto.
Projeto e metamorfose. Antropologia das sociedades complexas.
Rio de janeiro: Zahar, 1996.
WEBER, Max.
Essays in Sociology. Trad. H. H. Gerth; Wright Mills. New
York: Oxford Univ. press, 1980.
|
|