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Cabeça
de Porco
Luiz Eduardo Soares, MV Bill,
Celso Athayde
Editora: Objetiva
296 páginas
por José Guilherme
Magnani

Para
uma resenha destinada a um site de antropologia, talvez mais que detalhar
o conteúdo desse interessante livro, caberia enfatizar o processo
de construção do texto e refletir sobre o produto final;
outras leituras poderão enfocar a oportunidade do tema, as soluções
propostas e as análises propriamente ditas sobre a questão
da violência, do tráfico e da forma como são seduzidos
e arregimentados jovens e crianças para essa atividade, não
só no Rio de Janeiro, mas em outras capitais e cidades brasileiras.
Aliás, esta é uma das teses do livro: haveria uma espécie
de sub-cultura ligada ao mundo da violência que parece ter autonomia
com valores, etiquetas, regras e símbolos próprios, com epicentro
localizado nas favelas e morros do Rio, mas disseminado, como um padrão
reconhecível, em outros lugares.
Os autores são Luiz
Eduardo Soares, antropólogo e cientista político, também
conhecido por sua atuação principalmente na Secretaria de
Segurança do Rio de Janeiro, MV Bill, músico e Celso Athayde,
empresário e produtor musical. A primeira observação
é sobre a divisão de tarefas que essa múltipla autoria
implicou e que faz a originalidade do texto - e que também trouxe
um desafio, pois sempre existe o perigo de tudo terminar com uma mera justaposição,
com a conhecida divisão de trabalho em que a análise caberia
a um deles, o antropólogo, restando aos demais aportar dados, informações,
depoimentos. Na verdade, não obstante a diferença entre estilos
e tarefas, claramente distinguíveis e explicitamente colocados já
na introdução, o resultado final é harmônico,
complementar: os depoimentos, as descrições e as análises,
em tons ora mais argumentativos, ora puxando para o emocional, terminam
oferecendo um texto contrastivo, mas coerente.
O livro está dividido
em oito partes: A primeira, intitulada “Aquarela do Brasil”, foi escrita
por MV Bill e C. Atahyde, e contém relatos de suas incursões
durante uma pesquisa para gravar em imagens a extensão do tráfico
em várias regiões do país. O objetivo dos autores,
explicitado no final do livro, era “fazer um raio X do tráfico de
drogas infantil e juvenil no Brasil”. Suas incursões por várias
regiões – Brasília, Joinvile, Belém, Curitiba etc.
pretendem demonstrar não apenas a extensão dessa atividade
como a existência de um certo “padrão carioca” de organização
e atuação. A segunda parte é de autoria de Luiz Eduardo
Soares que escreve e reescreve, a partir de entrevistas concedidas a Miriam
Guindani, fatos e reflexões sobre a violência. A seguir, os
autores vão se alternando: uma parte de Bill e Celso, seguida por
outra de Soares com uma série de discussões sobre ver, ser
visto, ser invisível. Volta Celso com um texto autobiográfico,
depois Luiz Eduardo, com depoimentos e análises sobre crime e juventude,
e sobre o despotismo policial (com direito a pitadas e reflexões
mais explicitamente antropológicas, como a referência ao totemismo,
na página 262), numa tentativa de desvendar as intrincadas relações
da trama envolvendo policiais e traficantes.
A conclusão tem textos
dos três autores: Bill e Celso enfatizam a forma como se vincularam
a Luiz Eduardo e este escolhe como fecho o relato de um concurso realizado
por Celso Atahyde, no Canecão, de hip-hop, com o propósito
de terminar o livro que tematiza a violência com uma mensagem de
esperança, paz, vida. A tese é que a saída para o
problema do engajamento dos jovens no tráfico é competir
com seu poder de atração, oferecendo alternativas de elevação
da auto-estima desses jovens. O primeiro passo é surpreendentemente
simples: oferecer-lhes condições de visibilidade. Claro que
não se descartam medidas institucionais como políticas públicas
adequadas, recomposição do aparato policial, etc.
Vale ressaltar o caráter
de experimento do livro, ensaiando um formato que escapa aos moldes propriamente
acadêmicos, mas sem cair na vulgarização ou simplificação;
ele explora, com sucesso, as diferentes formas de envolvimento dos autores
com a temática tratada e com seus quadros de referência para
análise. Discutível, contudo, a sugestão de existência
de uma sub-cultura vinculada ao mundo da violência, que lembra a
famosa “cultura da pobreza”, de Oscar Lewis: na busca de semelhanças,
as diferenças devidas a outros fatores explicativos podem ficar
de lado.
Algumas questões pontuais
podem ainda ser destacadas, até como curiosidade para o leitor,
familiarizado com as questões da onda pós-moderna na antropologia,
sobre escrita e autoria: qual a discussão que rolou para decidir
a ordem do nome dos autores, na capa do livro? Cabe notar, ainda, a sofisticação
de construções como: “.... pois o mesmo nome que ajudava
a abrir os espaços poderia ser também a razão de o
set virar um carnaval” (pg.35); e : “...eu sabia que minhas chances de
ser descoberto naquele lugar eram grandes, apesar de o bar estar cheio,
mas, a essa altura....” (pg.37) em contraste com o tom mais coloquial dos
relatos. E na página 63, um deslize na verossimilhança: “Reparei
um menor que se escondia no início da multidão que havíamos
passado, com uma pistola numa das mãos e, na outra, cargas de pó,
crack e maconha”. Tendo em vista que a chegada a essa “comunidade” se deu
à noite, “e o lugar foi ficando cada vez mais escuro”, é
de admirar a acuidade visual do observador... Finalizando estas observações
mais pontuais, penso que fez falta um item específico com a bibliografia,
que terminou dispersa nas notas.
Em
suma, um belo livro, em cuja esteira podem ser pensadas outras autorias,
novos experimentos de forma, de colaboração e de aproveitamento
de dados de campo muitas vezes sub-utilizados, em razão das constrições
que não raro o formato acadêmico impõe por causa de
suas normas de elaboração e de seu processo argumentativo.
on-line em 16/04/06 |