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SAMBISTAS E
“SAMBEIROS”: ESCOLAS DE SAMBA E TORCIDAS ORGANIZADAS NO CARNAVAL DE SãO
PAULO
Arthur Oliveira Bueno
4. Conclusão
O trabalho de campo
realizado para esta pesquisa, como foi mostrado no item anterior ("Descrição
e Análise"), não só reforçou as expectativas
e hipóteses iniciais como apontou para novas perspectivas e questões
que foram além das que já haviam sido formuladas.
Assim, se inicialmente o
que se pretendia era entender os conflitos engendrados na relação
entre as torcidas organizadas que atuam no Carnaval e as demais escolas
de samba, durante as entrevistas e observações diretas realizadas
na Gaviões da Fiel verificou-se que esses conflitos se processam
também dentro da própria entidade (o que não era esperado).
Imagina-se, ainda, que eles
possam ocorrer também internamente a cada um dos indivíduos
que se envolvem com agremiações "duplas", como a Gaviões.
Esse ponto, entretanto, necessitaria de uma pesquisa mais extensa para
ser explorado. A idéia inicial era tratar dessa questão,
mas por limitações de tempo e de dados isso não foi
possível.
Outro ponto que precisaria
ser aprofundado é justamente a questão inicial deste trabalho.
Como as observações e entrevistas se restringiram à
Gaviões da Fiel, não foi possível obter informações
suficientes para tratar das relações dessa agremiação
com as outras, o que demandaria um trabalho de campo nas demais escolas
de samba. Os dados coletados nas discussões ocorridas na lista
de mensagens "Carnaval" ajudaram a pensar esse problema, mas não
foram suficientes para servir de base a uma análise mais aprofundada.
Notas
O livro "Torcidas organizadas de futebol", de Luiz Henrique de Toledo (1996),
tem um subcapítulo de dez páginas dedicado a essa relação,
em que o autor descreve uma etnografia realizada na torcida organizada
e bloco carnavalesco Camisa 12 - dos meses que antecederam o Carnaval de
1993 (novembro e dezembro de 1992) até a festa propriamente dita
(: 88-97). A tese "Brancos e negros no carnaval popular paulistano (1914-1988)",
de Olga Rodrigues de Moraes von Simson (1989), dedica algumas páginas
à relação entre cordões carnavalescos e times
de futebol de várzea nos anos 20, 30 e 40, mas não analisa
a integração das torcidas organizadas no carnaval paulistano
a partir da década de 70 (: 95-97). Já o livro "Torcidas
Organizadas de Futebol - Violência e auto-afirmação",
de Carlos Alberto Máximo Pimenta (1997), cuja questão central
é a violência entre torcedores organizados, não aborda
em momento algum a atuação das torcidas organizadas no Carnaval
paulistano.
Nossas visitas à quadra da Gaviões da Fiel, assim como as
entrevistas realizadas, foram feitas em conjunto com outra estudante de
Ciências Sociais, Ananda Stucker, cuja pesquisa para a disciplina
Métodos de Pesquisa III - Antropologia também está
relacionada à Gaviões da Fiel (projeto: "A Mulher Gavião").
Em razão disso, algumas das discussões apresentadas neste
relatório podem aparecer também no trabalho da colega - a
partir de outro ponto de vista e relacionado a outras questões.
Todas as entrevistas foram feitas informalmente, e somente alguns trechos
foram gravados. Também não perguntamos o nome completo de
cada um dos entrevistados, o que explica porque somente alguns sejam identificados
dessa maneira, enquanto outros sejam identificados pelo apelido ou ainda,
no caso do diretor de harmonia, pela posição que ocupa na
Gaviões da Fiel.
O Caiapó, primeiro folguedo carnavalesco próprio da população
negra da cidade de São Paulo, era uma dança dramática
que narrava a história da morte e da ressurreição
de um pequeno cacique indígena atingido pelo homem branco. Realizados
ao longo dos séculos XVIII e XIX, durante as procissões coloniais
de caráter profano-religioso que reuniam a população
dispersa da cidade, os Caiapós foram, em meados do século
XIX e de acordo com uma orientação da Metrópole, proibidos
de desfilar nas procissões paulistanas. Encarada como coisa de "gente
ruim", a dança foi transferida, na década de 1890, para o
período de carnaval. Por volta de 1910, parou de ser realizada na
capital paulista - mas se mantém até hoje em centros urbanos
das zonas mais pobres do estado (Simson, 1989).
O próprio "Camisa Verde", após a extinção nos
anos 30, voltou à ativa na década de 70 sob o nome de Escola
de Samba Camisa Verde e Branco.
A festa de Bom Jesus de Pirapora, realizada na primeira quinzena de agosto
em homenagem ao aparecimento de uma imagem do Senhor Bom Jesus na região,
reunia devotos e romeiros vindos de São Paulo, do sul de Minas e
do sul do Mato Grosso. Grupos de pessoas iam a Pirapora pagar promessas,
fazer pedidos e se divertir. Como a cidade era muito pequena e não
contava com hospedarias suficientes, foram construídos grandes barracões
para abrigar os romeiros. A parte profana da festa era realizada nesses
barracões, onde aconteciam os grandes combates de samba entre grupos
rivais, representando cada um a sua cidade. Nos anos 20, a cidade de São
Paulo era representada pelo Camisa Verde, que em Pirapora se tornara conhecido
como Grupo dos Paulistas, usando no estandarte e nas vestimentas as cores
preta e branca (Andrade, 1937; Cunha, 1937; Moraes, 1971; Britto, 1986;
Simson, 1989).
Além do Vai-Vai, outro caso é o do cordão Geraldino,
da Barra Funda, surgido na década de 20 a partir do time de futebol
São Geraldo.
A precursora foi a Escola de Samba Primeira de São Paulo, fundada
em 1936, mas que durou apenas dois anos. Pouco depois, em 1937, Madrinha
Eunice e Francisco Papa, recém egressos do Rio de Janeiro, criaram
a Escola de Samba Lavapés, que se mantém na ativa até
hoje. Embora fosse em muitos aspectos próxima a um cordão,
a Lavapés já se inspirava nos moldes moldes da capital fluminense,
onde as escolas estavam plenamente consolidadas, desfilando com apoio da
imprensa e do poder municipal (Moraes, 1971).
Em 1933, a Associação de Esportes Atléticos (APEA)
e Liga Carioca passaram a organizar profissionalmente o futebol (Witter,
1982).
Em São Paulo, Manoel Porfírio da Paz e Laudo Natel fundaram
em 1940 a Torcida Uniformizada do São Paulo - considerada por muitos
a mais antiga do Brasil -, que funcionava de modo parecido à Charanga
de Jaime Rodrigues de Carvalho (Toledo, 1996).
No ano de 1971 foi disputado o primeiro Campeonato Brasileiro de futebol,
do qual participaram times de quase todos os estados do país (Toledo,
1996).
Desde então, intensificou-se o processo de crescente organização
do carnaval paulistano, com a posterior transmissão nacional dos
desfiles das escolas de samba em 1984, pelo SBT, e a construção
do "Sambódromo" - Pólo Cultural Grande Otelo - em 1991 (Simson,
1989; Crecibeni, 2000).
Na estréia como escola de samba, a Gaviões levou o vice-campeonato
do Grupo I e subiu ao Grupo Especial, onde se mantém até
hoje, tendo conquistado quatro títulos (1995, 1999, 2002 e 2003).
A idéia de "família", enquanto noção "nativa",
pode ser, sob alguns aspectos, aproximada do conceito de pedaço
desenvolvido por José Guilherme Cantor Magnani. Segundo este autor,
essa categoria "supõe uma referência espacial, a presença
regular de seus membros e um código de reconhecimento e comunicação
entre eles" (2002: 20). De fato, a noção de "família"
envolve um reconhecimento mútuo entre pessoas que não se
conhecem, mas que portam os mesmos símbolos, valores e modos de
vida. Entretanto, ainda não temos como saber qual a importância
das referências espaciais (que, no caso, podem ser tanto a quadra
da Gaviões quanto os estádios de futebol, entre outras) para
a formação dessas redes de sociabilidade.
Para uma análise dos gritos de torcida antes das modificações
implantadas nos últimos anos, ver o artigo "Por que xingam os torcedores
de futebol?", de Luiz Henrique de Toledo (1993).
Não queremos tampouco afirmar que todos os comportamentos etc. dos
torcedores organizados podem ser explicados com base em um habitus viril
- o qual, temos também de dizer, não está presente
somente no meio futebolístico, mas em várias esferas da vida
social. Pretendemos simplesmente mostrar como alguns desses comportamentos
etc. podem ser mais bem entendidos se os remetermos a esse habitus marcado
pela virilidade.
A briga deste ano entre integrantes da Pavilhão Nove e da Independente
Tricolor ocorreu, não por acaso, na concentração,
um dos únicos espaços onde as escolas se encontram (outro
é na apuração das notas, ocasião em que integrantes
das escolas costumam criticar a atitude dos torcedores da Gaviões)
.Nelsinho
estima que, atualmente, cerca de 30% dos sócios da Gaviões
sejam do sexo feminino. Já para Pacaratá, essa porcentagem
ficaria entre 15% e 20% (cerca de 10 a 15 mil sócios), o que
pareceu ao pesquisador mais realista.
5. Bibliografia
5.1 Sobre
Carnaval e samba
ANDRADE,
Mario de. "O Samba Rural Paulista". In: Revista do Arquivo Municipal. Ano
IV, Volume XLI. São Paulo, Departamento de Cultura, novembro
de 1937.
BRAIA,
Ana. Memórias do Seu Nenê da Vila Matilde. São Paulo,
Lemos Editorial, 2000.
BRITTO,
Iêda Marques. Samba na cidade de São Paulo (1900-1930):
um exercício de resistência cultural. São Paulo, FFLCH-USP,
1986.
CRECIBENI,
Nelson. Convocação geral: a folia está nas ruas. São
Paulo, O Artífice Editorial, 2000.
CUNHA,
Mario Wagner Vieira da. "Descrição da Festa de Bom Jesus
de Pirapora". In: Revista do Arquivo Municipal. Ano IV, Volume XLI.
São Paulo, Departamento de Cultura, novembro de 1937.
DA
MATTA, Roberto. "O Carnaval como um rito de passagem". In: Ensaios de antropologia
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MORAES,
José Geraldo Vinci de. Metrópole em Sinfonia: história,
cultura e música popular na São Paulo dos anos 30. São
Paulo, Estação Liberdade, 2000.
MORAES,
Wilson Rodrigues de. "Escolas de Samba e Cordões da Cidade de São
Paulo". In: Revista do Arquivo Municipal, v. 183. São Paulo, Departamento
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MORAES,
Wilson Rodrigues "Escolas de Samba de São Paulo - síntese
de uma pesquisa". In: Cultura. Brasília, Ministério
da Educação e Cultura, ano I, nº 26, jul/set 1977, p.
30 a 44.
MORAES,
Wilson Rodrigues Escolas de Samba de São Paulo. São
Paulo, Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas, 1978.
REIS,
Letícia Vidor de Sousa. Na Batucada da vida - samba e política
no Rio de Janeiro (1889-1930). Tese de Doutorado, São Paulo, FFLCH/USP,
1999.
SIMSON,
Olga Rodrigues von. A burguesia se diverte no reinado de Momo: sessenta
anos de evolução do carnaval na cidade de São Paulo
(1855-1915). Dissertação de Mestrado, São Paulo, FFLCH-USP,
1984.
SIMSON,
Olga Rodrigues von Brancos e negros no carnaval popular paulistano. 1914-88.
Tese de Doutorado, São Paulo, FFLCH-USP, 1989.
SIMSON,
Olga Rodrigues von "Era assim a folia de Momo". In: D.O. Leitura/Cultura,
nº 167. São Paulo, fevereiro de 1998, Imprensa Oficial do Estado
- Secretaria de Estado da Cultura.
SOARES,
Reinaldo da Silva. O cotidiano de uma escola de samba paulistana: o caso
da Vai-Vai. Dissertação de Mestrado, São Paulo, FFLCH/USP,
1999.
VIANNA,
Hermano. O Mistério do Samba. Rio de Janeiro, Zahar, 1995.
5.2 Sobre
futebol e torcidas organizadas
PIMENTA,
Carlos Alberto Máximo. Torcidas organizadas de futebol - violência
e auto-afirmação - aspectos da construção das
novas relações sociais. Taubaté, Vogal Editora, 1997.
TOLEDO,
Luiz Henrique. Torcidas organizadas de futebol. Campinas, Autores Associados/Anpocs,
1996.
TOLEDO,
Luiz Henrique "A cidade das torcidas - representações do
espaço urbano entre torcedores e torcidas de futebol na cidade de
São Paulo". In: MAGNANI, José Guilherme C. & TORRES,
Lilian de Lucca. Na metrópole. São Paulo, EDUSP/FAPESP, 2000.
TOLEDO,
Luiz Henrique "Por que xingam os torcedores de futebol?". In: Cadernos
de campo - revista dos alunos de pós-graduação em
Antropologia. FFLCH/USP, ano 3, nº 3, 1993, p. 20-28.
WITTER,
João S. "Futebol, futebol...". In: Meihy, J. C. S. (org.), Futebol
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do Estado, 1982.
5.3 Teórica
e metodológica
AMARAL,
Rita. "Antropologia e Internet - Pesquisa e Campo no meio virtual" in:
Os
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0, Outubro de 2003 [on-line]
Disponível na internet via WWW. URL <http://www.osurbanitas.org>
BOURDIEU,
Pierre. Pierre Bourdieu (org. Renato Ortiz). Coleção Grandes
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BOURDIEU,
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Paulo, Perspectiva, 1992.
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Pierre As regras da arte. São Paulo, Companhia das Letras, 2002.
GEERTZ,
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VELHO,
Gilberto. Projeto e Metamorfose: Antropologia das Sociedades Complexas.
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