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SAMBISTAS E “SAMBEIROS”: ESCOLAS DE SAMBA E TORCIDAS ORGANIZADAS NO CARNAVAL DE SãO PAULO
Arthur Oliveira Bueno

 
CONTINUAÇÃO
 
 

Todos que se atrevam à dizer que é não Corinthians!
ODEIO TUDO E TODOS que não envolvem o TIMÃO!
("Fertimão", mensagem postada em 09/06/2003 às 08h35)
 

ODEIO AS BARBIES DA VILA SONIA...................... [são-paulinos]
OS MARCIANOS DO CHIQUEIRAO É RIVAL............... [palmeirenses]
E TODO O RESTO QUERO QUE SE FODA!!!!!!!!!!!!!!
("Donalds", mensagem postada em 09/06/2003 às 08h55)
 

eu odeio todos, porque todos odeia nós, então va se foder todo mundo que é anti corinthiano.
("luc", mensagem postada em 10/06/2003 às 14h53)
 

pau no cu do resto
("rafa", mensagem postada em 10/06/2003 às 16h37)
 
ODEIO TODOS!!!
***QUEM NÃO FOR CORINTHIANO...VAI PRA PUTA Q PARIU***
("Doida_lhp", mensagem postada em 10/06/2003 às 16h56)


Houve, entretanto, uma minoria que respondeu de forma diferente. Em vez de proclamar o ódio aos outros times, preferiu expressar seu amor pelo Corinthians:
 

NÃO ME IMPORTO COM OS OUTROS TIMES. 
MEU MUNDO É CORINTHIANS.
("MOITA_LHP", mensagem postada em 10/06/2003 às 11h42)
Só torço para o meu timão,o resto é resto !
("LMCP", mensagem postada em 10/06/2003 às 14h11)


Outro caso é o de uma torcedora que afirmou odiar os outros times, mas o fez de forma irônica: 
 

to com o terror.......
odeio todo mundo
hehehe
("dricorinthiana", mensagem postada em 08/06/2003 às 23h28)


Essa resposta ambígua sugere que o ódio expressado por alguns desses torcedores pode estar mais ligado ao plano do discurso que ao da prática. Pelo menos no caso dessa torcedora, o que parece estar em jogo não é um ódio real, mas uma rivalidade de tonalidade exclusivista, que é própria do futebol, esporte no qual geralmente se torce para apenas um time. Dessa forma, frente à questão proposta, não haveria outra opção senão "odiar" todos os outros times. Mesmo assim, não se deve menosprezar as expressões de ódio transcritas acima. Elas formam uma maioria esmagadora no cômputo de todas as mensagens sobre esse tópico e contêm fortes elementos de intolerância.
 

Outro aspecto que chama a atenção em algumas das mensagens é a estratégia discursiva de diminuição ou humilhação dos adversários:
 

VAMU LÁ...
1- BAMBIS
2- PORCÚ
3-VASCÚ
4- GAYMIO
5-SARDINHA
6- GAYRANI
7- TAUBAJECA
Q MORRAM TODOS...
("ALETIMÃO", mensagem postada em 15/06/2003 às 21h03)
odeio todos, mas principalmente a bicharada fregayz... [...]
("gavioes1969", mensagem postada em 09/06/2003 às 19h41)
TODO MUNDO PRINCIPALMENTE OS VIADOS DO SÃO PAULO O POVINHO FRSCO
("shebtu", mensagem postada em 24/06/2003 às 16h41)
COM CERTEZA A BIXARADA O TIME MEDILCRE 
SÓ TEM BIXA E FRUTINHA NAQUELE TIME.....ATÉ A TORCIDA DELES SÓ TEM VIADO
("gaviãoroxo", mensagem postada em 26/06/2003 às 21h59)


Alguns dos eixos classificatórios que se observam nessas provocações já foram anteriormente abordados (Toledo, 1993), cabendo aqui apenas apontar que os xingamentos, na maioria das vezes, pretendem diminuir o adversário fragilizando-o. Neste momento, o que nos interessa, principalmente, é focar  um desses eixos, o que está ligado às conotações sexuais, que é, sem dúvida, o mais presente nesses discursos agressivos. Assim, dos sete times evocados acima pelo torcedor "ALETIMÃO", pelo menos cinco são diminuídos através de aproximações com o homossexualismo: "porcu", "vascu", "gaymio", "gayrani" e "bambis", (este último, personagem de desenho animado que remete ao veado, animal identificado ao homossexualismo). Com relação a esse ponto, Luiz Henrique de Toledo afirma que 
 

As ambigüidades sexuais que alimentam o imaginário ao redor da figura do veado remetem aqueles que estão sendo xingados ao universo feminino e frágil, hostil, portanto, ao universo popular masculino predominante no futebol. Por sua vez, tais atributos recaem, ainda que não correspondam obviamente a reais estratificações, sobre as classes mais abastadas identificadas idealmente nos são-paulinos [...], os frescos, pó-de-arroz e cuzões. (Toledo, 1993: 25)


Nas entrevistas que foram realizadas na Gaviões da Fiel a característica homofobia do universo futebolístico também esteve presente. Por exemplo, quando a reunião para novos sócios estava quase terminando, Pacaratá afirmou: "Só mais uma coisa: [...] Na Gaviões ninguém entra de brinquinho, de cabelinho pintado. [...] Aqui só tem dois banheiros". Depois da reunião, essa frase foi comentada pelo pesquisador e lhe foi perguntado o que ele achava de Roberto Szanieski, o carnavalesco (o qual, ainda que nada se saiba sobre sua vida sexual, tem um jeito de falar e uma héxis corporal que são freqüentemente identificados com o homossexualismo, principalmente no universo futebolístico). Pacaratá respondeu: "Ihhh... É foda, né? [...] Mas o cara é profissional, tudo no maior respeito". 
 

Um aspecto curioso dessa conversa foi  o fato de o informante, por várias vezes, fazer comentários machistas e logo depois emendar: "Mas tudo no maior respeito". Tanto ele quanto o diretor de harmonia, entretanto, afirmaram que a relação entre as pessoas na Gaviões é marcadamente machista. Isso não significa, evidentemente, que não existam homossexuais dentro da torcida: "A gente sabe que tem muito cara aí que faz pose de machão, que bate no peito, mas depois chega em casa e ó... [...] Mas aqui dentro ninguém é louco de assumir" (Pacaratá).
 
 
 
 

3.2.5  Virilidade e folia


A partir desses exemplos, pretende-se caracterizar o que será chamado, de agora em diante, de "habitus viril", que parece estar bastante presente no universo futebolístico e, principalmente, nas relações interpessoais envolvendo torcedores organizados. Habitus, segundo Pierre Bourdieu, é  um sistema de disposições incorporadas que engendra ações, sentimentos, visões de mundo, etc. e lhes confere uma certa coerência (Bourdieu, 1983). Contudo, afirmar que o habitus é sistemático não significa que ele seja completamente coerente, mas sim que ele tende a uma certa coerência. Considera-se, neste trabalho, que os agentes são constituídos de vários habitus, incorporados a partir de suas trajetórias sociais, ou seja, de uma série de posições ocupadas no espaço social, sendo que esses habitus se ajustam entre si em processos que envolvem tanto afinidades quanto conflitos estruturais entre os vários sistemas de disposições. 
 

Isso quer dizer que nem todos os comportamentos, sentimentos, visões de mundo etc. de uma pessoa podem ser subsumidos a um único habitus. É justamente por isso que esses comportamentos podem ser contraditórios, sem, entretanto, deixar de ter alguma ordem. Desse modo, a tese aqui defendida é a de que muitos dos comportamentos, idéias e sentimentos expressos nos exemplos que foram apresentados, e que se manifestam com uma certa regularidade no meio futebolístico e principalmente entre os torcedores organizados, têm como base um habitus marcado pela virilidade, ou seja, por uma valorização de certos atributos socialmente categorizados como masculinos (potência, força, agressividade, proteção, etc.) e um rechaço a atributos socialmente considerados como femininos (fragilidade, fraqueza, passividade, etc.).  Mais exemplos de atitudes engendradas por esse habitus, assim como da lógica exclusivista da disputa futebolística (ao menos para os torcedores organizados), podem ser encontradas nas respostas emitidas a um tópico aberto no fórum de mensagens do site da Gaviões. Percebe-se facilmente como, ao criticar o goleiro do próprio time e elogiar o goleiro reserva do time adversário (do São Paulo, ou como eles dizem, dos "bambis"), bem como pelo modo como o fez, o autor da primeira mensagem desrespeitou uma regra básica da "etiqueta" entre torcedores organizados:
 
 

PARA OS PUXA-SACO DO DONI, E AI CONFIRMARAM QUE NÃO DÁ COM O DONI????FORA DONI, FORA GENINHO, FORA ANDERSON(SÓ DA PANCADA).
ROGER RESERVA DO SÃO PAULO É A SOLUÇÃO
("LIEDSHOW", mensagem postada em 16/06/2003 às 12h07)
 
SE LIGA O ROGER É BAMBI MOSTROU A BUNDINHA NA G
("luc", mensagem postada em 16/06/2003 às 12h15)
 
a mano, qq é isso... agora o cara fica plantando mensagenzinha elogiando os bambis...
porra, tem nego querendo incomodar a gente aqui no forum, só pode ser isso... 
pra que perde tempo escrevendo entao?
cacete......
("Shark", mensagem postada em 16/06/2003 às 12:45)
 
AE LIEDSHOW, ESSA VC ATRAVESSOU FEIO,...
PORQUE A SUA MÃE NÃO MANDA VC SE MATAR..
("luc", mensagem postada em 16/06/2003 às 13h39)


 Depois das primeiras repreensões, "Liedshow", que parece que não ter  percebido a regra que infringira, xingou os próprios "irmãos" e quebrou outra: 
 

AI SEUS BURROS, SÓ ESTOU QUERENDO DIZER QUE O 2º GOLEIRO DOS NOSSOS FREGUESES DE CADERNETA É MELHOR DO QUE NOSSO PRIMEIRO.[...]
("LIEDSHOW", mensagem postada em 16/06/2003 às 15h22)
 
SAI ZICA..........PAGA PAU DE BICHARADA FREQUENTANDO O FORUM É FODA...
("digo-lhp", mensagem postada em 16/06/2003 às 21h24)
 [...] ESSA FOI FODA MANO...
O CARA FICA PAGANDO UM PAU P/ O
GOLEIRO DOS BAMBIS E AINDA CHAMA
OS MANOS DA FAMÍLIA DE BURRO...
CARALHO MANO VC ESTÁ LOUCO....
PIROU DE VEZ.....
UM ABRAÇO FAMÍLIA...
("Fabiodosgavioes", mensagem postada em 17/06/2003 às 01h05)
 
PQP, MANO FRITA VAI
("RiQuE-LHP", mensagem postada em 18/06/2003 às 15h38)
 
Roger melhor ???
Dá o cú pra ele seu troxa.
("FielPortoAlegre", mensagem postada em 18/06/2003 às 18h08)
 
CARA NUNCA PENSEI QUE PODESSE FALAR DOS CARAS...
FAZER PROPAGANDA DOS BAMBIS ...
ESSA FOI FODA...
SE É PRA CRITICAR TUDO BEM...
MAIS LEVANTAR A MORAL DOS CARAS...
VEIO VC Ñ É CORINTHIANO...
SE LIGA NO MOVIMENTO !!!
("Lambão", mensagem postada em 18/06/2003 às 21h37)


Nessas mensagens aparecem alguns dos elementos  que já foram tratados: o ódio aos outros times, a intimidação através de insinuações sobre a sexualidade, a homofobia, a referência à "família", a agressividade. É importante, entretanto, não tomar esses elementos como caracteres gerais do comportamento de todos os torcedores organizados. Nesse caso, por exemplo, houve ao menos dois deles que tentaram apaziguar os ânimos dos interlocutores: 
 

Ae rapaziada o mano vacilou mais sem criar mais atritos!!
("pastor10", mensagem postada em 23/06/2003 às 15h19)

ae liedshow pega leve irmao...............ai cara aqui todos sao uma familia............pq vc chamou de burros????pega leve noq vc fala
ae galera pega leve tbm............issu soh cria confusao.......um começa xinga o outro.....ai revida..........assim q começa fica em graça o forum.................
[...] cada um tem sua opiao..........mais se fala algo sobre oq escrevi.........pela amor de deus............nao começa o xingamento........ [...] 
paz galera
("tom-lhp", mensagem postada em 16/06/2003 às 19h34)

A caracterização desse habitus viril ficará mais clara se for contrastada com outro habitus, que será chamado de "folião", característico do universo das escolas de samba. Mas, antes de definir este último, é necessário reforçar, através de exemplos, a diferença entre a lógica da forte rivalidade do universo futebolístico e a lógica concorrencial que marca as relações entre as escolas de samba.
 

Ao contrário dos torcedores organizados, que costumam rechaçar ou odiar abertamente times que não os seus, as pessoas envolvidas com uma determinada escola de samba, ainda que tristes por  não terem vencido, podem se congratular com a escola de samba adversária - como mostra a mensagem abaixo, escrita por um membro da Mocidade Alegre, que ficou em segundo lugar no Carnaval de 2003: 
 

PARABÉNS A TODA A COMUNIDADE SAMBÍSTICA DOS GAVIÕES DA FIEL PELO TÍTULO DE 2003.
(Marcelo Pires, lista "Carnaval", mensagem enviada em 5/03/2003 às 14h46)


Mesmo que se considere a possibilidade  de este  sambista não estar sendo sincero, ainda assim essa mensagem é ilustrativa do que as pessoas envolvidas com as escolas de samba pensam que deva ser feito, além de mostrar que tipo de atitude é bem visto por elas. Basta observar o fato de que jamais um típico torcedor organizado - mesmo qualquer torcedor mais envolvido com futebol - procederia dessa maneira, para identificar a importante diferença entre as competições futebolística e carnavalesca. 
 

Outra distinção é dada pelos estilos de nomeação dos concorrentes. Enquanto, como foi visto, os torcedores de um time apelidam pejorativamente os dos outros, procurando rebaixá-los e desmoralizá-los, uma escola de samba refere-se às outras sempre como co-irmãs: 
 

 
[...] AGRADEÇO A TODOS SASPIANOS [SASP é a abreviação de "Sociedade dos Amantes do Samba Paulista"] QUE COMPARECEM E PRESTIGIAM NOSSA ESCOLA, A TODOS QUE RESPITAM O NOSSO PAVILHÃO, ESSE SEGUNDO LUGAR NA CLASSIFICAÇÃO DO CARNAVAL EM MTO ME ALEGROU, MAS VER MINHA ESCOLA CANTANDO NA AVENIDA, SENTIR O CHÃO TREMER ENQUANTO A BATERIA "RÍTMO PURO" PASSAVA É MTA EMOÇÃO...VER O SETOR 4 APLADIR GERAL NOSSA COREOGRAFIA...ENTRARMOS NO BOX E VER A ESCOLA INTEIRA..LINDA..E ALEGRE FOI D+...
CONTINUAREMOS TRABALHANDO...PARA CHEGAR AO TÃO SONHADO TÍTULO E PARA CONTINUARMOS JUNTO COM AS D+ CO-IRMÃS VALORIZANDO O SAMBA DE SÃO PAULO E A SUA ESSÊNCIA.
MOCIDADE ALEGRE É TRADIÇÃO É A ESCOLA DO MEU CORAÇÃO !!
QDO EU DIZIA Q. OS ENSAIOS ESTAVAM PEGANDO FOGO, POVO CANTANDO EVOLINDO, MTOS NÃo ACREDITAVAM...
"TAÍ O NOSSO CARNAVAL"
(Marcelo Pires, Mar 5, 2003  2:59 pm)


Além de exemplificar a atitude que um sambista de uma escola tem (ou ao menos "deve" ter) para com  outra, o trecho acima aponta para outras características da concorrência carnavalesca: primeiro, a consideração de que, mais do que a vitória, o importante é o processo (entrar na avenida com a escola do coração, sentir o chão tremer com a bateria, ser aplaudido, etc.); segundo, a valorização do samba e do carnaval como estando acima de todos os interesses particulares das escolas e, mais ainda, como sendo produto do trabalho coletivo dessas entidades. (Antes de falar do terceiro ponto, será preciso ressalvar que estas duas características já apontadas estão sendo consideradas, principalmente, enquanto discursos, cuja importância está nos valores coletivos que expressam.) Por último, o final do referido trecho mostra como nem tudo é samba, alegria e irmandade entre as escolas ,  apresentando uma pequena provocação do autor às pessoas que "não acreditaram" no sucesso da sua agremiação: "Taí o nosso Carnaval".
 

As diferenças  mencionadas entre as lógicas concorrenciais dos  universos tratados parecem estar relacionadas ao caráter distinto das duas competições. No futebol, o confronto é direto, corporal, viril. Dois times se enfrentam simultaneamente, cada um ocupando um lado do campo, oposto ao do adversário. As torcidas ficam separadas, ao menos nos jogos disputados atualmente no Brasil (nas Copas do Mundo, por exemplo, os torcedores se misturam),  provocando-se reciprocamente. Já no Carnaval, as escolas desfilam separadamente, uma de cada vez. Não há enfrentamento direto nem contato físico intenso entre escolas adversárias.  Não há, tampouco, uma oposição entre dois lados; as escolas fazem, todas, o mesmo caminho na avenida. Os simpatizantes de uma escola não vaiam suas adversárias; na pior hipótese, param de "agitar" durante a apresentação da rival. Mas, de modo geral, os integrantes de uma escola cantam e sambam durante os desfiles das outras, sendo muito comum haver pessoas que saem em várias escolas. 
 

As diferenças entre esses dois universos competitivos podem ser vistas não só nas ocasiões de disputa, mas também durante todo o ano. Por exemplo, diferentemente do ambiente das torcidas organizadas, que, como foi mostrado,  em geral é bastante homofóbico, nas escolas de samba transitam muitos homossexuais. Isso pode estar relacionado tanto ao caráter liminar dessa festividade (DaMatta, 1973), quanto à predominância de um habitus marcado pela folia. Nas escolas de samba a presença feminina parece ser maior e mais ativa (muitas ocupam altos cargos) do que nas torcidas. 
 
 
 

3.2.6  Entre dois mundos


Considerando as diferenças constitutivas dos universos sociais  que foram tratados, o carnavalesco e o futebolístico, serão abordados os conflitos e ajustamentos engendrados pela participação simultânea da Gaviões da Fiel nesses dois mundos. Esse cruzamento de lógicas simbólicas se processa tanto externamente, na relação com as outras escolas de samba, quanto internamente, entre os membros da própria Gaviões. 
 

O carnavalesco  Roberto Szanieski conta que, em 1998, quando foi pela primeira vez contratado para fazer o Carnaval da Gaviões da Fiel, houve uma série de atritos entre ele, apoiado por pessoas como o presidente da Gaviões à época, e alguns torcedores que ele chama de "radicais". Esses atritos aconteceram por motivos aparentemente "pequenos" (e realmente o são para quem não partilha dos códigos culturais envolvidos), como por exemplo a questão de se o carro abre-alas teria ou não o símbolo do Corinthians. Para entender esses conflitos, deve-se ter em mente o contexto em que eles ocorreram: primeiro, na época, a Gaviões da Fiel estava sob enorme pressão da Justiça para que deixasse de atuar como torcida organizada. Depois, o enredo daquele ano era justamente uma homenagem ao time de coração dos Gaviões: "Corinthians Meu Mundo É Você". Por fim, há uma tradição dentro da agremiação de que o carro abre-alas ostente o símbolo do Corinthians.
 

Tendo em vista esse contexto, uma  questão aparentemente secundária  torna-se muito significativa. Os torcedores "radicais" de que fala Roberto temiam que a Gaviões deixasse de ser torcida e se tornasse uma escola de samba como as outras; para eles, isso seria uma completa inversão de valores (de acordo com uma lógica futebolística e segundo a hierarquia de afetos que foi apresentada anteriormente). Nesse sentido, a simples retirada do símbolo do Corinthians do carro abre-alas - proposta por Roberto segundo uma lógica carnavalesca, a da beleza estética e da organização discursiva do enredo - significaria um passo para que a Gaviões deixasse de ser "uma torcida que samba" e se tornasse uma escola de samba (sem aspas). 
 

Vê-se, através, desse exemplo, como os atores envolvidos no caso assumem posições distintas dentro de uma mesma agremiação. Assim, em relação ao universo futebolístico, no qual se insere primeiramente a Gaviões da Fiel, o carnavalesco representa a heterodoxia. Ou seja, ele é aquele que, vindo de fora, traz uma lógica estranha a esse universo social. Portando um habitus folião e guiado pela lógica concorrencial da disputa carnavalesca, representa a intrusão deste habitus e desta lógica num universo movido por outros códigos.
 

Do lado oposto estão os torcedores "radicais", representando a ortodoxia do universo futebolístico, para quem o Corinthians é mais importante que qualquer desfile de Carnaval. Nesse sentido, a simples retirada de um símbolo do time do carro abre-alas (mesmo que seja para colocá-lo em todos os outros carros) significa uma ameaça à já citada hierarquia dos afetos - que postula a ordem de importância dos fatores: Corinthians, Gaviões da Fiel Torcida, Carnaval -, ainda mais quando o segundo destes fatores está ameaçado de extinção.
 

Porém, esses conflitos parecem ter hoje diminuído bastante, tanto pelo fato de a torcida não correr mais o risco de ser fechada, quanto porque os torcedores têm cada vez mais adotado o Carnaval como um segundo motivo de orgulho e não mais como uma ameaça. Isso provavelmente resulta de/em uma incorporação desse habitus que foi chamado de folião, o qual engendra um gosto específico pelo Carnaval. 
No entanto, Roberto e Cida apontaram a incompletude desse processo, e alguns  exemplos que foram citados anteriormente, como os que se referem à relação com a escola de samba Camisa Verde e Branco (p. 30-32), parecem corroborar essa afirmação. A maioria dos torcedores continua não se envolvendo muito com o Carnaval, sendo que boa parte deles tem uma relação com essa festividade diferente da que os foliões geralmente mantêm, pois transferem para o universo carnavalesco lógicas e códigos próprios da disputa futebolística. 
 

Uma possível solução para esse cruzamento de códigos é separar os dois domínios e afirmar, como um dos gaviões na discussão sobre a Camisa Verde e Branco, que "samba é uma coisa, futebol é outra" (p. 31). É o que parece fazer a maioria das pessoas que foram entrevistadas. Nelsinho, por exemplo, disse que a Gaviões, enquanto torcida, não mantém relações com a Mancha Verde, mas que, enquanto agremiação carnavalesca, possui algumas (p. 29). 
Mesmo fora da Gaviões, há pessoas que fazem essa separação. Como exemplo, veja-se  o trecho de uma mensagem já citada na página 29 deste artigo: 
 

[...] NEM TODO MUNDO QUE É CORINTHIANO GOSTA DA ESCOLA GAVIÕES, CONHEÇO GENTE QUE TORCE PRO TIMÃO, MAS DIZ NÃO GOSTAR DA ESCOLA.......E TB CONHEÇO GENTE QUE TORCE PRA OUTROS TIMES E TEM OS GAVIÕES COMO ESCOLA DO CORAÇÃO  [...]
("lhpalmas-z/s", mensagem postada em 25/04/2003 às 04h15)
Ainda a respeito dessa questão, Nelsinho falou sobre uma amiga sua:
 
Eu conheço uma mulher, ela é corinthiana. Ela odeia Gaviões torcida, ela odeia. Mas [Gaviões] escola de samba, ela gosta. Ela não vai ao estádio pelos Gaviões. Ela odeia. Ela fala: "Nelsinho, eu sou corinthiana, eu sou doente. Eu amo o Corinthians, vou em jogos, tudo, mas não adianta. Eu não gosto daquela torcida" [...] Ela não soube nem explicar o porquê.
Por esse e outros relatos, pode-se pensar, e alguns dos entrevistados confirmaram, que a participação da Gaviões no Carnaval abriu um maior espaço dentro da entidade para a entrada e a atuação de mulheres.  Cida, por exemplo, afirmou que o Departamento de Eventos (também chamado de "Departamento Feminino") foi criado em decorrência das exigências típicas de uma escola de samba: receber presidentes de outras escolas, políticos, fazer faixas para enfeitar a quadra em dias de ensaio, etc. Esse é um caso em que a inserção simultânea em dois domínios não resultou num conflito, mas num ajustamento.Contudo, a participação de uma mesma agremiação em dois universos nem sempre concordantes não deixa de produzir alguns mal-entendidos. Pacaratá relatou o caso de uma pessoa que queria sair como destaque dos Gaviões e que pagou caro por sua fantasia. Quando, porém, os dirigentes perceberam que ele era homossexual, impediram-no de desfilar pela agremiação: "Imagina! Um cara todo, todo, em cima do carro dos Gaviões? O que iam falar?" (Pacaratá). Ele contou ainda que chegaram até a ameaçá-lo de morte por telefone. 
 

Pacaratá relatou ainda outra estória, desta vez protagonizada por ele próprio. Durante um ensaio dos Gaviões, havia um homossexual dançando junto com as mulheres em cima do palco. Pacaratá conta que pediu para ele descer: "Primeiro eu falei por bem. Cheguei todo educado, falei: 'Por favor, você poderia se retirar? Eu tô falando por bem. Se não for por bem, vai por mal.' [...] Olha, tinha até uns caras querendo bater na bicha, mas aí também..." 
 

Esses exemplos mostram como fatos que seriam encarados com uma certa naturalidade (ou ao menos com certa tranqüilidade) em outras escolas de samba, na Gaviões podem provocar tensões. O primeiro desses casos acabou circulando na lista de discussão "Carnaval":
 
 

Todos sabemos de um certo preconceito da "GAVIOES DA FIEL"" qto ao homosexualismo, mas a dez dias do carnaval retirar um dos melhores destaques de Sao Paulo de seu abre alas apenas pq e homosexual,isto e um absurdo!!!!!!!!!!!!!!Mauricio Pina e sem duvida um dos grandes destaques que temos o orgulho de te lo em nosso meio ser humano fabuloso ajuda muita gente (creches ,etc...)pessoa de um carater sem igual,e ser discriminado desta forma,o que acontece vcs gavioes deveriam ter orgulho de poder te lo como abre alas uma roupa maravilhosa. [...] Desculpe e um desabafo,dificil eu escrever ,mas nao posso calar perante tamanho PRECONCEITO.O pior e nao poder processa los devido a fama e morte na certa. (Marisa Gomes Silva, mensagem enviada em 20/02/2003 às  8h42)
Portanto, esses conflitos, mal-entendidos e ajustamentos que se processam internamente à Gaviões também repercutem externamente, em sua relação com as  pessoas e escolas envolvidas no universo carnavalesco. Alguns desses atritos externos dizem respeito, por exemplo, ao adorno de carros alegóricos dos Gaviões com símbolos do Corinthians, bem como com a recusa ao uso da cor verde nos desfiles. 
 

Ambos os exemplos têm relação com transposições de lógicas futebolísticas para o âmbito da disputa carnavalesca. Desse modo, a Gaviões, em certo sentido,  representa para o Carnaval o que o carnavalesco Roberto Szanieski representava dentro da Gaviões (mas inversamente): a aplicação de princípios heterodoxos.
 

Espera-se, com esses exemplos, ter mostrado a diferença entre os habitus e as lógicas de concorrência envolvidos nos universos futebolístico e carnavalesco, assim como alguns dos conflitos e ajustamentos produzidos no cruzamento de  códigos simbólicos característicos do estado atual das relações entre torcidas organizadas e escolas de samba no Carnaval paulistano. As análises propostas estão, por enquanto, num estágio bastante inicial. Entretanto, se aprofundadas e complementadas com mais observações de campo, poderão esclarecer algumas das questões levantadas por esta pesquisa e, quem sabe, fornecer subsídios para pensar a questão mais geral do trânsito entre domínios sociais. 


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