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Arthur Oliveira Bueno

 
1.  Introdução
Este artigo apresenta os resultados da pesquisa desenvolvida entre março e junho de 2003 a partir do projeto "Sambistas e 'Sambeiros': Escolas de Samba e Torcidas Organizadas no Carnaval de São Paulo", que se propôs a estudar as relações entre escolas de samba e torcidas organizadas no carnaval paulistano -   reciprocidades,  conflitos etc. -, prestando atenção, principalmente, na passagem das torcidas para um universo do qual originalmente não faziam parte,  introduzindo nessa esfera uma forma diferente de lidar com  agremiações concorrentes, assim como novos códigos e representações. 
 

Esse tema surgiu a partir da constatação de que o envolvimento de torcidas organizadas em desfiles carnavalescos tem motivado, atualmente, muitos  desentendimentos entre as pessoas mais atuantes do Carnaval paulistano, e de que essa relação tensa não tinha, até então, sido objeto de um estudo específico - ainda que importantes pesquisas venham sendo produzidas tanto sobre o universo das escolas de samba, quanto das torcidas organizadas . A proposta inicial era, portanto, comparar esses dois universos sociais, atentando para o que os distingue e  aproxima. 
 

O título do projeto remete ao termo "sambeiro", categoria "nativa" que pode ter várias conotações, dependendo do contexto em que surge. Porém, um sentido comum é o de alguém que não é músico, cantor ou dançarino (ou não sendo, ao menos, reconhecido como tal), mas que participa do mundo do samba. Isso pode assumir tanto uma conotação positiva - como no caso de Nelson de Andrade, ex-presidente da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, que considerava a si próprio um grande "sambeiro", ou seja, alguém que não tem jeito para sambar, mas dá tudo de si por sua escola - quanto negativa, como nas referências a "sambeiros" brancos da Zona Sul (carioca) ou a integrantes de grupos de pagode "comercial" (esses exemplos foram retirados de sites e blogs na internet).
 

No caso que aqui nos interessa, o termo apareceu nas discussões da lista "Carnaval" (ver mais adiante "Procedimentos Metodológicos") sobre questões resultantes da participação de torcidas organizadas no Carnaval - por exemplo, se sua participação nos desfiles é legítima ou não, como na mensagem abaixo:
 

[...] Apesar de todos os problemas que tem ocorrido, muitas vezes nos exaltamos e nos referimos a "sambistas" que conturbam as festas, desfiles e etc, mas esses depreciadores do samba não podem ser chamados de sambistas e sim "sambeiros", pois dentro dos blocos de torcidas existem pessoas honestas e conscientes de seu amor e valorização pelo samba. (Fábio Nunes, mensagem enviada em 23/02/2003 às  12h57)
Como mostra essa mensagem, nesse contexto o termo "sambeiro" significa "depreciador do samba", formando um par antagônico com  "sambista", ou seja, "pessoa honesta e consciente de seu amor e valorização pelo samba". Com a condição de não tomar essas definições muito ao pé da letra, pode-se dizer que, nesse ambiente social, essas são as acepções mais comuns que assumem os termos, utilizados não apenas no que se refere ao problema específico  aqui pesquisado, mas  numa gama variada de questões. Mas essa é apenas uma das posições possíveis no que se refere à participação de torcidas organizadas no Carnaval. Há, por outro lado, aqueles que defendem um Carnaval sem a presença dessas entidades:
[...] ou se cria de uma vez um grupo de desfiles formado por essas escolas futebolísticas ou pára tudo de uma vez. [...] se formos enumerar qts casos já tivemos de incidentes entre torcidas de escolas de futebol nas avenidas da vida, já dá um livro! Quem são os culpados? Todos! Inclusive as entidades mandantes do carnaval que até hj não tomaram providências. Ou se muda essa história ou sinto muito, vamos construir um novo sambódromo para escolas de samba que não se matem e matem os outros por causa de time de futebol. (Wellington Kirmeliene, mensagem enviada em 23/02/2003 às 11h20) 
Como se vê, a inserção dessas agremiações no Carnaval de São Paulo é bastante conflituosa. Partindo dessa constatação, tenta-se neste trabalho compreender esse processo (e os ajustamentos e tensões que ele envolve) por meio de um estudo focado no Grêmio Recreativo Gaviões da Fiel Torcida, a maior torcida organizada do país e a primeira dessas entidades a participar do Carnaval paulistano, e de uma análise comparativa de dois universos sociais: o futebolístico e o carnavalesco.

 
2. Quadro de Referências
2.1 Quadro Teórico
As principais referências teóricas deste trabalho são os conceitos de campo e habitus desenvolvidos por Pierre Bourdieu, assim como outras noções que acompanham estes dois conceitos centrais na obra do sociólogo francês. Campo é entendido como um espaço social relacional, ou seja, um espaço em que os termos (as posições, os habitus, as tomadas de posição) se definem na e pela relação uns com os outros, relações essas que estão em constante mudança e disputa. Ele é, assim, um espaço de conflitos e de concorrência, que assume uma lógica peculiar em cada caso específico. (Bourdieu, 1983 e 2002)
 

A idéia inicial é que os integrantes das torcidas organizadas e das escolas de samba, fazendo parte de campos diferentes - futebolístico e carnavalesco - agem baseados em lógicas concorrenciais distintas. Se essa hipótese inicial se manteve, no decorrer da pesquisa foi utilizada, em vez da noção de campo, a categoria universo social, que, no entanto, continua envolvendo os elementos que caracterizam o campo tal como definido por Bourdieu. Tal alteração, contudo, permitiria incluir na análise outra noção: a de metamorfose. Esse conceito, desenvolvido por Gilberto Velho, refere-se a um potencial (diferencialmente distribuído entre os indivíduos) de mudança de papéis mais ou menos radical. Desse modo, ele indica uma maior ou menor capacidade de trânsito entre diversos domínios (ou universos) sociais. Nessa acepção, a noção de universo ou mundo social está relacionada a diferentes planos e níveis de realidade socialmente construídos (Velho, 1994 e Velho e Kuschir,  1996).
 

A intenção de utilizar esse conceito era fazer um contraponto à idéia de habitus e, assim, perceber em que medida os agentes modificavam-se no trânsito entre os universos em questão e  se "carregavam" disposições incorporadas (habitus) de um campo para outro. Mas, devido à falta de dados e de tempo para tratar dessa questão, ela foi deixada de lado, permanecendo, contudo, parcialmente implícita em algumas das descrições e análises. 
 

De qualquer modo, manteve-se o conceito de habitus, entendido como um sistema de esquemas de percepção, apreciação e ação que é produto da incorporação das estruturas de um dado campo (Bourdieu, 1983 e 2002) - ou, neste caso, de um universo social específico. Uma discussão mais aprofundada desse conceito será feita na própria análise e descrição (item 3.2.5: "Virilidade e folia"). Basta dizer, por enquanto, que os universos futebolístico e carnavalesco não só colocam em jogo lógicas concorrenciais distintas, mas também engendram e exigem habitus distintos, que foram caracterizados respectivamente como "habitus viril" e "habitus folião".
 

Outra noção presente no projeto era a de teias de significado, conforme definida por Clifford Geertz, ou seja,  uma "hierarquia estratificada de estruturas significantes", construídas coletivamente pelos homens, nos termos da qual as ações ganham sentido (Geertz, 1973). Se essa idéia ainda  parece válida para o objeto em questão, não se mostrou, contudo, boa para pensar as informações que foram coletadas. 
 
 

2.2 Procedimentos Metodológicos
O plano inicial era fazer, primeiramente, uma pesquisa de campo na internet, nos sites de agremiações carnavalescas e de torcidas organizadas, bem como na lista de discussão (mailinglist) "Carnaval", mantida pela Sociedade de Amigos do Carnaval Paulista (SASP), e depois uma pesquisa de campo, com observação direta e entrevistas, na torcida organizada e escola de samba Gaviões da Fiel. 
 

Essa estratégia foi efetivamente seguida, mostrando-se bastante proveitosa. A pesquisa na lista de discussão "Carnaval", que já estava sendo acompanhada antes mesmo  da realização do projeto, sugeriu a principal questão (e hipótese) deste trabalho, além de ter dado mostras de como acontecem as relações entre os membros de várias escolas de samba paulistanas. Nessa lista, em que há uma troca intensa de mensagens - cerca de mil por mês - são discutidos os principais assuntos relacionados ao carnaval paulistano, inclusive a questão envolvendo as torcidas organizadas, motivo de muitas brigas. Foi, portanto, um âmbito privilegiado para a coleta das mais variadas opiniões expressadas pelos participantes mais ativos do carnaval (presidentes de escolas, mestres de bateria, mestres-salas, porta-bandeiras, etc.) com relação aos problemas colocados por este trabalho. 
 

Entretanto, nessa parte da pesquisa não surgiram dados que permitissem aprofundar a questão das variadas formas de relacionamento entre escolas de samba que são apenas escolas de samba e torcidas organizadas que atuam também como escolas de samba, como é o caso da Gaviões da Fiel. Para isso, seria necessário entrevistar pessoalmente integrantes de outras agremiações paulistanas, o que não estava nos planos  nem seria possível, dado o pouco tempo existente entre a criação do projeto e a elaboração do relatório.
 

Um segundo passo foi pesquisar nos sites de torcidas organizadas que também atuam (ou já atuaram) no carnaval paulistano, como Gaviões da Fiel, Mancha Verde , Pavilhão Nove e Tricolor Independente  -  esta última  atualmente impedida de desfilar, em razão das brigas com integrantes das torcidas/blocos Pavilhão Nove e Mancha Verde durante o último carnaval.
 

Nesta fase, a coleta de dados mais interessante foi realizada no site da Gaviões da Fiel, que mantém um fórum de discussão online, no qual tanto sócios quanto simpatizantes da torcida/escola de samba discutem assuntos pertinentes ao Corinthians, a própria Gaviões, o Carnaval, entre outros. Esses dados são discutidos no item 3.2, "Uma Torcida que Samba", em conjunto com as observações diretas e entrevistas realizadas na quadra da Gaviões da Fiel.
 

Aos sábados, a quadra desta agremiação - localizada na rua Cristina Tomás, 183, no bairro do Bom Retiro - serve de ponto de encontro para sócios e não-sócios; um grupo de pagode se apresenta e, a partir do meio-dia, é servida uma feijoada. A ida inicial ao campo foi num desses sábados. O contato com os integrantes dos Gaviões foi mediado (e bastante facilitado) por um colega, estudante de Ciências Sociais, que esteve presente nesta primeira visita e nos apresentou a Alex Sandro (o "Mindoim"), um dos diretores do Departamento de Assistência Social e Cultural, com quem conversamos brevemente
 

Também aos sábados acontecem reuniões de recepção dos novos membros. Assistimos a dois desses encontros, sendo a partir deles que entrevistamos "Pacaratá", que atualmente comanda as reuniões, e seu amigo Nelsinho, da Velha-Guarda da agremiação - participa desde 1973 - e atual Mestre de Bateria. Este, então, nos apresentou  Cida, que integra o Departamento de Eventos, e  Roberto Szanieski, carnavalesco contratado para produzir o carnaval deste ano (trabalhou anteriormente para a Gaviões nos desfiles de 1998 e 1999).  Durante a entrevista com os dois últimos (foi a única entrevista em grupo, as outras foram todas concedidas individualmente), fomos apresentados ao atual diretor de harmonia, que participa da Gaviões desde os anos 70
 

Como a pesquisa de campo para este trabalho foi realizada no primeiro semestre de 2003, não foi possível observar os principais eventos relacionados ao Carnaval, tais como a escolha do samba-enredo e os ensaios, que costumam reunir um grande contingente de pessoas na quadra da Gaviões da Fiel. Este tipo de observação seria de extrema importância para confirmar algumas  informações dadas pelos entrevistados (como uma citada diferença nítida entre o público que freqüenta os eventos ligados ao Carnaval e o que vai à quadra em ocasiões como a festa de aniversário da Gaviões da Fiel) e tornar mais precisa a análise. 
 

Em contrapartida, todos os informantes mostraram extrema boa vontade e solicitude (mais até do que era esperado), e  forneceram muitos dados, inclusive de ordem pessoal, acompanhando-nos também em visitas às instalações da Gaviões da Fiel (quadra, barracão e piscinas). 
 

Além das pesquisas de campo na internet e na quadra da Gaviões da Fiel, foi realizada uma pesquisa bibliográfica com o objetivo de traçar uma história do futebol e do carnaval na cidade de São Paulo, a qual é apresentada no item 3.1, "Carnaval e futebol na cidade". 


 
3. Descrição e Análise
 
 
3.1  Carnaval e futebol na cidade
Se  a história do carnaval e do futebol em São Paulo for retomada, especialmente no século XX, veremos como essas duas formas de organização do lazer acompanharam o crescente processo de urbanização por que passou a cidade. Assim, seus  desenvolvimentos, apesar de haverem trilhado diferentes caminhos, apresentam muitas características em comum. 
 

No começo do século XX, os times de futebol, e também as agremiações carnavalescas, foram fundamentais para o reagrupamento de indivíduos provenientes das mais diversas origens sociais (ex-escravos, imigrantes, migrantes) e o estabelecimento de laços de sociabilidade. Como aponta Nicolau Sevcenko,
 

(...) a extraordinária expansão das cidades se deu (...) pela multiplicação acelerada da massa trabalhadora que para elas acorreu em sucessivas e gigantescas ondas migratórias. Nas metrópoles assim surgidas, ninguém tinha raízes ou tradições, todos vinham de diferentes partes do território nacional. Na busca de novos traços de identidade e de solidariedade coletiva, de novas bases emocionais de coesão que substituíssem as comunidades e laços de parentesco que cada um deixou ao emigrar, essas pessoas se vêem atraídas, dragadas para a paixão futebolística que irmana estranhos, os faz comungarem ideais, objetivos e sonhos, consolida gigantescas famílias vestindo as mesmas cores (...) (Sevcenko apud Toledo, 1996:16)
 A cidade de São Paulo abrigava classes sociais mais definidas e segregadas espacialmente, situação que marcou a formação dos primeiros times de futebol e agremiações carnavalescas. Assim, a imprensa da época costumava nomear as formas de lazer de acordo com a posição social dos praticantes. 
 

No começo do século XX, os folguedos de Momo dividiam-se em "Grande Carnaval" e "Pequeno Carnaval". O primeiro tinha influência européia (chamavam-no, também, de "carnaval à veneziana") e era festejado pela elite paulistana, que desfilava em préstitos e corsos no Triângulo Central, no Brás e na Avenida Paulista. Essa manifestação carnavalesca permitia aos membros da burguesia demonstrar, publicamente, tanto para seu próprio estrato social como para o povo em geral, seu poderio econômico, expresso nos carros importados e nas fantasias das mulheres que ocupavam  posição de destaque no desfile. Já do segundo, participavam as populações negras e imigrantes, que organizavam corsos mais modestos e Caiapós . Mesmo dentro do "Pequeno Carnaval", havia diferenciações entre as manifestações compostas majoritariamente por imigrantes italianos e espanhóis, que saíam nos carnavais da Lapa, do Brás e da Água Branca, e aquelas organizadas pela população afro-descendente em regiões como a Barra Funda, a Bela Vista e a Baixada do Glicério (Simson, 1984).
 

De modo similar, jornalistas e cronistas denominavam de "pequeno futebol" os jogos disputados em campos de várzea por operários e comerciantes de bairros populares como Brás, Móoca, Belenzinho e Pari. Assim, diferenciavam-no do futebol jogado por estudantes e rapazes da elite no "lado nobre" da cidade, em locais como o Velódromo (situado na rua da Consolação), a chácara Dulley (propriedade de ingleses) e o Parque Antártica, cujos principais times eram Mackenzie, Paulistano, Internacional, Germânia e São Paulo Athletic. 
 

Em meados da década de 10, começaram a aparecer os grandes times que hoje dividem as preferências pelo futebol na cidade: o Sport Club Corinthians Paulista, fundado em 1910 no Bom Retiro e que logo assumiu as características de time popular, e o Palestra Itália, hoje Sociedade Esportiva Palmeiras, fundado em 1914 por futebolistas da colônia italiana (Toledo, 1996). 
 

Nesse mesmo ano, foi criado o Grupo Carnavalesco Barra Funda (depois apelidado de "Camisa Verde"), primeiro cordão carnavalesco de São Paulo. Os cordões, um tipo de agremiação que posteriormente daria origem às escolas de samba , eram agrupamentos informais de vizinhos ou colegas, localizados sobretudo nos bairros de população negra, que saíam em cortejo pelas ruas próximas ao centro no período de Carnaval. Nas décadas seguintes, outros cordões surgiram nos bairros próximos ao centro: ainda na Barra Funda, o "Flor da Mocidade"; nos Campos Elíseos, o "Desprezados"; e, no Bexiga, o "Vai-Vai".
 

Nos anos 20 e 30, os cordões também realizavam uma série de outras atividades de meio de ano que, além de preencher o lazer dos membros da agremiação, geravam recursos para o desfile carnavalesco. Eram organizados bailes mensais (nas próprias sedes ou em salões alugados), romarias e piqueniques em cidades do interior paulista (como Bom Jesus de Pirapora ) e jogos de futebol de várzea. Assim, esses agrupamentos, surgidos nos bairros negros da cidade de São Paulo e organizados em torno de uma atividade carnavalesca, funcionaram, nas primeiras décadas do século XX, como organizadores e promotores do lazer dos negros paulistanos (Simson, 1989), o que parece ter acontecido também no caso dos times de futebol:
 

(...) famílias extensas começaram a se aglutinar em torno das associações e clubes que os times organizados geraram. Embora com sedes separadas etnicamente, estes clubes logo começaram a promover bailes aos sábados, e estes promoveram, também, um começo de integração interétnica (...) (Paoli apudToledo, 1996:18).
A respeito da imbricação entre os universos carnavalesco e futebolístico, a história da criação do Vai-Vai, um cordão que depois se transformou numa das maiores escolas de samba da capital, é exemplar. No começo dos anos 30, havia no Bexiga um time de futebol amador chamado Cai-Cai, que organizava também bailes mensais. Um grupo de rapazes do bairro tentava, com freqüência, participar desses bailes, apesar de não pertencerem ao time de futebol, sendo por isso barrados na porta e encarados como penetras. Esses rapazes, cansados de serem afastados dos bailes com a frase "Vai, vai embora!", resolveram organizar o seu próprio grupo de dança, cuja primeira atividade realizada foi um desfile carnavalesco. Para marcar jocosamente sua rivalidade com o outro grupo do mesmo bairro, eles se autodenominaram "Vai-Vai". 
 

O caso, que pode parecer uma exceção, na verdade, segundo Olga von Simson, constitui a regra:

A associação entre a atividade carnavalesca e o time de futebol de várzea parece ter sido a regra entre as entidades paulistanas. Sempre aparecem funcionando simultaneamente: às vezes a entidade carnavalesca surge a partir de um agrupamento futebolístico , em outras situações o futebol aparece como atividade complementar, de meio de ano, da agremiação de Momo (Simson, 1989:96).
Os anos 30, em relação a uma dinâmica nacional mais ampla, marcam simultaneamente a incorporação e catalisação do futebol como esporte, por parte do Estado brasileiro, e a culminação de um processo de popularização e nacionalização do samba - resultado tanto das políticas culturais de cunho populista do governo federal como das intrincadas alianças entre populações negras,  grupos marginalizados e elites artísticas e intelectuais. Nesse processo, foi de fundamental importância o papel exercido pelo advento dos meios de comunicação de massa, principalmente da radiodifusão (Toledo, 1996; Vianna, 1995; Reis, 1999).
 

Em São Paulo, foram as rádios as primeiras instituições que, fora do âmbito do governo, tomaram para si o encargo de patrocinar, durante o Carnaval, concursos competitivos entre as agremiações. Os cordões realizavam o cortejo preferencialmente em frente às sedes das emissoras patrocinadoras, o que possibilitava uma certa proteção contra o cerco policial que ainda reprimia  sambistas e foliões, tidos como malandros e vagabundos. Com o apoio das rádios, que estimulavam diretamente o clima de disputa entre os grupos, e a  experiência acumulada  na organização dos desfiles, os cordões, aos poucos, foram adotando uma estrutura  mais complexa e burocratizada, originando as escolas de samba  (Moraes, 2000). No caso do futebol, as transmissões radiofônicas de jogos e campeonatos ajudaram a divulgar o esporte e impulsionaram a sua incipiente profissionalização
 

 Nos anos 40, surgiram no Brasil os primeiros grupos de torcedores "fiéis". Em 1942, um funcionário federal chamado Jaime Rodrigues de Carvalho, torcedor do Flamengo, fundou a famosa "Charanga", uma banda musical que animava os jogos do time. Diferentemente do que acontece nas torcidas organizadas de hoje, esse tipo de agrupamento, nos anos 40, 50 e 60, era centrado na figura de um "torcedor-símbolo":
 

(...) Houve um tempo em que chefes de torcida como Jaime R. de Carvalho, o líder da Charanga rubro-negra, mantinham seus comandados sob uma disciplina quase severa. O objetivo da torcida organizada era apenas o de incentivar seu time. E do outro lado do estádio ninguém via inimigos, mas apenas adversários que deviam ser superados não na força, e sim na festa das bandeiras, na animação das batucadas. Hoje Jaime de Carvalho já não tem essa ascendência sobre sua torcida. Cansou-se (...) (João Areosa, Placar, 27 de setembro de 1974 apud Toledo, 1996)
Segundo Luiz Henrique de Toledo (1996), a associação às torcidas da figura de "torcedores-símbolo" perdurou pelo menos até o fim da década de 60. A partir de 1970, o futebol definitivamente tornou-se um esporte de massa largamente incentivado pelo Estado e pela mídia, extravasando domínios mais locais e consolidando-se como "mania" nacional . A relação do torcedor com o futebol adquiriu, então, outros contornos. Foram criadas nesse período as principais torcidas organizadas de São Paulo, como a Gaviões da Fiel, em 1969, e a Camisa 12, em 1971, ambas de torcedores corinthianos; a Torcida Tricolor Independente, do São Paulo Futebol Clube, em 1972; e a Leões da Fabulosa, também em 1972, da Portuguesa. Enquanto o "torcedor-símbolo" era identificado como chefe e não como presidente da torcida, as torcidas organizadas que surgiram no final dos anos 60 e na década de 70 eram entidades burocratizadas, estruturadas em cargos, presidência, conselho consultivo, diretorias. Como afirma Luiz Henrique de Toledo
 
Se, no período anterior, as torcidas eram personificadas naqueles torcedores-símbolo, agora são representadas por coletividades mais autônomas, impessoais e independentes de torcedores, que passam a se comportar de modo diverso daqueles.  Estabelecendo outras formas de relacionamento entre elas próprias, com os dirigentes, imprensa, com o próprio futebol profissional (Toledo, 1996:28).

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