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1. Introdução
Este artigo apresenta
os resultados da pesquisa desenvolvida entre março e junho de 2003
a partir do projeto "Sambistas e 'Sambeiros': Escolas de Samba e Torcidas
Organizadas no Carnaval de São Paulo", que se propôs a estudar
as relações entre escolas de samba e torcidas organizadas
no carnaval paulistano - reciprocidades, conflitos etc.
-, prestando atenção, principalmente, na passagem das torcidas
para um universo do qual originalmente não faziam parte, introduzindo
nessa esfera uma forma diferente de lidar com agremiações
concorrentes, assim como novos códigos e representações.
Esse tema surgiu a partir
da constatação de que o envolvimento de torcidas organizadas
em desfiles carnavalescos tem motivado, atualmente, muitos desentendimentos
entre as pessoas mais atuantes do Carnaval paulistano, e de que essa relação
tensa não tinha, até então, sido objeto de um estudo
específico - ainda que importantes pesquisas venham sendo produzidas
tanto sobre o universo das escolas de samba ,
quanto das torcidas organizadas . A proposta inicial era, portanto, comparar
esses dois universos sociais, atentando para o que os distingue e
aproxima.
O título do projeto
remete ao termo "sambeiro", categoria "nativa" que pode ter várias
conotações, dependendo do contexto em que surge. Porém,
um sentido comum é o de alguém que não é músico,
cantor ou dançarino (ou não sendo, ao menos, reconhecido
como tal), mas que participa do mundo do samba. Isso pode assumir tanto
uma conotação positiva - como no caso de Nelson de Andrade,
ex-presidente da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, que considerava
a si próprio um grande "sambeiro", ou seja, alguém que não
tem jeito para sambar, mas dá tudo de si por sua escola - quanto
negativa, como nas referências a "sambeiros" brancos da Zona Sul
(carioca) ou a integrantes de grupos de pagode "comercial" (esses exemplos
foram retirados de sites e blogs na internet).
No caso que aqui nos interessa,
o termo apareceu nas discussões da lista "Carnaval" (ver mais adiante
"Procedimentos Metodológicos") sobre questões resultantes
da participação de torcidas organizadas no Carnaval - por
exemplo, se sua participação nos desfiles é legítima
ou não, como na mensagem abaixo:
[...]
Apesar de todos os problemas que tem ocorrido, muitas vezes nos exaltamos
e nos referimos a "sambistas" que conturbam as festas, desfiles e etc,
mas esses depreciadores do samba não podem ser chamados de sambistas
e sim "sambeiros", pois dentro dos blocos de torcidas existem pessoas honestas
e conscientes de seu amor e valorização pelo samba. (Fábio
Nunes, mensagem enviada em 23/02/2003 às 12h57)
Como mostra essa
mensagem, nesse contexto o termo "sambeiro" significa "depreciador do samba",
formando um par antagônico com "sambista", ou seja, "pessoa
honesta e consciente de seu amor e valorização pelo samba".
Com a condição de não tomar essas definições
muito ao pé da letra, pode-se dizer que, nesse ambiente social,
essas são as acepções mais comuns que assumem os termos,
utilizados não apenas no que se refere ao problema específico
aqui pesquisado, mas numa gama variada de questões. Mas essa
é apenas uma das posições possíveis no que
se refere à participação de torcidas organizadas no
Carnaval. Há, por outro lado, aqueles que defendem um Carnaval sem
a presença dessas entidades:
[...]
ou se cria de uma vez um grupo de desfiles formado por essas escolas futebolísticas
ou pára tudo de uma vez. [...] se formos enumerar qts casos já
tivemos de incidentes entre torcidas de escolas de futebol nas avenidas
da vida, já dá um livro! Quem são os culpados? Todos!
Inclusive as entidades mandantes do carnaval que até hj não
tomaram providências. Ou se muda essa história ou sinto muito,
vamos construir um novo sambódromo para escolas de samba que não
se matem e matem os outros por causa de time de futebol. (Wellington Kirmeliene,
mensagem enviada em 23/02/2003 às 11h20)
Como se vê,
a inserção dessas agremiações no Carnaval de
São Paulo é bastante conflituosa. Partindo dessa constatação,
tenta-se neste trabalho compreender esse processo (e os ajustamentos e
tensões que ele envolve) por meio de um estudo focado no Grêmio
Recreativo Gaviões da Fiel Torcida, a maior torcida organizada do
país e a primeira dessas entidades a participar do Carnaval paulistano,
e de uma análise comparativa de dois universos sociais: o futebolístico
e o carnavalesco.
2. Quadro de
Referências
2.1 Quadro Teórico
As principais referências
teóricas deste trabalho são os conceitos de campo
e habitus desenvolvidos por Pierre Bourdieu, assim como outras noções
que acompanham estes dois conceitos centrais na obra do sociólogo
francês.
Campo é entendido como um espaço social
relacional, ou seja, um espaço em que os termos (as posições,
os habitus, as tomadas de posição) se definem na e
pela relação uns com os outros, relações essas
que estão em constante mudança e disputa. Ele é, assim,
um espaço de conflitos e de concorrência, que assume uma lógica
peculiar em cada caso específico. (Bourdieu,
1983 e 2002)
A idéia inicial é
que os integrantes das torcidas organizadas e das escolas de samba, fazendo
parte de campos diferentes - futebolístico e carnavalesco - agem
baseados em lógicas concorrenciais distintas. Se essa hipótese
inicial se manteve, no decorrer da pesquisa foi utilizada, em vez da noção
de campo, a categoria universo social, que, no entanto, continua envolvendo
os elementos que caracterizam o campo tal como definido por Bourdieu. Tal
alteração, contudo, permitiria incluir na análise
outra noção: a de metamorfose. Esse conceito, desenvolvido
por Gilberto Velho, refere-se a um potencial (diferencialmente distribuído
entre os indivíduos) de mudança de papéis mais ou
menos radical. Desse modo, ele indica uma maior ou menor capacidade de
trânsito entre diversos domínios (ou universos) sociais. Nessa
acepção, a noção de universo ou mundo social
está relacionada a diferentes planos e níveis de realidade
socialmente construídos (Velho,
1994 e Velho e Kuschir,
1996).
A intenção
de utilizar esse conceito era fazer um contraponto à idéia
de habitus e, assim, perceber em que medida os agentes modificavam-se
no trânsito entre os universos em questão e se "carregavam"
disposições incorporadas (habitus) de um campo para outro.
Mas, devido à falta de dados e de tempo para tratar dessa questão,
ela foi deixada de lado, permanecendo, contudo, parcialmente implícita
em algumas das descrições e análises.
De qualquer modo, manteve-se
o conceito de habitus, entendido como um sistema de esquemas de
percepção, apreciação e ação
que é produto da incorporação das estruturas de um
dado campo (Bourdieu, 1983 e 2002)
- ou, neste caso, de um universo social específico. Uma discussão
mais aprofundada desse conceito será feita na própria análise
e descrição (item 3.2.5: "Virilidade e folia"). Basta dizer,
por enquanto, que os universos futebolístico e carnavalesco não
só colocam em jogo lógicas concorrenciais distintas, mas
também engendram e exigem habitus distintos, que foram caracterizados
respectivamente como "habitus viril" e "habitus folião".
Outra noção
presente no projeto era a de teias de significado, conforme definida por
Clifford Geertz, ou seja, uma "hierarquia estratificada de estruturas
significantes", construídas coletivamente pelos homens, nos termos
da qual as ações ganham sentido (Geertz,
1973). Se essa idéia ainda parece válida para o objeto
em questão, não se mostrou, contudo, boa para pensar as informações
que foram coletadas.
2.2 Procedimentos
Metodológicos
O plano inicial
era fazer, primeiramente, uma pesquisa de campo na internet, nos sites
de agremiações carnavalescas e de torcidas organizadas, bem
como na lista de discussão (mailinglist) "Carnaval", mantida
pela Sociedade de Amigos do Carnaval Paulista (SASP), e depois uma pesquisa
de campo, com observação direta e entrevistas, na torcida
organizada e escola de samba Gaviões da Fiel.
Essa estratégia foi
efetivamente seguida, mostrando-se bastante proveitosa. A pesquisa na lista
de discussão "Carnaval", que já estava sendo acompanhada
antes mesmo da realização do projeto, sugeriu a principal
questão (e hipótese) deste trabalho, além de ter dado
mostras de como acontecem as relações entre os membros de
várias escolas de samba paulistanas. Nessa lista, em que há
uma troca intensa de mensagens - cerca de mil por mês - são
discutidos os principais assuntos relacionados ao carnaval paulistano,
inclusive a questão envolvendo as torcidas organizadas, motivo de
muitas brigas. Foi, portanto, um âmbito privilegiado para a coleta
das mais variadas opiniões expressadas pelos participantes mais
ativos do carnaval (presidentes de escolas, mestres de bateria, mestres-salas,
porta-bandeiras, etc.) com relação aos problemas colocados
por este trabalho.
Entretanto, nessa parte da
pesquisa não surgiram dados que permitissem aprofundar a questão
das variadas formas de relacionamento entre escolas de samba que são
apenas escolas de samba e torcidas organizadas que atuam também
como escolas de samba, como é o caso da Gaviões da Fiel.
Para isso, seria necessário entrevistar pessoalmente integrantes
de outras agremiações paulistanas, o que não estava
nos planos nem seria possível, dado o pouco tempo existente
entre a criação do projeto e a elaboração do
relatório.
Um segundo passo foi pesquisar
nos sites de torcidas organizadas que também atuam (ou já
atuaram) no carnaval paulistano, como
Gaviões
da Fiel, Mancha Verde ,
Pavilhão
Nove e Tricolor Independente
- esta última atualmente impedida de desfilar, em razão
das brigas com integrantes das torcidas/blocos Pavilhão Nove e Mancha
Verde durante o último carnaval.
Nesta fase, a coleta de dados
mais interessante foi realizada no site da Gaviões da Fiel, que
mantém um fórum de discussão online, no qual tanto
sócios quanto simpatizantes da torcida/escola de samba discutem
assuntos pertinentes ao Corinthians, a própria Gaviões, o
Carnaval, entre outros. Esses dados são discutidos no item 3.2,
"Uma Torcida que Samba", em conjunto com as observações diretas
e entrevistas realizadas na quadra da Gaviões da Fiel.
Aos sábados, a quadra
desta agremiação - localizada na rua Cristina Tomás,
183, no bairro do Bom Retiro - serve de ponto de encontro para sócios
e não-sócios; um grupo de pagode se apresenta e, a partir
do meio-dia, é servida uma feijoada. A ida inicial ao campo foi
num desses sábados. O contato com os integrantes dos Gaviões
foi mediado (e bastante facilitado) por um colega, estudante de Ciências
Sociais, que esteve presente nesta primeira visita e nos apresentou a Alex
Sandro (o "Mindoim"), um dos diretores do Departamento de Assistência
Social e Cultural, com quem conversamos brevemente .
Também aos sábados
acontecem reuniões de recepção dos novos membros.
Assistimos a dois desses encontros, sendo a partir deles que entrevistamos
"Pacaratá", que atualmente comanda as reuniões, e seu amigo
Nelsinho, da Velha-Guarda da agremiação - participa desde
1973 - e atual Mestre de Bateria. Este, então, nos apresentou
Cida, que integra o Departamento de Eventos, e Roberto Szanieski,
carnavalesco contratado para produzir o carnaval deste ano (trabalhou anteriormente
para a Gaviões nos desfiles de 1998 e 1999). Durante a entrevista
com os dois últimos (foi a única entrevista em grupo, as
outras foram todas concedidas individualmente), fomos apresentados ao atual
diretor de harmonia, que participa da Gaviões desde os anos 70 .
Como a pesquisa de campo
para este trabalho foi realizada no primeiro semestre de 2003, não
foi possível observar os principais eventos relacionados ao Carnaval,
tais como a escolha do samba-enredo e os ensaios, que costumam reunir um
grande contingente de pessoas na quadra da Gaviões da Fiel. Este
tipo de observação seria de extrema importância para
confirmar algumas informações dadas pelos entrevistados
(como uma citada diferença nítida entre o público
que freqüenta os eventos ligados ao Carnaval e o que vai à
quadra em ocasiões como a festa de aniversário da Gaviões
da Fiel) e tornar mais precisa a análise.
Em contrapartida, todos os
informantes mostraram extrema boa vontade e solicitude (mais até
do que era esperado), e forneceram muitos dados, inclusive de ordem
pessoal, acompanhando-nos também em visitas às instalações
da Gaviões da Fiel (quadra, barracão e piscinas).
Além das pesquisas
de campo na internet e na quadra da Gaviões da Fiel, foi realizada
uma pesquisa bibliográfica com o objetivo de traçar uma história
do futebol e do carnaval na cidade de São Paulo, a qual é
apresentada no item 3.1, "Carnaval e futebol na cidade".
3. Descrição
e Análise
3.1 Carnaval
e futebol na cidade
Se a história
do carnaval e do futebol em São Paulo for retomada, especialmente
no século XX, veremos como essas duas formas de organização
do lazer acompanharam o crescente processo de urbanização
por que passou a cidade. Assim, seus desenvolvimentos, apesar de
haverem trilhado diferentes caminhos, apresentam muitas características
em comum.
No começo do século
XX, os times de futebol, e também as agremiações carnavalescas,
foram fundamentais para o reagrupamento de indivíduos provenientes
das mais diversas origens sociais (ex-escravos, imigrantes, migrantes)
e o estabelecimento de laços de sociabilidade. Como aponta Nicolau
Sevcenko,
(...) a extraordinária
expansão das cidades se deu (...) pela multiplicação
acelerada da massa trabalhadora que para elas acorreu em sucessivas e gigantescas
ondas migratórias. Nas metrópoles assim surgidas, ninguém
tinha raízes ou tradições, todos vinham de diferentes
partes do território nacional. Na busca de novos traços de
identidade e de solidariedade coletiva, de novas bases emocionais de coesão
que substituíssem as comunidades e laços de parentesco que
cada um deixou ao emigrar, essas pessoas se vêem atraídas,
dragadas para a paixão futebolística que irmana estranhos,
os faz comungarem ideais, objetivos e sonhos, consolida gigantescas famílias
vestindo as mesmas cores (...) (Sevcenko apud Toledo,
1996:16)
A cidade de
São Paulo abrigava classes sociais mais definidas e segregadas espacialmente,
situação que marcou a formação dos primeiros
times de futebol e agremiações carnavalescas. Assim, a imprensa
da época costumava nomear as formas de lazer de acordo com a posição
social dos praticantes.
No começo do século
XX, os folguedos de Momo dividiam-se em "Grande Carnaval" e "Pequeno Carnaval".
O primeiro tinha influência européia (chamavam-no, também,
de "carnaval à veneziana") e era festejado pela elite paulistana,
que desfilava em préstitos e corsos no Triângulo Central,
no Brás e na Avenida Paulista. Essa manifestação carnavalesca
permitia aos membros da burguesia demonstrar, publicamente, tanto para
seu próprio estrato social como para o povo em geral, seu poderio
econômico, expresso nos carros importados e nas fantasias das mulheres
que ocupavam posição de destaque no desfile. Já
do segundo, participavam as populações negras e imigrantes,
que organizavam corsos mais modestos e Caiapós
. Mesmo dentro do "Pequeno Carnaval", havia diferenciações
entre as manifestações compostas majoritariamente por imigrantes
italianos e espanhóis, que saíam nos carnavais da Lapa, do
Brás e da Água Branca, e aquelas organizadas pela população
afro-descendente em regiões como a Barra Funda, a Bela Vista e a
Baixada do Glicério (Simson, 1984).
De modo similar, jornalistas
e cronistas denominavam de "pequeno futebol" os jogos disputados em campos
de várzea por operários e comerciantes de bairros populares
como Brás, Móoca, Belenzinho e Pari. Assim, diferenciavam-no
do futebol jogado por estudantes e rapazes da elite no "lado nobre" da
cidade, em locais como o Velódromo (situado na rua da Consolação),
a chácara Dulley (propriedade de ingleses) e o Parque Antártica,
cujos principais times eram Mackenzie, Paulistano, Internacional, Germânia
e São Paulo Athletic.
Em meados da década
de 10, começaram a aparecer os grandes times que hoje dividem as
preferências pelo futebol na cidade: o Sport Club Corinthians Paulista,
fundado em 1910 no Bom Retiro e que logo assumiu as características
de time popular, e o Palestra Itália, hoje Sociedade Esportiva Palmeiras,
fundado em 1914 por futebolistas da colônia italiana (Toledo,
1996).
Nesse mesmo ano, foi criado
o Grupo Carnavalesco Barra Funda (depois apelidado de "Camisa Verde"),
primeiro cordão carnavalesco de São Paulo. Os cordões,
um tipo de agremiação que posteriormente daria origem às
escolas de samba
, eram agrupamentos informais de vizinhos ou colegas, localizados sobretudo
nos bairros de população negra, que saíam em cortejo
pelas ruas próximas ao centro no período de Carnaval. Nas
décadas seguintes, outros cordões surgiram nos bairros próximos
ao centro: ainda na Barra Funda, o "Flor da Mocidade"; nos Campos Elíseos,
o "Desprezados"; e, no Bexiga, o "Vai-Vai".
Nos anos 20 e 30, os cordões
também realizavam uma série de outras atividades de meio
de ano que, além de preencher o lazer dos membros da agremiação,
geravam recursos para o desfile carnavalesco. Eram organizados bailes mensais
(nas próprias sedes ou em salões alugados), romarias e piqueniques
em cidades do interior paulista (como Bom Jesus de Pirapora
) e jogos de futebol de várzea. Assim, esses agrupamentos, surgidos
nos bairros negros da cidade de São Paulo e organizados em torno
de uma atividade carnavalesca, funcionaram, nas primeiras décadas
do século XX, como organizadores e promotores do lazer dos negros
paulistanos (Simson, 1989), o que parece
ter acontecido também no caso dos times de futebol:
(...) famílias
extensas começaram a se aglutinar em torno das associações
e clubes que os times organizados geraram. Embora com sedes separadas etnicamente,
estes clubes logo começaram a promover bailes aos sábados,
e estes promoveram, também, um começo de integração
interétnica (...) (Paoli
apudToledo,
1996:18).
A respeito da imbricação
entre os universos carnavalesco e futebolístico, a história
da criação do Vai-Vai, um cordão que depois se transformou
numa das maiores escolas de samba da capital, é exemplar. No começo
dos anos 30, havia no Bexiga um time de futebol amador chamado Cai-Cai,
que organizava também bailes mensais. Um grupo de rapazes do bairro
tentava, com freqüência, participar desses bailes, apesar de
não pertencerem ao time de futebol, sendo por isso barrados na porta
e encarados como penetras. Esses rapazes, cansados de serem afastados dos
bailes com a frase "Vai, vai embora!", resolveram organizar o seu próprio
grupo de dança, cuja primeira atividade realizada foi um desfile
carnavalesco. Para marcar jocosamente sua rivalidade com o outro grupo
do mesmo bairro, eles se autodenominaram "Vai-Vai".
O caso, que pode parecer
uma exceção, na verdade, segundo
Olga
von Simson, constitui a regra:
A associação
entre a atividade carnavalesca e o time de futebol de várzea parece
ter sido a regra entre as entidades paulistanas. Sempre aparecem funcionando
simultaneamente: às vezes a entidade carnavalesca surge a partir
de um agrupamento futebolístico
, em outras situações o futebol aparece como atividade complementar,
de meio de ano, da agremiação de Momo (Simson, 1989:96).
Os anos 30, em relação
a uma dinâmica nacional mais ampla, marcam simultaneamente a incorporação
e catalisação do futebol como esporte, por parte do Estado
brasileiro, e a culminação de um processo de popularização
e nacionalização do samba - resultado tanto das políticas
culturais de cunho populista do governo federal como das intrincadas alianças
entre populações negras, grupos marginalizados e elites
artísticas e intelectuais. Nesse processo, foi de fundamental importância
o papel exercido pelo advento dos meios de comunicação de
massa, principalmente da radiodifusão (Toledo,
1996;
Vianna, 1995; Reis,
1999).
Em São Paulo, foram
as rádios as primeiras instituições que, fora do âmbito
do governo, tomaram para si o encargo de patrocinar, durante o Carnaval,
concursos competitivos entre as agremiações. Os cordões
realizavam o cortejo preferencialmente em frente às sedes das emissoras
patrocinadoras, o que possibilitava uma certa proteção contra
o cerco policial que ainda reprimia sambistas e foliões, tidos
como malandros e vagabundos. Com o apoio das rádios, que estimulavam
diretamente o clima de disputa entre os grupos, e a experiência
acumulada na organização dos desfiles, os cordões,
aos poucos, foram adotando uma estrutura mais complexa e burocratizada,
originando as escolas de samba
(Moraes, 2000). No caso do futebol,
as transmissões radiofônicas de jogos e campeonatos ajudaram
a divulgar o esporte e impulsionaram a sua incipiente profissionalização
.
Nos anos 40, surgiram
no Brasil os primeiros grupos de torcedores "fiéis". Em 1942, um
funcionário federal chamado Jaime Rodrigues de Carvalho, torcedor
do Flamengo, fundou a famosa "Charanga", uma banda musical que animava
os jogos do time .
Diferentemente do que acontece nas torcidas organizadas de hoje, esse tipo
de agrupamento, nos anos 40, 50 e 60, era centrado na figura de um "torcedor-símbolo":
(...) Houve um tempo
em que chefes de torcida como Jaime R. de Carvalho, o líder da Charanga
rubro-negra, mantinham seus comandados sob uma disciplina quase severa.
O objetivo da torcida organizada era apenas o de incentivar seu time. E
do outro lado do estádio ninguém via inimigos, mas apenas
adversários que deviam ser superados não na força,
e sim na festa das bandeiras, na animação das batucadas.
Hoje Jaime de Carvalho já não tem essa ascendência
sobre sua torcida. Cansou-se (...) (João Areosa, Placar, 27 de setembro
de 1974 apud Toledo, 1996)
Segundo Luiz
Henrique de Toledo (1996), a associação
às torcidas da figura de "torcedores-símbolo" perdurou pelo
menos até o fim da década de 60. A partir de 1970, o futebol
definitivamente tornou-se um esporte de massa largamente incentivado pelo
Estado e pela mídia, extravasando domínios mais locais e
consolidando-se como "mania" nacional
. A relação do torcedor com o futebol adquiriu, então,
outros contornos. Foram criadas nesse período as principais torcidas
organizadas de São Paulo, como a Gaviões da Fiel, em 1969,
e a Camisa 12, em 1971, ambas de torcedores corinthianos; a Torcida Tricolor
Independente, do São Paulo Futebol Clube, em 1972; e a Leões
da Fabulosa, também em 1972, da Portuguesa. Enquanto o "torcedor-símbolo"
era identificado como chefe e não como presidente da torcida, as
torcidas organizadas que surgiram no final dos anos 60 e na década
de 70 eram entidades burocratizadas, estruturadas em cargos, presidência,
conselho consultivo, diretorias. Como afirma Luiz Henrique de Toledo
Se, no período anterior,
as torcidas eram personificadas naqueles torcedores-símbolo, agora
são representadas por coletividades mais autônomas, impessoais
e independentes de torcedores, que passam a se comportar de modo diverso
daqueles. Estabelecendo outras formas de relacionamento entre elas
próprias, com os dirigentes, imprensa, com o próprio futebol
profissional (Toledo, 1996:28).
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