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Aula
inaugural do Curso de Ciências Sociais da FFLCH/USP, proferida
em 10 de março de 2003
.
título é A Antropologia Urbana e os desafios da metrópole,
mas o primeiro desafio será encontrar o tom certo, pois estão
presentes alunos que acabam de ingressar no curso de Ciências Sociais,
alunos antigos, alguns que já fizeram disciplinas comigo - podem
até imaginar o tema e andamento desta aula -, além de estudantes
de pós-graduação e colegas professores. Trata-se,
por conseguinte, de um público bastante heterogêneo, com expectativas
diferentes, cabendo-me a tarefa de encontrar um fio condutor capaz de interessar
a todos a respeito da Antropologia e em especial da Antropologia Urbana.
ada
mais apropriado do que começar discutindo algumas idéias
bastante arraigadas, tanto no senso comum como no meio acadêmico,
a respeito da Antropologia. Assim, há quem pense que a Antropologia
recorta sempre, como tema de estudo, um objeto exótico, distante
ou singularizado; já em termos de posição epistemológica
ela se caracterizaria pelo relativismo, com as conseqüências
de uma supervalorização do discurso do nativo e ausência
de quadros de interpretação e análise mais gerais
e universalizantes. E quando se considera mais especialmente o trabalho
do antropólogo às voltas com questões urbanas, pesa
sobre ele um preconceito adicional, dessa feita partindo do interior da
própria Antropologia; ou seja, há uma espécie de discriminação
doméstica. E o ponto de partida dessa visão é
que a Antropologia, em sua forma clássica, praticada no contexto
das sociedades não ocidentais, desenvolveu uma reflexão própria
a respeito de temas específicos como o parentesco, mitologia, xamanismo,
rituais que, - esses sim - conformam um campo de reflexão reconhecido
e legítimo no interior das Ciências Sociais.
pergunta que se coloca diante disso é: onde entra a Antropologia
Urbana nesse cenário? Será que o estudo das sociedades e
da cultura ocidental não caberia a outros ramos das Ciências
Sociais? Qual a especificidade da chamada Antropologia Urbana? Antes de
entrar nessa discussão, cabe um lembrete de ordem histórica:
a Antropologia Urbana, apesar de muitas vezes ser pensada como um desenvolvimento
tardio da própria Antropologia, apresenta alguns antecedentes que
foram até contemporâneos àqueles da Antropologia clássica
voltada para os chamados povos primitivos. O sociólogo Robert Ezra
Park, da Escola de Chicago, refere-se a essa situação nos
seguintes termos:
Até
o presente, a Antropologia, a ciência do homem, tem-se preocupado
principalmente com o estudo dos povos primitivos. Mas o homem civilizado
é um objeto de investigação igualmente interessante,
e ao mesmo tempo sua vida é mais aberta à observação
e ao estudo. A vida e a cultura urbanas são mais variadas, sutis
e complicadas, mas os motivos fundamentais são os mesmos nos dois
casos. Os mesmos pacientes métodos de observação despendidos
por antropólogos tais como Boas e Lowie no estudo da vida e maneiras
do índio norte-americano deveriam ser empregados ainda com maior
sucesso na investigação dos costumes, crenças, práticas
sociais e concepções gerais de vida que prevalecem em Little
Italy, ou no baixo North Side de Chicago, ou no registro dos folkways mais
sofisticados dos habitantes de Greenwich Village e da vizinhança
de Washington Square em Nova York (Velho, 1987,
p. 28).
sta
citação é de 1915 e, só para estabelecer um
ponto de comparação, cabe lembrar que Os argonautas do Pacífico
ocidental, de Malinowski, foi publicado em 1922. Muitos pesquisadores -
que Ulf Hannerz (1986) denomina de os "etnógrafos
de Chicago" - seguiram essa sugestão e é bem conhecida sua
produção sobre questões tipicamente urbanas nessa
e em outras cidades norte-americanas, com repercussões mais amplas,
até mesmo entre nós, como os famosos estudos de comunidade
desenvolvidos na Escola Livre de Sociologia e Política e na então
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da USP, no final
dos anos 40.
o
entanto, em todo estereótipo há sempre uma pista a seguir,
assim como o senso comum, se elude algo, também alude a alguma coisa.
Há, certamente, um perigo a identificar. Ao tomar como objeto do
seu estudo as sociedades chamadas complexas, a Antropologia Urbana não
deixa de ser antropologia, de forma que deve encarar um desafio: manter-se
fiel ao patrimônio teórico e metodológico da disciplina,
ao mesmo tempo em que é obrigada a trabalhar com outro tipo de recorte.
E aqui está o problema: o de tentar reproduzir, principalmente no
cenário das grandes metrópoles, aquelas condições
tidas como clássicas na pesquisa antropológica: a dimensão
da aldeia, da comunidade, do pequeno grupo. Cabe notar que, se tais condições
já não se aplicam nem mesmo nas próprias pesquisas
da Etnologia indígena, continuam presentes, no imaginário,
como as características ideais da abordagem etnográfica.
No livro Na metrópole:
textos de Antropologia Urbana (Magnani & Torres,
2000), denominei essa transposição de "a tentação
da aldeia", ou seja, a tentativa de reproduzir, no contexto bastante diversificado
e heterogêneo das metrópoles, aquele lugar ideal onde supostamente
se poderia aplicar, com mais acerto, o método etnográfico.
aqui entramos nos desafios propriamente ditos da Antropologia Urbana, anunciados
no título desta aula, aos quais podemos nos aproximar na forma de
uma hipótese.
roponho
a hipótese de que a Antropologia tem uma contribuição
específica para a compreensão do fenômeno urbano, mais
especificamente para a pesquisa da dinâmica cultural e das formas
de sociabilidade nas grandes cidades contemporâneas e que, para cumprir
esse objetivo, têm à sua disposição um legado
teórico-metodológico que, não obstante as inúmeras
releituras e revisões, constitui um repertório capaz de dotá-la
dos instrumentos necessários para enfrentar novos objetos de estudo
e questões mais atuais. O método etnográfico faz parte
desse legado e um dos desafios é como aplicar essa abordagem à
escala da metrópole sem cair na "tentação da aldeia".
ara
introduzir essa questão é preciso esclarecer o que é
o método etnográfico. Inicialmente, cabe mostrar o que ele
não é, e, nesse campo, não são poucos os mal-entendidos:
às vezes, é confundido com o detalhismo, com a busca obsessiva
dos pormenores na descrição das situações de
campo; em outras, é identificado com a atitude de vestir a camisa
ou ser o porta-voz da população estudada, principalmente
quando esta é caracterizada como grupo excluído ou uma minoria;
em algumas ocasiões, é identificado com a reprodução
do discurso nativo, através da transcrição de trechos
de entrevistas nos quais, para melhor efeito de verossimilhança,
são cuidadosamente preservados alguns erros de concordância
ou sintaxe. Finalmente, para citar mais alguns desvios, o método
etnográfico é visto como um esforço em transmitir
o ponto de vista do nativo em sua autenticidade não contaminada
com visões externas, ou ainda é identificado com o trabalho
de campo em geral ou como o conjunto das técnicas e métodos
para fazer a pesquisa.
as
então o que caracterizaria a etnografia? Podemos recorrer a alguns
autores para tentar cercar essa questão. Clifford
Geertz (1978, p. 15), numa passagem bastante conhecida, afirma que
segundo a opinião dos livros-textos, praticar a etnografia é
estabelecer relações, selecionar informantes, transcrever
textos, levantar genealogias, mapear campos, manter um diário e
assim por diante. Mas não são estas coisas, as técnicas
e os processos determinados, que definem o empreendimento. O que o define
é um tipo de esforço intelectual que ele representa: um risco
elaborado para uma descrição densa.
a
continuação, Geertz vai exemplificar essa noção
primeiro com o famoso caso das "piscadelas "
e em seguida com um trecho de seu diário de campo, a interpretação
de um conflito envolvendo pastores de carneiros, um comerciante
judeu e a guarnição francesa no Marrocos.
utro
autor que ajuda a pensar essa questão um tanto fugidia do que seja
a prática etnográfica é Merleau-Ponty
(1984). No texto De Mauss a Claude Lévi-Strauss afirma que
"o emparelhamento da análise objetiva com o vivido talvez seja tarefa
mais específica da antropologia, distinguindo-a de outras ciências
sociais como a ciência econômica e a demografia". E prossegue,
tirando uma conseqüência surpreendente:
Claro
que não é possível, nem necessário, que o mesmo
homem conheça por experiência todas as verdades de que fala.
Basta que tenha, algumas vezes e bem longamente, aprendido a deixar-se
ensinar por uma outra cultura pois, doravante, possuí um novo órgão
de conhecimento, voltou a se apoderar da região selvagem de si mesmo,
que não é investida por sua própria cultura e por
onde se comunica com as outras (Idem,
p. 199, 200).
,
finalmente, uma citação de Lévi-Strauss
(1991, p. 415-416):
É
por uma razão muito profunda, que se prende à própria
natureza da disciplina e ao caráter distintivo de seu objeto, que
o antropólogo necessita da experiência do campo. Para ele,
ela não é nem um objetivo de sua profissão, nem um
remate de sua cultura, nem uma aprendizagem técnica. Representa
um momento crucial de sua educação, antes do qual ele poderá
possuir conhecimentos descontínuos que jamais formarão um
todo, e após o qual, somente, estes conhecimentos se "prenderão"
num conjunto orgânico e adquirirão um sentido que lhes faltava
anteriormente.
om
base nas observações desses autores e de muitos outros antropólogos
que sempre refletiram sobre seu trabalho de campo, é possível
concluir, de uma maneira mais sintética, que a etnografia é
uma forma especial de operar em que o pesquisador entra em contato com
o universo dos pesquisados e compartilha seu horizonte, não para
permanecer lá ou mesmo para captar e descrever a lógica de
suas representações e visão de mundo, mas para, numa
relação de troca, comparar suas próprias representações
e teorias com as deles e assim tentar sair com um modelo novo de entendimento
ou, ao menos, com uma pista nova, não prevista anteriormente.
sse
é um insight, uma forma de aproximação própria
da abordagem etnográfica, que produz um conhecimento diferente do
obtido por intermédio da aplicação e análise
de, digamos, 300 questionários ou de outras tantas entrevistas.
Trata-se de um empreendimento que supõe outro tipo de investimento,
um trabalho paciente e continuado ao cabo do qual e em algum momento, como
mostrou Lévi-Strauss, os fragmentos se ordenam, perfazendo um significado
até mesmo inesperado.
om
o propósito de tornar mais concreta e palpável essa perspectiva,
vou trazer alguns exemplos; não serão os achados dos grandes
mestres, nos textos clássicos, pois vocês terão todo
o curso para descobri-los. Ficarei num âmbito mais doméstico,
das minhas próprias pesquisas e dos meus alunos.
uando
comecei a pesquisa que serviu de base para o doutorado, sobre modalidades
de lazer, cultura popular e entretenimento na periferia de São Paulo,
a pergunta com a qual fui a campo estava fundamentada em leituras de Gramsci,
Foucault e Lévi-Strauss, sobre as relações entre ideologia
e cultura. No contexto dos estudos sobre os movimentos sociais urbanos
e a emergência de novos atores sociais, questionava-se se a cultura
popular era fator de libertação ou se era mero reflexo da
ideologia dominante. Assim, com base nessa discussão, saí
a campo para realizar a pesquisa etnográfica e, bem, não
vou aqui relatar essa pesquisa
, mas posso dizer que fui com uma determinada questão e a resposta
que obtive dos moradores, surpreendente, apontou para outra direção.
m
poucas palavras, a resposta foi a seguinte: não é o conteúdo
da cultura popular, do entretenimento ou do lazer o que importa, mas os
lugares onde são desfrutados, as relações que instauram,
os contatos que propiciam. Mais do que a suposta capacidade de liberação
da cultura popular ou o poder da ideologia dominante sobre tradições
culturais populares, surgia uma questão nova: a da própria
existência de uma rica rede de lazer e entretenimento - e suas modalidades
de fruição - na periferia urbana da cidade de São
Paulo, paisagem habitualmente descrita como uma realidade cinzenta, indiferenciada
(hoje se diria o território da exclusão, que é uma
outra forma de reduzir as diferenças a um denominador comum, a um
fator de homogeneização).
a
verdade, o olhar paciente do etnógrafo terminou apreendendo que
há, sim, classificações, regras, diferenciações.
Assim, foi possível descobrir que, naquele universo aparentemente
monótono, havia uma extensa rede de lazer e diferenciações
na forma de, por exemplo, praticá-lo: havia lazer de homens solteiros
e casados, de mulheres e moças, de crianças e adultos; e
também modalidades desfrutadas em casa e fora de casa, e neste último
caso ainda era possível distinguir "fora de casa, mas no pedaço".
Foi então que surgiu essa noção de pedaço,
uma idéia nativa mas que terminou se transformando numa categoria
mais geral na medida em que permitiu discutir e se integrar em outros esquemas
conceituais. Em diálogo com a conhecida dicotomia "rua versus casa"
de Roberto Da Matta (1979), revelou um outro domínio de relações:
enquanto a casa é o domínio dos parentes e a rua, o dos estranhos,
o pedaço evidencia outro plano, o dos "chegados" que, entre a casa
e a rua, instaura um espaço de sociabilidade de outra ordem. Assim
se desvelou um campo de interação em que as pessoas se encontram,
criam novos laços, tratam das diferenças, alimentam, em suma,
redes de sociabilidade numa paisagem aparentemente desprovida de sentido
ou lida apenas na chave da pobreza ou exclusão. Foi realmente um
achado, não previsto pelas hipóteses do projeto original
da pesquisa, pois surgiu no contato com os pesquisados, foi sugerido por
eles, e só se transformou numa categoria de alcance mais geral quando
contrastado com outro esquema conceitual e aplicado em novos contextos,
diferentes daquele em que fora encontrado.
 utro
exemplo vem da experiência de campo de um ex-aluno, hoje professor
de Antropologia na Universidade Federal de São Carlos. Como ocorria
com vários estudantes de graduação, na disciplina
"A pesquisa de campo em Antropologia", Luiz Henrique escolheu um botequim,
para seu exercício etnográfico - sempre está presente
a possibilidade de pôr em prática a observação
participante... O tema era sobre o tempo livre e era preciso descobrir
as concepções que os usuários tinham sobre lazer.
A resposta obtida foi: "não, isto aqui não é lazer".
Mas, como? O pesquisador estava todo preparado com as teorias do lazer
e do tempo livre e o informante diz que aqueles momentos passados no botequim,
no final da tarde, não constituíam lazer. Que eram, então?
"Higiene mental", foi a inesperada resposta. Tal perspectiva não
cabia, não se encaixava nas hipóteses; no entanto, ofereceu
uma pista: aqueles momentos passados no botequim, em companhia de colegas
após a jornada de trabalho, antes de voltar para casa, eram vividos
como uma passagem entre o mundo do trabalho e o mundo doméstico.
Então fazia sentido falar em higiene mental: aquelas pessoas eram
trabalhadores que ainda traziam na roupa, no corpo, nos temas das conversas,
as marcas dessa condição; a passagem pelo botequim era encarada
como uma espécie de "descontaminação" antes da volta
ao convívio com a família.
udo
bem, mas afinal o que eles consideravam lazer? "Lazer é quando eu
me arrumo e vou com minha mulher a um barzinho ou, no fim de semana, quando
vou passear na USP" - evidentemente quando o campus era aberto para lazer
da população, nos idos de 1989. De certa maneira, o entrevistado,
ao mostrar de que forma usa seu tempo livre, deu uma pista para pensar
as diferenças no modo de entendimento do lazer. Não se trata
de optar por uma visão mais autêntica ou verdadeira, mas estar
atento para nuanças, modulações, princípios
de classificação diferentes, a partir dos arranjos dos próprios
atores. Essas pistas podem ser seguidas, aprofundadas e permitem enriquecer,
no caso, uma compreensão mais ampla do que seja o lazer. Mas não
vou me deter em exemplos antigos; tenho uma experiência mais recente,
conhecida por alguns de vocês, pois já as relatei em algumas
aulas. Trata-se de uma experiência até certo ponto inusitada
para os moldes do trabalho desenvolvido nesta faculdade. Há um ano
mais ou menos fui convidado pelo professor Leland McCleary, do Departamento
de Letras Modernas, para participar de uma pesquisa interdisciplinar juntamente
com as áreas de Lingüística e História, e o objetivo
era um estudo sobre a comunidade surda de São Paulo e sua forma
de comunicação, a língua brasileira de sinais - Libras.
Leland já tinha ouvido falar do meu trabalho a respeito de sociabilidade,
de lazer, das categorias de pedaço, trajeto e achou que a Antropologia
poderia contribuir para a interdisciplinaridade, juntamente com os enfoques
da Lingüística sobre as questões mais diretamente ligadas
com a língua e da História, sobre narrativas e histórias
de vida dos surdos.
omo
entraria a Antropologia? Talvez pelo lado da sociabilidade, detectando
em que lugar eles se reúnem, como se comportam nos momentos de encontro.
Na verdade não estava muito clara essa participação,
mas mesmo assim insistiu. De minha parte, ainda um pouco desconfiado, aceitei:
vamos ver o que se poderia fazer num campo tão diferente de minha
área de atuação. Minha experiência com os surdos
era como a da maioria das pessoas, a de alguma vez ter visto duas pessoas
conversando por meio de sinais, sem prestar maior atenção
- o olhar não treinado não vai além do que o senso
comum registra.
nfim,
propus participar da equipe partindo daquilo que sabia fazer e que era
tentar identificar os lugares de encontro e lazer dessas pessoas. Com alguns
alunos definimos uma estratégia de pesquisa e fomos a campo fazer
nosso estudo etnográfico, aproveitando o momento - era o mês
de junho com suas festas características -, o que não deixava
de dar um toque especial para a escolha: em festa junina de surdo, haveria
música?
primeira experiência foi numa festa de rua no bairro do Tatuapé,
organizada pela Adefav (Associação para Deficientes da Áudio
Visão), uma organização que trata não somente
de surdos, mas também de deficientes visuais. A organização
da festa não diferia muito das festas desse gênero na cidade,
quando os vizinhos fecham a rua e a transformam momentaneamente em seu
pedaço, mas que logo se dissolve, ao término da comemoração.
Barraquinhas de comida e folguedos típicos, quadrilha, com a presença
de surdos e também de parentes, amigos e professores ouvintes: enfim,
foi uma festa do ciclo junino, parecida, em termos de estrutura, às
muitas realizadas nessa época por instituições, escolas,
grupos de vizinhos etc.
utra
festa a que compareci, duas semanas depois, foi realizada nas dependências
do Instituto Santa Terezinha, no bairro da Saúde. Foi uma experiência
diferente: entrei na festa e de repente me vi no meio de cerca de dois
mil surdos - eu nunca tinha visto tantos surdos juntos - e ali eu é
que era o estranho! Não falava como eles, não entendia o
que diziam, sentia-me caminhando por uma tribo cuja língua eu não
conhecia, cujos costumes me eram alheios. Sequer sabia qual era a etiqueta:
como é pedir desculpas, na língua de sinais, quando a gente
esbarra em alguém? No início, essa dificuldade causou um
certo constrangimento, mas logo comecei a circular no meio deles e a apreciar
outras formas de contato e sociabilidade que, se eu não podia decodificar
através daquela língua, porque eu não a dominava,
podiam ser entendidas por meio de outros códigos.
ra
a experiência etnográfica que todos querem no primeiro momento:
entrar e mergulhar numa situação nova, deixando-se impregnar
por aqueles estímulos e procurando familiarizar-se com todos aqueles
significados. Num determinado momento subi numa arquibancada e, olhando
de cima, o que presenciei foi um mar de mãos se agitando... Então
me ocorreu que aquele espetáculo seria o equivalente ao barulho,
se fosse uma festa de ouvintes. Nesse momento ficou mais forte a impressão
de estar num lugar em que eu era a minoria e, no entanto, não deixei
de circular até encontrar um colega da equipe de pesquisa, um intérprete
da língua de sinais, e um outro conhecido com os quais pude finalmente
compartilhar algumas sensações ali vividas.
ntão
veio a terceira experiência, que serviu de contraponto a essas duas.
Animado com as escolhas anteriores, resolvi ir a outra festa, a respeito
da qual tinha ouvido falar numa das reuniões de trabalho da equipe.
Era a Festa do Cowboy, programada na
Associação dos Surdos de São Paulo, num sobrado no
parque Jabaquara: comprei o ingresso e, uma vez lá dentro, consegui
entrar em contato com uma pessoa que, por meio da leitura labial, entendeu
minha pergunta e confirmou que, sim, ali era a festa.
usquei
um lugar, sentei-me esperando para ver o que acontecia, havia pouca gente
ainda - todos eles conversando na sua língua de sinais - e eu lá,
sentado numa cadeira, esperando alguma coisa acontecer... que, por favor,
chegasse um intérprete ou algum conhecido, pois não estava
entendendo nada e não podia circular porque o ambiente era pequeno.
Cada vez chegavam mais surdos, e eles, sim, se conheciam, formando grupinhos
animados; divertiam-se muito, riam, comunicavam-se e eu absolutamente alheio,
sem a menor a chance não só de entender o que diziam, mas
de provocar algum contato: sentia-me fora de seu foco visual, era percebido
num relance e imediatamente classificado como de fora daquele pedaço,
impossibilitado de ser integrado por não dominar o código
de reconhecimento e comunicação. A situação
de desconforto foi num crescendo até que chegou um momento, depois
de quase três horas de isolamento, de silêncio, de não
entender, de não poder participar, em que resolvi ir embora, absolutamente
frustrado com essa experiência, tão diferente das duas anteriores.
Mas, chegando a casa e, pondo em prática uma das regras da pesquisa
etnográfica que é rever e passar a limpo as anotações
do caderno de campo, percebi que eles fizeram comigo o que normalmente
os ouvintes fazem com eles o tempo todo: na contexto dos ouvintes são
minoria absoluta, tratados como deficientes e eu pude vê-los numa
situação inversa. Foi uma pista interessante constatar
que comportamento e interação dependiam do espaço
em que ocorriam e a primeira diferença era entre espaço público
e privado. No âmbito do espaço doméstico, por exemplo,
os surdos (quando filhos de pais ouvintes) são considerados como
deficientes auditivos e as famílias muitas vezes procuram esconder
o fato, minimizá-lo, muitas tentam ensiná-los a falar através
do longo e trabalhoso processo de oralização, em sessões
de fonoaudiologia. No espaço público, ocorre uma mudança.
Há instituições que continuam esse esforço
de inclusão, de integrar o surdo no mundo dos ouvintes por meio
do ensino, da profissionalização. No entanto, nessas instituições
- pedagógicas, religiosas, sociais, dentre outras -, os surdos se
encontram e desenvolvem espaços próprios e mais intensos
de contato e, principalmente, aprimoram seu principal elemento distintivo:
a língua de sinais. Ou seja, o espaço fora de casa não
é homogêneo, permite gradações, apropriações
seletivas.
ssim,
numa mancha de lazer eles podem estabelecer trocas mais amplas, não
só com os surdos mas com os professores, com os funcionários,
com os parentes, com os amigos; já no pedaço deles estão
exercitando sua língua e cultura próprias e quem não
é do pedaço não entra e se entrar tem de sair, porque
essa é a regra básica num lugar onde o código, fundamental,
separa os de dentro e os de fora. Nesses casos, diferentemente do âmbito
do privado, a falta torna-se marca e eles se reconhecem como pessoas com
uma forma diferente de entrar em contato. Então, se o espaço
público é o lugar onde esse grupo adquire visibilidade como
dotado de uma particular modalidade de comunicação e de cultura,
não se trata do espaço público em geral - esse espaço
é modulado e é preciso treinar o olhar para ver as diferentes
formas de apropriação. Dependendo da forma em que se dá
essa apropriação, a dinâmica se torna diferente: a
dinâmica deles no seu pedaço era uma, numa mancha do lazer
era outra e, na festa de rua, outra.

ram
os mesmos personagens, mas, na verdade, a dinâmica era outra. Foi
possível perceber que não se podia acoplar a paisagem urbana
a uma só modalidade de espaço público, mas era preciso
distinguir as formas em que esse espaço público se apresentava
e era trabalhado pelos usuários, o que redundava em diferentes dinâmicas
urbanas e de sociabilidade. Assim, a equipe começou a observar e
estudar a presença e participação dos surdos nas missas
católicas, nos cultos evangélicos, em praças de alimentação
de shopping centers, enfim, numa série de pontos de encontro. Essas
pessoas, que estavam submersas numa sociedade majoritária de ouvintes
e que eventualmente chamavam atenção no ônibus, nas
ruas, quando em encontros de dois a dois, de repente adquirem não
só visibilidade, mas também cidadania - com direito a exercer
sua diferença.
sse
tema apresentava outras implicações de interesse para a análise
antropológica, como a questão de se a surdez é uma
falta, uma deficiência da capacidade auditiva com determinadas consequências
no plano da comunicação e socialização ou se,
entendida como uma condição especial do aparato cognitivo,
com ênfase em outra modalidade de simbolização, supõe
uma forma peculiar de estruturação no plano da cultura. Trata-se
de uma faceta das intrincadas relações entre natureza e cultura,
e me veio à mente o conhecido texto de Robert Hertz,
A preeminência da mão direita: um estudo sobre a polaridade
religiosa ([1909] 1980).
eixando
de lado, por ora, essa linha de reflexão, é possível,
com proveito, ficar no campo da Antropologia Urbana e pensar nas regularidades
de uso do espaço e de comportamento por parte dos surdos: eles,
no trato com a cidade, não se mostram dispersos, não estão
submersos no caos urbano, mas se apropriam de forma tal que podem não
só viver nela, como ainda reconhecer seus iguais e com eles
estabelecer estratégias próprias de vida, de trabalho, de
aprendizado, de encontros. E isso é possível porque a cidade,
principalmente na escala da metrópole, possibilita que estabeleçam
seus trajetos, estruturem seus circuitos, façam escolhas.
exemplo do estudo com os surdos permite relativizar certas noções
generalizadoras como a deficiência, a exclusão etc. como fatores
explicativos de comportamentos porque, olhando-se mais de perto a realidade
designada por essas noções, é possível perceber
as nuanças e sutilezas de uma prática social que, para além
dos fragmentos que se apresentam para o olhar não treinado, exibem
algum tipo regularidade e ordenamento.
o
entanto, a Etnografia Urbana não se encerra na descrição
de alguns locus privilegiados de sociabilidade, de encontro e de trocas,
na cidade. George Marcus (1991), no texto "Identidades
passadas, presentes e emergentes: requisitos para etnografias sobre a modernidade
no final do século XX ao nível mundial", discute uma
proposta que ele chama de Etnografia modernista, para diferenciá-la
do que denomina de Etnografia realista. Nesse artigo, Marcus propõe
problematizar o conceito de comunidade, tradicionalmente referida a uma
localidade específica e a uma identidade determinada: é preciso
dissolver as conotações de solidez e homogeneidade implicadas
nessa relação, já que a formação de
identidades depende de atividades desenvolvidas em muitos locais.
essa
mesma direção Marshall Sahlins (1997)
- no artigo "O 'pessimismo sentimental' e a experiência etnográfica:
porque a cultura não é um 'objeto' em via de extinção"
-, com base em várias pesquisas, mostra o campo da Etnografia no
mundo contemporâneo e, em vez do enfoque tradicional, que reduz as
sociedades do Pacífico, por exemplo, à insignificância
de sua condição de insularidade, mostra que o mar não
separa esses povos, ao contrário, ele os une, estabelece um contexto
de troca muito mais amplo. Ademais, as narrativas tradicionais de viagens,
de retornos e outras evidenciam que essa não é uma situação
nova. Mais do que fixar a Etnografia apenas no contexto mínimo da
aldeia, que é onde o enfoque costumeiro faz a observação,
a Etnografia contemporânea deve levar em conta um fluxo muito mais
amplo. Sahlins cita vários estudos sobre os habitantes de Tonga
e de Samoa, por exemplo, e mostra que esses povos não podem ser
tomados, no mundo globalizado, como comunidades separadas entre os que
ficaram nas aldeias de origem, empobrecidos, levando a vida tradicional
e os que migraram em busca de trabalho nos grandes centros urbanos. Os
samoanos que estão em Nova Iorque e os que ficaram nas ilhas fazem
parte de uma mesma cultura e é nesse contexto, complexo, que se
deve buscar o entendimento do que muda e do que se mantém.
ão
é preciso ir muito longe para apreciar esse processo; podemos ficar
com alguns exemplos domésticos - e, nesse sentido, quem aqui não
conhece o Morro do Querosene
onde, sob a direção de Tião Carvalho, o bumba-meu-boi
de sotaque maranhense implantou-se e deu o tom ao bairro? Muitos alunos
da graduação fizeram seus exercícios de Etnografia
sobre esse folguedo - mais recentemente Maurício Pascuet - e com
base neles pode-se perceber que não se entende o que ocorre no Morro
do Querosene só fazendo uma Etnografia nessa localidade, sem levar
em conta, por exemplo, São Luís do Maranhão. Há
um contexto de trocas, um vai e vem constante e esse bumba-meu-boi não
é nem maranhense nem paulistano.
uem,
também, já não ouviu falar dos índios pankararus,
moradores da favela Real Parque, no bairro do Morumbi? Como mostra Priscila
Mata em sua pesquisa, não se pode considerá-los pobres favelados
ou índios desaculturados, pois, sem perder os vínculos com
seus parentes de Pernambuco, estabeleceram um eixo entre a aldeia e a metrópole.
E, ao longo desse eixo, sustentam um fluxo constante de trocas, surgindo
novas experiências, novos arranjos.
uem,
também, já não ouviu falar do "forró universitário"
(talvez até tenha freqüentado algum salão), criado no
eixo Itaúnas
/ rua Cardeal Arcoverde, no bairro de Pinheiros? Como mostra Daniela Amaral
em sua pesquisa, trata-se de uma forma de entretenimento desenvolvida por
jovens de classe média em contato com elementos da cultura nordestina.
s
trocas entre sertão e metrópole também foram estudadas
por Rosani Rigamonte
(2001), que inicialmente pesquisou o Centro de Tradições
Nordestinas no bairro do Limão e, para entender o que se passava
nesse espaço, teve de ampliar o âmbito da Etnografia até
as pequenas cidades do interior baiano, destino obrigatório da cíclica
revoada de nordestinos, por ocasião das festas juninas. A distância
entre esses dois pólos, metrópole e sertão, não
é preenchida apenas pelas lembranças, pela música,
pela saudade, mas por um fluxo intenso e muito concreto de objetos, mercadorias,
correspondência, dinheiro, sustentado por um sistema semiclandestino
mas seguro - porque fundado em laços de lealdade - de transporte
e comunicação. Diferentemente do que ocorria nos primeiros
tempos do processo migratório, que significava uma ruptura entre
o pólo de expulsão e os centros urbanos de chegada, com separação
entre membros da família, agora esses pólos estão
em contato permanente, são simultâneos e de suas trocas surgem
permanentemente novos arranjos, estratégias e soluções.
ão
apenas três exemplos de pesquisas de alunos, escolhidas no campo
das relações entre a cultura nordestina e o contexto da metrópole;
que dizer de outros temas e recortes como o futebol de várzea, as
modalidades de cultura e entretenimento de jovens em suas diversas cenas
(hardcore, punk, straight-edge, góticos, hip-hop, rappers, dentre
outros), as formas de religiosidade (carismáticos, grupos gospel,
neo-esotéricos, dentre tantos outros), experiências comunitárias,
ONGs, esportes radicais, torcidas organizadas, moradores de rua, propostas
de renovação urbana, enfim, um sem-número de objetos
de estudo que, aparentemente singulares, limitados ou exóticos abrem
pistas para se entender não só sua lógica, mas sua
inserção na paisagem da cidade. Desde, é claro, que
se saiba como fazer as perguntas pertinentes.
ais
são as possibilidades, dentre outras, que se abrem para a Antropologia
Urbana. E, em vez de uma reduplicação do discurso corrente
sobre o decantado caos urbano, um olhar atento - que chamei, em outra ocasião,
de olhar "de perto e de dentro" (Magnani,
2002) - vai captar arranjos, mecanismos e saídas surpreendentes
dos atores sociais e que não são visíveis a um olhar
meramente de fora. É dessa forma que a metrópole, na sua
diversidade e na sua escala e também nos seus conflitos e problemas
específicos, torna-se inteligível, pois esse olhar parte
das experiências daqueles que nela vivem, abrindo pistas para o entendimento
de sua lógica e de sua inserção em contextos mais
gerais.
sse
é o toque da Etnografia, na medida em que ela trabalha não
apenas aqueles arranjos específicos, forjados pelos atores numa
prática que é coletiva - seja no terreno de trabalho, do
lazer, da religiosidade e outros -, mas também está atenta
e leva em conta suas representações, de forma a elaborar
um modelo explicativo mais abrangente.
ssa
troca contínua faz da Etnografia uma marca característica
da produção antropológica, buscando modelos compreensivos
como resultado de um trabalho específico que transita entre a teoria
dos nativos - porque eles lá têm a sua teoria, têm as
suas explicações que orientam a sua prática e dão
sentido a seu mundo - e as teorias e as explicações do pesquisador,
porque ele também tem seu arcabouço teórico. A novidade,
quando ocorre - e depende do investimento do trabalho e de alguns "imponderáveis"
do próprio campo - é a descoberta de um modelo novo, ou ao
menos de uma pista inesperada que leve a uma reflexão inovadora.
Essa é a sua proposta que deixa longe, certamente, aquelas idéias
do senso comum para as quais a Antropologia está presa ao exotismo,
ao estudo de caso, ao detalhe sem fim, ao ponto de vista limitado do nativo.
ssa
perspectiva de trabalho supõe, evidentemente, um treinamento. Não
está pronta em manuais de pesquisa, mas surge como resultado de
um investimento em muitas frentes - o conhecimento da bibliografia teórica
de base, a leitura de etnografias clássicas e, imprescindível,
a experiência direta de campo. No entanto, a formação
do etnógrafo não significa um enclausuramento no interior
de seus textos e métodos: é preciso estar aberto à
reflexão feita em outros campos, e não só no âmbito
de nosso curso, das Ciências Sociais, porém, deve incluir
outros parceiros. Mas começa em casa, lógico; o que o antropólogo
faz em campo - escutar o outro, entrar em contato com suas representações,
reconhecê-lo como interlocutor - deve ser feito aqui: só assim
seu olhar estará devidamente treinado para a prática da Etnografia,
na aldeia, no campo, na metrópole. Muito obrigado.
Notas
Originalmente publicado em Tempo Social – Revista de Sociologia da USP
– vol. 15, n. 1 – maio de 2003.
O que distingue a descrição densa de uma superficial
é que esta descreve o ato de piscar como uma “rápida contração
das pálpebras”, enquanto a primeira distingue as diferentes estruturas
significantes envolvidos nesse ato: pode ser um mero tique nervoso, um
sinal de cumplicidade, uma forma de comunicação, uma
imitação, etc.
O resultado da pesquisa encontra-se em Magnani (1998).
Vila Pirajussara, no bairro do Butantã.
Litoral norte do Espírito Santo, divisa com Bahia.
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Publicado
on-line em agosto de 2005
 
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