| Observação
Participante
Como
em todas as sociedades e culturas, a “cultura cibernética” do mundo
virtual, criou vários tipos de rituais, jargões e códigos
fazendo com que a inserção do antropólogo nesta “sociedade
virtual” implique o aprendizado destes códigos (um deles chamado
Netiqueta - etiqueta da Internet, que determina o que é adequado
e o que não é na troca de mensagens em tempo real ou não)
e do “internetês”. É preciso aprender a usar programas
específicos para fazer coisas, como enviar via modem, para alguém,
um arquivo que você comenta que tem e o outro lhe pede, pois não
é educado pedir o endereço residencial de alguém para
enviar textos de papel. E logo será necessário aprender a
anexar arquivos em mensagens, a conectar seu computador com o do informante
diretamente, a usar o TELNET , FTP e a conviver no mundo virtual
em termos de suas categorias, aprendendo a fazer o que fazem todos, como
em qualquer processo de observação participante. Os internautas
são imensamente pacientes em ensinar a lidar com o meio técnico-virtual.
Mas é preciso, ainda, aprender conceitos como os de privacidade
na Internet, tempo na Internet, expectativas pessoais.
Para
algumas pessoas, apenas o relacionamento virtual pode não ser suficiente,
e implicar a necessidade de algum grau de relacionamento fora da rede,
ou, como se diz na Net, IRL (In Real Life), mantendo contatos pessoais
com seus interlocutores, especialmente se isso faz parte dos hábitos
do grupo com os quais se relaciona. O pesquisador deve considerar se isto
é conveniente ou não no caso de sua pesquisa, lembrando que
este procedimento pode ser dispendioso e até impraticável,
considerando-se que as pessoas que se encontram na Net nem sempre estão
no mesmo lugar que as outras (a menos que o grupo que se estuda seja local).
No caso de minha pesquisa, um encontro com os informantes da Net seria
impossível sem grandes deslocamentos de todos, pois alguns eram
do Pará, outros de Amazonas, de Pernambuco, Santa Catarina, Goiás
e nenhum de São Paulo, cidade onde vivo.
Um
dado interessante é que, em muitos casos, na Net, é possível
observar sem participar, como nas listas e chats públicos (como
lurker, espreitador, categoria vista com desconfiança, embora quase
sempre ignorada). No entanto, o pesquisador ficará restrito, não
dominará o código facilmente e provavelmente não entenderá
o que constitui essa cultura internética tão cheia de novos
modos de relacionamentos. No entanto, a pura observação
pode uma ser uma estratégia a ser conjugada com outras, de participação
direta. Observa-se uma lista, por exemplo, e participa-se de um chat com
os membros do grupo estudado.
Citação
das fontes
Um
problema que se colocava até bem pouco tempo, com relação
às fontes de dados da Internet, dizia respeito a como citá-los.
Nem tanto com relação aos sites, cujo URL é facilmente
citável, mas à autoria dos textos que neles aparecem, poucas
vezes assinados. Outro caso é o de como citar informações
colhidas em mailings lists, BBS, mensagens pessoais. Como indicar a autoria
de fotos, sons, filmes ou animações quando elas não
estão assinadas? E como lidar com o problema da retirada de uma
certa página do ar?
Já
existem várias propostas, na própria Net, de como citar fontes,
produzidas por profissionais competentes e parece haver consenso sobre
a maioria dos critérios. Entre os trabalhos de profissionais brasileiros
que indicam como citar estas fontes está o de Gevilácio
Moura que elaborou uma proposta de normas para a Associação
Brasileira de Normas Técnicas. Entre outras coisas, Moura recomenda
que se grave e imprima as páginas, anote-se o endereço e
a data em que foram capturadas, no caso das páginas de sites ).
Uma solução utilizada por mim foi a de enviar um e-mail ao
responsável pela página solicitando as fontes. Para minha
surpresa, poucas vezes eles mesmos sabiam quem era o autor da foto e sim
a quem pertencia a cópia digitalizada. Por esta razão fui
autorizada a usá-las apenas na tese e não em futuras publicações
em papel.
Os
informantes dos IRCs e outros chats podem ser citados normalmente, desde
que consultados sobre se desejam isto e estejam sabendo com que finalidade
vai ser usada sua fala. Várias outras propostas de normatização
de fontes da Internet podem ser encontradas na própria rede, usando-se
os mecanismos de busca. A questão é, entretanto, uma das
mais importantes e discutidas pelos acadêmicos, cujo patrimônio
consiste, exatamente, nas idéias e publicações. Ao
mesmo tempo em que reconhece-se a extrema importância da publicação
em hipertexto e multimídia, da ampla divulgação das
idéias, do enriquecimento das apresentações, pensa-se
como evitar plágios, como obter direitos autorais e na perda da
autoridade profissional, inclusive:
"On-line
instructional material and research resources will counteract the hierarchical
professor-student relationship, and faculty will become mentors rather
than authorities. Furthermore, the limitless potential for electronic distribution
will make it easier for younger scholars and even graduate students to
publish. In sum, a new social order will emerge marked by egalitarianism
and collaborative scholarship" (Schwimmer,
1996:566).
Como
se vê, se a coleta de dados e as “etnografias” podem se valer de
modo extremamente positivo da riqueza de informações existentes
na rede mundial Internet e constituir uma técnica viável
para pesquisas antropológicas, as várias dimensões
das pesquisas, abordagens, dos novos modos de publicação
e mesmo suas influências sobre as carreiras do pesquisadores e dos
modos de se aprender antropologia precisam começar a ser pensados
a fim de se tornar esta prática legítima, eficiente, socialmente
positiva e ética.
Bibliografia
(clique
o botão voltar ou back donavegador para retornar ao ponto de leitura)
Anderson,
Ronald & Brent, Edward E. Jr., Computer Applications in the
Social Sciences, Philadelphia, Temple University Press, 1990.
Bernard,
H. Russell and Adam, M. Evans. "Word processing, office drudgery and the
microcomputer revolution". In Technology and Social Change, 2 ed.
H. Bernard and P. Pelto. Prospect Heights, Il Waveland Press, 1987.
Bernard,
H. Russell, Research Methods in Anthropology: Qualitative and Quantitative
Approaches, SAGE Publications, Thousand Oaks, 1994.
Chesebro,
James & Bonsall, Donald. Computer-Mediated Communication: Human
Relationships in a Computerized World, New York, Univ. of Alabama Press,
1989.
Geertz,
Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro,
Zahar, 1978.
Hudson,
Judith & Atkinson, Steven D. Women Online: Research in Women's Studies
using Online Databases, New York, Haworth Press, 1990.
Jones,
Steven G., ed.; CyberSociety: Computer-Mediated Communication and Community,
SAGE Publications, Thousand Oaks, 1995.
Moura,
Gevilácio A. C. de. “Citações e referências
a documentos eletrônicos”. [online] Disponível na Internet
via WWW. URL: http://www.elogica.com.br/users/gmoura,
25/06/1996.
Schwimmer,
B. “Anthropology on the Internet Journal” In: Chicago Current Anthropology,
Chicago, V. 37, N.3, June, 1996.
Storch,
Lea e Cozac, João Ricardo. Relações Virtuais -
O Lado Humano da Comunicação Eletrônica, Petrópolis,
Vozes, 1996.
Suler,
John. “Teaching Clinical Psychology” [online] Disponível na Internet
via WWW. URL http://www.rider.edu/users/suler/psycyber/psychspace.html
Zeitlyn,
David. “Reconstructing kinship or the pragmatics of kin talk”.In:
MAN
n. 28: 1993.Bibliografia
Publicado
originalmente em TAE - Trabalhos de Antropologia e Etnologia - Revista
Inter e Transdiciplinar de Ciências Sociais. Sociedade
Portuguesa de Antropologia, vol. 41, 3-4, Porto, 2001c.
 
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