Antropologia na Internet – Pesquisa e Campo no meio virtual - Rita Amaral
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Observação Participante

Como em todas as sociedades e culturas, a “cultura cibernética” do mundo virtual, criou vários tipos de rituais, jargões e códigos fazendo com que a inserção do antropólogo nesta “sociedade virtual” implique o aprendizado destes códigos (um deles chamado Netiqueta - etiqueta da Internet, que determina o que é adequado e o que não é na troca de mensagens em tempo real ou não) e do “internetês”. É preciso aprender a usar programas específicos para fazer coisas, como enviar via modem, para alguém,  um arquivo que você comenta que tem e o outro lhe pede, pois não é educado pedir o endereço residencial de alguém para enviar textos de papel. E logo será necessário aprender a anexar arquivos em mensagens, a conectar seu computador com o do informante diretamente, a usar o TELNET , FTP  e a conviver no mundo virtual em termos de suas categorias, aprendendo a fazer o que fazem todos, como em qualquer processo de observação participante. Os internautas são imensamente pacientes em ensinar a lidar com o meio técnico-virtual. Mas é preciso, ainda, aprender conceitos como os de privacidade na Internet, tempo na Internet, expectativas pessoais.
 

Para algumas pessoas, apenas o relacionamento virtual pode não ser suficiente, e implicar a necessidade de algum grau de relacionamento fora da rede, ou, como se diz na Net, IRL (In Real Life), mantendo contatos pessoais com seus interlocutores, especialmente se isso faz parte dos hábitos do grupo com os quais se relaciona. O pesquisador deve considerar se isto é conveniente ou não no caso de sua pesquisa, lembrando que este procedimento pode ser dispendioso e até impraticável, considerando-se que as pessoas que se encontram na Net nem sempre estão no mesmo lugar que as outras (a menos que o grupo que se estuda seja local). No caso de minha pesquisa, um encontro com os informantes da Net seria impossível sem grandes deslocamentos de todos, pois alguns eram do Pará, outros de Amazonas, de Pernambuco, Santa Catarina, Goiás e nenhum de São Paulo, cidade onde vivo.
 

Um dado interessante é que, em muitos casos, na Net, é possível observar sem participar, como nas listas e chats públicos (como lurker, espreitador, categoria vista com desconfiança, embora quase sempre ignorada). No entanto, o pesquisador ficará restrito, não dominará o código facilmente e provavelmente não entenderá o que constitui essa cultura internética tão cheia de novos modos de relacionamentos. No  entanto,  a pura observação pode uma ser uma estratégia a ser conjugada com outras, de participação direta. Observa-se uma lista, por exemplo, e participa-se de um chat com os membros do grupo estudado.
 
 

Citação das fontes

Um problema que se colocava até bem pouco tempo, com relação às fontes de dados da Internet, dizia respeito a como citá-los. Nem tanto com relação aos sites, cujo URL é facilmente citável, mas à autoria dos textos que neles aparecem, poucas vezes assinados. Outro caso é o de como citar informações colhidas em mailings lists, BBS, mensagens pessoais. Como indicar a autoria de fotos, sons, filmes ou animações quando elas não estão assinadas? E como lidar com o problema da retirada de uma certa página do ar?
 

Já existem várias propostas, na própria Net, de como citar fontes, produzidas por profissionais competentes e parece haver consenso sobre a maioria dos critérios. Entre os trabalhos de profissionais brasileiros que indicam como citar estas fontes está o de Gevilácio Moura que elaborou uma proposta de normas para a Associação Brasileira de Normas Técnicas. Entre outras coisas, Moura recomenda que se grave e imprima as páginas, anote-se o endereço e a data em que foram capturadas, no caso das páginas de sites ). Uma solução utilizada por mim foi a de enviar um e-mail ao responsável pela página solicitando as fontes. Para minha surpresa, poucas vezes eles mesmos sabiam quem era o autor da foto e sim a quem pertencia a cópia digitalizada. Por esta razão fui autorizada a usá-las apenas na tese e não em futuras publicações em papel.
 

Os informantes dos IRCs e outros chats podem ser citados normalmente, desde que consultados sobre se desejam isto e estejam sabendo com que finalidade vai ser usada sua fala. Várias outras propostas de normatização de fontes da Internet podem ser encontradas na própria rede, usando-se os mecanismos de busca. A questão é, entretanto, uma das mais importantes e discutidas pelos acadêmicos, cujo patrimônio consiste, exatamente, nas idéias e publicações. Ao mesmo tempo em que reconhece-se a extrema importância da publicação em hipertexto e multimídia, da ampla divulgação das idéias, do enriquecimento das apresentações, pensa-se como evitar plágios, como obter direitos autorais e na perda da autoridade profissional, inclusive:
 
 

"On-line instructional material and research resources will counteract the hierarchical professor-student relationship, and faculty will become mentors rather than authorities. Furthermore, the limitless potential for electronic distribution will make it easier for younger scholars and even graduate students to publish. In sum, a new social order will emerge marked by egalitarianism and collaborative scholarship" (Schwimmer, 1996:566).

Como se vê, se a coleta de dados e as “etnografias” podem se valer de modo extremamente positivo da riqueza de informações existentes na rede mundial Internet e constituir uma técnica viável para pesquisas antropológicas, as várias dimensões das pesquisas, abordagens, dos novos modos de publicação e mesmo suas influências sobre as carreiras do pesquisadores e dos modos de se aprender antropologia precisam começar a ser pensados a fim de se tornar esta prática legítima, eficiente, socialmente positiva e ética.
 

 

Bibliografia (clique o botão voltar ou back donavegador para retornar ao ponto de leitura)

Anderson, Ronald &  Brent, Edward E. Jr., Computer Applications in the Social Sciences, Philadelphia,  Temple University Press, 1990.
Bernard, H. Russell and Adam, M. Evans. "Word processing, office drudgery and the microcomputer revolution". In Technology and Social Change, 2 ed. H. Bernard and P. Pelto. Prospect Heights, Il Waveland Press, 1987.
Bernard, H. Russell, Research Methods in Anthropology: Qualitative and Quantitative Approaches, SAGE Publications, Thousand Oaks, 1994.
Chesebro, James & Bonsall, Donald. Computer-Mediated Communication: Human Relationships in a Computerized World, New York, Univ. of Alabama Press, 1989.
Geertz, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro, Zahar, 1978.
Hudson, Judith & Atkinson, Steven D. Women Online: Research in Women's Studies using Online Databases, New York, Haworth Press, 1990.
Jones, Steven G., ed.; CyberSociety: Computer-Mediated Communication and Community, SAGE Publications, Thousand Oaks, 1995.
Moura, Gevilácio A. C. de. “Citações e referências a documentos eletrônicos”. [online] Disponível na Internet via WWW. URL: http://www.elogica.com.br/users/gmoura, 25/06/1996.
Schwimmer, B. “Anthropology on the Internet Journal” In: Chicago Current Anthropology, Chicago, V. 37, N.3, June, 1996.
Storch, Lea e Cozac, João Ricardo. Relações Virtuais - O Lado Humano da Comunicação Eletrônica, Petrópolis, Vozes, 1996.
Suler, John. “Teaching Clinical Psychology” [online] Disponível na Internet via WWW. URL http://www.rider.edu/users/suler/psycyber/psychspace.html
Zeitlyn, David. “Reconstructing kinship or the pragmatics of kin talk”.In: MAN n. 28: 1993.Bibliografia

Publicado originalmente em TAE - Trabalhos de Antropologia e Etnologia - Revista Inter e Transdiciplinar  de Ciências Sociais. Sociedade Portuguesa de Antropologia, vol. 41, 3-4, Porto, 2001c.


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