| O
“Campo” Virtual
O “campo
virtual” é composto, além dos sites especializados, acadêmicos
ou paralelos, por milhões de páginas criadas por grupos de
interesse e de identidade, que se apresentam e se comunicam globalmente
através da Net. Grupos religiosos (budistas,
evangélicos, católicos, islamitas, afro-brasileiros, afro-cubanos,
protestantes históricos e outros), por exemplo, têm seus
sites na Internet e dialogam com seus fiéis e outros, mundialmente,
através da rede, que se tornou, deste modo, um novo campo e novo
meio de proselitismo, atestando a modernidade sendo absorvida até
mesmo pelas religiões mais tradicionais. Esportistas, artistas,
gays, lésbicas e bissexuais, deficientes, negros, mulheres, capoeiristas,
punks, darks, skin-heads, neonazistas, torcidas de futebol, sambistas,
roqueiros, góticos, adolescentes, naturalistas e nudistas, idosos,
pacifistas, comunistas, necrófilos, pedófilos, sadomasoquistas,
índios americanos, rastafaris, motoqueiros, corredores, e toda a
infinidade de categorias que se possa imaginar são encontráveis
na Net. Sites com a história de formação dos grupos,
dissidências, novidades etc. são também comuns dentro
de cada categoria.
Os
grupos geralmente mantêm também, além de suas páginas,
listas de discussões (mailing
lists) sobre seus temas prediletos e outros que se refiram diretamente
a eles. Para fazer parte de uma lista, como alguém que troca idéias
ou apenas como leitor (chamados pelos grupos de lurkers), é necessário
ter o endereço da lista escolhida (geralmente disponível
nos sites dos grupos ou facilmente localizável em mecanismos de
busca), e subscrevê-la, enviando-lhes um e-mail . A subscrição
das lista em geral é gratuita, como quase tudo na Internet, embora
algumas sejam restritas a convidados.
Os
grupos de discussão que se comunicam via mailing lists também
podem ter um canal de conversa próprio, em tempo real, via IRC (International
Relay Chat - bate-papo internacional, que funciona também em nível
local). A estes grupos, quando abertos (pode-se optar por ter um grupo
fechado), qualquer pessoa tem acesso, bastando para isso que tenha instalado
em seu computador o software próprio de acesso ao IRC. Nos
servidores internacionais “fala-se” inglês. Mas também
é possível acessar servidores locais, como os franceses,
árabes, africanos, brasileiros ou japoneses, entre outros, se se
souber escrever no idioma nativo. Cada servidor de IRC se subdivide em
cerca de 1000 outros canais, entre privativos e públicos. Neles,
pode-se usar o nome real ou um pseudônimo, o que muitas vezes se
faz necessário, devido ao excesso de nomes repetidos, que o sistema
não aceita. Os servidores de IRC não permitem, também,
o total anonimato dos usuários, como acontece nos chats de empresas
como a Compuserv, América Online ou Universo Online, para citar
um exemplo brasileiro, pois indicam publicamente o protocolo da conexão
(número que indica o provedor de onde se está conectando
) o que permite, em caso de transgressões ou problemas mais sérios,
saber de onde partiu uma dada ligação.
Por
ser um espaço virtual onde as pessoas estão minimamente identificadas,
conversar por IRC com um grupo pode ser um modo interessante de inserção
na rede e de se conseguir informações. É claro que
não se deve esquecer que estas informações estão
classificadas, de antemão, dentro de uma faixa específica
de informantes com relação a alfabetização,
classe social (não é necessário ser o proprietário
de um computador-- muitas pessoas que trabalham neles, durante o dia ou
à noite, além de estudantes que conectam de dentro de suas
universidades, estabelecem algumas pausas no trabalho para a troca de conversas
e e-mails, ou para navegar em busca de assuntos de seu interesse etc.),
raça, gênero, localização geográfica
etc. Ainda assim, em determinadas pesquisas é perfeitamente possível
estabelecer-se interlocuções produtivas com os usuários
da Internet.
É claro
que o uso deste recurso como meio de investigação requer
discussões e algumas reelaborações de conceitos antropológicos,
como por exemplo os de “campo”, de “familiaridade com o grupo”, “chegar
ao campo”, “deixar o campo” e, principalmente, o de interação
pesquisador/pesquisado, já que não parece possível,
por exemplo, entrevistar alguém na Internet sem que este alguém
saiba exatamente qual a finalidade da entrevista e de que modo será
usado seu depoimento. De qualquer modo, parece claro que o conceito de
cultura se aplica a estes grupos que se reúnem e mantém
uma vida em comum através da comunicação via Internet.
Alguns
pesquisadores (sociólogos e psicólogos, geralmente) vêm
tentando usar as listas de discussão para distribuir surveys
e questionários, mas este procedimento parece pouco produtivo, pois
poucas pessoas respondem ou respondem apropriadamente, afinal esta não
é a finalidade primeira de uma lista de discussão. Outros
pesquisadores também têm tentado usar o e-mail para conduzir
entrevistas, mas como este procedimento é assincrônico, perde-se
na interatividade que uma entrevista informal, não-estruturada pode
ter. Não se pode modificar as questões da entrevista com
base na resposta da pessoa, por exemplo. O chat parece melhor para
esta finalidade, pois permite uma conversa interativa em tempo real. Se
o pesquisador e os entrevistados tiverem um microfone é possível,
até, conversar usando voz, em vez de texto, o que cada vez é
mais comum. Por que não, então, o telefone? Porque o acesso
Internet permite falar de longas distâncias e internacionalmente
pagando-se apenas tarifas locais, entre outras vantagens. Também
a teleconferência, que já começa a ser usada por empresas,
pode recuperar, num futuro muito próximo, dimensões que se
perdem numa entrevista via IRC ou e-mail, como a expressão e a aparência
dos participantes, já que uma câmera captura a imagem e um
microfone o som. Mas o pesquisador ainda perderá as sutilezas paralinguísticas
que vêm da pessoa entrevistada, como os tiques pessoais, gestos etc.
Pessoas
que estão navegando durante os fins de semana ou de madrugada, em
geral estão dispostas a conversar, embora o pesquisador deva considerar,
sempre, que o acesso à Internet é pago em número de
horas gastas pelos usuários; portanto, tomar o tempo de alguém,
a menos que este se demonstre interessado no que se pretende propor como
tema de conversa não é de bom tom. E como em qualquer campo,
também no “campo virtual” o antropólogo deve ser cuidadoso
ao entrar em contato com os informantes num canal de chat (equivalente
a uma “sala”, que é inclusive o nome que se dá, em muitos
IRCs, aos canais) e introduzir perguntas estranhas ao que está sendo
dito naquele momento pelos participantes. Também no “mundo virtual”
é preciso estabelecer relações com as pessoas aos
poucos, tornar-se parte do grupo, cativar sua confiança e ser aceito
por ele para que as pessoas se disponham a perder seu tempo com você
e seus interesses. Os “ïnternautas” não estão disponíveis
a qualquer momento e a Net possui vários meios e critérios
de inclusão e exclusão. Se a pessoa se torna inconveniente
durante uma conversa, facilmente será “quicada” (expulsa, desconectada)
do chat, que inclui esta possibilidade no menu. Ela também é
usada sempre que um “novato” entra num chat. Esse procedimento é
considerado um “batismo” e um teste para o senso de humor das pessoas,
não sendo conveniente esbravejar quando se retorna ao canal.
Durante
minha pesquisa, quando iniciei os contatos com pessoas que moravam nas
regiões onde aconteciam as grandes festas que estudei, tive que
conversar muito sobre computadores, rock, minha vida pessoal, antropologia
em geral, o objeto de meu estudo, por que razão queria estudar festas
etc., antes que fosse possível entrar no assunto como entrevista
propriamente dita. Os internautas são, em geral, gente altamente
informada, mesmo se apenas sobre temas de seu interesse. E como “viciados
em informação” tentam saber tudo que puderem tanto sobre
a pesquisa e suas implicações quanto sobre o interlocutor
e sua vida pessoal. Percebe-se claramente uma certa “desconfiança”
no primeiro momento dos contatos, uma vez que a Net permite às pessoas,
em alto grau, a criação de “personas ” e de fantasias pessoais
o que, segundo penso, apesar de bem raro entre as pessoas que conheci nestes
cinco anos de uso da rede, pode constituir problema para algumas pesquisas.
No meu caso, entretanto, como se tratava de um assunto já por si
de caráter público (e minhas perguntas versavam sobre os
acontecimentos das festas, lugares, mitos, eventos, políticas etc.),
todos se sentiam qualificados, autorizados e, pelo que pude entender, bem
à vontade para falar. Não sei dizer se pesquisas sobre temas
que proponham aspectos em que a intimidade dos informantes precise ser
desvelada podem conseguir o mesmo retorno. Acredito que sim, pois as pessoas
que se conhecem durante longos períodos pela Net, tendem a falar
sobre os temas de modo mais aberto, franco, revelando aspectos sensíveis
e íntimos que poucas vezes se imagina conseguir fora da comunicação
eletrônica. Criam-se laços afetivos de fato, a partir do encontro
de afinidades. Segundo Suler (1996), a
Internet é um espaço psicológico, que favorece a exploração
pessoal e grupal de emoções e identidades, capaz de criar
novos comportamentos, propiciando inclusive o desenvolvimento de maior
confiança entre as pessoas. Storch
(1996) assídua internauta que juntamente com um psocólogo
escreveu um dos primeiros livros brasileiros sobre o mundo das relações
virtuais no Brasil diz:
“Em
busca de aprovação, de reconhecimento e sem as pressões
sociais e profissionais, as pessoas se tornam mais acessíveis. Com
uma roupa confortável, ouvindo música ou com o outro olho
no aparelho de TV, no horário mais conveniente, cada um se torna
aberto para se comunicar e transformar esses contatos em momentos de lazer
e prazer. Mais confortável que o telefone, pois não é
necessário que o outro esteja conectado ao mesmo tempo. Cada um
acessa no momento e no lugar que escolher e só isso já diminui
muito o stress inerente aos encontros pessoais” .
Mesmo
para pesquisas em áreas indígenas ou rurais, de um ponto
de vista prático, o uso dos computadores e da Net na pesquisa de
campo pode se mostrar relevante. Como os computadores têm se tornado
cada vez mais leves, portáteis (lap-tops e palm-tops) e poderosos
em sua capacidade de comunicação e de armazenamento de dados,
tornam-se mais úteis até mesmo para pesquisadores em campos
longínquos. Com um pequeno cartão-modem inserido num palm-top
é possível o acesso à rede via telefone celular e,
através de um pequeno microfone ou de um microfone e uma micro-câmera,
o antropólogo pode facilmente falar com sua família, amigos
e colegas, vê-los e ser visto, mesmo estando num distante povoado
onde a eletricidade e a telefonia ainda não chegaram. O antropólogo
já não precisa estar isolado no campo, longe de sua cultura,
como Malinowski entre os trobriandeses, conforme lembra ao leitor nas primeiras
páginas de “Os Argonautas do Pacífico Ocidental”. Estar no
campo, na era dos computadores, já não implica, necessariamente,
estar isolado e emocionalmente fragilizado pelas ausências ou falta
de comunicação.
Como
se vê, a pesquisa qualitativa na Internet não sofre, portanto,
da falta de textos, imagens, sons e nem, principalmente, de pessoas vivas
ou emoções. A necessidade de exprimir as emoções
por escrito fez surgir o que os internautas chamam de emoticons (ícones
de emoção), que constituem verdadeira pontuação
nos textos da Internet. Ri-se, faz-se ironias, zanga-se, fica-se envergonhado,
chateado, cansado e chora-se por escrito. Enviam-se flores virtuais, chocolates,
músicas, poesias ou também vírus quando as coisas
“vão muito mal” entre as pessoas.
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