Antropologia na Internet – Pesquisa e Campo no meio virtual - Rita Amaral

 

segunda parte
 
 
 

O “Campo” Virtual

O “campo virtual” é composto, além dos sites especializados, acadêmicos ou paralelos, por milhões de páginas criadas por grupos de interesse e de identidade, que se apresentam e se comunicam globalmente através da Net. Grupos religiosos (budistas, evangélicos, católicos, islamitas, afro-brasileiros, afro-cubanos, protestantes históricos e outros), por exemplo, têm seus sites na Internet e dialogam com seus fiéis e outros, mundialmente, através da rede, que se tornou, deste modo, um novo campo e novo meio de proselitismo, atestando a modernidade sendo absorvida até mesmo pelas religiões mais tradicionais. Esportistas, artistas, gays, lésbicas e bissexuais, deficientes, negros, mulheres, capoeiristas, punks, darks, skin-heads, neonazistas, torcidas de futebol, sambistas, roqueiros, góticos, adolescentes, naturalistas e nudistas, idosos, pacifistas, comunistas, necrófilos, pedófilos, sadomasoquistas, índios americanos, rastafaris, motoqueiros, corredores, e toda a infinidade de categorias que se possa imaginar são encontráveis na Net. Sites com a história de formação dos grupos, dissidências, novidades etc. são também comuns dentro de cada categoria.
 

Os grupos geralmente mantêm também, além de suas páginas, listas de discussões (mailing lists) sobre seus temas prediletos e outros que se refiram diretamente a eles. Para fazer parte de uma lista, como alguém que troca idéias ou apenas como leitor (chamados pelos grupos de lurkers), é necessário ter o endereço da lista escolhida (geralmente disponível nos sites dos grupos ou facilmente localizável em mecanismos de busca), e subscrevê-la, enviando-lhes um e-mail . A subscrição das lista em geral é gratuita, como quase tudo na Internet, embora algumas sejam restritas a convidados.

IRCOs grupos de discussão que se comunicam via mailing lists também podem ter um canal de conversa próprio, em tempo real, via IRC (International Relay Chat - bate-papo internacional, que funciona também em nível local). A estes grupos, quando abertos (pode-se optar por ter um grupo fechado), qualquer pessoa tem acesso, bastando para isso que tenha instalado em seu computador o software próprio de acesso  ao IRC. Nos servidores internacionais  “fala-se” inglês. Mas também é possível acessar servidores locais, como os franceses, árabes, africanos, brasileiros ou japoneses, entre outros, se se souber escrever no idioma nativo. Cada servidor de IRC se subdivide em cerca de 1000 outros canais, entre privativos e públicos. Neles, pode-se usar o nome real ou um pseudônimo, o que muitas vezes se faz necessário, devido ao excesso de nomes repetidos, que o sistema não aceita. Os servidores de IRC não permitem, também, o total anonimato dos usuários, como acontece nos chats de empresas como a Compuserv, América Online ou Universo Online, para citar um exemplo brasileiro, pois indicam publicamente o protocolo da conexão (número que indica o provedor de onde se está conectando ) o que permite, em caso de transgressões ou problemas mais sérios, saber de onde partiu uma dada ligação.
 

Por ser um espaço virtual onde as pessoas estão minimamente identificadas, conversar por IRC com um grupo  pode ser um modo interessante de inserção na rede e de se conseguir informações. É claro que não se deve esquecer que estas informações estão classificadas, de antemão, dentro de uma faixa específica de informantes com relação a alfabetização, classe social (não é necessário ser o proprietário de um computador-- muitas pessoas que trabalham neles, durante o dia ou à noite, além de estudantes que conectam de dentro de suas universidades, estabelecem algumas pausas no trabalho para a troca de conversas e e-mails, ou para navegar em busca de assuntos de seu interesse etc.), raça, gênero, localização geográfica etc. Ainda assim, em determinadas pesquisas é perfeitamente possível estabelecer-se interlocuções produtivas com os usuários da Internet.
 

É claro que o uso deste recurso como meio de investigação requer discussões e algumas reelaborações de conceitos antropológicos, como por exemplo os de “campo”, de “familiaridade com o grupo”, “chegar ao campo”,  “deixar o campo” e, principalmente, o de interação pesquisador/pesquisado, já que não parece possível, por exemplo, entrevistar alguém na Internet sem que este alguém saiba exatamente qual a finalidade da entrevista e de que modo será usado seu depoimento. De qualquer modo, parece claro que o conceito de cultura  se aplica a estes grupos que se reúnem e mantém uma vida em comum através da comunicação via Internet.
 

Alguns pesquisadores (sociólogos e psicólogos, geralmente) vêm tentando usar as listas de discussão para distribuir surveys e questionários, mas este procedimento parece pouco produtivo, pois poucas pessoas respondem ou respondem apropriadamente, afinal esta não é a finalidade primeira de uma lista de discussão. Outros pesquisadores também têm tentado usar o e-mail para conduzir entrevistas, mas como este procedimento é assincrônico, perde-se na interatividade que uma entrevista informal, não-estruturada pode ter. Não se pode modificar as questões da entrevista com base na resposta da pessoa, por exemplo. O chat  parece melhor para esta finalidade, pois permite uma conversa interativa em tempo real. Se o pesquisador e os entrevistados tiverem um microfone é possível, até, conversar usando voz, em vez de texto, o que cada vez é mais comum. Por que não, então, o telefone? Porque o acesso Internet permite falar de longas distâncias e internacionalmente pagando-se apenas tarifas locais, entre outras vantagens. Também a teleconferência, que já começa a ser usada por empresas, pode recuperar, num futuro muito próximo, dimensões que se perdem numa entrevista via IRC ou e-mail, como a expressão e a aparência dos participantes, já que uma câmera captura a imagem e um microfone o som. Mas o pesquisador ainda perderá as sutilezas paralinguísticas que vêm da pessoa entrevistada, como os tiques pessoais, gestos etc.
 

Pessoas que estão navegando durante os fins de semana ou de madrugada, em geral estão dispostas a conversar, embora o pesquisador deva considerar, sempre, que o acesso à Internet é pago em número de horas gastas pelos usuários; portanto, tomar o tempo de alguém, a menos que este se demonstre interessado no que se pretende propor como tema de conversa não é de bom tom. E como em qualquer campo, também no “campo virtual” o antropólogo deve ser cuidadoso ao entrar em contato com os informantes num canal de chat (equivalente a uma “sala”, que é inclusive o nome que se dá, em muitos IRCs, aos canais) e introduzir perguntas estranhas ao que está sendo dito naquele momento pelos participantes. Também no “mundo virtual” é preciso estabelecer relações com as pessoas aos poucos, tornar-se parte do grupo, cativar sua confiança e ser aceito por ele para que as pessoas se disponham a perder seu tempo com você e seus interesses. Os “ïnternautas” não estão disponíveis a qualquer momento e a Net possui vários meios e critérios de inclusão e exclusão. Se a pessoa se torna inconveniente durante uma conversa, facilmente será “quicada” (expulsa, desconectada) do chat, que inclui esta possibilidade no menu. Ela também é usada sempre que um “novato” entra num chat. Esse procedimento é considerado um “batismo” e um teste para o senso de humor das pessoas, não sendo conveniente esbravejar quando se retorna ao canal.
 

Durante minha pesquisa, quando iniciei os contatos com pessoas que moravam nas regiões onde aconteciam as grandes festas que estudei, tive que conversar muito sobre computadores, rock, minha vida pessoal, antropologia em geral, o objeto de meu estudo, por que razão queria estudar festas etc., antes que fosse possível entrar no assunto como entrevista propriamente dita. Os internautas são, em geral, gente altamente informada, mesmo se apenas sobre temas de seu interesse. E como “viciados em informação” tentam saber tudo que puderem tanto sobre a pesquisa e suas implicações quanto sobre o interlocutor e sua vida pessoal. Percebe-se claramente uma certa “desconfiança” no primeiro momento dos contatos, uma vez que a Net permite às pessoas, em alto grau, a criação de “personas ” e de fantasias pessoais o que, segundo penso, apesar de bem raro entre as pessoas que conheci nestes cinco anos de uso da rede, pode constituir problema para algumas pesquisas. No meu caso, entretanto, como se tratava de um assunto já por si de caráter público (e minhas perguntas versavam sobre os acontecimentos das festas, lugares, mitos, eventos, políticas etc.), todos se sentiam qualificados, autorizados e, pelo que pude entender, bem à vontade para falar. Não sei dizer se pesquisas sobre temas que proponham aspectos em que a intimidade dos informantes precise ser desvelada podem conseguir o mesmo retorno. Acredito que sim, pois as pessoas que se conhecem durante longos períodos pela Net, tendem a falar sobre os temas de modo mais aberto, franco, revelando aspectos sensíveis e íntimos que poucas vezes se imagina conseguir fora da comunicação eletrônica. Criam-se laços afetivos de fato, a partir do encontro de afinidades. Segundo Suler (1996), a Internet é um espaço psicológico, que favorece a exploração pessoal e grupal de emoções e identidades, capaz de criar novos comportamentos, propiciando inclusive o desenvolvimento de maior confiança entre as pessoas. Storch (1996) assídua internauta que juntamente com um psocólogo escreveu um dos primeiros livros brasileiros sobre o mundo das relações virtuais no  Brasil diz:
 

“Em busca de aprovação, de reconhecimento e sem as pressões sociais e profissionais, as pessoas se tornam mais acessíveis. Com uma roupa confortável, ouvindo música ou com o outro olho no aparelho de TV, no horário mais conveniente, cada um se torna aberto para se comunicar e transformar esses contatos em momentos de lazer e prazer. Mais confortável que o telefone, pois não é necessário que o outro esteja conectado ao mesmo tempo. Cada um acessa no momento e no lugar que escolher e só isso já diminui muito o stress inerente aos encontros pessoais” .
 
Mesmo para pesquisas em áreas indígenas ou rurais, de um ponto de vista prático, o uso dos computadores e da Net na pesquisa de campo pode se mostrar relevante. Como os computadores têm se tornado cada vez mais leves, portáteis (lap-tops e palm-tops) e poderosos em sua capacidade de comunicação e de armazenamento de dados, tornam-se mais úteis até mesmo para pesquisadores em campos longínquos. Com um pequeno cartão-modem inserido num palm-top é possível o acesso à rede via telefone celular e, através de um pequeno microfone ou de um microfone e uma micro-câmera, o antropólogo pode facilmente falar com sua família, amigos e colegas, vê-los e ser visto, mesmo estando num distante povoado onde a eletricidade e a telefonia ainda não chegaram. O antropólogo já não precisa estar isolado no campo, longe de sua cultura, como Malinowski entre os trobriandeses, conforme lembra ao leitor nas primeiras páginas de “Os Argonautas do Pacífico Ocidental”. Estar no campo, na era dos computadores, já não implica, necessariamente, estar isolado e emocionalmente fragilizado pelas ausências ou falta de comunicação.
 

Como se vê, a pesquisa qualitativa na Internet não sofre, portanto, da falta de textos, imagens, sons e nem, principalmente, de pessoas vivas ou emoções. A necessidade de exprimir as emoções por escrito fez surgir o que os internautas chamam de emoticons (ícones de emoção), que constituem verdadeira pontuação nos textos da Internet. Ri-se, faz-se ironias, zanga-se, fica-se envergonhado, chateado, cansado e chora-se por escrito. Enviam-se flores virtuais, chocolates, músicas, poesias ou também vírus quando as coisas “vão muito mal” entre as pessoas.
 
 


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