A
vida nas cidades freqüentemente é apontada como a fonte da
maioria dos males sociais como a violência, a pobreza, os desvios
comportamentais, as neuroses etc. Na cidade os homens se sentiriam solitários,
massificados, tratados pelas instituições como meros números,
sem identidade pessoal. Na cidade até o tempo perderia o sentido,
pois seria sempre pensado como o tempo do trabalho, sendo o descanso dos
finais semana apenas um "intervalo" entre dois períodos de produção,
um tempo reservado à reprodução da força de
trabalho, e que os trabalhadores não teriam condições
de desfrutar como lazer devido à falta de recursos, oportunidades
ou mesmo disposição. Por isto o tempo não faria sentido,
apenas passaria, levando consigo a vida dos homens, especialmente se estes
homens são pobres, pouco escolarizados, migrantes, com um gosto
próprio em relação ao lazer.
Basta,
no entanto, nos determos para observar mais atentamente os inúmeros
grupos que vivem na cidade para constatarmos que a verdade não é
bem essa. Os grupos se organizam em torno de atividades e objetivos comuns,
muitas vezes lúdicos, que proporcionam não apenas relações
sociais mais diretas, mais afetivas (correspondendo às necessidades
de sociabilidade, parceiros, companhia, enriquecimento da experiência
pessoal), como também organizam, de modo sensível, a passagem,
do tempo. Esta passagem é marcada através de idas ao futebol,
à praia, aos ensaios das escolas de samba, aos cultos
religiosos, bailes, forrós etc. Para uma população
pobre, migrante, todas estas atividades implicam a organização
dos indivíduos em termos de tempo disponível e do dinheiro
necessário para sua realização, ocupando o pensamento
das pessoas de modo significativo e dando sentido ao trabalho (pois é
o trabalho que proporciona os recursos para a participação
nos grupos) e à própria vida como fonte de prazer .
Um
bom exemplo de como o tempo (e portanto a vida) pode readquirir seu sentido
pela participação num grupo, que através de suas práticas
reconstrói relações pessoais e sociais mais "diretas",
pode ser dado pelo "povo-de-santo", que é como se auto-denominam
os adeptos do candomblé. Para este grupo, formado majoritariamente
por indivíduos das classes mais pobres, geralmente nordestinos,
mulatos, negros e pouco escolarizados, a religião, mais do que corresponder
às necessidades de transcendência, constitui um estilo de
vida, que organiza e influencia inclusive a vida fora da religião.
O candomblé constrói não apenas uma identidade para
o filho-de-santo, mas também novas noções de corpo,
de espaço e de tempo.
No
candomblé o corpo do adepto é onde os deuses incorporam e,
portanto, muito valorizado. No candomblé os deuses vêm à
terra para dançar alegremente, para brincar, para "comer" as comidas
rituais. Baseado nos mitos dos orixás, que são muitos parecidos
com os homens, o povo-de-santo não crê em pecado , vivendo
portanto plenamente (no presente, porque não se sabe, no candomblé,
o que acontecerá depois da morte) sua sensualidade, alegria, sua
sexualidade, por meio da dança, da música, do amor, do prazer,
do brilho, do excesso: por meio da Festa. O povo-de-santo é um povo
de festa.
A idéia
de que a vida é festa marca de modo profundo a visão de mundo
do povo-de-santo e é perceptível também fora da religião.
O sentido da festa, produzido dentro dos terreiros, ultrapassa seus muros
e torna-se o elemento que norteia e distingue as escolhas deste grupo em
relação aos demais e que aponta de que outros grupos ele
pode participar. Assim, o povo-de-santo será visto no candomblé
mas também nos afoxés, nas escolas de samba, nos pagodes,
nos bailes "funk", nos "fundos-de-quintal", na capoeira, nos shows de música
afro e em várias outras atividades ligadas à festa de um
modo ou de outro. A festa marca a passagem do tempo para o povo-de-santo.
E isto não é nenhuma novidade. Desde os primeiros estudos,
os autores que investigaram os cultos afro-brasileiros nas diferentes regiões
do Brasil afirmavam:
"Chamam-se
de candomblés as grandes festas públicas do culto iorubano,
qualquer que seja a sua causa "(RODRIGUES,
1935:141).
Depois
deste, vários autores perceberam também que a palavra "candomblé"
podia ser entendida como sinônimo de festa, ainda que não
tenham nunca percebido o caráter estruturante que a festa tem nesta
religião. Os autores que estudam religiões afro-brasileiras
geralmenrte relatam o grande número de festas realizadas nos terreiros
em que fazem suas pesquisas. Tanto os candomblés baianos, cariocas,
paulistas etc., como os xangôs de Pernambuco, os batuques do Rio
Grande do Sul, ou o tambor-de-mina do Maranhão realizam, sistematicamente,
festas para seus deuses. Em São Paulo, excetuando-se a época
da Quaresma, pode-se assistir a inúmeras festas nos finais de semana,
sendo possível escolher entre os candomblés de vários
ritos, entre vários tipos de festas, diferentes bairros, terreiros
etc.
O "ano
litúrgico" do candomblé é organizado de acordo com
a realização das festas dos orixás. E é assim
que se percebe a passagem do ano. Em janeiro são freqüentes
as festas de Oxossi, devido ao sincretismo deste orixá com São
Sebastião, comemorado a 20 de janeiro. Em abril são feitas
as festas de Ogum, em razão de sua associação a São
Jorge, comemorado em 24 de abril. Em junho são inúmeras as
"Fogueiras (festas) de Xangô", sincretizado tanto com São
João como com São Pedro. Em agosto acontecem as festas de
Obaluaiê, chamadas Olubajés, pelo sincretismo com São
Lázaro e São Roque. Em dezembro são feitas as festas
das Iabás (orixás femininos) como Oxum, Iemanjá e
Iansã (N. Sra. da Candelária, N. Sra. da Conceição
e Santa Bárbara, todas comemoradas em dezembro), às quais
se juntam Nanã (Santana) e Obá (Santa Joana D'Arc). Seguindo
o preceito do candomblé de que tudo começa por Exu e termina
com Oxalá (inclusive o ano), também em dezembro se fazem
as festas deste orixá, sincretizado com Jesus Cristo, razão
a mais para ser festejado durante este mês.
Entre
uma festa e outra deste calendário costumam acontecer as "festas
individuais" do terreiro, como as "Saídas de Iaô" (festa de
iniciação de um novo adepto ou grupo de adeptos), as "Entregas
de Decá" (festa de entrega do título de senioridade -ebomi-
a uma pessoa, título mais alto do candomblé e que dá
direito ao iniciado de se tornar um pai ou mãe-de-santo) e outras
como batismos, casamentos, aniversários etc. Sendo assim, a vida
nos terreiros passa a ser organizada em termos da produção
dessas festas.
Os
Custos da Festa
A produção
da festa de candomblé, seja qual for sua razão, mobiliza
uma série de recursos simbólicos, sociais e econômicos
tanto dentro como fora do terreiro, organizando o grupo em termos da colaboração
com dinheiro, trabalho ou as duas coisas. Não podemos esquecer que
a maioria do povo-de-santo pertence às classes mais pobres e que
o candomblé é uma religião cara: os custos da festa
são bastante altos para um sem muitos recursos e, por isso, as despesas
devem ser repartidas com os filhos da casa-de-santo. Pede-se ajuda, também,
aos clientes e amigos do terreiro, ou mesmo a estranhos, na rua, dando
em troca um punhado das pipocas curativas de Obaluaiê, como é
costume vermos no centro da cidade. Além disso, também é
necessário organizar o tempo fora do terreiro para que se possa
trabalhar dentro dele, na produção da festa. Faz-se uma espécie
de "escala", onde todos participam, sem que seja preciso sobrecarregar
alguns. Esta "escala leva em consideração os dias de folga,
de cada adepto, o número de horas disponíveis, as férias,
a lua e até mesmo a menstruação das mulheres, que
durante o período menstrual não podem trabalhar no terreiro.
Desde
a encomenda dos convites (quando há recursos para isto), ou da articulação
da rede de informação do povo-de-santo -eficientíssima-
tem início um trabalhoso processo que inclui não só
a coleta de recursos, como ainda uma série de tarefas no terreiro.
Deve-se lavar, passar e engomar as roupas de festa e a dos orixás;
verificar e consertar as peças que, com os movimentos das danças,
rasgam-se ou perdem lantejoulas; é preciso polir as insígnias
dos orixás e as sinetas rituais dos ebômis (mais velhos);
durante todo o tempo da preparação das festas é preciso
respeitar tabus sexuais e alimentares; participar das matanças (sacrifícios
de animais) para Exu e outros orixás, depois de percorrer as avícolas
procurando os animais mais adequados a cada um deles. Depois do sacrifício
é preciso depenar as aves, pelar cabritos, separar as partes de
cada orixá e cozinhar as carnes, que serão servidas à
assistência, no final da festa, no momento chamado ajeun.
Durante todo o tempo destes trabalhos é preciso fazer bules e mais
bules de café para os que estão ajudando no terreiro. Sem
contar as muitas vezes em que os chefes dos candomblés resolvem
dar um "toque" diferente à festa como, por exemplo, enfeitar a casa
com folhas ou flores, ou ainda fazer uma roupa nova para o orixá.
Durante
a festa, todos os papéis são vividos intensamente. Tanto
os dos homens como os dos orixás. O povo-de-santo se orgulha da
beleza de suas roupas, da dança de seus orixás, do sabor
da comida que serve, da "qualidade" da assistência, da beleza da
música tocada por seus ogãs alabês (tocadores de atabaques).
Os ebomis desfilam orgulhosos seus brajás (colar que indica esta
alta posição no culto e o alto grau de conhecimento do culto
de quem o usa). Também a posição que cada indivíduo
ocupa na roda-de-santo (conjunto dos que podem dançar num candomblé)
indica o "tempo-de-santo" (de iniciação) de cada indivíduo,
ficando os "mais velhos" no começo e os "mais novos" no fim. Assim,
como o tempo se relaciona ao grau de conhecimento religioso, estar mais
perto do "começo" da roda indica maior proximidade do mistério
que constitui a religião.
Se
a vinda dos deuses à terra para dançar e trazer seu axé
implica uma série de tarefas, prescrições e tabus
para os que a promovem, por outro lado, para os que a ela assistem, na
categoria de convidados, pode representar um verdadeiro espetáculo,
com muita música e dança. Este "espetáculo" termina
com saborosa refeição, com comidas típicas e bebidas
compartilhadas com os deuses. Enquanto isso, conversa-se muito, trocam-se
informações, endereços, paquera-se e tratam-se assuntos
pessoais, tais como a possibilidade de conseguir uma consulta com o dentista
simpatizante, um emprego no negócio de um assistente, uma doação
para a iniciação do próximo iaô", para algum
reparo no terreiro ou ainda, um programa para o fim-de-semana, que geralmente
consiste em assistir a outra festa de candomblé, em outra casa.
Para alguns adeptos a festa de candomblé chega a ser a única
beleza possível numa vida de privações e tédio:
"Quando
eu era criança minha família era muito pobre. Nós
não tínhamos nem o que comer em casa. Então, nos fins-de-semana
a gente ia pro candomblé. Lá tinha música, roupas
bonitas e brilhantes, lá tinha comida! O candomblé era a
única coisa bonita da minha vida. A única beleza, Então
eu fiquei" (R. de Oxum, ebomi).
"A
Alegria é a prova dos nove"
A participação
no candomblé cria vínculos tão significativos entre
os adeptos, que muitos deles comemoram seus aniversários, casam
e batizam seus filhos nas grandes festas do terreiro. Além disso,
as festas adquirem certa similitude com as festas profanas, dada pelo uso
de bandeirinhas e balões coloridos na decoração, ou
ainda pela presença de um grande bolo confeitado, barris de chope
para acompanhar o ajeun, docinhos e até mesmo "lembrancinhas"
com os símbolos dos orixás. Isto mostra a grande capacidade
da festa (do candomblé) de abrigar todas as dimensões da
vida dos filhos-de-santo, marcando os momentos da vida de um adepto para
todo o grupo e, ao mesmo tempo, sacralizando-os.
A festa
de candomblé é, portanto, um elemento organizativo, que não
só mostra publicamente tudo que o grupo é em termos de origens,
estética, conhecimento, riqueza, prosperidade, como também
expressa toda a hierarquia construída através do passar do
tempo no terreiro e o conseqüente conhecimento da religião
e seus detalhes rituais. É nas festas, também, que são
travados alguns conhecimentos, onde são recrutados, muitas vezes,
novos adeptos. É nas festas que os grupos de candomblé se
visitam, reforçando ou afrouxando laços através de
vínculos ou conflitos que também nelas são criados.
É em função da festa que os membros de um terreiro
se unem, se organizam, se ajudam e cotizam. É para trabalhar pela
festa que eles organizam o tempo disponível durante o não-trabalho.
Muitos fazem horas extras no emprego para comprar uma nova roupa para o
orixá.
Essa
freqüente produção da festa e participação
nela é o que produz o gosto do povo-de-santo por outras esferas
festivas da vida social, tais como as "rodas-de-samba", carnaval etc. Para
o povo-de-santo, que se espelha nos orixás, que vêm ao mundo
para dançar e festejar, o tempo de festa é sempre. Porque
a vida, quando se tem saúde, alegria, amor, deve ser festejada.
Não importa se o trabalho é duro, se a vida é difícil.
Estes momentos situam-se fora da festa, fora da verdadeira "vida" que é
a festa. E assim a cidade, para o povo-de-santo é uma cidade boa,
onde se conseguem os recursos para a festa e onde se vive buscando-a mais
e mais, em diferentes momentos e lugares. A vida é festa.
Para o povo-de-santo, a alegria é a "prova dos nove".
Publicado
originalmente em TRAVESSIA. Revista do Migrante no. 15, janeiro/abril,
Centro de Estudos Migratórios - CEM, São Paulo, 1993
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NINA RODRIGUES,
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