Rita Amaral
Núcleo de Antropologia Urbana da Universidade de São Paulo

 

A vida nas cidades freqüentemente é apontada como a fonte da maioria dos males sociais como a violência, a pobreza, os desvios comportamentais, as neuroses etc. Na cidade os homens se sentiriam solitários, massificados, tratados pelas instituições como meros números, sem identidade pessoal. Na cidade até o tempo perderia o sentido, pois seria sempre pensado como o tempo do trabalho, sendo o descanso dos finais semana apenas um "intervalo" entre dois períodos de produção, um tempo reservado à reprodução da força de trabalho, e que os trabalhadores não teriam condições de desfrutar como lazer devido à falta de recursos, oportunidades ou mesmo disposição. Por isto o tempo não faria sentido, apenas passaria, levando consigo a vida dos homens, especialmente se estes homens são pobres, pouco escolarizados, migrantes, com um gosto próprio em relação ao lazer.
 

Basta, no entanto, nos determos para observar mais atentamente os inúmeros grupos que vivem na cidade para constatarmos que a verdade não é bem essa. Os grupos se organizam em torno de atividades e objetivos comuns, muitas vezes lúdicos, que proporcionam não apenas relações sociais mais diretas, mais afetivas (correspondendo às necessidades de sociabilidade, parceiros, companhia, enriquecimento da experiência pessoal), como também organizam, de modo sensível, a passagem, do tempo. Esta passagem é marcada através de idas ao futebol, à praia, aos ensaios das escolas de samba, aos cultos religiosos, bailes, forrós etc. Para uma população pobre, migrante, todas estas atividades implicam a organização dos indivíduos em termos de  tempo disponível e do dinheiro necessário para sua realização, ocupando o pensamento das pessoas de modo significativo e dando sentido ao trabalho (pois é o trabalho que proporciona os recursos para a participação nos grupos) e à própria vida como fonte de prazer .
 

pipocas curativas de Obaluaiê <><> Foto de Adenor GondimUm bom exemplo de como o tempo (e portanto a vida) pode readquirir seu sentido pela participação num grupo, que através de suas práticas reconstrói relações pessoais e sociais mais "diretas", pode ser dado pelo "povo-de-santo", que é como se auto-denominam os adeptos do candomblé. Para este grupo, formado majoritariamente por indivíduos das classes mais pobres, geralmente nordestinos, mulatos, negros e pouco escolarizados, a religião, mais do que corresponder às necessidades de transcendência, constitui um estilo de vida, que organiza e influencia inclusive a vida fora da religião. O candomblé constrói não apenas uma identidade para o filho-de-santo, mas também novas noções de corpo, de espaço e de tempo. 
 

No candomblé o corpo do adepto é onde os deuses incorporam e, portanto, muito valorizado. No candomblé os deuses vêm à terra para dançar alegremente, para brincar, para "comer" as comidas rituais. Baseado nos mitos dos orixás, que são muitos parecidos com os homens, o povo-de-santo não crê em pecado , vivendo portanto plenamente (no presente, porque não se sabe, no candomblé, o que acontecerá depois da morte) sua sensualidade, alegria, sua sexualidade, por meio da dança, da música, do amor, do prazer, do brilho, do excesso: por meio da Festa. O povo-de-santo é um povo de festa.
 

A idéia de que a vida é festa marca de modo profundo a visão de mundo do povo-de-santo e é perceptível também fora da religião. O sentido da festa, produzido dentro dos terreiros, ultrapassa seus muros e torna-se o elemento que norteia e distingue as escolhas deste grupo em relação aos demais e que aponta de que outros grupos ele pode participar. Assim, o povo-de-santo será visto no candomblé mas também nos afoxés, nas escolas de samba, nos pagodes, nos bailes "funk", nos "fundos-de-quintal", na capoeira, nos shows de música afro e em várias outras atividades ligadas à festa de um modo ou de outro. A festa marca a passagem do tempo para o povo-de-santo. E isto não é nenhuma novidade. Desde os primeiros estudos, os autores que investigaram os cultos afro-brasileiros nas diferentes regiões do Brasil afirmavam:
 
 

"Chamam-se de candomblés as grandes festas públicas do culto iorubano, qualquer que seja a sua causa "(RODRIGUES, 1935:141).


Depois deste, vários autores perceberam também que a palavra "candomblé" podia ser entendida como sinônimo de festa, ainda que não tenham nunca percebido o caráter estruturante que a festa tem nesta religião. Os autores que estudam religiões afro-brasileiras geralmenrte relatam o grande número de festas realizadas nos terreiros em que fazem suas pesquisas. Tanto os candomblés baianos, cariocas, paulistas etc., como os xangôs de Pernambuco, os batuques do Rio Grande do Sul, ou o tambor-de-mina do Maranhão realizam, sistematicamente, festas para seus deuses. Em São Paulo, excetuando-se a época da Quaresma, pode-se assistir a inúmeras festas nos finais de semana, sendo possível escolher entre os candomblés de vários ritos, entre vários tipos de festas, diferentes bairros, terreiros etc.
 

O "ano litúrgico" do candomblé é organizado de acordo com a realização das festas dos orixás. E é assim que se percebe a passagem do ano. Em janeiro são freqüentes as festas de Oxossi, devido ao sincretismo deste orixá com São Sebastião, comemorado a 20 de janeiro. Em abril são feitas as festas de Ogum, em razão de sua associação a São Jorge, comemorado em 24 de abril. Em junho são inúmeras as "Fogueiras (festas) de Xangô", sincretizado tanto com São João como com São Pedro. Em agosto acontecem as festas de Obaluaiê, chamadas Olubajés, pelo sincretismo com São Lázaro e São Roque. Em dezembro são feitas as festas das Iabás (orixás femininos) como Oxum, Iemanjá e Iansã (N. Sra. da Candelária, N. Sra. da Conceição e Santa Bárbara, todas comemoradas em dezembro), às quais se juntam Nanã (Santana) e Obá (Santa Joana D'Arc). Seguindo o preceito do candomblé de que tudo começa por Exu e termina com Oxalá (inclusive o ano), também em dezembro se fazem as festas deste orixá, sincretizado com Jesus Cristo, razão a mais para ser festejado durante este mês.
 

Entre uma festa e outra deste calendário costumam acontecer as "festas individuais" do terreiro, como as "Saídas de Iaô" (festa de iniciação de um novo adepto ou grupo de adeptos), as "Entregas de Decá" (festa de entrega do título de senioridade -ebomi- a uma pessoa, título mais alto do candomblé e que dá direito ao iniciado de se tornar um pai ou mãe-de-santo) e outras como batismos, casamentos, aniversários etc. Sendo assim, a vida nos terreiros passa a ser organizada em termos da produção dessas festas.
 

Os Custos da Festa

A produção da festa de candomblé, seja qual for sua razão, mobiliza uma série de recursos simbólicos, sociais e econômicos tanto dentro como fora do terreiro, organizando o grupo em termos da colaboração com dinheiro, trabalho ou as duas coisas. Não podemos esquecer que a maioria do povo-de-santo pertence às classes mais pobres e que o candomblé é uma religião cara: os custos da festa são bastante altos para um sem muitos recursos e, por isso, as despesas devem ser repartidas com os filhos da casa-de-santo. Pede-se ajuda, também, aos clientes e amigos do terreiro, ou mesmo a estranhos, na rua, dando em troca um punhado das pipocas curativas de Obaluaiê, como é costume vermos no centro da cidade. Além disso, também é necessário organizar o tempo fora do terreiro para que se possa trabalhar dentro dele, na produção da festa. Faz-se uma espécie de "escala", onde todos participam, sem que seja preciso sobrecarregar alguns. Esta "escala leva em consideração os dias de folga, de cada adepto, o número de horas disponíveis, as férias, a lua e até mesmo a menstruação das mulheres, que durante o período menstrual não podem trabalhar no terreiro.
 

Desde a encomenda dos convites (quando há recursos para isto), ou da articulação da rede de informação do povo-de-santo -eficientíssima- tem início um trabalhoso processo que inclui não só a coleta de recursos, como ainda uma série de tarefas no terreiro. Deve-se lavar, passar e engomar as roupas de festa e a dos orixás; verificar e consertar as peças que, com os movimentos das danças, rasgam-se ou perdem lantejoulas; é preciso polir as insígnias dos orixás e as sinetas rituais dos ebômis (mais velhos); durante todo o tempo da preparação das festas é preciso respeitar tabus sexuais e alimentares; participar das matanças (sacrifícios de animais) para Exu e outros orixás, depois de percorrer as avícolas procurando os animais mais adequados a cada um deles. Depois do sacrifício é preciso depenar as aves, pelar cabritos, separar as partes de cada orixá e cozinhar as carnes, que serão servidas à assistência, no final da festa, no momento chamado ajeun. Durante todo o tempo destes trabalhos é preciso fazer bules e mais bules de café para os que estão ajudando no terreiro. Sem contar as muitas vezes em que os chefes dos candomblés resolvem dar um "toque" diferente à festa como, por exemplo, enfeitar a casa com folhas ou flores, ou ainda fazer uma roupa nova para o orixá.
 

Durante a festa, todos os papéis são vividos intensamente. Tanto os dos homens como os dos orixás. O povo-de-santo se orgulha da beleza de suas roupas, da dança de seus orixás, do sabor da comida que serve, da "qualidade" da assistência, da beleza da música tocada por seus ogãs alabês (tocadores de atabaques). Os ebomis desfilam orgulhosos seus brajás (colar que indica esta alta posição no culto e o alto grau de conhecimento do culto de quem o usa). Também a posição que cada indivíduo ocupa na roda-de-santo (conjunto dos que podem dançar num candomblé) indica o "tempo-de-santo" (de iniciação) de cada indivíduo, ficando os "mais velhos" no começo e os "mais novos" no fim. Assim, como o tempo se relaciona ao grau de conhecimento religioso, estar mais perto do "começo" da roda indica maior proximidade do mistério que constitui a religião.
 

Se a vinda dos deuses à terra para dançar e trazer seu axé implica uma série de tarefas, prescrições e tabus para os que a promovem, por outro lado, para os que a ela assistem, na categoria de convidados, pode representar um verdadeiro espetáculo, com muita música e dança. Este "espetáculo" termina com saborosa refeição, com comidas típicas e bebidas compartilhadas com os deuses. Enquanto isso, conversa-se muito, trocam-se informações, endereços, paquera-se e tratam-se assuntos pessoais, tais como a possibilidade de conseguir uma consulta com o dentista simpatizante, um emprego no negócio de um assistente, uma doação para a iniciação do próximo iaô", para algum reparo no terreiro ou ainda, um programa para o fim-de-semana, que geralmente consiste em assistir a outra festa de candomblé, em outra casa. Para alguns adeptos a festa de candomblé chega a ser a única beleza possível numa vida de privações e tédio:
 

"Quando eu era criança minha família era muito pobre. Nós não tínhamos nem o que comer em casa. Então, nos fins-de-semana a gente ia pro candomblé. Lá tinha música, roupas bonitas e brilhantes, lá tinha comida! O candomblé era a única coisa bonita da minha vida. A única beleza, Então eu fiquei" (R. de Oxum, ebomi).
"A Alegria é a prova dos nove"
 

A participação no candomblé cria vínculos tão significativos entre os adeptos, que muitos deles comemoram seus aniversários, casam e batizam seus filhos nas grandes festas do terreiro. Além disso, as festas adquirem certa similitude com as festas profanas, dada pelo uso de bandeirinhas e balões coloridos na decoração, ou ainda pela presença de um grande bolo confeitado, barris de chope para acompanhar o ajeun, docinhos e até mesmo "lembrancinhas" com os símbolos dos orixás. Isto mostra a grande capacidade da festa (do candomblé) de abrigar todas as dimensões da vida dos filhos-de-santo, marcando os momentos da vida de um adepto para todo o grupo e, ao mesmo tempo, sacralizando-os.
 

A festa de candomblé é, portanto, um elemento organizativo, que não só mostra publicamente tudo que o grupo é em termos de origens, estética, conhecimento, riqueza, prosperidade, como também expressa toda a hierarquia construída através do passar do tempo no terreiro e o conseqüente conhecimento da religião e seus detalhes rituais. É nas festas, também, que são travados alguns conhecimentos, onde são recrutados, muitas vezes, novos adeptos. É nas festas que os grupos de candomblé se visitam, reforçando ou afrouxando laços através de vínculos ou conflitos que também nelas são criados. É em função da festa que os membros de um terreiro se unem, se organizam, se ajudam e cotizam. É para trabalhar pela festa que eles organizam o tempo disponível durante o não-trabalho. Muitos fazem horas extras no emprego para comprar uma nova roupa para o orixá.
 

Essa freqüente produção da festa e participação nela é o que produz o gosto do povo-de-santo por outras esferas festivas da vida social, tais como as "rodas-de-samba", carnaval etc. Para o povo-de-santo, que se espelha nos orixás, que vêm ao mundo para dançar e festejar, o tempo de festa é sempre. Porque a vida, quando se tem saúde, alegria, amor, deve ser festejada. Não importa se o trabalho é duro, se a vida é difícil. Estes momentos situam-se fora da festa, fora da verdadeira "vida" que é a festa. E assim a cidade, para o povo-de-santo é uma cidade boa, onde se conseguem os recursos para a festa e onde se vive buscando-a mais e mais, em diferentes momentos e lugares. A vida é festa.  Para o povo-de-santo, a alegria é a "prova dos nove".

Publicado originalmente em TRAVESSIA. Revista do Migrante no. 15, janeiro/abril, Centro de Estudos Migratórios - CEM, São Paulo, 1993

Bibliografia

AMARAL, Rita. Povo-de-santo, povo de festa. - O estilo vida dos adeptos do candomblé paulista. Dissertação de Mestrado, USP, 1992.
MAGNANI, J. Guilherme Cantor. - Festa no Pedaço -cultura popular e lazer na cidade  Editora Brasiliense, 1984.
PRANDI, Reginaldo. Os candomblés de São Paulo. A velha magia na metrópole nova EDUSP/HUCITEC, São Paulo, 1991.
NINA RODRIGUES, Raimundo. O animismo fetichista dos negros bahianos Ed. Civilização brasileira, Rio de Janeiro, 1935 [1896].


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