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Conclusão
 

Festejar ou fornecer matrizes para construção de estilos de vida não é, obviamente, privilégio do candomblé. Todas as religiões têm essa capacidade e, na verdade, é a isso mesmo que se propõem. A festa e o estilo diferem, contudo, de acordo com os mitos e interpretações deles que as religiões propagam como modelos para estar no mundo e da noção do que é o homem e qual é seu destino.
 

No caso do candomblé a festa é o elemento mais adequado de acesso a essa matriz (e de sua expressão), por englobar os mitos, a hierarquia, o conjunto dos valores religiosos e a vivência dos adeptos (por ser um fato social total). Pelo que ela representa da visão de mundo do povo-de-santo.
 

Outras religiões, é claro, também têm a festa como elemento capaz de agrupar seus fiéis em torno de objetivos comuns e confraternização, como é o caso principalmente do catolicismo popular, do pentecostalismo e em alguns momentos fortes da umbanda, como as festas de Iemanjá e Cosme e Damião, que já foram incorporadas pela maioria da população brasileira. Contudo, ainda que a festa esteja presente em quase todas as religiões, é preciso compreender de que modo ela se insere na estrutura religiosa, se considerada como elemento constitutivo dessa estrutura ou como elemento "exterior", usado para intermediar sagrado e profano de modo inteligível. No primeiro caso, que é o caso do candomblé, a festa e a religião se confundem expressando sua estrutura comum através dos eventos que marcam seu acontecimento. Festa e Candomblé são sinônimos, explicitando-se um no outro. A festa é estrutural. No segundo caso, a festa pode ser vista como um meio que os homens usam para expressar seus sentimentos de alegria e esperança diante de seu deus. Aqui, a festa é circunstancial, conjuntural. A festa é um momento. É o caso do catolicismo popular.
 

Quando a festa é estrutural, caso do candomblé, ela impregna a visão de mundo de modo total, implicando um estilo de vida marcado pelos valores festivos, como o ludismo, o dispêndio, a alegria, a sensualidade, a transgressão etc. que se expressa também fora do terreiro. Já no caso da festa circunstancial/conjuntural, mesmo quando é permanentemente produzida, como é o caso do catolicismo popular, não se estabelece um estilo de vida propriamente dito. Porque os mitos que estão na base de sua estrutura religiosa são ligados na maior parte das vezes a temas de sofrimento, abandono, culpa e expiação, ficando a alegria, a vida, a festa para um mundo pós-morte. Os temas das festas católicas sempre se ligam aos santos (mártires, sofredores), à paixão de Cristo e não podemos esquecer que o próprio mito de origem do homem, no cristianismo, mostra que o paraíso perdido pela desobediência virá com a remissão do pecado humano. Festeja-se então, não a vida presente, mas a esperança, o perdão virtual, o paraíso a que estamos adquirindo direito através da dor e da privação. Assim, sendo "conjuntural" a festa católica não chega a delinear uma pauta de consumo de bens simbólicos e materiais que sejam representativos da adesão à Festa como estilo de vida distintivo dentro da sociedade urbana. O que não quer dizer que o catolicismo não gere uma pauta de consumo religioso específica como velas, medalhinhas, imagens etc. É claro que o catolicismo fornece, também, símbolos que podem atuar como sinais distintivos de um estilo de vida católico. Acontece, contudo, que a "cultura nacional" (por sinal bastante "festeira") absorveu em grande parte as práticas, os símbolos e valores do catolicismo, diluindo seu significado nas diferentes dimensões da vida social, como de resto acontece com todas as religiões hegemônicas. A festa católica foi, portanto, absorvida pela cultura nacional. Talvez seja por isso que católicos e povo-de-santo sintam-se perfeitamente à vontade para estar tanto nas igrejas como nos terreiros, traduzindo ou complementando as respostas que os dois universos religiosos dão à satisfação dos anseios humanos.
 

O que tentei mostrar foi que, partindo de uma dada matriz religiosa, a do candomblé, é possível delinear um estilo de vida que dialoga com o sistema religioso que o origina e que influencia as várias dimensões da vida dos fiéis, constituindo um gosto peculiar, reconhecível por seus signos próprios. Este gosto, que define um estilo de vida, se identifica por contraposição aos demais gostos (estilos) que se encontram na cidade, adquirindo o povo-de-santo o caráter de um grupo distinto, porque este gosto comum gera escolhas comuns que por sua vez implicam o partilhar sentimentos, subjetividades, emoções.
 

Dessa forma, o candomblé, por ser uma religião que corresponde às necessidades de simbolização e ritualização na cidade, é capaz de fornecer elementos para a construção da distinção na sociedade urbana, respondendo, de modo eficaz, à tendência homogeneizante difundida pelos meios de comunicação e principalmente pelo Estado. O mesmo acontece com outras religiões e formas de agrupamento. Portanto não é possível (e há tempos sabe-se disso) pensar a cidade, especialmente as metrópoles, como fonte de sentimentos de solidão e individualismo como o senso comum tende a estereotipar. Na verdade, vivem-se, atualmente, novos tipos de associação, com bases mais "afetivas" que têm no partilhar de um gosto comum e práticas comuns seu elemento mais notável.
 

Se o povo-de-santo se identifica e delimita por contraposição a outros grupos, circunscrevendo, para tanto, um conjunto de práticas e de atitudes como peculiares e pertencentes àqueles que o compõem, não se deve pensar que sua "auto-suficiência", - ou a de outros grupos - signifique que eles se fecham em si, no espaço e/ou no tempo. Principalmente quando sabemos que não almejam nenhum fim político. Essa falta de um projeto, de expectativa de crescimento e organização, é compensada pela ênfase posta na qualidade das relações que passam a ser mais intensas e vividas no agora. Se se acredita que a causa dos sentimentos negativos diante do mundo seja a vida nas cidades (devido às relações competitivas, efêmeras, distanciadas) a solução é encontrada no recolhimento do indivíduo no grupo que escolheu (e que o "acolheu") e pelo aprofundamento das relações no interior desses grupos. Que fique claro que esse "aprofundamento" não gera consenso ou unanimidade. Tanto não é assim que o conflito desempenha um papel marcante neles (querelas entre o povo-de-santo, as "guerras" entre os grupos de punks, as dissidências entre as várias religiões-seitas etc.).
 

Antes, portanto, de acreditarmos que os indivíduos se agrupam - na cidade, nas festas, no candomblé - apenas para partilhar afeto, sem mais nenhum objetivo, e sem mais nenhuma conseqüência, lembremos que a maioria dos indivíduos que pertencem ao povo-de-santo é gente pobre, pouco escolarizada, migrante, muitas vezes doente, solitária, desamparada socialmente, sem falar nos que têm comportamentos estigmatizados (homossexuais, prostitutas, drogados, neuróticos etc.). Gente oprimida social, econômica e culturalmente. A alegria, a festa, a transgressão e a jocosidade do povo-de-santo não poderiam ser entendidas como uma forma de resistir a esta opressão? Sua linguagem e seu discurso, constantemente codificados em termos da experiência religiosa (que é mantida em segredo, partilhada apenas entre os "do santo") ao mesmo tempo em que confirma os laços permite rejeitar a massificação, a homogeneização. A referência constante ao ritual e a jocosidade diante do mundo mostram que a qualidade essencial desse grupo é justamente ser "mais ardiloso que ofensivo". Sendo assim é que ele pode se exprimir através de práticas consideradas alienantes ou alienadas. "Eterna ambigüidade da fraqueza que pode ser a máscara de uma inegável força" como diz Maffesoli. O "jogo-de-cintura", o silêncio, a abstenção, alienação são as armas que grupos como o povo-de-santo usam para enfrentar a opressão do mesmo modo que a ironia e a jocosidade, que terminam, muitas vezes por desestabilizar sistemas de dominação. E nada mais representativo dessa atitude do que a continuada produção da festa por um grupo que teria razões suficientes para poupar cada centavo, cada resto de força, cada minuto de tempo que pudesse ser aplicado na sobrevivência. Nada como a Festa para afirmar e valorizar sua existência.
 

Outro aspecto importante diz respeito ao caráter das religiões na metrópole. Nem mesmo os mais fervorosos defensores da cidade, da urbanidade, podem deixar de colocar o problema do "sentido" na sociedade complexa, "pós-moderna", tecnológica, atualíssima. Na medida em que a vida urbana afeta todas as instituições, ela atinge também as religiões e não somente os adeptos, os fiéis. Assim, o aspecto sagrado tende a não ser mais investido exclusivamente nas organizações que têm o encargo de sua gestão; escapa-lhes e permanece difuso por toda a sociedade, tornando-se parcialmente disponível para novas definições e essas definições devem ser formuladas, pois o nível do sagrado é o do sentido, onde se associam valores e onde se organizam certas formas que contribuem para a definição sublimada e para a unificação do sistema social, para a adesão dos indivíduos. É assim que os estilos de vida, a adesão a valores, tende a adquirir um caráter "sagrado", marcadamente se eles têm como matriz, como no caso do povo-de-santo, um sistema religioso.
 

Na cidade, diferentemente do que imaginavam os autores da Escola de Chicago e outros, a vida cotidiana torna-se mais permeável à religiosidade e à sacralização. Criam-se (geralmente por "trocas simbólicas") e se difundem novas linguagens teológicas; as manifestações rituais se multiplicam no quadro das experimentações sociais e culturais; expandem-se as religiões alternativas. Num nível menos dramatizado, menos dependente de acontecimentos constituídos em liturgias, a associação do político e do religioso permanece ativa. Os grupos mobilizam o "sagrado selvagem", para usar uma expressão de Bastide, e os líderes figuram como "mestres" ou gurus (veja-se, por exemplo, o papel de Chico Mendes para o movimento de preservação do meio ambiente ou de Caetano Veloso e Gilberto Gil para o Tropicalismo); as religiões "importadas” , como os diferentes orientalismos, contribuem para expressar um alto nível de rejeição da ordem social; o religioso elementar (como as práticas do candomblé) e o apelo a vários tipos de ocultismos (cabala, tarô, astrologia, numerologia, cartomancia, bioenergéticas, cromoterapia, videntes etc.) demonstram não só as divergências com a "cultura oficial" e o saber institucionalizado mas também o exercício da liberdade de escolha entre as múltiplas ofertas do sagrado e que revelam, no seu consumo, expectativas e gostos capazes de indicar a adesão a estilos de vida distintivos que configuram a construção de novas instituições.
 

Essa proliferação de grupos com estilos de vida distintos, esse "multiculturalismo", é o princípio que organiza a cidade; e esta multiplicidade dos grupos fortemente unidos por sentimentos comuns (inclusive os de pertencimento a um mesmo território: o território urbano-físico) estrutura, através de sua diversidade, a unidade da cidade. E então, podemos recuperar o caráter positivo da cidade se pensarmos que ela é uma sucessão de territórios, físicos e/ou simbólicos, onde as pessoas fazem suas trocas, se enraízam, se retraem, buscam abrigo, segurança e festejam apesar ou por causa de tudo isto.
Os grupos "fazem a cidade" porque são diferentes e até mesmo opostos. Sua lógica é o resultado de tantas outras, que por sua vez partilham a "lógica da cidade" em sua práxis. E como o povo-de-santo vive intensamente a cidade, transitando pelos múltiplos grupos dos quais se pode extrair como elemento comum o hedonismo, a dança, a música, para esse grupo (como para muitos outros) ela é o lugar da Festa; o lugar onde, dentro ou fora do terreiro, contrariamente ao que afirmam os noticiários dos jornais, "a alegria é a prova dos nove".
 
 
 

- A pesquisa que embasa este artigo publicado originalmente em Magnani, J.G. & Torres, L. L (orgs.) Na Metrópole Textos de Antropologia Urbana (EDUSP, 1996) foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).Ver, também: Amaral, Rita, Xirê! o Modo de Crer e de Viver do Candomblé (Pallas 2002) e Povo-de-Santo, Povo de festa. O estilo de vida dos adeptos do candomblé paulista. Dissertação de Mestrado. USP, 1992.

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