"Como é que eu vou
chamar um orixá se não for numa festa?!!"
Os terreiros que já contam
com um determinado número de "filhos" (como são chamados
os iniciados pelos pais ou mães-de-santo) costumam estabelecer um
calendário mais ou menos fixo de festas anuais que pode ou não
conter as festas particulares relacionadas com momentos da vida religiosa
dos filhos da casa. Ou seja, no Ipetê de Oxum, (festa da deusa Oxum)
podem acontecer também, por exemplo, a Saída de um iaô
de Logum (filho do orixá Oxum no mito), de qualquer outro orixá
(geralmente com alguma relação, no mito, com o orixá
da festa), ou a entrega de um Decá. Isto favorece a divisão
das despesas da festa e proporciona, ao mesmo tempo, maior beleza e riqueza
de momentos rituais.
Do calendário fixo de um terreiro
constam apenas as festas para os orixás considerados mais importantes
para o grupo da casa. Os terreiros que seguem um calendário de festas,
devido à memória dos tempos da escravidão, que deram
lugar a vários tipos de sincretismo, geralmente o organizam de acordo
com as datas de comemoração dos santos católicos.
Do seguinte modo: em janeiro costumam acontecer muitas festas de Caboclos
na época em que se comemora São Sebastião, quando
também acontecem muitas festas para Oxóssi. Em fevereiro,
antes do início da Quaresma, acontecem muitas festas para Ogum (por
ser o início do ano), o que também pode acontecer em abril
(dia de São Jorge) ou junho, quando ele é sincretizado em
Santo Antonio. Por ocasião do início da Quaresma, faz-se
o Lorogun (Festa de Oxaguiã), uma cerimônia que encerra as
atividades do terreiro até a Páscoa. Em junho são
freqüentes as festas de Xangô (muitas vezes sincretizado em
São João ou São Pedro), geralmente realizadas junto
a fogueiras. Em agosto é impressionante a quantidade de Olubajés,
as festas de Obaluaiê, sincretizado em São Lázaro ou
São Roque (parece que ninguém se arrisca a desagradar o temido
deus das pestes e das doenças). Em setembro acontecem centenas de
festas de Erês (ou Ibeji, as entidades infantis do candomblé)
em razão do sincretismo em São Cosme e São Damião,
comemorados a 27 de setembro. Também em setembro ocorrem as festas
das Águas de Oxalá (um ciclo de três festas que se
realizam durante três semanas), que também podem acontecer
em dezembro, seguindo-se o preceito do candomblé de que tudo (inclusive
o ano) começa com Exu e termina com Oxalá, que é sincretizado
em Cristo. As festas dos orixás femininos (iabás), como o
Ipetê de Oxum e o Acarajé de Iansã, costumam acontecer
em dezembro, devido ao sincretismo, mas podem ocorrer em qualquer época
do ano. As festas de Iemanjá, entretanto, raramente ocorrem fora
dos meses de dezembro ou fevereiro, acompanhando o calendário das
festas católicas de Nossa Senhora da Conceição ou
da Candelária, ou ainda de Nossa Senhora dos Navegantes, nas quais
é sincretizada a deusa das águas do mar.
Além desse calendário,
praticamente consensual entre o povo-de-santo, as festas podem ter outros
motivos, como já disse, e mais: aniversário "de santo" (geralmente
depois dos 7 anos de feitura), festa do orixá patrono da casa, festa
do orixá do pai-de-santo, festa oferecida a algum orixá por
motivo de "agrado" ou agradecimento por alguma coisa, festa para os erês
(espíritos infantis) da casa, para os caboclos ou boiadeiros, enfim,
os motivos para a realização de uma festa são diversos
e não faltam. Ultimamente alguns candomblés têm feito
também festas de casamento dos adeptos no próprio terreiro.
Estas não são previstas no calendário e tanto podem
acontecer fora dele como serem inseridas, de acordo com as possibilidades
e/ou conveniência do terreiro, nas próprias festas do calendário,
uma vez que a preparação e realização de uma
festa de candomblé, por mais simples que seja, exige recursos financeiros
e humanos bastante consideráveis. É por isso que muitíssimas
vezes os clientes dos terreiros são chamados a contribuir com o
"grosso" das despesas. E o fazem com grande prazer, pois acreditam que
em troca de seus favores aos deuses e seus filhos receberão axé.
A preparação da
festa
A perspectiva da realização
de uma festa mobiliza uma série de recursos econômicos e simbólicos,
dentro e fora do terreiro, além de recursos humanos. Ela começa
a ser preparada muito antes do dia marcado para sua realização,
seja uma festa simples ou não. É preciso tempo para que sejam
tomadas uma série de providencias para conseguir recursos a fim
de satisfazer os anseios de todos com relação a ela.
No caso de uma festa "simples" de
orixá (sem obrigações ou iniciação envolvidas),
jogam-se os búzios, antes de qualquer coisa, para saber se o orixá
concorda com a festa, se deseja "comer", o quê e em que quantidade,
se quer roupa nova (pergunta perigosa e que só é feita quando
há condições para isso, pois a roupa do orixá
é cara e trabalhosa), se a data lhe agrada e, inclusive, se certos
convidados serão bem vindos.
O pai ou mãe-de-santo reúne
o grupo e comunica que vai haver festa; que todos devem colaborar com trabalho,
oferendas, dinheiro ou tudo isso ao mesmo tempo. Nessas ocasiões
geralmente ele aproveita para avaliar a última festa e lembrar os
"erros" e problemas acontecidos e as soluções que foram dadas
a eles. Repreende alguns filhos por faltas cometidas, outros por não
cooperarem suficientemente com o trabalho da casa e aproveita para ensinar
algo sobre a "etiqueta ritual" a ser cumprida no barracão. Se o
terreiro tiver condições para tanto, manda-se imprimir convites
com motivo, data, endereço e até o traje adequado para a
ocasião. Estes convites podem ser financiados por algum cliente
que deseje agradar o orixá homenageado, por algum filho-de-santo
em melhor situação financeira ou, ainda, oferecidos pelos
ogãs, que se reúnem para pagá-los. Se o terreiro não
tiver condições financeiras para isso, será mobilizada
a rede de informação do povo-de-santo, que é eficientíssima.
Essa rede passa por diversos ambientes freqüentados pelos adeptos
do candomblé, especialmente as festas de outras casas, as lojas
de artigos religiosos, escolas de samba, boates gays, além de mil
telefonemas e, principalmente, através das relações
de parentesco de santo e de "nação" (rito que um terreiro
segue). A rede de informação do povo-de-santo é tão
eficiente que é costume dizerem, no candomblé, que "se você
não quer que saibam de uma coisa, não deixe que aconteça".
Pois se acontecer, todos saberão, mais cedo ou mais tarde, tenha
o fato acontecido na dimensão pública ou privada da vida
do indivíduo que vive nesta religião.
Tendo sido reunidos os recursos para
a compra dos artigos necessários, todos os membros do terreiro devem
estabelecer uma "escala de serviço" na casa, pois sempre há
a necessidade de gente para dar conta de todos os detalhes da preparação
da festa e que são muitíssimos. Até s simpatizantes
(em geral clientes dos jogos de búzios) são chamados a ajudar
neste trabalho.
Para que a festa possa ser realizada
é necessário ainda que os adeptos se organizem também
fora do terreiro. Como é preciso (e importante!) ajudar no trabalho
da casa-de-santo, muita gente trabalha horas extras no emprego, não
só para conseguir mais dinheiro e participar da festa, comprar uma
roupa nova para si ou para seu orixá usar no "grande dia", mas também
para ter tempo livre que possa ser usado nas tarefas do terreiro. É
comum que pessoas que trabalhem em hospitais, por exemplo, "dobrem" seus
plantões para ter um dia ou uma noite livres para dedicarem-se aos
afazeres da "roça" (terreiro). Há empregadas domésticas
que abandonam o emprego para serem a "mãe-criadeira" de um iaô
(aquela que toma conta dele, de seu banho, sua comida, de ensinar-lhe toda
a etiqueta, as cantigas etc); diaristas que faltam ao serviço apenas
para poderem ajudar na "comida do santo". No caso dos iaôs, é
costume aproveitarem os períodos de férias (do trabalho ou
escolares) para a iniciação. Quem não trabalha "fora"
como algumas donas-de-casa, deve providenciar quem cuide de seus filhos,
maridos, suas casas (pois é comum que partes importantes dos rituais
sejam feitas à noite; principalmente porque é neste período
do dia que a maioria dos filhos-de-santo pode estar no terreiro). Quando
não conseguem isto, elas levam seus filhos para a "roça",
outro nome pelo qual se chamam os terreiros. Sempre se dá um jeito.
Em época de "obrigação" é muito comum vermos
crianças nos candomblés brincando, com pedrinhas, de "jogar
búzios". Elas brincam também de "virar no santo", "fazer
ebós" e outras coisas que vêem nesta convivência obrigatória
com a prática do candomblé, ao acompanharem seus pais.
Quando há festa, devem ser
respeitados tabus alimentares e sexuais. Com antecedência deve-se
lavar, passar e engomar as roupas que serão usadas (sete saiotes
para cada mulher que dance na roda-de-santo, são lavados, passados
e engomados!), consertar as roupas dos orixás que, na dança
da festa anterior, perderam lantejoulas, pedras ou rasgaram-se. É
preciso polir as ferramentas (símbolos feitos em metal) dos orixás,
as pulseiras e os adjás (sinetas) dos ebomis (que geralmente são
confeccionados em latão ou zinco niquelado e escurecem com o tempo),
pois eles devem imitar o brilho do ouro, da prata e do cobre, metais favoritos
dos orixás. É preciso correr a cidade em busca de avícolas
onde possam ser encontrados os animais preferidos pelo orixá ao
qual serão sacrificados - deve haver um carro à disposição
do terreiro para todo este circuito de compras - e depois se sai à
procura das folhas que comporão o amaci (banho de "limpeza") dos
filhos-de-santo antes da festa. Se a casa tiver seus próprios alabês
(ogãs tocadores de atabaques), muito bem. Se não, eles deverão
ser contratados, pois uma festa não pode prescindir da música,
e no candomblé é ela que "traz" os orixás ao mundo
dos homens. É costume se dizer, nos terreiros, que "sem alabê
não tem candomblé".
Às vésperas da festa
os animais oferecidos aos orixás são sacrificados e as "comidas
secas" (são chamadas assim todas as "comidas-de-santo" que não
sejam animais sacrificados) oferecidas aos orixás. Essas comidas
geralmente são preparadas pela iabassê da casa (cozinheira
que prepara as comidas dos orixás e que conhece os preceitos e "temperos"
do gosto de cada orixá), auxiliada por equedes (mulheres que não
entram em transe e são espécies de "camareiras" dos orixás)
e iaôs. Cada orixá come um prato específico, preparado
de modo peculiar. Um dos conhecimentos mais importantes do candomblé
consiste em saber exatamente o quê cada qualidade de orixá
come, "temperado" de que modo e sob que circunstâncias rituais. Já
na preparação das comidas da festa, portanto, a hierarquia
e seu conseqüente grau de conhecimento começa a se expressar
de modo enfático.
Todo o "cardápio" da festa
depende do que se chama de "qualidade" do orixá, que são
avatares, caminhos do orixá e "partes ou segmentos da sua própria
biografia mítica, ou representações de locais em que
nessa forma foi ou é cultuado" (PRANDI, 1989:157). Todas as comidas
rituais são preparadas levando-se em consideração
os preceitos de cada orixá. A pipoca de Obaluaiê (doburu),
por exemplo, deve ser estourada na areia quente e não no óleo.
Quem o faz não pode falar enquanto prepara, e assim por diante.
Nas festas de iniciação,
depois do sacrifício ritual a cozinha do terreiro fica cheia de
frangos, patos, galinhas d'angola etc. para serem depenados e suas vísceras
devidamente separadas e preparadas, conforme a preferência dos orixás
a que se destinam. Os "bichos de quatro pés" (que podem ser porcos,
cabritos, carneiros, tartarugas, coelhos etc., conforme o orixá
homenageado) são "pelados" e limpos pelos ogãs. É
muito comum nas casas-de-santo serem vistas, curtindo ao sol ou mesmo na
forma de pequenos "tapetes", as peles desses animais. É conferindo
as peles na parede que o povo-de-santo sabe (e verifica) quais foram os
animais sacrificados. É costume se contarem as peles e ver se elas
são novas.
Depois de limpos os bichos, cozinham-se
as carnes, separa-se o que cada orixá deseja e, no dia seguinte,
são preparadas as comidas que serão servidas à assistência
da festa, no ajeun (refeição coletiva, compartilhada entre
os deuses, os membros da casa e os convidados). Compradas as bebidas, resta
ainda verificar se há pratos e copos em número suficiente
para os convidados. Ultimamente é bastante comum vermos o povo-de-santo
comendo o ajeun em pratinhos de papel, com garfos de plástico, em
lugar do tradicional ajeun servido em folhas de mamona e comido com as
mãos, descrito tantas vezes na etnografia clássica sobre
o candomblé.
É preciso, ainda, providenciar
flores e folhas para enfeitar o barracão, fazer os laços
com os ojás (panos no formato de echarpe que o povo-de-santo amarra
na cabeça, na cintura etc) nos atabaques, além de manter
tudo rigorosamente limpo. Durante estes dias é preciso que alguém
providencie alimentação "profana" e bules e mais bules de
café para os que estão trabalhando no terreiro. Toda esta
trabalheira é realizada alegremente, entremeada de brincadeiras,
de narrativas de casos acontecidos nos diversos candomblés e de
indakas (fofocas). A cozinha é o espaço do terreiro onde
se fica sabendo das coisas do candomblé e onde muitos ensinamentos
são transmitidos, juntamente com avaliações de todos
os tipos. É na cozinha que, além de serem preparadas as comidas
dos santos, e as magias, são "cozidos" os acontecimentos das festas,
as práticas dos outros terreiros (chama-se isto de "xoxar"), os
casos de demanda, cura, mistérios, avaliados os desempenhos de adeptos
e de orixás, a vida pública e privada do povo-de-santo em
geral. É claro que não é só na cozinha que
se fazem estes comentários, mas este espaço, sendo um espaço
cheio do segredo do candomblé (os "feitiços" são preparados
ali), é um espaço de "intimidade" do povo-de-santo dentro
do terreiro.
A não ser nos momentos mais
importantes, como o sacrifício dos animais e outros rituais, o pai
ou mãe-de-santo estão ocupados com outros afazeres. Em geral
atendendo os clientes através do jogo de búzios ou da realização
de ebós, etutus (tipos de "limpeza" ritual, que incluem um sacrifício
animal) ou boris (cerimônia de "dar de comer à cabeça").
Quer dizer, dando os primeiros passos na direção da próxima
festa. Seja pela transformação do abiã (adepto que
ainda não passou pelo rito de iniciação), que agora
está dando o bori, num futuro iaô, seja pela transformação
do cliente que veio jogar búzios num novo abiã.
Os custos da festa
Outro aspecto importante, no que
diz respeito à festa de candomblé, são seus custos.
Apesar das más condições econômicas em que vive,
o povo-de-santo é um grupo que consegue promover, com freqüência
à primeira vista intrigante, festas bastante dispendiosas.
As festas de iniciação
e as "de obrigação" são as mais caras. Entre estas
últimas a mais cara é a de 7 anos, conhecida como decá.
Nas despesas com tais festas devem ser computadas a manutenção
do iniciando e a daqueles que trabalham no terreiro durante o período
de recolhimento, além de ser obrigatório o sacrifício
de um bicho de "quatro pés" e quatro frangos (um para cada "pé"
do bicho, diz-se; chama-se a isso de "calçar" o bicho de quatro
pés_). Praticamente repete-se a iniciação, multiplicando-a
pelo número de orixás que já foram assentados (os
5 ou 7 orixás do enredo) e mais o caboclo (quando o indivíduo
tem um), que também "comem".
Mesmo no caso de uma festa simples
(comemorativa de um orixá), pelo menos uma comida seca cada deus
deve receber, como vimos. Exu sempre deve comer e o orixá homenageado
receber um "quatro-pés" calçado. Este "quatro-pés"
geralmente é um bode ou uma cabra. Há até quem ofereça
um boi a seu orixá ou caboclo, conforme a situação
financeira da casa e/ou do indivíduo permitam. Mas geralmente se
oferece bem menos que isso, "negociando-se" com o orixá, prometendo-se
lhe dar o devido mais tarde. Apenas as "comidas secas", porém, já
consomem uma considerável quantia em dinheiro do povo-de-santo,
além das despesas com gás, luz, água, alimentação
(e tempo!) dos que trabalham na casa, inevitáveis em qualquer atividade
do terreiro.
Assim, o mínimo gasto numa
festa de orixá, simples, é de 500 dólares, sem incluir
as bebidas do ajeun, que podem variar do simples refresco em pó
até cervejas e refrigerantes. No caso da festa de iniciação,
uma das mais caras festas de candomblé, os custos chegam a 1500
dólares. No decá, multiplique-se pelo menos por três
essa quantia. Poucos, por esta razão, conseguem chegar a esta categoria
e, portanto, aqueles que a alcançam orgulham-se muito e são
respeitadíssimos tanto pelo sacrifício exigido quanto pelo
conhecimento adquirido durante o tempo que se esperou e poupou recursos
para tanto.
É impossível reproduzir
aqui a lista dos artigos necessários para uma festa de iniciação.
Esta lista contém todos os artigos necessários não
só ao assentamento do orixá (a feitura, propriamente dita),
mas também aos ebós, o material do bori, da roupa de orixá
e do iaô e o sustento do pessoal que trabalhará na "roça"
durante o período em que o iaô estiver recolhido, em geral
17 dias. Dela constam, em média, 126 itens, sem contar as unidades
como 20 orobôs, 10 litros de mel etc. Além do preço
dos artigos, devemos somar, também, os honorários do pai-de-santo,
chamados de "mão" ou "salva de chão", que representam o custo
dos seus serviços religiosos, a serem pagos pelo iaô em dinheiro
ou, quando isso não é possível, em trabalho no terreiro.
Feitas as contas, uma iniciação
"barata", como a de Ogum (pois há orixás considerados "baratos",
como Ogum, Oxum, Oxóssi), não poderá ser realizada
por menos de 1500 dólares e, as mais caras, como as de Logun-Edé
(considerado o orixá mais caro do candomblé, pois come tudo
em casais: um casal de faisões, um casal de coelhos, um casal de
pombos etc.) e de Oxalá, 2000 dólares.
Não é fácil,
portanto, para o filho-de-santo, conseguir recursos para a iniciação
ou mesmo para a festa comum. No caso da iniciação, pode demorar
anos. Pode se tornar impossível. Às vezes, quando há
emergência, pode-se fazer o orixá "de esmola", o que significa
que o próprio indivíduo ou o pai-de-santo pedirão
aos filhos e clientes da casa que dêem algo da lista ou pelo menos
parte, conseguindo, ao fim de certo tempo, tudo o que é necessário.
Outras vezes os filhos de santo saem à rua, oferecendo um punhado
de pipocas curativas de Obaluaiê, em troca de algum dinheiro para
a iniciação. Ou, ainda, é o próprio orixá
que exige que tudo seja feito de esmola, ensinando assim a humildade a
seus filhos. E se não for desse modo, muitas vezes o abiã
não terá nunca recursos para "fazer" seu orixá. Mas
não é comum que ele conte muito com os outros para se iniciar.
Primeiro porque pedir a quem já tem pouco, como a maioria do povo-de-santo,
é na verdade conseguir muito pouco. E depois parece haver uma questão
de orgulho envolvendo o assunto. Nada, entretanto, nesse orgulho impede
o abiã de aceitar "presentes" - que podem ser escolhidos numa lista
como as de presentes de casamento - para seu orixá, e isso acontece
freqüentemente. Clientes, amigos e parentes que simpatizam com o abiã,
com o pai-de-santo ou, principalmente, que se julgam em dívida para
com o orixá que será feito ou desejam "agradá-lo",
costumam "presentear" o iaô, diminuindo em alguma coisa o número
de itens ou a quantia a ser despendida por este. Para muitas pessoas, entretanto,
é uma questão de honra gastar o que for preciso para satisfazer
seu orixá. Muitos adeptos do candomblé trabalham anos a fio
para ter, um dia, condição de oferecer uma esplêndida
festa em honra de seu orixá, fazê-lo do modo mais perfeito
possível. Pierre Verger, etnólogo francês, dizia que
essas "horas de glória" criam um sentimento de honra e prestígio
que ultrapassa os muros do terreiro:
"O candomblé é
uma religião de exaltação da personalidade. Ela faz
com que as pessoas se sintam honradas. Uma vendedora de acarajé
tem prestígio. Compra-se dela com muito respeito porque ela é
filha de Oxum, de uma deusa, porque sua deusa baila bem. A gente não
se sente humilhada". (Declaração de Pierre Verger a Goulart
de Andrade, no programa Comando da Madrugada, do SBT, em 16/11/90).
São provavelmente tais "horas
de glória" que compensam todo o sacrifício, todo o investimento
do povo-de-santo nas festas. Para a parte deste grupo que vive as humilhações
da pobreza, da falta de todo tipo de bens, elas podem ser não apenas
altamente revigorantes mas, do mesmo modo que para a parte em melhor condições
financeiras, distante desta realidade, momentos de profunda transcendência,
de catarse e de ultrapassamento do próprio "eu".
A renovação das obrigações,
a preocupação com as festas dos outros membros do terreiro
e com as suas próprias, fazem com que elas sejam um tema cotidiano
e objetivo permanente dos adeptos dessa religião, que organizam
a própria vida cotidiana em função do trabalho que
devem realizar na "casa de santo" para a festa do orixá da casa
(ou do seu), e das festas de outras casas a que desejam assistir. Ou seja,
sendo constante a produção da festa, o candomblé é
a constante produção das horas de glória. As horas
de dançar e brilhar no barracão.
Os deuses entram em cena
A festa de candomblé, por
suas características intrínsecas de ludismo, o canto, a dança,
o ultrapassamento do "eu" no transe, um figurino e papéis previamente
conhecidos por todos os que dela participam, assume características
de um drama ritual, semelhante ao drama teatral, onde são vividas
as histórias dos deuses e a dos homens do povo-de-santo. É
o tipo de festa que Duvignaud (1976) chama de festa de participação.
Nesta categoria incluem-se cerimônias públicas das quais participa
a comunidade no seu conjunto. Os participantes são conscientes dos
mitos que ali são representados, assim como dos símbolos
e dos rituais utilizados. Algumas festas religiosas, como as bacanais da
antiguidade, as festas de candomblé e a maior parte dos carnavais
pertencem, para Duvignaud, a esta categoria.
É na festa que os orixás
vêm à terra, no corpo de seus filhos, com a finalidade de
dançar, de brincar, de xirê, termo que em ioruba significa
exatamente isto. É através dos gestos, sutis ou nervosos,
dos ritmos efervescentes ou cadenciados, das cantigas que "falam" das ações
e atributos dos orixás, que o mito é revivido, que o orixá
é vivido, como a soma das cores, brilhos, ritmos, cheiros, movimentos,
gostos. A vida dos orixás é o principal tema (e a vinda dos
orixás o principal motivo) da festa. Os deuses incorporam seus eleitos
e dançam com brilhantismo. Usam roupas brilhantes, ricas, coroas
e cetros, espadas, espelhos; são os personagens principais do drama
religioso.
Os filhos-de-santo, mesmo fora do
transe, representam papéis construídos material e simbolicamente
em termos de tempo de iniciação, hierarquia (da casa e dos
orixás) ou da possibilidade de entrar em transe ou não, já
que nem todos os membros da religião podem experimentá-lo.
Desempenhar um papel religioso no candomblé (ser "do santo"), uma
religião fundamentada na possessão dos homens pelos deuses,
implica pertencer a uma das duas categorias básicas que organizam
a religião: a dos "rodantes" (os que entram em transe) e a dos "não-rodantes"
(os que nunca entram em transe). Na categoria dos "não-rodantes"
encontram-se os ogãs e as equedes. Todos os demais são "rodantes".
Dentro destas duas categorias surgem os "papéis". Os rodantes ebomis
podem assumir inúmeros cargos no terreiro, como pai ou mãe-de-santo,
pai ou mãe-pequenos (assessores imediatos dos chefes do terreiro,
vistos também como pais ou mães "menores"), iamorô
(responsável pela ajuda nos rituais em geral), ialaxé (a
que cuida dos axés dos orixás), jibonã (responsável
pelos cuidados com o iaô recolhido, e que também é
chamada de "mãe-criadeira", especialmente no rito angola) etc. Entre
os "papéis" dos não-rodantes estão o olossaim (responsável
pela busca das folhas rituais e que deve conhecê-las muito bem),
os obás (ministros de Xangô) e outros mais, determinados pela
casa.
A ocupação destes cargos
atribui prestígio a quem o recebe e é designada, a maior
parte das vezes, pelos orixás incorporados durante a festa, num
ato chamado de "suspensão" - "escolha" feita pelo orixá,
que pega uma pessoa pelo braço e a leva para junto dos atabaques,
dançando, ou ainda deita-se a seus pés, numa atitude de reverência
do deus ao homem e colocando-a sentada numa cadeira "de honra". Estes momentos
costumam ser efusivos e emocionantes tanto para os filhos da casa como
para a assistência, pois algumas vezes é do público
que assiste à festa que o orixá "suspende" alguém.
Evidentemente, a construção
dos papéis rituais não se faz na festa, mas é principalmente
nela que eles se expressam em sua plenitude, pois é quando se encontram
reunidos os membros do grupo podendo (no "palco" que é o barracão),
contracenar entre si na presença do público assistente.
Neste "teatro", cada papel é
construído com base numa série de mitos, movimentos ritualizados,
roupas, signos próprios além, é claro, de tempo, conhecimento,
direitos e deveres específicos. Por exemplo: o orixá Ogum
pode ser identificado, minimamente, a partir de alguns elementos: a cor
azul cobalto e um facão, gestos de luta executados durante a dança,
postura brava e viril. Para os mais conhecedores, pelo ilá (grito
característico de cada orixá, que comporta variações).
Se for orixá de um ebomi, quando parado colocará os braços
para trás, apoiando as costas das mãos sobre os rins. Se
for o orixá do pai-de-santo, quando este entrar em transe todos
os rodantes filhos da casa também "virarão" em seus orixás.
Todos os ebomis, rodantes ou não,
têm seu "figurino mínimo" composto por um brajá (colar
de contas feito em "gomos", na cor de seu orixá pessoal), um ojá
na cintura, pelo uso de "abas" no ojá ori (pano que se enrola na
cabeça) e, principalmente, pelo uso do adjá (sineta ritual,
usada para chamar os orixás). O papel dos ebomis não-rodantes,
na festa, pode ser comparado ao de "coadjuvante" no teatro, e sua "deixa"
(sinal para que um personagem atue) é geralmente outro papel, como
o de orixá, por exemplo, começar a ser desempenhado por alguém.
Os iaôs recém-iniciados
podem ser reconhecidos pela sua postura física (geralmente andam
de cabeça baixa), pelo uso do kelê (colar símbolo da
iniciação, usado rente ao pescoço, durante pelo menos
três meses) e do mocã (trançado de palha da Costa com
uma espécie de "boneca" de palha na ponta, relacionado aos antepassados).
Eles usam ainda o erindilogun (colar de 16 fios de contas) e os "contra-eguns"
(trancinhas de palha da Costa que são amarradas nos braços
dos iaôs, visando espantar os espíritos dos mortos, chamados
de eguns). Os iaôs recém-iniciados, além disso, só
sentam no chão, separados dos iaôs mais velhos e ebomis, comem
por último etc.
Outros elementos também são
levados em conta na delimitação dos papéis religiosos
sem, contudo, abandonarem o referencial do tempo de iniciação.
A posição que o indivíduo ocupa na "roda-de-santo",
por exemplo, é determinada nesta base. Desse modo, os ebomis estarão
no "começo" da roda, seguidos pelos iaôs em ordem decrescente
de tempo de iniciação, ficando no "fim" da roda os abiãs.
Há, no entanto, casas em que, além destas distinções,
estabelece-se também uma distinção entre os sexos:
mulheres na frente e homens no "final" da roda (ainda assim respeitando,
para a ordenação, o "tempo-de-santo").
A posição e os papéis
dos indivíduos no sistema religioso também se manifestam
por ocasião da troca de bênçãos (quando se toca
para o orixá da pessoa, de seu terreiro ou cantigas que tenham a
ver com a identidade religiosa da pessoa, por exemplo) entre os filhos
da casa e outros que estejam dançando durante a festa. O mais novo
pedirá a bênção ao mais velho, todos a pedirão
ao pai ou mãe-de-santo, os iaôs e abiãs pedem aos ogãs
e equedes e outros ebomis; pessoas de um mesmo barco (iniciados no mesmo
dia, na mesma casa, pelo mesmo pai-de-santo) trocam bênçãos
entre si e assim por diante, numa complicadíssima e por vezes ininteligível
rede de bênçãos. Muita gente fica ressentida porque
não lhe tomam a bênção na hora devida, ou mesmo
porque acaba pedindo a bênção (beijando a mão
do outro), quando devia dar (receber o beijo na mão primeiro). Entre
o povo-de-santo, esta "gafe" é muito comum, mal vista e pode ser
o início de antagonismos.
Desde a entrada da roda-de-santo
no barracão, todos os papéis religiosos são vividos
intensamente, numa atuação sincrônica cujos elementos
ordenadores são dados pelo xirê, que é a estrutura
que organiza a entrada das cantigas e danças ao som do ritmo dedicado
a cada orixá, cujo transe é previsto neste momento. Assim
que o orixá "vira", outros papéis são imediatamente
acionados: a equede, que deve acompanhá-lo, vesti-lo, secar-lhe
o suor do rosto e dançar com ele; o pai-de-santo, que deve receber
a reverência do orixá; o dos alabês, que devem saber
o quê, e de que modo, deve ser tocado para aquele orixá etc.
Além de ser uma estrutura seqüencial ordenadora das cantigas
(louvações), o xirê denota também a concepção
cosmológica do grupo, funcionando como elemento que "costura" a
atuação dos personagens religiosos em função
dos papéis e dos momentos adequados à sua representação.
Um exemplo de como o xirê expressa a visão cosmológica
do grupo pode ser dado por esta ordenação, costumeira do
candomblé ketu:
Primeiro toca-se para Exu, no padê_
(porque ele é o intermediário entre os homens e os orixás,
entre o mundo do além e o da terra); depois para Ogum (porque é
o dono dos caminhos e dos metais e sem ele e suas invenções
da faca e da enxada o sacrifício aos orixás e o trabalho
na terra estariam impedidos); Oxóssi (porque é irmão
de Ogum e porque também está ligado à sobrevivência
através da caça e da pesca), Obaluaiê (porque é
o orixá da cura das doenças, ou aquele que as traz), Ossaim
(dono das folhas que curam, daí sua ligação com Obaluaiê
e também porque nada se faz sem folhas no candomblé), Oxumarê
(por sua ligação com Xangô, como escravo deste e como
aquele que faz a ligação entre o céu (nuvens) e a
terra), Xangô (deus do trovão e do fogo, trazido por Oxumarê),
Oxum (esposa favorita de Xangô), Logum-Edé (o filho de Oxum,
mas com Oxóssi), Iansã (que no mito criou Logum-Edé‚
juntamente com Ogum quando Oxum o abandonou); Obá (tida em muitas
casas como irmã de Iansã e a terceira mulher de Xangô),
Nanã (a mais velha das iabás - orixás femininos),
Iemanjá (a dona das cabeças e mulher de Oxalá) e finalmente
Oxalá, o senhor de toda a criação. Algumas casas,
entretanto, seguem outra ordem.