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Cantar
para subir - um estudo antropológico da música ritual no
candomblé paulista - Rita Amaral &
Vagner Gonçalves da Silva
segunda
parte
Esse
trânsito pelos vários terreiros permite aos alabês o
contato com as diferentes modalidades de rito (Ketu, Angola, Jeje...) possibilitando,
por vezes, que os próprios pais-de-santo usufruam deste conhecimento
genérico. Em algumas ocasiões são os próprios
ogãs alabês, ao lado do pai-de-santo, que realizam cerimônias
de repertório específico como o axexê (rito funerário)
.
Também
o crescente número de gravações, em discos e fitas,
de músicas rituais, tem respondido à demanda por esse tipo
de artigo como fonte de complementação de repertório.
Evidentemente essa demanda não se restringe aos alabês, mas
são eles seus principais consumidores e, geralmente, produtores.
Nesse
contexto, conhecer a seqüência exata das cantigas apropriadas
a cada momento, como "aquela que se canta pro Ogun dançar com o
mariô" (folha de dendezeiro desfiada), é sinal de prestígio
e poder. Daí as cantigas se converterem em verdadeira "moeda", com
a qual se realiza a troca de conhecimento entre os membros do culto.
Ritmos
e Repertórios
A música
ritual do candomblé costuma ser chamada de "toada" ou "cantiga",
sendo este o termo mais usado em São Paulo, atualmente.
"Em
candomblé a gente não chama "música". Música
é um nome vulgar, todo mundo fala. É um...como se fosse um
orô (reza)...uma cantiga pro santo". (Jorge)
Aqui,
entenderemos "cantiga" como um poema musicado, ou seja, a sobreposição
de letra a melodia. Desse modo podemos classificar as cantigas em dois
grupos principais: aquelas destinadas às cerimônias privadas
(de roncó), cuja letra (em português ou fragmentos de línguas
africanas) alude às etapas do rito e aquelas das cerimônias
públicas (de barracão), cuja distinção em relação
às primeiras se dá pela referência aos mitos e pela
presença do ritmo, executado pelos atabaques. Entretanto, as mesmas
cantigas cantadas no barracão podem, por vezes, serem ouvidas no
"roncó", sem o ritmo característico. Nos candomblés
ao tempo de Arthur Ramos (1934:163),
contudo, o ritmo acompanhava as cerimônias privadas.
A presença
do ritmo no barracão parece estar associada à dança,
que rememora os atributos míticos das divindades. Desse modo, um
deus guerreiro, como Ogun, estabelece uma coreografia na qual os movimentos
serão ágeis, rápidos e vigorosos, adequando-se ao
ritmo executado, diferentemente dos passos lentos, fluidos e ondulantes
de Oxum, uma deusa das águas.
"Eu
vejo a música como a...representação de expressar
a dança do orixá, o preceito, o que ele faz, como ele vive...Como
se fosse eu falando da minha vida ou cantando alguma coisa para ele."
(Jorge).
Assim,
com seus ritmos característicos, cada orixá expressa, na
linguagem musical e gestual, suas particularidades, criando uma atmosfera
na qual estas se tornam inteligíveis e plenas de sentido religioso.
Daí podermos falar dos ritmos mais freqüentes no candomblé
em termos do que representam e de sua relação com as entidades
às quais homenageiam.
O adarrum
é o ritmo mais citado como característico de Ogun. É
um ritmo "quente", rápido e contínuo, que pode ser executado
sem canto, ou seja, apenas pelos atabaques. Pode, também, ser executado
com o objetivo de propiciar o transe. O toque de bolar, por exemplo, se
faz ao som do adarrum.
O aguerê
é o ritmo de Oxóssi. É acelerado, cadenciado e exige
agilidade na dança, do mesmo modo que a caça exige a agilidade
do caçador. O ritmo de Obaluaê é o opanijé,
um ritmo pesado, "quebrado" (por pausas) e lento. Este ritmo lembra a circunspeção
deste deus das epidemias, ligado à terra.
O
bravum,
embora não seja atribuído especialmente a algum orixá,
é freqüentemente escolhido para saudar Oxumarê, Ewá
e Oxalá. É um ritmo relativamente rápido, bem dobrado
e repicado. A dança preferida de Xangô se faz ao som do alujá,
um ritmo quente, rápido, que expressa força e realeza recordando,
através do dobrar vigoroso do Rum, os trovões dos quais Xangô
é o senhor.
Ijexá,
o único ritmo tocado com as mãos no rito Ketu é, por
excelência, o ritmo de Oxum. É um ritmo calmo, balanceado,
envolvente e sensual, como a deusa da água doce, à qual faz
alusão. Ele é tocado ainda para o orixá filho de Oxum,
Logun-Edé e, algumas vezes para Exu e para Oxalá.
Para
Iansã, divindade dos raios e dos ventos, toca-se o agó,
ilu,
ou aguerê de Iansã, termos que designam um mesmo ritmo
que, de tão rápido, repicado e dobrado, também é
conhecido como "quebra-prato". É o mais rápido ritmo do candomblé,
correspondendo à personalidade agitada, contagiante e sensual desta
deusa guerreira, senhora dos ventos e que tem poder de afastar os espíritos
dos mortos (eguns).
Sató,
um ritmo vagaroso e pesado, é geralmente tocado para Nanã,
considerada a anciã das iabás (orixás femininos).
O
batá,
talvez um dos ritmos mais característicos do candomblé, pode
ser tocado em duas modalidades: batá lento e batá rápido,
sendo o primeiro executado para os orixás cuja dança comedida
denota certas características de suas personalidades, como a dança
de Oxalufã, o deus arcado e velho que, com seu paxorô (cajado),
criou o mundo. Significativamente, o termo batá, designa também
o tambor de duas membranas, afinadas por cordas, cujo uso nos candomblés
do Norte e Nordeste do Brasil é tão difundido que talvez
por este motivo o ritmo tenha tomado seu nome, ainda quando não
executado por este instrumento.
Vamunha
é um outro ritmo, também conhecido por: ramonha, vamonha,
avamunha, avania ou avaninha, tocado para todos os orixás. É
um toque rápido, empolgado e tocado em situações específicas
como a entrada e saída dos filhos de santo no barracão e
para a retirada do orixá incorporado. É nesse momento que
o orixá saúda os pontos de axé da casa e se retira
sob a aclamação dos presentes.
Todos
os toques (ritmos) acima são característicos do rito Ketu
e, conforme procuramos demonstrar, associam letra, melodia e dança
que, integrados, "narram" a experiência arquetípica
dos orixás, vividas em nível individual e grupal e cujo ápice
é o transe. Alguns destes ritmos são tão personalizados
dos orixás que podem dispensar as letras ou mesmo a dança
como elemento de identificação. É o caso do alujá,
do
opanijé e do agó (quebra-prato), consagrados
a Xangô, Obaluaê e Iansã, respectivamente.
No
rito Angola, o repertório rítmico é composto por três
polirritmos básicos e algumas variações sobre estes.
São eles: cabula, congo e barravento (do qual
a variação mais conhecida é a muzenza). Todos
são ritmos rápidos, bem "dobrados", repicados e tocados "na
mão" (sem varinha). De modo geral, todas as divindades podem ser
louvadas com cânticos ao som de qualquer dos três: sejam os
orixás, inkices, ou aquelas tidas como originárias dos cultos
ameríndios (caboclos índios e boiadeiros). A própria
aceitação dos elementos nacionais sobrepostos às influências
africanas no candomblé angola é perceptível, principalmente
pelas letras das cantigas, cantadas em português e mescladas aos
fragmentos das línguas "bantu". No Ketu a tolerância ao português
é mais restrita e as casas de Ketu que cultuam caboclos estabelecem
uma "mediação" que intercala, na ordem do xirê,
o toque dos caboclos. Assim, para que o "xirê Ketu" possa abrigar
as toadas de caboclo é preciso que ocorra uma "transição
musical", na qual o toque "vira para Caboclo”, não sem antes serem
cantadas algumas cantigas de angola como este ingorossi (reza):
"Sequecê
di quan Dandalunda
Sequecê
di quando eu andá...“.
(rito
angola)
Desse
modo, vemos como os repertórios musicais referendam as sobreposições
dos modelos angola e ketu, sendo um dos elementos principais para sua afirmação
e identificação. No caso do candomblé angola, é
inegável que um repertório cuja letra permite associações
com palavras em português, estabeleça uma comunicação
muito mais direta e fácil, inclusive entre a divindade e o interlocutor,
tornando-se mais "inteligível" e mais facilmente memorizável
. Eis um exemplo:
"Fala
mameto caiangô
Kicongo
quando come
Lemba
di lê “.
(cantiga
de Obaluaê - rito Angola)
"Aê
seu kafunã
Omulu
que belo ojá
Aê
aê seu Kafunã"
(idem)
O
mesmo acontece com as toadas ou "salvas" de caboclo (cantiga com que o
caboclo se apresenta), cujas letras costumam ser em português e relatam
acontecimentos relacionados a sua "vida" mítica, entre outras coisas.
Como esta:
"Eu
vinha pelo rio de contas
Caminhando
por aquela rua
Olha
que beleza!
Sou
boiadeiro do clarão da lua"
Ou ainda
esta outra:
"Campestre
verde, ó meu Jesus (bis)
Madalena
chorava aos pés da cruz
Com
sete dias, minha mãe me deixou (bis)
Me
deixou numa clareira, Ossanha que me criou"
Nesse
sentido, os ritmos angola compartilham um repertório musical muito
mais próximo do modelo de música popular brasileira, dentro
da qual o samba é a principal expressão. Não é
de se estranhar que um toque de angola seja também chamado de "samba
de angola", fazendo referência não apenas à semelhança
dos ritmos, mas também à alegria e descontração
da dança. Ao contrário da coreografia Ketu, caracterizada
pelas particularidades do orixá e conduzida pelo ritmo, no angola
um número bem menor de variações rítmicas admite
um leque maior de danças, incluindo a dos caboclos, que dançam
com maior inventividade. Por outro lado, alguns ritmos podem caracterizar
situações rituais precisas, que terminam por eles sendo denominadas.
É o caso do "barravento" que, sendo um toque rápido e propiciatório
ao transe (e portanto semelhante ao adarrum no Ketu), acaba denominando
os movimentos que prenunciam o transe. Também o ritmo muzenza (uma
"variação" do "barravento") pode designar a dança,
curvada, característica da primeira saída pública
de iniciação no angola, também chamada de "saída
de muzenza", símbolo da humildade do iniciado .
De
qualquer modo, é através da música ritual que as diferenças
entre as "nações" são observadas, revelando a forma
do culto não só pela maneira como se toca mas, também,
como se canta, o que se canta, como se dança, para quem e em que
ocasiões. Entretanto, apesar de haver um repertório básico,
compartilhado pelas diferentes casas de uma mesma "nação",
a apropriação das cantigas se dá de modo diferenciado.
Certas cantigas como:
"Ina,
ina mojubá ê
Ina
mojubá"
(rito
Ketu)
usualmente
dedicada a Exu, também pode ser ouvida ao som do alujá, para
Xangô. Talvez pela referência ao fogo (ina) ao qual ambos estão
associados. Ainda a cantiga:
"Xaxará
balé‚ con aô
balé‚
balé"
(rito
Ketu)
pode
ser ouvida para Iansã ou para Obaluaê. No primeiro caso o
elemento que adquire mais significado é o termo balé (relativo
à casa dos mortos), ao qual Iansã está associada,
sendo inclusive chamada, em uma de suas "qualidades", por este nome: Iansã
de Balé. No segundo caso o termo privilegiado é xaxará,
a vassoura simbólica de Obaluaê, com a qual este envia ou
retira as pestes do mundo.
Como
cantar é uma atitude onde se busca o contato com forças divinizadas,
não importa tanto uma tradução literal resultante
de uma ordenação sintática (o que seria impossível
dado o vocabulário residual das línguas africanas aqui existente).
Importa, antes, o significado atribuído e justificado pelo uso da
"língua" dos antepassados e o saber a eles atribuído. Como
aponta Yeda Pessoa de Castro, "importa
saber, por exemplo, para que santo e em que momento deve ser cantada tal
cantiga e não o que essa cantiga significa literalmente" (CASTRO,
1983:85).
Dessa
forma, o que realmente importa é que a música sempre fará
alusão, pela escolha de qualquer dos seus elementos, a momentos
significativos do rito, não só ordenando-o mas, ao mesmo
tempo, estabelecendo uma identidade entre aqueles que compartilham deste
significado que "norteia" a relação do indivíduo com
seus deuses.
III
- A Música no Contexto Ritual
A-
A música como elemento ordenador
São
várias as circunstâncias em que a música ordena os
acontecimentos ou o próprio tempo. A cantiga em que se bolou pela
primeira vez (chamada pelos adeptos de "cantiga de morte"), por exemplo,
imprime uma marca na vida pessoal do iaô. Fará parte de seu
estojo de identidade religiosa.
O bori,
um ritual pleno de detalhes, é inteiramente marcado por cantigas
que imprimem uma certa ordem na cerimônia. Primeiro, canta-se a sassain,
seqüência de cantigas louvando cada uma das folhas que comporão
o amaci (banho de ervas) com que o ori será lavado. Nesse caso a
sassain ordena a própria seqüência em que as folhas entrarão
no ritual. Por exemplo: a primeira folha a entrar no amaci é o peregun,
uma folha de Ogun. A primeira cantiga da sassain será, portanto:
"Peregun
alaxó ti tun
Peregun
alaxó ti tu ô
Babá
peregun ala ojo re sê
Peregun
alaxó ti tu ô
(rito
Ketu)
E
assim, toda uma seqüência, com mesma melodia e letras diferentes
para folhas diferentes. Durante todo o tempo, soa o adjá. Cada folha,
sendo louvada particularmente, torna cada momento do ritual particularizado
e inesquecível. Cada folha é sagrada e por isso para ela
se canta. Cada momento é, portanto, sagrado.
"Uma
cantiga pode estragar a vida de muita gente. Você canta uma cantiga
errada, você pode estar estragando sua própria vida" (Jorge)
Durante
a estadia do abiã no roncó (quarto reservado ao recolhimento),
a música servirá ainda como elemento ordenador do próprio
tempo. Existem cantigas a serem cantadas ao amanhecer, ao entardecer, ao
anoitecer, as cantigas que devem ser cantadas antes das refeições,
as cantigas dos banhos rituais e inúmeras outras. Canta-se, por
exemplo, nas casas de angola, antes das refeições, a cantiga:
"Sodara,
sodara
Ki
sama dobê
Kebê,
kebê
aió,
aió ““.
(rito
angola)
Durante
a qual o iaô segura, com ambas as mãos a dilongá
(prato de ágata), fazendo movimentos para o alto, para baixo, para
a esquerda e à direita, num gesto que sacraliza o alimento. Essas
cantigas são sempre ensinadas pela "mãe-criadeira" ou "jibonã",
que costuma ser uma ebomi, à qual o iaô sempre deverá
reverenciar. Também os banhos rituais, especialmente os noturnos
(maiongas), são acompanhados por cantigas como esta cantada pela
mãe-criadeira acordando os erês, do lado de fora do roncó:
-"Maionga,
maionguê, cadê cambono"
Os
erês respondem:
-"Meu
tata tá chamando maionguê"
E,
finalmente, todos juntos:
"Fala
maiongombê!
Toté,
toté de maiongá"
(rito
angola)
Ou
ainda, no rito jeje, canta-se a seguinte cantiga:
Ajarrê
na do kenkê un tó
kenkê
un tó, kenkê un tó
Sobô
ja rê"
(rito
jeje)
Desse
modo, a rotina do recolhimento vai sendo construída a partir das
tarefas que cabem ao iaô executar. E como cada tarefa está
vinculada ao momento musical, a construção do tempo se faz
como num relógio cujos ponteiros são as cantigas. A música
é, pois, a principal forma de expressão do iaô neste
momento, uma vez que lhe é interditado o uso da palavra. É
nesse contexto, do recolhimento, espera-se que uma nova personalidade seja
forjada, inclusive pela utilização de um repertório
aprendido não só em termos musicais mas, também, de
um vocabulário específico do culto, formado pelos termos
de origem africana, conhecidos como "língua-do-santo".
No
orô, a mais importante das cerimônias da iniciação,
o caráter sacralizante e ordenador da música é percebido
em sua plenitude. Tudo deve ser acompanhado pela música; mesmo os
intervalos entre uma etapa e outra da "feitura" e, portanto, entre as cantigas,
devem ser preenchidos pelo som dos adjás, agitados ininterruptamente
pelas ekedes.
Todos
os momentos têm suas cantigas próprias, começando pela
depilação da cabeça que deve ser feita aludindo-se
ao orixá ao qual está sendo consagrada e ao instrumento depilador,
a navalha. Nos momentos que se seguem, e que têm por função
preparar a cabeça para receber os sacrifícios, canta-se para
a abertura dos aberês (incisões corporais) e a introdução,
neles, dos pós sagrados (axés), para as tintas que comporão
a pintura da cabeça, para amarrar o kelê, pendurar as contas
da divindade no pescoço do iniciado ou qualquer outro ato prescrito
pela "nação", terreiro ou mesmo orixá.
O mesmo
procedimento se dá no momento dos sacrifícios, cantando-se
para a entrada dos animais no quarto de santo, distinguindo-os a seguir,
um a um, por cantigas (bichos de "quatro-pés", galinhas, pombos
etc.) e, finalmente para a faca (que pode ser uma cantiga de Ogun, o dono
da faca) e para o sangue que dela escorre:
"Ejé
xorô xorô
Ejé‚
balé‚ kaaró
(rito
Ketu)
A
presença, nesta cantiga, de termos ioruba como ejé (sangue),
orô (cerimônia) e balé (relacionado à morte)
reforçam o sentido de sua utilização neste momento
exato. E, uma vez que foram "lidas" através destes elementos, poderão
ser utilizadas em outras cerimônias do candomblé, como os
ebós (rituais de "limpeza") e obrigações a Exu, nas
quais a presença do sacrifício é indispensável.
Essa
ordenação musical não acontece apenas nas cerimônias
privadas; ela se dá também nas saídas públicas
do iaô e no toque como um todo. A "saída de Oxalá"
por exemplo, comporta cantigas relacionadas a Oxalá ou que façam
referência à condição do iniciado (iaô).
No primeiro caso, podem ser cantadas cantigas como estas:
"Efum
babá, efum babá
Babá
mi xorô"
(rito
ketu)
Ou
ainda:
Onisá
urê, aun laxé‚
Onisá
urê oberi omó, onisá urê
Aun
laxé‚ babá, onisá urê oberi omó
Aun
laxé‚ ô"
(rito
Ketu)
Aqui,
novamente, a presença dos termos babá (pai) e efum (branco)
associados a Oxalá, parecem justificar sua inclusão nesta
saída. O mesmo acontece com os termos iaô (iniciados, "esposa
dos orixás") ou muzenza (iniciados mas, também, dança
e ritmo) que aparece nas cantigas do segundo caso:
"Iaô
jejé, iaô nu bó lonã
Iaô
nu bó lonã, iaô nu bó lonã"
(rito
ketu)
"Ê
muzenza, muzenza kassange
Ê
muzenza, muzenza cobá"
(rito
angola)
A
referência pode ser, ainda, ao significado da esteira (eni) sobre
a qual o iaô se debruça:
"Ê
jó eni ke wa ô
Ke
wa ô, ke wa jô, ke wa ô
Ke
wa jô arrun bé lé"
(rito
ketu)
Na
segunda saída, a música continua sendo uma prece, na qual
se pede que os caminhos (onã) sejam abertos permitindo (agô)
que a "nação" do terreiro se perpetue através de inúmeros
símbolos como as pinturas rituais, as cores, as vestes, embora não
exista um consenso quanto a isto entre os diversos terreiros de uma mesma
"nação". Canta-se nesta ocasião, cantigas como:
"Agô,
agô lonã
Agô
lonã didê wa mo dagô"
(rito
ketu)
Ou,
então:
"Aê
aê kuzenze
Aê
aê kuzenze catu mandará
Olha
eu tateto
Kuzenze
catumandará
Olha
eu mameto
Kuzenze
catumandará"
(rito
angola)
Na
saída "do ekodidé" é este o principal termo recorrente
nas cantigas já que é ele que, amarrado à testa do
iaô, permitirá que o orixá grite seu nome:
"Ekodidé
é ken é
ibá
o lá
Ibá
o lá omó orixá
ibá
o lá"
(rito
Ketu)
"Zan
con fé é ken é
ekodidé"
(rito
Ketu)
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