O candomblé,
enquanto culto organizado. não remonta, em São Paulo, há
mais de três ou quatro décadas. Marcado por um desenvolvimento
particular, a partir dos processos migratórios ocorridos nesse período,
o candomblé paulista surgiu como uma religião de possessão
ao lado daquelas aqui já existentes, como o espiritismo Kardecista
e as inúmeras variações da umbanda sulista.O processo
de instalação e difusão do culto aos orixás
na região de São Paulo caracterizou-se pelas influências
e empréstimos entre as práticas espíritas em geral
e da umbanda em particular, observável seja pelas semelhanças
entre as estruturas rituais, seja pela visão mítica, formada
por divindades comuns a ambos os cultos. Originou-se, assim, um culto cuja
referência às divindades africanas (os orixás) e às
divindades nacionais (caboclos, índios, boiadeiros, pretos-velhos),
tornou-se comum, tanto nas regiões periféricas, as primeiras
a localizarem os terreiros, como nas regiões mais centrais da área
metropolitana. O termo "umbandomblé" com o qual se designa (comumente
de modo pejorativo) esse tipo de culto, pode ser aplicado a um número
significativo de terreiros paulistas atualmente em funcionamento. É
bom lembrar, ainda, que o candomblé que aqui se instalou, vindo
de localidades como Salvador, Recôncavo Baiano, Recife e Rio de Janeiro,
não primava por um "purismo" de práticas rituais tal como
se imagina quando idealmente o dividimos em "nações" como
: Ketu, Angola, Jeje, além das denominações locais
como "Xangô" em Pernambuco ou "Tambor de Mina" no Maranhão.
Na verdade, ainda que todas essas "nações" estejam representadas
em São Paulo, podemos supor que o processo de influências
e empréstimos verificados aqui também é fenômeno
característico do candomblé em seus locais de origem, como
bem atesta o candomblé de caboclo, principalmente nos terreiros
angola da Bahia .
Estas
referências tornam-se necessárias na medida em que o universo
dos cultos afro-brasileiros, em seus múltiplos aspectos, manifesta-se
empiricamente de tal forma integrado que uma classificação
como a que iremos expor, privilegiando o ponto de vista musical, deve ser
entendida como uma ordenação analítica possível,
entre tantas outras. Do mesmo modo que (para o desespero dos pesquisadores
desacostumados com a exceção) no candomblé vale mais
o detalhe que, quebrando a regra, insinua um conhecimento que diferencia
e ao mesmo tempo testemunha a vitalidade e importância da norma para
o grupo. Se Oxum, a divindade das águas, sempre veste amarelo, come
ipeté, dança de modo lento e dengoso ao som do ritmo ijexá
e é saudada com a expressão "Ora ieieu!", uma fitinha azul
arrematando sua saia dourada, um quitute inesperado entre as folhas de
mamona do ipeté e uma certa agressividade no jeito de dançar
sob as saudações efusivas de "Ora ieieu mi ka fiderioman"
pode revelar a exceção que consubstancia a generalidade do
estereótipo na riqueza de sua variação.
Assim,
este trabalho, privilegiando a música ritual, ocupar-se-á
de uma parcela de um todo integrado, tratando, principalmente, dos aspectos
recorrentes. Faremos contudo, uma breve descrição do culto
de forma a contextualizar previamente nossas afirmações sobre
a música.
I-
A Estrutura do Rito
A noção
em que se baseia este trabalho é a de que o candomblé, uma
religião iniciática e de possessão, apresenta dois
momentos que, grosso modo, constituem as duas principais modalidades da
expressão religiosa: as cerimônias privadas, às quais
têm acesso apenas os iniciados (entre elas os ebós, boris
e orôs) e as cerimônias públicas (abertas ao público
em geral) comumente denominadas "toques". Sem dúvida, a separação
é sobretudo analítica e sua artificialidade se justifica
pela tentativa de tornar a exposição o mais clara possível.
De fato, as cerimônias privadas ou públicas podem se articular,
constituindo uma unidade, como, por exemplo, num toque de saída
de iaô.
A-
As cerimônias privadas da iniciação.
A
sustentação social e religiosa do candomblé depende
do fluxo renovado de iniciados que investem parte de seu tempo e seu trabalho
para garantir a continuidade do grupo do terreiro e do conjunto de práticas
que, somadas, constituem o arcabouço religioso do culto. A iniciação
é, ainda, um forte elemento de coesão do grupo, já
que todos os que passaram pelos rituais iniciáticos sabem das dificuldades,
de todos os gêneros, que devem ser enfrentadas: financeiras, emocionais,
psicológicas e sociais; da necessária força de vontade
e humildade imprescindíveis para começar a nova vida, na
qual uma nova personalidade será construída. Novo nome, novos
hábitos, novas referências. Postura que se refletirá
na vida cotidiana em casa, na rua, no trabalho ou mesmo no lazer. O iniciado
assume um compromisso eterno com seu orixá e, ao mesmo tempo, com
seu "pai" ou "mãe" de santo. Há uma nova família que
se forja; novos vínculos de parentesco, que se pretendem mais significativos
que os laços sanguíneos. Como dizem no candomblé um
"irmão de folha
é mais irmão que um irmão de sangue". Há uma
nova estruturação do mundo que deverá ser aprendida
por etapas e que começa no ato de "bolar", quando o indivíduo
"morre" para a vida profana, iniciando o período do recolhimento,
para renascer no dia de sua saída pública.
Bolar
"Bolar",
ou "cair no santo", é indício da necessidade da futura iniciação.
Geralmente acontece quando a pessoa participa de um "toque" e o orixá
a incorpora, ainda no estado que os adeptos denominam de "bruto" (ainda
não assentado ou "feito"). Bolar, aparentemente, é como desmaiar.
Mas o orixá está ali. Tomou a cabeça de seu filho,
mesmo contra a vontade deste, cobrando sua iniciação. A "bolação"
geralmente acontece enquanto as pessoas cantam e dançam para os
orixás, sendo significativa, para a identificação
do orixá ao qual a pessoa pertence, a divindade para a qual se cantava
quando a pessoa bolou.
Uma
vez "bolada" a pessoa é levada para o roncó ou para o quarto
de santo, onde será "acordada". Se depois de bolar uma ou mais vezes,
a pessoa decidir se iniciar, o pai-de-santo consultará o oráculo
(jogo de búzios) para determinar que orixá será feito
e como (com que folhas, de que modo, com que quantidades, que animais serão
sacrificados etc.). O pai-de-santo prepara o roncó com a esteira
sob a qual serão depositadas as devidas folhas, as representações
materiais do orixá (como quartilhões, alguidares, ferramentas,
pratos etc.) e tudo o mais que será necessário durante o
tempo do recolhimento. Só então é feito o "toque de
bolar", quando o abiã (iniciando) será levado para o barracão
onde, ao som dos atabaques, dançará para o seu orixá
até que este incorpore. Bolado, o abiã será recolhido,
para só reaparecer em público no dia da festa da saída
.
Durante
este período, o abiã vai sendo inserido no grupo através
do aprendizado das práticas rituais. Aprende a hierarquia da casa,
os tabus, os preceitos, orações para o seu e para todos os
outros orixás, aprende cantigas, aprende a dançar para o
orixá, aprende os mitos, os cumprimentos, suas obrigações,
enfia contas para compor seus colares iniciáticos, reza, come e
dorme. São vinte e um dias, em geral, em que ele permanecerá
dia e noite na casa de santo, confinado ao roncó, dele saindo apenas
para os banhos rituais ou outras cerimônias necessárias para
sua purificação, como os ebós, que visam desligar
o abiã de suas ligações com o mundo exterior, com
as doenças, os mortos, a sexualidade, enfim, da vida anterior. Purificado
o corpo, inicia-se o processo de assentamento do orixá, propriamente
dito.
O
Bori
O bori
consiste, segundo os adeptos, em "dar comida à cabeça", ao
ori (que é, em si, uma entidade), com o objetivo de fortificá-la
e ao mesmo tempo reverenciá-la, pois o orixá só tomou
aquela cabeça (aquele ori) porque esta assim o permitiu. Nesta cerimônia
são oferecidos alimentos secos e sangue de um pombo à cabeça
do abiã, iniciando a aliança definitiva deste com seu ori
e com seu orixá. Do mesmo modo o bori, ainda quando feito fora do
processo de iniciação, cria um vínculo do indivíduo
com a casa de santo e o obriga a determinados comportamentos rituais.
O
Orô
Chega
finalmente o dia do orô, a cerimônia de assentamento do orixá,
na qual o abiã terá sua cabeça depilada e serão
sacrificados os animais correspondentes ao orixá que está
sendo assentado. Geralmente os orixás recebem como sacrifício
um animal "de quatro patas" (de acordo com suas preferências características:
para Ogun, por exemplo, sacrifica-se um bode escuro; para Oxum, uma cabra
amarelada). Para cada pata do animal, deve-se sacrificar uma galinha. Outras
aves, como galinhas d'angola, pombos e patos, também podem
ser sacrificados. Além da cabeça, os assentamentos que foram
preparados recebem também parte dos sacrifícios dos animais,
pondo o corpo do iniciado em relação com os símbolos
do deus, unindo as várias formas de um mesmo conteúdo: o
orixá.
Sendo
a cabeça considerada o ponto privilegiado da manifestação
divina, é nela que se farão os cortes rituais (aberês)
propiciatórios à incorporação, bem como as
pinturas feitas com as tintas sagradas obtidas a partir da diluição
de pós como o waji, o ossum e o efum (azul, vermelho e branco respectivamente).
Também o Kelê (colar de contas usado rente ao pescoço,
sublinhando a importância da cabeça que foi sacralizada) é
amarrado nesse momento e assim deverá permanecer por um período
de três meses, durante os quais um conjunto preciso de interdições
deverá ser observado pelo iaô. Finda a cerimônia, o
agora iaô, ainda no roncó, aguarda o dia de sua saída
numa festa pública.
B
- As cerimônias públicas - o toque
"Toque"
é o nome que se dá, genericamente, à cerimônia
pública de candomblé. Como o próprio nome revela,
"toque", esta é uma cerimônia essencialmente musical. Seu
objetivo principal é a presença dos orixás entre os
mortais. Sendo a música uma linguagem privilegiada no diálogo
dos orixás, o toque pode ser entendido como um chamado, ou uma prece,
pedindo aos deuses que venham estar junto a seus filhos, seja por motivo
de alegria ou de necessidade destes.
Os
terreiros seguem um calendário litúrgico que estipula a periodicidade
dos toques ao longo do ano. Motivos específicos podem transformar
o toque numa festa. Assim, por exemplo, os terreiros que fecham por ocasião
da Quaresma realizam o Lorogun, uma festa de encerramento das atividades
do terreiro. Em junho, são comuns as "Fogueiras de Xangô".
Para Obaluaê, é feita a festa do Olubajé, em agosto;
em setembro realizam-se as Águas de Oxalá, o que também
pode acontecer em dezembro. Em outubro, a Feijoada de Ogun. As Festas das
Iabás, como o Ipeté de Oxum, acontecem em dezembro.
Toques
semanais e quinzenais também são comuns, principalmente quando
têm a função de atender o público, como é
o caso dos candomblés que cultuam as outras divindades que prestam
serviços mágico-religiosos através de "passes", conselhos
e receitas de "trabalhos" para a solução dos problemas que
lhes são apresentados. Apesar de ser comum que um mesmo terreiro
conjugue toques de comemoração (festas) e de atendimento,
isso geralmente não acontece simultaneamente. Já as festas
de saída de iaô (de iniciação), ocorrem sem
um calendário previsível, embora possam ser sobrepostas às
demais. Todos os toques acontecem no espaço do terreiro denominado
"barracão", onde se encontram os atabaques, à frente dos
quais canta e dança o povo-de-santo, separado (ainda que dentro
de um mesmo ambiente) da assistência, à qual também
é reservada uma área.
Um
toque comum começa, geralmente, pelo ritmo dos atabaques chamando
a "roda-de-santo" (os filhos de santo organizados circularmente), tendo
à frente o pai-de-santo que entra tocando o adjá (sineta),
seguido pelos seus subordinados na hierarquia: mãe-pequena, pejigan,
axogun, ogãs. ekedes, outros ebomis, iaôs por ordem de iniciação
ou organizados por "barcos
" e, no "fim" da roda, os abiãs. Esta formação pode,
ainda, dividir-se em duas rodas concêntricas: a de dentro reservada
aos ebomis (iniciados há pelo menos 7 anos) e a de fora formada
pelos demais. A mãe ou pai pequenos e as ekedes também costumam
tocar o adjá. Nos toques festivos as roupas costumam ser de grande
beleza, geralmente fazendo alusão, mesmo que no simples desenho
do tecido, ao orixá individual do adepto. Neste dia são usadas
as contas dos orixás, os brajás (colares de contas truncados),
as faixas na cintura, os símbolos de ebomis e tudo o que identifique
o status religioso do indivíduo.
A roda
entra dançando e, algumas vezes, cantando alguma cantiga própria
deste momento. Estando todos no barracão, os atabaques param, o
pai-de-santo saúda Exu e tem início o padê, cerimônia
que tem por finalidade "despachar" Exu (através da oferenda de farinha
com dendê e aguardente), seja porque se acredite que ele possa causar
perturbações ao toque, seja porque se acredite que é
ele o principal mensageiro e que abrirá os caminhos para a vinda
os orixás. Findo o padê, o xirê prossegue. Xirê
é uma estrutura seqüencial de cantigas para todos os orixás
cultuados na casa ou mesmo pela "nação", indo de Exu a Oxalá.
Durante o xirê, um a um, todos os orixás são saudados
e louvados com cantigas próprias, às quais correspondem coreografias
que particularizam as características de cada deus. É nesses
momentos, de grande efervescência ritual, que as divindades "baixam".
Como
a finalidade manifesta de um toque não altera a estrutura do xirê,
julgamos encontrar aí uma estrutura na qual se intercalam as cerimônias
que lhe atribuem um caráter específico, como é o caso
das festas de saída de iaô, entre outras.
As
saídas de Iaô
A festa
de Saída de Iaô é sempre muito concorrida e tida como
uma das festas de maior axé, pois um orixá está nascendo.
O iaô
normalmente costuma fazer quatro aparições em público
no dia da festa, conhecidas como "saída de Oxalá" ou "de
branco", saída "de nação" ou "estampada", saída
"do ekodidé" ou "do nome" e saída do rum ou "rica". Na primeira
"saída" o iaô (em transe) entra sob o alá (pano branco),
totalmente vestido de branco, reverenciando Oxalá. Cumprimenta a
porta, o ariaxé‚ (ponto central do barracão), os atabaques,
o pai-de-santo e, eventualmente, a mãe-pequena, com dobale e paó
(cumprimentos rituais), sempre sobre a esteira. Dá uma volta dançando
de modo contido pelo barracão e se retira. Prossegue o xirê.
Na
segunda saída o iaô entra vestido e pintado com as cores da
"nação". Há quem diga, no entanto, que esta saída
especifica a "qualidade" (avatar) do orixá que está saindo.
Ele segue novamente a ordem dos cumprimentos, agora somente com seu jicá
(saudação que os orixás fazem com o corpo), uma vez
que seu ilá (grito com que o orixá se anuncia) só
será conhecido após a "queda" do Kelê.
A terceira
saída, muito esperada, é a saída do orukó (nome),
também chamada "saída do ekodidé" (pena vermelha de
papagaio, relacionada com a fala), momento em que o orixá revelará
publicamente seu nome secreto, que é parte de si mesmo. É
um momento de grande emoção, acompanhado de um certo suspense,
estimulado pelos outros filhos de santo, que geralmente "viram" (entram
em transe) ao ouvir o nome. Dito o orukó, os atabaques imediatamente
começam o adarrum (ritmo muito acelerado) e o orixá é
levado para vestir suas roupas de rum (dança), ou seja, suas vestes
típicas e suas "ferramentas" para voltar e dançar, pela primeira
vez, em público.
Esta
é a quarta saída: a saída do rum ou "rica", quando
o orixá entra, saúda os pontos principais com seu jicá
e dança suas cantigas. Geralmente, nessa saída, o orixá
dança apenas as músicas que lhe são atribuídas
e nenhuma outra, mas há casos em que o novo orixá dança
também para o orixá do pai-de-santo. Não convém,
entretanto, fazer dançar demais o orixá muito novo. Findo
o rum, toca-se para retirar o iaô em transe da sala ("cantar para
subir", dizem os alabês) e o xirê prossegue até as cantigas
para Oxalá, encerrando o toque.
Toca-se
então para a entrada do ajeum, que pode conter as mais diversas
comidas e bebidas, de acordo com o orixá feito e com as posses do
iniciado.
II-
A Estrutura Musical
A música,
no candomblé, tem um papel mais significativo que o mero fornecimento
de estímulos sonoros aos diversos rituais. Ela pode ser entendida
como elemento constitutivo do culto, dando forma a conteúdos inexprimíveis
em outras linguagens, termo aqui entendido como articulação
de signos e símbolos. Todos os rituais do culto estão apoiados
também na música, que mostra um caráter estruturante
das diversas experiências religiosas vividas por seus membros. Do
paó (seqüência rítmica de palmas usada para reverência)
ao toque (xirê), a música continua sendo parte de cada cerimônia,
constituindo-a, delimitando situações e ordenando o conjunto
das práticas extremamente detalhadas.
"Tocar
candomblé" é um termo comum entre o "povo-de-santo", indicando
que o candomblé e a música se confundem. Por isso, o conhecimento
das cantigas e dos ritmos denota prestígio e acesso às instâncias
de poder da religião. Sendo a música um elemento sagrado
e sacralizante, tanto instrumentos quanto instrumentistas se revestem desta
aura, que se revela no tratamento que estes recebem por parte dos membros
da comunidade do terreiro .
Instrumentos
e Instrumentistas
No
candomblé, os atabaques ou "couros" (tambores) com os quais se invocam
as divindades são tidos como seres vivos e sua utilização
reservada apenas aos ogãs alabês (instrumentistas iniciados).
Cabe a eles a execução do repertório apropriado a
cada divindade, que compreende um conjunto de cantigas diferenciadas, com
ritmos próprios. A "orquestra" do candomblé é formada
por três tambores de tamanhos diferentes: o de tamanho maior, denominado
Rum, o médio, Rumpi (chamado, em muitas casas, apenas de Pi) e o
pequeno, Lé. No candomblé de rito Ketu os atabaques são
percutidos com aguidavis (varinhas), enquanto no rito Angola eles são
tocados com as mãos. Sendo instrumentos sacralizados, os atabaques
recebem sacrifícios periodicamente renovados. São instrumentos
consagrados às entidades padroeiras dos terreiros, sendo o Rum,
na maioria das casas, dedicado a Exu. Os laços com que são
adornados os atabaques indicam, em suas cores, os orixás aos quais
foram consagrados.
Os
atabaques são usados principalmente nas cerimônias públicas,
quando são tocados pelos alabês. Cada um executa uma frase
rítmica individualmente, perfazendo, no conjunto, um polirritmo,
cuja marcação é dada pelo Rum, responsável,
ao mesmo tempo, pelo "repique" ou "dobrado" (floreio), que dão à
música um caráter diferencial acentuado conforme os ritmos
de cada orixá. Essa função particular do Rum estabelece
sua maior importância em relação aos outros dois atabaques.
A expressão "dar o rum no orixá" é indicativa da posição
desse instrumento no conjunto da "orquestra". Essa mesma importância
é observável por ocasião da reverência obrigatória
aos atabaques, quando o Rum é o primeiro a ser saudado pelos fiéis,
também cabendo a ele noticiar e saudar a chegada de visitantes ilustres
ao terreiro (receber o "dobrar dos couros" é sinal de grande prestígio).
Portanto, cabe ao chefe dos alabês a responsabilidade pelo Rum particularmente
e também pelos outros atabaques; não só durante o
toque, mas por sua manutenção permanente. Quando não
estão em uso, os atabaques devem ser cobertos por um pano branco
e, uma vez que são considerados como portadores de axé, eles
não podem ser removidos do terreiro. Pelo mesmo motivo, são
tratados com especial reverência quando, por algum acidente, caem
ao chão.
Além
do Rum, a marcação do ritmo dos atabaques pode ser feita
por um instrumento de ferro, em forma de sino simples denominado "gã",
ou duplo, "agogô", percutido por uma haste de metal
. Apesar do caráter sagrado, seu uso não é restrito
aos alabês.
Ainda
nas cerimônias públicas são utilizados outros instrumentos
que, não fazendo parte da orquestra, têm funções
específicas. É o caso do adjá, um sino de uma a sete
bocas (campânulas) cuja principal atribuição é
provocar o transe quando agitado sobre a cabeça do iniciado. Seu
uso é reservado aos ebomis, normalmente ao pai ou à mãe
de santo e às ekedes, não sendo necessário, para isso,
o domínio de qualquer técnica específica. A intensidade
com que é agitado é o que denota a função de
seu som: induzir ao transe, nas festas públicas, ou ainda invocar
os deuses para que atendam os pedidos de seus filhos, durante as cerimônias
privadas, nas quais o uso de outros instrumentos (que não o adjá)
não é freqüente. Um instrumento com funções
semelhantes é o xere, um chocalho de metal, com haste, geralmente
confeccionado em cobre e consagrado a Xangô.
Se
a música, dentro do contexto religioso assume tal importância,
a ponto de estar "nas mãos" dos ebomis, vemos que eles já
nasceram com ela, ou seja, é significativo que um dos principais
símbolos da iniciação seja o xaorô, fieira de
guizos que se amarram com palha da costa aos tornozelos do iaô e
que produzem som ao menor movimento deste. Acompanhando o processo de iniciação,
o xaorô pode assumir várias funções. Diz-se
que afugenta os maus espíritos e sacraliza os primeiros passos do
iniciado. Possibilita, ainda, garantir o acompanhamento constante, pelo
pai-de-santo, dos movimentos do erê (espírito infantil presente
na iniciação) .
A produção
da música delimita ainda os papéis masculinos e femininos.
A maior parte dos instrumentos é tocada por homens, cabendo às
mulheres o adjá e, eventualmente, o agogô. O canto, por outro
lado, não é privilégio de nenhum dos sexos.
Não
é sem motivo que os alabês são extremamente prestigiados
e adulados nos meios do candomblé, portanto. "Sem alabê
não tem candomblé", dizem os adeptos. Dessa forma, cada
casa procurará constituir o seu próprio trio de alabês,
que deverão passar pelo processo de iniciação, pelo
aprendizado musical e pela aquisição de repertório.
Como este processo demanda um certo tempo e são necessários
três alabês que por ele deverão passar, existe, em São
Paulo, com o crescimento do número de terreiros em funcionamento,
uma certa dificuldade em encontrar estes "especialistas" da música
ritual. Essa dificuldade é superada pelo intercâmbio entre
pais-de-santo mais velhos que "emprestam" seus ogãs a outras casas.
Uma outra solução, freqüente, tem sido a contratação
de alabês experientes e que asseguram o bom andamento dos toques.
Isso é possível dada a relativa autonomia com que os alabês
se relacionam com suas casas de origem. O costume de se pagar pelo serviço
dos ogãs não é, contudo, um fato novo. No contexto
do rito a cerimônia do felebé (dinheiro), na qual os adeptos
e visitantes atiram dinheiro num pano branco diante dos atabaques, ao som
de uma cantiga apropriada, é exemplo disso. O dinheiro arrecadado
será depois repartido entre os alabês.
"Felebé‚,felebé‚
felebé‚
do ogã "".
(rito
angola)
O
processo de aprendizado musical e aquisição de repertório
pode acontecer no âmbito do próprio terreiro, através
da "suspensão" (indicação pública feita pelo
orixá) de alguém que tenha demonstrado (ou não) interesse
ou habilidades musicais. Neste caso, o novo "alabê" submete-se ao
aprendizado com os ogãs mais velhos. Quando isso não é
possível, porque a casa não possui seus próprios alabês
ainda, será preciso que o pai-de-santo providencie de outro modo
estas aulas, freqüentemente pagas, com alabês que se disponham
a ensinar, ou mesmo em instituições que promovem cursos de
percussão em atabaques. Os alabês, entretanto, divergem quanto
ao caráter ético do pagamento por serviços como "toques"
ou mesmo de aulas:
"Eu
acho que ogã que faz isso toca pra viver. Eu acho uma coisa errada.
Acho que o candomblé não foi feito pra ninguém ganhar
dinheiro."
(Jorge,
17 anos, alabê do Axé Ilê Obá)
"De
repente, é como cobrar jogo de búzios ou não."
(Paraná,
33 anos, alabê do Ilê Axé Omo Ogunjá)
Paga
ou não, a socialização na música ritual segue
processos semelhantes. Diferentemente da educação musical
formal, a música, no candomblé, é aprendida sem necessidade
da escrita musical, sem o aprendizado dos conceitos universais, caracterizando
um processo onde a intuição musical, o ouvido "exato", o
ritmo inato adquirem maior importância. Nesse sentido, a socialização
musical acompanha a socialização religiosa.
"Era
um ensinamento muito rígido. Ninguém tava ali pra brincadeira
nem nada. Então ele (outro alabê) cantava duas, três
vezes, explicava pra quê cantava, tudo. Eu decorava; senão
muitas vezes eu escrevia. Tenho até hoje o caderno, tudo, com as
cantigas que ele me ensinou. Eu acho que é uma coisa difícil
mas vale a pena (...) No começo eu aprendi a tocar gã
sozinho.De ouvir. Eu gostava de ver todo mundo tocando. Ficava grudado.
Era louco pra aprender, mas não tem jeito de se falar. Se você
não passar por um, você não aprende. Você tem
que passar por um pra aprender o outro. Senão você se atrapalha.
(...)
Passei
pro Lé. Depois do Lé, o Pi (Rumpi) é uma coisa parecida.
É quase automático você passar (...) Eu dobro o Rum
há uns dois anos e meio. (...) Fiquei muito tempo só
tocando Pi e Lé. Pi e Lé, Gã...cansava
(...)
Agora
eu só dobro." (Jorge)
Uma
vez aprendidas as noções básicas de ritmo e repertório,
o conhecimento musical se enriquecerá através da maior participação
dos alabês na vida da comunidade, seja no seu terreiro ou nos terreiros
que visitam.
"Você
aprende o básico. O resto é experiência" (...)
Calha de eu ir numa casa de santo, numa festa, eu aprendo. Senão
eu compro disco, com cantigas que eu não conheço e aprendo...só
ouvindo, conversando com os ogãs..."(Jorge)".
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